Negras verdades

7 de janeiro de 2015 § 5 Comentários

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Carlos Moore é militante histórico do Movimento Negro.

Nascido em Cuba, converte-se ao comunismo aos 18 anos e é exilado pelo regime de Batista nos Estados Unidos. Volta a Cuba entusiasmado depois que Fidel Castro, vitorioso, adere ao comunismo, mas assiste abismado ao esmagamento do Movimento Negro cubano com a prisão e fuzilamento de seus líderes civis e religiosos.

Consegue fugir e exilar-se no Brasil onde vive ha 15 anos dando palestras sobre a sua linha de abordagem do Movimento Negro.

Convidado, em meados de novembro passado, a dar uma palestra na UFRJ, foi alvo de agressões e objeto de incitação ao linchamento por parte de “professores” pagos com dinheiro público ligados ao PSTU que compunham a mesa do seminário.

Até a marca de 6:50 min. Moore descreve a agressão sofrida na UFRJ. Daí por diante diz o que sabe sobre as relações entre o socialismo real, o Movimento Negro e as religiões

Não conheço o movimento que assina a entrevista, resumida nesta edição quase exclusivamente às declarações de Moore, em que ele expressa  o seu alarme com relação à doença política que está contaminando o Brasil cujo foco propagador, como fica implícito nos acontecimentos relatados, são as escolas e universidades públicas, além, é claro, das redações da imprensa brasileira onde fatos como este, que fazem parte quase que do cotidiano das escolas de todo o país hoje, raramente chegam sequer a ser registrados, o que explica porque até os grandes vestibulares para as universidades públicas nacionais, como o da Fuvest, já não se vexem de adotar como tema de redação, valendo a maior nota para o ingresso nas escolas sustentadas pelos contribuintes, provas em que é aferida, não a capacidade de pensar e escrever em português, mas sim se o candidato professa ou não a ideologia “correta“.

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Dispensados da diversidade

5 de dezembro de 2013 § 4 Comentários

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Vejo outra vez a discussão na TV do importante tema da compartimentação dos grupos e estilos de pensamento nas redes sociais e o perigo da realimentação permanente das suas próprias ideias a que frequentar grupos não diversificados pode levar, resultando numa crescente intolerância e, consequentemente, na radicalização política.

Outra vertente desse mesmo problema é o chamado “fator Google” que consiste na montagem de dossiês minuciosos cobrindo todos os passos da vida de cada indivíduo no planeta a que todos os sites que eles frequentam na rede se dedicam e, mediante o processamento desses dados por algorítimos, alimentá-lo cada vez mais de “si mesmo” nas sus buscas pela rede e na excitação da sua “libido aquisitiva”.

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É, de fato, um problemaço e os efeitos práticos dessa nova máquina de realimentar egos já se fazem sentir por todos os lados, especialmente no que diz respeito às gerações pós internet que nunca viveram outra realidade.

A compartimentação das relações entre pessoas nas redes sociais corresponde exatamente à compartimentação das relações entre pessoas na vida real. De modo geral, elas constituem o seu círculo de amizades entre pessoas que se parecem com elas pelo menos nos limites éticos que se impõem e nos padrões comportamentais que adotam, o que aponta também (mas não necessariamente) para a afinação ideológica.

Até aí tudo normal.

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Mas na vida real as pessoas cruzam o tempo todo com quem não se parece com elas. Isso porque, para “se relacionar” com “o outro”; para evitar a solidão que é diferente da solitude e que o ser humano não suporta, elas eram obrigadas a sair de casa. E assim que punham o pé na rua para ir às compras ou ao trabalho e frequentar a cidade para o que quer que fosse expunham-se e confrontavam-se necessariamente e o tempo todo com toda a diversidade que caracteriza as comunidades humanas.

Até para procurar o seu igual o cara era obrigado a se expor ao diferente.

A vida real, portanto, aguça o espírito crítico porque a diferença se apresenta e até se impõe o tempo todo às pessoas.  De repente você cruza com uma vida totalmente diferente da sua e vê que ela pode dar certo; de repente você até se apaixona por alguém exatamente porque ela é o seu oposto, ainda que dentro dos seus limites de tolerância comportamental, e isso desafia e exerce um certo fascínio…

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Mas nas redes consegue-se escapar à solidão e estabelecer relações humanas sem ter de sair de casa; sem ser forçado a se expor ao diferente. Um sujeito pode passar a vida inteira “se relacionando”, sempre no nível da abstração racional, não espontânea e regulável, o que na vida real, regida pela espontaneidade ou no mínimo traída pelas manifestações dela, mesmo as reprimidas, era impossível fazer.

É nessa dispensa da obrigação de atravessar o oceano da diferença, ainda que para procurar o igual, que mora o perigo.

Vamos ver que tipo de humanidade resultará dessa nova ecologia.

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Porque sou um “maldito caçador”

29 de fevereiro de 2012 § 17 Comentários

28/2 (na página “Quem somos“)

Fernão, bom dia!

Gostaria que fizesse uma matéria sobre os caçadores malditos (acredito que deva ser contra a caça, claro). Hj recebi um e mail com esse artigo que achei muito interessante: “Caçador bom é caçador morto.

Imaginei que poderia desenvolver sua opinião sobre o assunto e que poderia dar um ótimo post…

Abraços! Jeanne

27/2 (na página “Quem somos“)

Estou adorando seu blog (…) Vc realmente segue a proposta que acredito em relação ao jornalismo: deve ser instrumento de reformas (…) um jornalismo decente.

Abraços e parabéns pelas postagens! Jeanne

27/2 (no post “E o Oscar dos Direitos Humanos vai para…“)

Parabéns pela abordagem excelente!

Mais triste ainda constatar que a maioria das pessoas (costumo chamá-las de “normais”) age como esses famosos…dinheiro, a bosta (perdão, mas é preciso) que move o mundo para o abismo…

***

Olá, Jeanne.

Que ótima oportunidade você me dá!

Nada poderia ser mais eloquente para provar meu ponto – o de que, na vida real, não existe branco nem preto puros, só tons de cinza – do que os agrados que você me fez nos últimos dois dias postos ao lado desses tiros disparados contra os caçadores dos quais, desde já, reivindico o quinhão que me cabe.

Não, Jeanne, eu não sou contra a caça. Na verdade eu sou um dos seus “malditos caçadores”.

E agora, como é que fica?

Dou-lhe um tempo para respirar…

Se passou adiante do parágrafo anterior você já faz parte da minoria em extinção dos que insistem em preservar a autonomia da razão nestes tempos de “mais do mesmo, AGORA!, JÁ! e em quantidades googleianas” em que vivemos.

A ausência de contraditório nessa infinidade de guetos onde só convivem “iguais”, uns reforçando as certezas dos outros, em que a internet se vai transformando ameaça banir do dicionário a palavra TOLERÂNCIA em cima da qual foi construído o edifício da democracia.

Está cada vez mais difícil pensar com autonomia, sobretudo a respeito dos temas que os patrulheiros cercam daquele velho cheirinho de fogueira de queimar herege para desencorajar dissidentes, como este que o título “Caçador bom é caçador morto” resume tão bem.

Não me entenda mal, Jeanne. Eu compreendo o seu ponto.

Sobre o tipo de comércio de que fala a matéria que você indicou, estamos de pleno acordo, menos por um detalhe: aquilo não é caça, é só mais uma maneira covarde e criminosa de correr atrás da “bosta que move o mundo para o abismo“.

Àparte isso, você, eu e todos os demais seres vivos somos caçadores e somos caça.

Na realidade urbana de hoje é fácil perder isso de vista.

Você compra a sua carne no supermercado, empacotadinha e sem sangue; o couro do seu sapato e a pele que estofa o banco do seu carro já chega a você bem acabada e cheirosa; você não estava lá quando o fogo e os “correntões” arrasaram de uma vez para sempre os milhões de hectares de cerrado, de Mata Atlântica, de Hileia Amazônica com suas perdizes, lobos guarás, araras, onças pintadas e macucos, para abrir espaço para o algodão indiano de que são feitas as camisetas das campanhas pelos direitos dos animais ou a soja asiática dos menus vegetarianos; ninguém te lembrou a tempo de que, do segundo filho em diante, você se tornaria um agente direto da usurpação de habitats dos demais seres vivos do planeta…

Mas a cada um desses atos, e mesmo apenas ao ser, ao estar, ao procriar, ao consumir e ao descartar; ao disputar espaço neste mundo, enfim, você esta caçando e sendo caçada como sempre foi e como sempre será.

Não sei de que maneira você procura deus, Jeanne, mas a minha é esta: despir-me da minha circunstância para, revivendo ritualmente a experiência comum a todos os homens desde o nosso primeiro ancestral, submeter-me integralmente À Lei para procurar o que existe de permanente em todos nós; entregar-me docilmente à minha essência e caçar até ser caçado (torço pelos grandes predadores de preferência aos microscópicos no que diz respeito à disposição da minha própria carcaça); viver na e da natureza até ser capaz de entender a morte como o que é, reciclagem e não trágica derrota da nossa pretensão à onipotência.

Coisas que só se aprende caçando…

Compreendo perfeitamente o estranhamento que essas idéias possam causar a todos quantos terceirizaram a sua necessidade de caçar para permanecer vivos e até o horror com que esses fatos de todas as vidas em todos os tempos chegam a quem tem vivido como real a vida editada por terceiros que se vive hoje.

Mas rechaço os julgamentos morais em torno da necessidade de comer e do modo com que a natureza aparelhou todos os seres vivos para satisfazê-la; essa prática que nos trouxe a todos até aqui e cujo domínio obrigou o bicho homem a desenvolver as habilidades que hoje chamamos de inteligência.

A ausência de uma cultura de caça entre as elites brasileiras é geralmente tida como “progressista”. Mas é justamente o contrário. Trata-se de um aleijão sociológico. E dos mais feios.

A figura de Daniel Boone, que vivia de e para a natureza, em perfeita simbiose com ela, está totalmente ausente da galeria clássica de “tipos brasileiros” porque desde que o primeiro português pôs os pés nestas terras até o finalzinho do século 19 (fomos o último país do Ocidente a acabar com ela) é o escravo, índio ou negro, quem caça para o branco comer e quem desmata sob as ordens dele para empurrar para mais longe do canavial esse “limite da civilização”; esse esconderijo hostil dos “bugres”, das “feras”, dos “miasmas” e das “febres”.

O brasileiro da praia, o amigo do rei que olhava sempre para Leste, nunca caçou.

Continua assim. Caçar segue sendo “programa de índio”…

Essa estranha suposição de que viemos de algum tipo de fábrica ascéptica isenta das leis que regem a vida neste planeta que nós teríamos o poder de revogar por decreto tem sido um desastre para os nossos biomas.

Sendo as sociedades humanas economicamente dirigidas e perdiz o único produto da natureza que vale mais que boi ou soja, a proibição da caça resulta em que ambientes conservados e seus produtos naturais não tenham valor econômico no Brasil, o que explica porque eles estão desaparecendo na velocidade vertiginosa em que estão para abrir espaço para os únicos produtos da natureza que nossos ambientalistas permitem que se explore em detrimento da perdiz: soja e boi.

Não vai sobrar nenhuma nem para exemplo.

É simples assim, Jeanne…

E não se iluda. A questão do uso da terra não se resolve com polícia como temos provado todos os dias nos últimos 500 anos. Um único cochilo basta para que se destrua o que a natureza leva milênios para construir. Já a da caça predatória, sim, especialmente se houver um interesse econômico na conservação.  O resto do mundo está aí de prova.

Mas temo que esta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados acorde mais tarde para essa realidade do que seria bom para a saúde do nosso planetazinho azul.

O espesso analfabetismo ambiental brasileiro tem raízes profundas. É mais uma das terríveis cicatrizes da escravatura que carregamos.

E não ha solução fácil. Educação ambiental é uma cultura. É fruto de uma vivência que não se pode adquirir à distância nem por revelação iluminada de terceiros. Só frequentando a natureza.

Impedido de conviver com ela o Brasil tem a floresta, ainda hoje, como a humanidade tinha a natureza antes do advento da ciência: como um pastiche confuso de verdades reveladas; como o mero suporte de uma religião.

Já passou da hora de permitir que a ciência ocupe nesse campo o lugar do preconceito. E em matéria de educação ambiental, Jeanne, a caça, escoimada de suas perversões, é o curso de doutorado.

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