Acostumados à vida de burro de carga

3 de agosto de 2013 § 7 Comentários

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Tres anos atras estive na Noruega.

Desembarquei em Oslo e, como de praxe, fui seguindo distraído o fluxo de passageiros pelos corredores e escadarias de um aeroporto bem simpático e informal, com estruturas de madeira e ferro que faziam lembrar uma gigantesca cabana.

Quando dei por mim já estava em frente à esteira de bagagens!

Caramba“, pensei comigo. “Acho que segui a turma errada e perdi a área da imigração“.

Vou ao balcão de iformações mais próximo à procura do tradicional chiqueirinho com filas balizadas em zigue-zagues terminando em policiais aborrecidos que te fazem perguntas meio inaudíveis sem olhar pra nossa cara.

Não, o senhor não perdeu nada. Não fazemos check-in de passaportes aqui na Noruega. É só pegar a sua mala e descer por aquela escada rolante, que leva ao trem integrado ao metro. Ele o deixará em qualquer ponto de Oslo que desejar (a uns 100 km percorridos em uns 15-20 minutos)“.

!!!!“…

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Na semana passada estive na Bolívia com dois amigos. Santa Cruz de la Sierra, para ser mais exato, de passagem para um ponto isolado da fascinante porção amazônica daquele país. É um vôo de duas horas e meia direto de São Paulo. Mal sentei no avião a aeromoça entregou-me quatro longas tiras de papel em cores diferentes – azul, verde, rosa e branco, este um “vintage” em duas vias com “carbono” – com dezenas de “campos” para serem preenchidos e intermináveis questionários em letras miudas.

Acredite se quiser, até as perguntas diretas “Você já praticou atos terroristas?” e “Pertence a alguma organização secreta ou já praticou atos de espionagem?” estavam lá. Mas a papelada e a linguagem eram tão confusas e repetitivas que, em poucos minutos, o avião se tinha transformado numa verdadeira “chacrinha” com os passageiros baixando maletas de cabine para checar numeros de documentos e perguntando uns aos outros como preencher (ou não?) determinados campos ou responder esta ou aquela pergunta.

Uma vez em terra, um corredor curto e uma escada de uma construção meio-acabada (ou meio destruída?) padrão obra pública bem nosso conhecido, e lá estava o chiqueirinho com suas balizas e fitas.

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Duas filas se formaram levando, cada uma, a dois – e apenas dois – guichês de policiais de imigração. Embora houvesse menos de meio avião à minha frente, o ritmo de lesma paralítica logo me informou que haveria mais de uma hora de espera para caminhar aqueles tres metros.

Ilusão de noiva! Muito mais.

Não demorou muito e pelo vão formado entre as duas filas foi-se acumulando um terceiro magote de “VIP“s que os muitos policiais dedicados a fiscalizar as filas iam catando nelas e passando à frente dos outros.

Sendo um “estado plurinacional” com base em divisões étnicas, como certas correntes do PT querem que o Brasil venha a ser, todas as autoridades da Bolívia de Evo Moales têm os traços característicos da etnia à qual pertence o presidente. Mesmo assim, os passageiros com traços marcadamente indígenas, especialmente os mais pobres – mães e pais com crianças – eram os que recebiam pior tratamento. Algo tão ostensivamente ríspido e humilhante que revoltava e constrangia quem assistia à cena.

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Passada essa primeira barreira de guichês, haveria mais duas, cada uma das quais com a sua “autoridade” interessada num dos papeis coloridos, metade a ser entregue na entrada e metade – atenção, não os perca nem ande sem eles na Bolívia! – a ser devolvida na saída.

A saída, eu logo viria a saber, é ainda mais surrealista pois além das perguntas e conferências de papeis, haverá mais guichês e mais “autoridades” empenhadas em revistas à procura da droga cuja produção o governo dos agentes revistadores oficialmente patrocina…

Em algum lugar entre a Noruega e a Bolívia situa-se o Brasil em matéria de burocracia. Filiação a (chefes de) “partidos políticos” substituem, por enquanto, características raciais na definição de quem tem de trabalhar e quem pode só “ter um emprego” (no sentido de poussuí-lo para todo o sempre). Mas – e naquela fila interminável nós tivemos tempo mais que suficiente para discutí-lo e concluí-lo – a ausência de dois ou tres dos exageros relatados sobre a Bolívia não nos redime enquanto otários.

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Deixar-se roubar um pouco mais ou um pouco menos não nos faz menos coniventes com a roubalheira. Só a posição norueguesa, posta a qual vastos setores do Estado em todas as suas instâncias desaparecem junto com os demais setores criados para gerir, “apoiar” e fiscalizar os primeiros, se justifica. Pois afinal – sobretudo neste planeta integralmente conectado, onde cada passo é traçável e universalmente filmado – o check-in no primeiro aeroporto e a certeza de que o checado embarcou é tudo quanto é necessário já que, uma vez no avião, ou o cara saltou de paraquedas ou desembarcou no seu destino.

Basta, portanto, um banco de dados. Todo o resto daquele aparato – do deles, do nosso, do de todo mundo que ainda mantém um – não é mais que a horda dos carrapatos com que os Estados nacionais e os seus “proprietários” sobrecarregam quem tem um trabalho em vez de um emprego, mas ninguém ainda parece se dar conta disso.

A humanidade, não por acaso ainda eivada de miséria à beira da era da ciência total, acostumou-se à vida de burro de carga.

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Você e o nosso federalismo pelo avesso

20 de março de 2013 § Deixe um comentário

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O sistema federativo não é apenas uma opção entre muitas dentro do baralho da democracia. Sobretudo para países das dimensões do Brasil, é um componente essencial do receituário da liberdade.

O federalismo responde ao princípio geral de que as leis são feitas pelos indivíduos e para os indivíduos, e não por entidades abstratas e contra os indivíduos, e traduz a sequência histórica dos acontecimentos que resultaram na organização das sociedades humanas.

Eu mando na minha casa” é uma dimensão tão natural da liberdade que nós humanos a compartilhamos até com os animais. “Nós mandamos na nossa cidade” idem. As formigas, as abelhas e todos os animais sociais entendem naturalmente que assim é.

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Necessidades elementares de segurança e de eficiência do trabalho determinam os termos dessas etapas de colaboração. Só daí por diante é que a sede de poder começa a subverter, pelo ardil e pela força, os fundamentos muito simples e intuitivos desses arranjos. Só daí por diante é que entram em cena os artifícios exclusivos do bicho homem.

O turning point é o século 12 quando as tecnologias de transporte, comunicações e armamento ensejam aos doentes de poder – que sempre os houve – olhar para além das muralhas dos seus castelos, das fronteiras das suas cidades, e ambicionar territórios maiores, e os rábulas de Bologna a seu serviço tramam uma versão falsificada do Direito Romano para armá-los dos argumentos necessários para se impor a quem nunca os tinha visto antes.

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A partir de então, a humanidade se divide em duas: uma segue estruturando o seu modelo de organização social a partir das necessidades e das práticas dos indivíduos, a outra passa a estruturar o seu a partir das necessidades e das práticas dos donos do poder para se impor e manter como tal.

Os termos fundamentais do discurso desses últimos variam muito pouco através dos tempos. São sempre argumentos “mágicos” que sustentam os desvios da ordem natural, pelo menos até que o candidato a “ungido dos deuses” (ou “dos justos”, ou “do povo”, ou “dos pobres”) concentre força suficiente em suas mãos para não perder mais tempo com justificativas antes de cada uma das suas imposições.

Já o entendimento das razões e justificações dos que se mantiveram no caminho de sempre “não requer prática nem tampouco habilidade”, para usarmos o bordão tão conhecido dos brasileiros.

Basta o senso comum.

Os filósofos do Iluminismo, que vieram para libertar o mundo do jugo dos monarcas absolutos “ungidos dos deuses”, invocaram os testemunhos concretos da história e da natureza para elevar o senso comum à categoria de elemento de certificação da verdade superior ao argumento mágico, que flutua no ar e é inteiramente dócil a quem se dispõe a manipula-lo.

É com esse argumento que uma corrente deles afirma a superioridade da Lei Comum (Common Law) sobre o Direito Romano. Uma é dócil aos fatos; apoia na prática, na tradição, no concretamente vivido, o trabalho de sistematização dos comportamentos que cada grupo humano tem ou não tem aceito como bom ao longo de sua história, e dá a cada lesado e a cada infrator o direito de reivindicar a mesma satisfação e a mesma pena precedentemente aplicada para aquele mesmo crime naquela mesma comunidade. O outro se esgueira pelos obscuros meandros da dialética e trata de interpretar os fatos à revelia da realidade, deixando sempre escancaradas as portas para as decisões arbitrárias de magistrados ungidos pelo poder constituído como melhores julgadores da verdade que o restante dos mortais.

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Mas houve quem resistisse ao logro.

Na pequena ilha onde se formou a Inglaterra as leis seguem sendo até hoje diferentes de condado para condado, porque assim tem sido desde que os primeiros homens se instalaram nesses pedaços daquele território, e porque isso sempre foi bom e bastante. E esta foi a prática comum a toda a Europa, Portugal incluído, até a encruzilhada do século 12.

O modelo federativo segue o mesmo princípio.

Primeiro surgiram as tribos isoladas que se organizaram em aldeias, depois cidades-estados. Mais adiante deu-se a união entre as diversas cidades-estados em nome da perseguição de interesses comuns.

A cada etapa desse processo consentido cedia-se apenas, com é de bom senso, o tanto de soberania local estritamente necessário para a execução das operações envolvendo mais de uma cidade-estado.

lib13Em sua versão atual, que vigora em todos os países de colonização inglesa e em outras democracias avançadas, o modelo federativo é o que se consolidou desde a fundação dos Estados Unidos da América.

Afirma, basicamente, o seguinte.

Você consome equipamentos e serviços comunitários onde você está. É na sua cidade que você precisa de saneamento, de segurança pública, de saúde e de educação. Portanto, é o governo da sua cidade, aquele que está sob a estrita vigilância dos seus olhos e ao alcance da sua voz, que deve arrecadar, prover e gerenciar tudo isso.

lib14É preciso abrir e manter estradas ligando cidades a cidades? Constituir uma polícia com autoridade para perseguir criminosos que saltam as fronteiras municipais? Para isso e para mais nada do que isso são constituídos os Estados da federação. Para isso e para mais nada do que isso eles estão autorizados a arrecadar.

É necessário que nos juntemos todos para nos defendermos de agressores estrangeiros? Ou para negociarmos com mais força com outras Nações? Para isso e mais nada que isso constitui-se a União. Para isso e nada mais que isso ela está autorizada a arrecadar e gastar.

Se você vive uma situação diversa desta, você está sendo enganado. Quem tem, sempre, de estar de chapéu na mão, pedindo dinheiro e autorização para agir é “o cara” lá de cima. Cada passo para fora dessa ordem é um passo em direção à servidão.

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Entre o eleitor e o investidor, o PT já oPTou

11 de março de 2013 § 2 Comentários

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O anúncio da desoneração dos produtos da cesta básica da cascata de impostos que incide sobre eles feito por dona Dilma Roussef na sexta-feira passada, em meio a uma torrente de autoelogios pela sua “condição feminina”, é só mais uma modalidade disfarçada da “matemática criativa” do dr. Mantega, destinada a mascarar os maus resultados que ela vem colhendo na economia e não a suprimir as causas que os estão produzindo.

Dona Dilma, aliás, vem se especializando em fazer a coisa certa do jeito errado, modo de agir que – ela e seus executivos amestrados insistem em não entender – constitui-se, ele próprio, no fulcro da crise de confiança em que vai mergulhando a economia brasileira.

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Essa desoneração estava apropriadamente agendada no calendário eleitoreiro que o chefe da presidenta houve por bem por na rua um ano antes da hora, para o 1º de Maio, Dia do Trabalho, e não é, propriamente, uma medida econômica. É só mais um presente demagógico de sabor bolivariano.

Foi a iminência do estouro do teto da inflação (acima de 6,5% ao ano) já em março que a levou a antecipar a entrega.

A manobra vai produzir uma redução imediata da medida do aumento do custo de vida que é tomada principalmente sobre essa cesta de produtos. Mas esse efeito vai se produzir uma vez só. No mês seguinte, a medida da inflação retoma a sua expressão verdadeira.

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Além da mentira que, repito, é o fulcro da crise que afugenta os investidores e explica porque a bolsa brasileira é a que mais caiu entre as 48 do mundo que o mercado internacional acompanha, a medida vai na direção contrária de um ataque sério ao problema inflacionário, que está preso à demanda exacerbada, como vem avisando o Banco Central ha três ou quatro reuniões do Copom sem que o governo o autorize a aumentar os juros.

Pois liberando mais dinheiro no orçamento familiar, vai-se contribuir para alimentar, e não para conter, essa demanda. Outra forma de conter a inflação é administrar com mais rigor as contas públicas, coisa que também se torna mais difícil a cada renúncia fiscal implicando perda de arrecadação.

A questão é simples: quanto mais engana o eleitor, mais o PT desengana o investidor. E o que fica mais claro a cada dia é que o partido fez a sua escolha.

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O PT sabe que o mundo já entendeu quem ele é, fato que se reflete na recusa geral em participar do tratamento intensivo da nossa infraestrutura moribunda mesmo com a promessa de cobrir de ouro quem concordar em faze-lo.

Mas entre deixá-la morrer e cortar na própria carne ou admitir erros que lhe possam custar um voto, o partido de Lula prefere a primeira opção, mesmo com a super safra já encalhada nas nossas estradas esburacadas e nos nossos portos estrangulados.

Vamos, portanto, pelo mesmo caminho da Venezuela, que teve sua economia destruída justamente no período de maior multiplicação da riqueza nacional – o da campanha eleitoral permanente acompanhado de ação concreta nenhuma. Só que com o petróleo ainda enterrado a um Everest de distância, debaixo de dois ou três quilômetros de água e mais cinco ou seis de sal.ovo6

A “bola” está rolando de novo

4 de dezembro de 2012 § 3 Comentários

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Editorial de O Estado de S. Paulo comentava hoje que mesmo com o crescimento do PIB desacelerando de 7,5% ao ano em 2010 para 2,7% em 2011 (e metade disso em 2012), a arrecadação de impostos continuou subindo, batendo recorde atrás de recorde.

A fatia da riqueza nacional apropriada pelo setor público no mesmo período passou de 33,53% do PIB para 35,31%, saltando 1,78 ponto percentual do PIB de um ano para o outro.

Os três níveis de governo comeram R$ 1,463 trilhão, o que equivale a R$ 4 bilhões por dia, incluindo sábados, domingos e feriados.

Em 2012, como sabemos, o quadro piorou mais um pouco.

Diz o governo que o crescimento da arrecadação maior que o crescimento da produção deve-se ao aumento da formalização de empresas e empregos, o que, em parte, é verdade.

bola6A predatória desordem tributária brasileira explica-se pelo fato dos impostos terem sido sempre criados de qualquer jeito de modo a fechar a conta dos gastos dos governos mesmo com a sonegação com que podia-se contar como certa. No meio do caminho a informática entrou em cena e a economia, por excelência, migrou de malas e bagagens para o universo virtual. Sendo ambos – o universo virtual e a economia – representações matemáticas do universo real, uma coisa nasceu para a outra.

Um dos efeitos colaterais dessa mudança foi que a “informalidade da atividade econômica”, seja da empresa, seja do trabalhador, armas de sobrevivência que faziam funcionar segmentos da economia que de outro modo teriam sido mortos antes pela competição globalizada, foi se tornando impossível numa realidade em que o resultado produzido por ambos é controlado por computadores, disso decorrendo que a sonegação teve uma redução drástica.

O fato é que a carga tributária brasileira foi sendo empilhada com o pressuposto de que jamais seria cobrada inteira e agora passou a ser.

É o que está nos expulsando em velocidade assustadora da competição mundial.

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Como viviam de “jeitinhos” que sempre tornavam possível escapar de pelo menos parte dos ataques dos predadores tributários das três esferas de governo e ainda levar vantagem sobre os competidores que pagavam seus impostos, os produtores brasileiros nunca se organizaram para exigir uma ordem tributária decente.

Agora estão no pior dos mundos, sobrevivendo dos afrouxamentos no gasnete que o governo, aqui e ali, concede a setores escolhidos da produção.

Mas o pior não é esse aspecto do problema. O pior é que, nestes 10 anos que passou nadando em ouro o Estado brasileiro não fez mais que tornar-se morbidamente obeso.

Não temos melhores escolas, hospitais, estradas, portos e aeroportos hoje do que tínhamos ha 10 anos, muito pelo contrário. Temos é muito mais ministérios, funcionários públicos, sindicatos, “ONG”s entre aspas e partidos políticos para nos atazanar a vida e esvaziar os bolsos.

Temos um país atulhado de automóveis mas sem estradas para eles rodarem e uma “nova classe média” que não ascendeu pelos degraus sólidos da educação e do ganho de produtividade mas sim foi artificialmente guindada até a condição de consumir os ilusórios confortos “made in China” outorgados nas vésperas de eleições a custa de endividamento galopante.
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Em 2002 devíamos R$ 212 bilhões a financiadores estrangeiros e R$ 640 a banqueiros brasileiros. Um total de R$ 851 bilhões. Em 2007 Lula “pagou a dívida externa”, isto é, trocou-a por dívida interna com juros mais altos. Hoje estamos batendo em R$ 1,5 trilhão de dívida interna líquida (R$ 2,5 trilhões de dívida bruta).

Mas é na aceleração da velocidade do crescimento dessa conta que está a indicação segura de que caminhamos para um desastre.

Quase 1/3 desse valor vazou nos últimos três anos pelo ralo lateral dos bancos oficiais que desde 2009, a pretexto de fazer frente à crise internacional, passaram a ser autorizados pela Medida Provisória 453, a emprestar dinheiro do Tesouro Nacional em vez de se financiar com o dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador e com captações externas a juros baixos como faziam no passado. De 16 de junho de 2009 quando a MP foi transformada em lei pelo Congresso e o BNDES emprestou os primeiros R$ 100 bi do Tesouro Nacional essa conta multiplicou-se por quatro. Está chegando a R$ 400 bi de um total de R$ 538 bi emprestados pelo BNDES no período 2009-2012. Esse total dos últimos três anos é 65% maior que os R$ 327,4 bi emprestados pelo BNDES nos seis primeiros anos do governo Lula (2003-2008). E dobrou só nos últimos dois anos.

Ou seja, o Tesouro Nacional emite títulos de dívida e os vende a juros de mercado aos bancos brasileiros, “empresta” o que arrecada ao BNDES, à CEF e ao BB, que os repassa aos escolhidos do rei com juros menores que os que o Tesouro (nós) fica(mos) devendo.

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E para quem tem ido esse dinheiro?

63,5% do total para empresas gigantes que têm todas as condições para se financiar no mercado ou até fazendo captações baratas no exterior. Aquela turma de 28 monopólios (ou a caminho de sê-lo) da indústria de base que se senta em torno da mesa da presidente no tal Conselho de Gestão e compartilha com o BNDES e os fundos de pensão do funcionalismo a propriedade daquela infraestrutura toda esboçada no PAC mas que nunca consegue se desembaraçar dos defeitos de concepção com que nasceu e sair do papel tais como as hidrelétricas da Amazônia, os portos e os aeroportos que não decolam, os já folclóricos trem bala e transposição do Rio São Francisco e o resto que você já sabe.

Para a pequena e micro empresas coube 21% do bolo. Para as médias, 11,8%. Os barões seguem comendo filé e o povo ficando com os ossos.

E não é mais de dinheiro real que se trata. Só a conta do BNDES que começou a voar em junho de 2009 já pesa, hoje, 21,7% da dívida líquida brasileira (de R$ 1,5 tri).

A sinistra “bola de neve” que o Plano Real deteve a custa de tantos sacrifícios, está rolando desenfreada de novo.

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Vimos emburrecendo…

26 de novembro de 2012 § 2 Comentários

O Globo deste sabado trazia uma história interessantíssima colhida do livro O Rio de Janeiro Setecentista, de Nireu Cavalcanti (aqui).

Era o começo do verão de 1660 e Salvador Correia de Sá era o governador nomeado pelo rei. Não dava ponto sem nó. Distribuiu cargos e terras públicas para todos os membros de sua família, arranjou casamentos de parentes com os espanhóis que controlovam Buenos Aires e também as minas do Potosi, no Peru, baixou decretos ordenando que a Câmara Municipal pagasse seus gastos pessoais e com suas residencias, e por aí afora…

Isso não fez dele exatamente um homem popular. Por via das dúvidas ele resolveu, então, aumentar o contingente de soldados que o protegiam (e ao cargo) de 350 para 500 homens. Para financiar esse “melhoramento”, criou o primeiro imposto predial, tipo IPTU, da história do Brasil e mandou o projeto para a Câmara dos Veredaores.

Acontece que, se o governador era nomeado pelo rei, os vereadores eram eleitos (ainda que só pelos “homens bons” que constituiam a elite da cidade) e o imposto incidia sobre todas as moradias do Rio.

O povo estava com eles.

Aproveitando uma vigem de Salvador a São Paulo, a Câmara se reuniu, a 8 de novembro de 1660, e o destituiu do cargo, nomeando em seu lugar Agostinho Barbalho Bezerra, figura muito popular na cidade, irmão de Jerônimo Barbalho Bezerra que era o líder dos revoltosos.

Faltava, para completer o golpe, tirar Tomé Correia de Alvarenga, governador interino e primo de Salvador, do cargo no qual ele resistia. Tomé tinha sentido que a barra ia pesar e fugiu, dias antes, para o Mosteiro de São Bento, onde se asilou.

Acontece que Agostinho não tinha o mesmo espírito guerreiro do irmão Jerônimo. Quando soube que tinha sido nomeado governador correu para outro convento, o de Santo Antônio, onde tentou se refugiar, mas foi arrancado de lá a força para “tomar posse”.

Os rebeldes continuavam fiéis ao rei de Portugal, insistiam em esclarecer, e ficariam no governo do Rio apenas até Lisboa mandar um substituto para Salvador, tido como inimigo do povo.

Em São Paulo, Salvador preparava a resistência. Começou por enviar armas aos beneditinos que defendiam o primo Tomé. A Câmara do Rio tentou aliciar a de São Paulo, mas foi em vão.

Em janeiro de 1661, Salvador começou a reverter a maré. Mandou à Câmara do Rio um documento perdoando todos os revoltosos menos os sete líderes principais e suspendendo a cobrança do imposto malfadado, o que foi suficiente para desarticular a rebelião.

Na madrugada de 5 de abril, com uma tropa de mercenarios paulistas e mais pelo menos 700 índios postos sob seu comando pelos jesuítas, retomou o Rio sem enfrentar reações. Os líderes rebeldes foram presos e Jerônimo decapitado em praça pública, tendo a cabeça espetada numa estaca ficado exposta como exemplo num pelourinho onde hoje está a Praça XV.

Já seu irmão Agostinho, que desde o primeiro minuto traira a revolução, foi reconduzido ao governo tendo Salvador de Sá como seu “braço direito” (para evitar novas revoltas). Ficou no cargo por dois anos. Em agradecimento, ganhou do rei a capitania de Santa Catarina e direitos especiais de lavra de ouro nas Minas Gerais.

Morreu milionário.

Por via das dúvidas, o rei chamou Salvador de volta a Portugal onde deu-lhe polpudas sinecuras no Conselho Ultramarino. E a paz voltou ao Rio. (Só haveria outro imposto predial na cidade depois da chegada da família real em 1808).

Até que Nireu Cavalcanti publicasse suas pesquisas diretamente nos anais da Câmara e durante os 350 anos que nos separam dessa história, a versão da historiografia oficial tratava de confundir esse episódio com a “Revolta da Cachaça” ocorrida 13 anos antes quando Portugal instituiu um imposto sobre a fabricação de aguardente valendo para toda a colônia. Os anais portugueses descreviam o levante contra o imposto de Salvador de Sá como “uma rebelião de 131 chefes de famílias de grandes proprietarios”, a “zelite” de então, interessados em preserver seus privilégios. Nireu demonstrou que a rebelião contra o IPTU de Salvador de Sá envolveu, somente entre personagens citados nos anais da Câmara, 580 membros da elite e mais de dois mil revoltosos.

Moral da história: muito pouca coisa mudou no Brasil nesses 350 anos.

Os governantes seguem sendo o mesmo tipo de filho da puta de sempre, donos da coisa pública da qual dispõem como bem entendem; os que traem para aderir a eles são contemplados com pedaços do Estado e os que lhes resistem para realmente defender o que é de todos de sua sanha exploratória têm a cabeça cortada.

No fim toda essa lambança sanguinolenta vira, oficialmente, obras de benemerência às quais só “a zelite golpista”, em seu egoismo sórdido, ousa resistir.

A única coisa que mudou – para pior – é a atitude do povo e dos seus representantes diante da sanha exploratória dos donos do poder. Os legislativos, hoje, estão do lado de “lá” e os contribuintes já não reagem a quem lhes mete a mão nos bolsos.

Vimos emburrecendo…

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