Democracia é um subproduto da educação
21 de março de 2011 § 10 Comentários

De tudo de bom que a presidente Dilma Roussef disse a Claudia Safatle na entrevista que deu ao Valor na quinta-feira passada – e quase tudo que ela disse cabe nesse adjetivo – o melhor foi o seguinte:
“Acho fundamental o Brasil apostar na formação no exterior. Todos os países que deram um salto apostaram na formação de profissionais fora. Queremos isso nas ciências exatas – matemática, química, física, biologia e engenharia. Queremos parceria do governo americano (Obama chegaria dali a dois dias) em garantia de vagas nas melhores escolas. Nós damos a bolsa. Vamos buscar fazer isso não só nos Estados Unidos e de forma sistemática”.
Não é pouco para uma ex-guerrilheira que preside o governo de um partido que, até ha pouco, abraçava a ignorância como um dos seus mais caros valores e que tem na xenofobia uma de suas mais renitentes marcas registradas.
Tem havido muito barulho por nada (fora o sofrimento, o sangue derramado e a invariável frustração na obtenção dos resultados inicialmente visados), em torno das revoluções politicas. Esses espasmos de violência e de emoções em ebulição se prestam muito à mitificação pela literatura e pelo cinema mas, olhadas as coisas um pouco adiante dos primeiros arrancos de seus futuros mártires o que se vai encontrar é, invariavelmente, um opressor substituindo o outro e inaugurando uma nova dinastia a se sustentar no poder pela força.
Democracia mesmo – é o que a História confirma – é sempre um subproduto das revoluções educacionais.

Os pioneiros da Europa protestante, a democracia americana, a sua versão reeditada pelas reformas da Progressive Era, o Japão, os “tigres asiáticos”, onde quer que a democracia tenha plantado raízes sólidas, seja em processos mais longos de decantação cultural, seja em turn arounds artificialmente acelerados de longas tradições antidemocráticas, existe um pressuposto comum: a democracia se instala como subproduto de uma revolução educacional.
A primeira grande revolução educacional da era moderna foi o Protestantismo.
Quando Guttemberg, ao imprimir às centenas as bíblias que até então eram copiadas à mão e guardadas a sete chaves nas bibliotecas de uns poucos conventos, tornou acessível a todos aquilo que, na época, era tido como a fonte do conhecimento, o esquema de opressão montado pela Igreja e compartilhado pelas monarquias absolutistas em cima da falsificação de uma suposta “verdade revelada” começou a desabar.
Depois que Lutero “protestou” a fraude com argumentos (e não com opiniões), seus primeiros seguidores liberados para se apresentar como tal, na Inglaterra libertada de Roma pela libido insatisfeita de Henrique VIII, andavam pelo país, batendo de porta em porta, para ler a bíblia para a multidão analfabeta e deixar-lhes a mensagem subversiva:
“Não aceitem as verdades que vos chegam prontas! Aprendam a ler para poderem busca-la por si mesmos. Só a educação liberta!”

Era essa a essência da revolução de Lutero, que fez uma única exigência aos príncipes alemães interessados em se livrar do papa insuflando o Protestantismo: educação obrigatória e gratuita para todos, bancada pelo Estado.
Foi assim que nasceu o mundo moderno.
Libertada das fogueiras da Inquisição a inteligência, fertilizada pela experimentação, fez o mundo “renascer”. E o pensamento científico, desafiando a religião, redesenhou toda a realidade à nossa volta.
Depois disso nada mais foi como era antes.
A Inglaterra plantou o marco inicial submetendo o rei ao parlamento e o parlamento ao povo. E a sua extensão americana, tomando por base o novo Universo de corpos celestes em permanente movimento mantidos na harmonia de suas órbitas pela ação das forças e contra-forças da gravidade, descrito por Isaac Newton, desenhou a democracia de poderes independentes funcionando dentro de um regime de checks and balances e instituiu o esforço e o mérito individuais como únicos critérios de legitimação da riqueza e do poder que vem com ela.
A democracia moderna nasce, portanto, da primeira grande vitória do pensamento científico sobre a ideologia (religião), na virada do século 18 para o 19. E daí por diante, seus altos e baixos, seus progressos e retrocessos, estarão sempre ligados a esse embate.

Um século mais tarde ela passaria pela sua primeira crise profunda. Mesmo onde o novo regime não se tinha fixado, ele abalara mortalmente as monarquias sobreviventes. De tal modo que, nem as jovens democracias, nem essas monarquias periclitantes, estavam prontas para o terremoto que viria.
A desordenada transição da economia rural para a economia industrial e o processo descontrolado de urbanização que concentrou e colocou mais perto uma da outra a opulência e a miséria nas cidades, levaram, em todo o mundo, ao desmoronamento do ordenamento – ético e moral inclusive e principalmente – que servira à sociedade e à economia rurais.
Ao mesmo tempo a economia industrial estava aumentando para patamares nunca antes suspeitados a capacidade de acumulação de riqueza por particulares e, com ela, o poder de corrupção dos magnatas da nova era.
Não sobrou quase nada.
Com o privilégio sustentado pela corrupção voltando a reinar e a consequente desmoralização da democracia criou-se o caldo de cultura propício ao desenvolvimento de novos regimes de força.
E o século 20 nasceu com as revoluções políticas voltando a ensanguentar o mundo.

Esse processo de deformação não se deu com a mesma intensidade em toda a parte, porém. A democracia resistiu e, eventualmente, reformulou-se, onde ela tinha fundamentos na educação. E caiu aos pedaços onde – como em Portugal, por excelência – tinha sido fruto de transplantes tão artificiais quanto superficiais, feitos apenas para dar sobrevida às velhas oligarquias de sempre.
Mas ninguém passou incólume por ele. Nos Estados Unidos, foi dentro desse ambiente deletério que rolou, já no final do século 19, a primeira onda da revolução da gestão corporativa que tudo submetia à eficiência. As fusões e aquisições de empresas levaram a um grau inédito de concentração da riqueza e acumulação de capital e a corrupção foi ao nível do paroxismo.
Com o cidadão comum espremido entre os grandes monopólios e políticos corruptos que respondiam muito mais prontamente ao poder do dinheiro que aos interesses do seus representados, o país enfrentou o desafio de reescrever suas regras para a nova realidade.
A receita poderia ser seguida pelo Brasil que está hoje mais ou menos onde eles estavam nesse momento.
A legislação antitruste, estabelecendo a defesa da concorrência em nome do interesse do consumidor como um valor superior ao da eficiência para limitar o direito de crescer e ocupar espaços do capital, foi o primeiro marco dessa transformação. A conquista de ferramentas de democracia direta inspiradas no sistema suíço como as leis de inciativa popular, os referendos e o direito ao recall (impeachment) de qualquer funcionário eleito a qualquer momento, numa luta que durou quase 40 anos, acabou por restabelecer a legitimidade do sistema representativo e relançar a democracia americana para o seu período de apogeu (século 20).

Mas o pressuposto das reformas desse período, que ficou conhecido como a Progressive Era, foi, mais uma vez, uma profunda reforma educacional inspirada no chamado “movimento anti-intelectualista americano” que concentrou fortemente o ensino publico nas ciências exatas, plantou as bases da revolução tecnológica e projetou a economia americana para os patamares de hoje.
O Japão, destruído moral e materialmente ao fim da 2a Guerra Mundial, foi o próximo a embarcar nas asas da educação. Convencido de que tinham perdido a guerra para a ciência do inimigo, consciência que se tornou ainda mais aguda depois das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, o Japão se concentrou absolutamente na construção de um sistema de educação para a ciência, a tecnologia e a inovação. Nos meados dos anos 60 já era, saindo do zero, uma presença notável na competição mundial. Daí por diante, a pequena ilha, desprovida de tudo menos de gente com vontade e conhecimento, tornou-se a segunda maior economia do mundo.
Coreia do Sul e Taiwan, igualmente sem recursos naturais e ameaçadas pelas ditaduras de que se tinham desmembrado, seguiram-lhe os passos por caminhos semelhantes aos que Dilma prescreve para o Brasil. Entraram para o folclore local, aliás, os voos das sextas-feiras entre o Japão, a Coreia e Taiwan, em que cientistas e técnicos de alto nível das empresas japonesas embarcavam para trabalhar em empresas coreanas e chinesas que lhes pagavam, num fim de semana, mais do que ganhavam em casa na semana inteira para ensinar o que sabiam aos seus nacionais. Paralelamente, os governos desses países criaram extensos programas de bolsas de estudos mandando milhares de seus estudantes aprender no Ocidente.

A história é exatamente semelhante em todas as democracias construídas no século 20.
Onde elementos de democracia foram plantados artificialmente, sem a devida base educacional, balança-se ao sabor da sorte, menos quando calha de haver um governante letrado, com noções de história; mais quando calha de acontecer o contrário. Onde a educação foi o caminho, o sistema político é sólido. E as economias, então, nem se fala: não importam as riquezas naturais nem o tamanho das populações, elas são exatamente proporcionais à colocação desses países nas avaliações internacionais de desempenho de seus estudantes nas ciências exatas.
O mais formidável handicap do Brasil é sem duvida nenhuma este. Com a educação publica inteiramente aparelhada ideologicamente e o sistema voltado exclusivamente para os interesses corporativos que o parasitam, é sempre aí que despertam, com o ânimo aplastado, todos quantos sonham com um Brasil democrático e sem miséria.
Saber que a presidente da Republica é um destes e está disposta a derrubar essa barreira ainda que seja começando por formar uma nova geração de futuros professores onde quer que eles possam de fato aprender é altamente animador.

Tudo se arruma com uma única reforma
17 de janeiro de 2011 § 3 Comentários
Mais uma safra de desgraças.
Mais uma safra de frustrações.
A TV mostrou ontem que ha 115 mil pessoas vivendo em áreas de risco somente na Grande São Paulo, segundo mapeamento minucioso feito pela Prefeitura.
115 mil!!!
E a serra carioca então? Virou, inteira, uma constelação de favelas, como o resto do Rio; como o resto do Brasil. Igualzinho ao que está acontecendo em toda a Serra do Mar aqui em São Paulo. Os “sertões” das praias do Litoral Norte, que vieram de Cabral até aqui mais ou menos com a mesma cara, nos últimos 10-15 anos, vão tomando os ares miseravelmente caóticos das “Rocinhas” da vida.
A extensão da desordem, por si só, já fornece a desculpa para as mortes dos próximos muitos verões.
Como remover tudo isso até o próximo?

Como remover isso um dia, qualquer que seja, se as “autoridades” com a atribuição de faze-lo são as mesmas que muitas vezes lideraram e, em todos os casos, sancionaram essas invasões das áreas de risco?
Reconfirmada a nossa impotência como cidadãos, lá vai o Brasil de novo, entrando na senda do conformismo.
As TVs “enlatarão” a emoção da desgraça da hora enquanto durar a curiosidade sobre ela, mas basta o sol voltar a brilhar e o carnaval ocupar as telinhas com suas bundas tremelicantes para que também os cadáveres da Serra do Rio sejam esquecidos.
Afinal, tudo, no Brasil, está torto e precisa ser endireitado.
É coisa demais! Desanima qualquer um!
O jeito é “ligar o foda-se” e seguir adiante, cada um por si, porque a vida é uma só.
Se a gente for esperar o Brasil mudar, não vive.
Soa familiar?
Esse raciocínio já lhe passou pela cabeça?
Não é atoa!

Mas eu insisto: essa impressão é um engano.
As vidas perdidas, as mutilações, as felicidades roubadas em função das enchentes, do mau estado das estradas, das fugas e assassinatos dos “indultados” de cada Natal; a roubalheira desenfreada das vésperas de eleição, a corrupção policial, o crime organizado, a indústria do achaque contra quem trabalha, o descalabro dos hospitais e da educação públicos, a irracionalidade dos impostos que nos empobrecem a todos, tudo isso e muito mais é fruto da mesma distorção original e só pode ser corrigido por uma única e solitária reforma: o fim da impunidade no topo da cadeia de comando.
Tentar eliminar, um por um, todos os efeitos da força que entorta todo o sistema político brasileiro é tarefa impossível. Mas se cada um “deles”, cada um dos que têm o poder de nomear e a obrigação de agir, souber que pode ser sumariamente demitido, ter sua carreira encerrada e se ver em apertos de fato com a Justiça a qualquer momento por “dá cá aquela palha”, como se dizia antigamente, aí o problema passa a ser deles. Então – e só então – eles passarão a jogar a seu favor. E, rapidinho, tudo isso se corrige como num passe de mágica.
Porque exatamente como acontece com a impunidade, a responsabilização também só funciona em cadeia.
O fiscal da prefeitura só proibirá construções em área de risco e tratará de fazê-lo antes que seja tarde se ele souber que o surgimento de uma única e solitária construção numa área de risco já implicará, imediata e inapelavelmente, na sua demissão, no fim da sua carreira e, possivelmente, em mais que isso em alguma penitenciária do Estado (se ele tiver sido pago para fechar os olhos).

O fiscal só será inapelavelmente demitido diante do surgimento de uma construção em área de risco se o Secretário que o nomeou for inapelavelmente demitido se não demitir seu subordinado num prazo previamente estabelecido sempre que ele for flagrado em delito.
E o Secretario só será liminarmente demitido se tergiversar com os erros e falcatruas dos seus fiscais se o Prefeito que o nomeou for sumariamente demitido toda vez que tergiversar com os erros e as falcatruas dos seus Secretários.
A mesma coisa vale para governadores e presidentes da Republica.
Mas prefeitos, governadores e presidentes da Republica só podem ser sumariamente demitidos quando tergiversarem com as falcatruas e ilegalidades praticadas por seus subordinados se os representantes eleitos pelo povo nos legislativos forem sumariamente demitidos toda vez que fizerem vistas grossas para os flagrantes de ilegalidade dos membros do Poder Executivo que eles são pagos para fiscalizar e, quando for o caso, “impedir” (de “impeachment”).

Libere qualquer um deles da ameaça de demissão a qualquer hora e por qualquer motivo que o eleitor achar suficiente, e você estará liberando todos. Impunidade ou responsabilidade são como gravidez. Não existem pela metade. Ou valem para todos ou não valem para ninguém.
Os Estados Unidos quase acabaram, no final do século XIX, roídos pela corrupção de políticos que suas instituições não tinham força para alcançar e punir. Inventaram, então, o voto distrital, para definir quem representava quais eleitores, e deram a esses eleitores a prerrogativa de “reconvocar” (recall) seu representante por simples “quebra de confiança”, ou seja, sem necessidade de especificar a razão. Basta circular uma lista pelo distrito eleitoral. Se 5% ou mais a subscreverem (o numero varia de Estado para Estado), convoca-se nova eleição que derruba ou reconfirma o cara. Isso vale para qualquer funcionário eleito. E lá quase todos os que têm funções executivas, de policiais a professores, de vereadores a presidentes da Republica, passando por tudo que está no meio, o são.
Isso reduziu a roubalheira e a ineficiência a limites jamais alcançados por qualquer outra sociedade moderna, pôs os legisladores fazendo leis a favor do povo e não de si mesmos e fez daquele país a maior potencia do mundo.
A discussão lá, hoje, é em torno do direito de eleger e cassar também os juízes de direito.

No labirinto da latinidade
13 de outubro de 2010 § 1 comentário
Como um velho truque jesuíta põe a verdade a serviço da mentira, atravanca o nosso processo político, justifica o pensamento revolucionário e põe a liberdade cada vez mais longe.

Leio, na madrugada, posts atrasados da minha amiga Barbara Gancia. O texto dela é sempre uma delícia. Vale a pena até quando o assunto já passou…
Mas hoje não fiquei só na curtição estilística. Parei num de 23/09 em que ela comentava a votação da Lei da Ficha Limpa no Supremo. Usava um argumento que um monte de gente usou naquele momento e que ainda vai voltar à baila na hora da decisão. E aí eu me lembrei de algo que fiquei de escrever na ocasião e acabou passando.
O ponto que mexeu com a minha memória foi este:
“…a Ficha Limpa, por mais bacaninha que pareça, esbarra na Constituição. O que está sendo considerado hoje é a constitucionalidade de se fazer uma lei e aplicá-la no mesmo período eleitoral. Antes disso, a Ficha Limpa estava sendo debatida por conta do preceito básico que diz que o indivíduo só pode ser considerado culpado depois de a sentença ter transitado em julgado. Ou seja, depois que houver condenação definitiva, não existindo mais possibilidade de recurso.
Não são questões políticas, mas técnicas. E não há lado “certo” e “errado” na votação de hoje. Não dá para os talibikers e aqueles que não gostaram do que o Boris Casoy falou sobre os garis tomarem um lado e o demônio tomar o outro“.

Nessas poucas frases estão embutidos todos os elementos que compõem a armadilha em que se debate o Brasil. Não só o Brasil, aliás, mas todo o mundo latino.
Nós aprendemos a pensar com os jesuítas. Somos todos um pouco vitimas deles, que tiveram um monopólio da educação no mundo latino que, na sua ponta ibérica, durou alguns séculos a mais que no resto.
No momento em que foi inventado, o sistema de educação jesuíta não partia de perguntas nem visava a aquisição de saber. Era um sistema defensivo que foi criado para sustentar a qualquer custo uma “verdade revelada” que era o fundamento ultimo de todo um sistema de poder e de uma forma de organização da sociedade que estava ameaçada pelo nascimento da ciência moderna. Uma técnica de argumentação que fugia, literalmente como o diabo foge da cruz, da verificação empírica e da obrigação de confirmar as teorias com fatos, a novidade mais subversiva do pensamento moderno nascente que se contrapunha à “revelação”.

Nunca mais nos livramos desse vício de origem. Esses “soldados de Cristo”, foram a primeira organização ideológica radical a se estruturar segundo o modelo militar de hierarquia rígida e obrigação de obediência cega dentro dela e a criar um padrão sofisticado de proselitismo e de controle do pensamento alheio que inspirou todas as que vieram depois, inclusive as que naufragaram na Europa no final do século 20 cujos restos ainda sobrevivem no Brasil de hoje.
Isso não apenas nos custou permanecermos à margem da ciência moderna como nos acostumou a um desvio que até hoje está na raiz de todos os nossos maiores problemas.
Nós não gostamos de procurar a verdade. Preferimos “ganhar discussões”. Construir ou destruir argumentos, não importa em torno de que.
E o truque que os jesuitas nos ensinaram para conseguir isso foi, primeiro, despir toda e qualquer ideia a ser discutida da sua relação com o contexto real que a produziu para examiná-la como se ela existisse em si mesmo, desligada dos fatos ou das pessoas às quais se refere.

Sem sua circunstância, a idéia se transforma num corpo inerte, ao qual não se aplicam juízos de valor que são sempre necessariamente referidos à baliza do padrão ético e moral acatado pela sociedade num determinado momento histórico. Assim esterilizado, o raciocínio é, então, fatiado nos segmentos que o compõem, sendo a coerência interna de cada um deles examinada isoladamente nos seus aspectos formais, segundo as regras da lógica abstrata, as unicas que podem ser aplicadas a esse corpo dissecado. Feito isto, começa-se a remontar o raciocínio conferindo-se a coerência formal das diversas combinações possiveis entre suas partes e, finalmente, a do conjunto reunificado.
Se qualquer desses segmentos apresentar a menor imperfeição lógica ou puder ser colocado em contradição com qualquer dos outros, essa imperfeição contamina o todo e o debatedor está autorizado a denunciar como falso o conjunto inteiro, mesmo que, visto vivo e dentro do seu contexto, ele seja indiscutivelmente verdadeiro.

É um truque infernal porque põe a verdade a serviço da mentira, o que torna muito dificil denunciá-la. E como nenhuma proposição humana é capaz de passar incólume por esse exercício de dissecação a pessoa começa a duvidar da propria capacidade de discernimento.
Desclassificados o senso comum e a razão como instrumentos bastantes para dirimir controvérsias, tudo acaba tendo de ser decidido por um juiz segundo uma regra artificial que, de preferência, deve ser vaga o bastante para permitir as mais variadas interpretações, de modo a conferir a esse juiz uma virtual onipotência.
Está aí um excelente substituto para a “revelação”…
Os portugueses, que são os grandes mestres nessa arte de “mudar para que tudo continue igual” fizeram disso um sistema político cuidadosamente estruturado para mante-los ao largo da revolução democrática que, empurrada pela nova ciência que se ancorava na observação empírica, varreu o absolutismo monárquico de justificação divina da Europa.
E o Brasil tomou carona nessa falcatrua.

Mas o que é que o inocente comentário da Barbara tem a ver com isso?
Tudo, ainda que não haja dolo.
Pois ela que é uma das pessoas intelectualmente mais honestas que conheço se obriga a invocar o límpido preceito do “na dúvida, a favor do réu” que é uma das maiores conquistas da nova ordem em que o truque jesuita retrabalhado pelo espírito reacionário português nos impediu de entrar para justificar o movimento que, visto no cojunto do caso em discussão, tem o óbvio propósito de manter a impunidade dos representantes do povo que traem os seus representados, o que é a própria negação do sentido da democracia, regime que se ancora, entre outros pilares, justamente no do “na duvida, a favor do reu”.
A sentença do juiz que reafirma esse valor intocavel da democracia se torna, assim, inatacavel. Mas esse mesmo juiz é o que preside uma instituição que, com a pior das intenções, se cercou de tantos subterfugios e imprecisões no seu rito de operação (o Código Processual) que nenhum reu chega a ser condenado em definitivo se tiver dinheiro bastante para pagar bons advogados.

Certo, dirão os juízes. Mas isso é outra questão que não esta em julgamento neste momento. Assim, engulam os fichas sujas porque fazer de outra maneira é afrontar a democracia.
Percorrer infinitamente esse círculo do absurdo sem nunca encontrar a saída é o que justifica o pensamento revolucionário, endêmico nas culturas latinas. As melhores pessoas, as mais pacíficas e bem intencionadas, acabam sendo empurrados para ele, visto que dentro do sistema não ha como arrumar as coisas.
Só que nas revoluções, como tudo é permitido, a fera humana fica à solta. E aí…
Assim, de ruptura em ruptura, os latinos se reconstituem cada vez mais machucados, cada vez mais divididos, cada vez mais vulneráveis à exploração pelos “salvadores da pátria”.
Existe alternativa? Existe. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

Um discurso sobre a Liberdade
8 de abril de 2010 § 2 Comentários

A liberdade se impôs como fundamento inegociável da política quando a ciência tirou a Terra do centro do Universo e o homem do centro da Terra.
E a imprensa foi a ferramenta dessa revolução.
Mais de mil e quinhentos anos se tinham passado; rios de lágrimas e de sangue tinham corrido quando a invenção de Gutemberg finalmente permitiu que Lutero desmascarasse o esquema de poder que, apoiado na censura e no controle estrito da informação, tinha se estruturado por cima da Igreja e transformado a mensagem de Cristo num instrumento de terror.
Desse momento em diante o controle da imprensa passou a ser a obsessão das igrejas, leigas ou religiosas, e dos Estados autoritários.
Tinham toda a razão. Somos inimigos inconciliáveis.
A história não registra exceção. As tiranias se instalam quando o Estado consegue deter pela força o livre fluxo das idéias. As tiranias desmoronam quando a informação volta a circular.
O percurso tem sido longo. Mas, por mais pedras que haja no caminho, o rumo não poderá ser invertido.
O primeiro olhar do homem para a vastidão do universo feriu de morte os deuses das verdades absolutas. O que veio depois é mera conseqüência.
Na Inglaterra seiscentista o homem teve, pela primeira vez desde que há registro, a experiência da convivência com a diversidade de crenças. Para alem de preparar o terreno para o surgimento da ciência moderna tirando o pressuposto da frente do fato e o dogma da frente da experimentação, esse momento consagrou a tolerância como um valor absoluto na esfera das relações humanas.
E de lá a luta se espalhou pelo mundo.
Passados quase quatro séculos a liberdade ainda é um privilégio de poucos. Se a capacidade de ir diretamente às fontes do conhecimento estabelecido é o instrumento da libertação individual, a educação é o único caminho de acesso a esse instrumento. Onde ela não entra a liberdade não se estabelece.

Os espíritos autoritários não odeiam apenas os veículos do conhecimento. Odeiam o próprio conhecimento. E não é por acaso…
É este o drama do Brasil. Quem não conhece o passado, está condenado a vivê-lo de novo. E cá estamos nós, outra vez, às voltas com um país que se quer o centro do mundo e um projeto de ditador que se imagina o centro do país…
Mas sejam quantos forem os que se deixarem enganar por isso, o essencial não mudou. Em plena revolução tecnológica, tudo que sabemos é que saberemos mais amanhã do que sabemos hoje e que, na sociedade da informação, mais gente ficará sabendo disso a cada minuto que passar.
A dúvida, cada vez mais, é senhora. E essa ausência de certezas é o pressuposto da liberdade.
Continuará faltando aos ditadores em projeto uma “verdade” em que se apoiar. Terão de instalar seus regimes sob o signo da fraude. De vender-se pelo que não são. E se, quando não puderem mais enganar, recorrerem aos mesmos meios do passado sem poder alegar os mesmos belos fins para justificá-los, estarão se atirando na vala dos criminosos comuns.
Não ha mais tapeação neste mundo de janelas abertas. Eles têm os dias contados!
Hoje existe um outro tipo de tirania que é mais insidiosa. Vem com a chancela da “maioria” que boa parte da imprensa se compraz em servir. Essa ausência de resistência torna-a duplamente perigosa. Com as armas da moda e da moralidade, que são a nova cara das antigas “verdades oficiais”, a “sociedade”, esse poder não eleito que atua em todos os campos e não só no da política, pode se revestir de uma capacidade de constrangimento terrível. E, no entanto, é preciso lembrar com Stuart Mill que “se todos os homens menos um partilhassem da mesma opinião, e apenas uma única pessoa fosse de opinião contrária, a humanidade não teria mais legitimidade para silenciar esta única pessoa do que ela, se poder tivesse, para silenciar toda a humanidade”.
Esta na hora disto começar a ser afirmado, especialmente para platéias como esta, com a veemência que a extensão do fenômeno exige.

Na trincheira do jornalismo aprende-se rapidamente que cada conceito está sujeito a se transformar no vício para o combate do qual ele foi criado. Que ao opor resistência aos grandes males da atualidade é bom não fechar os olhos ao possível perigo do triunfo total de qualquer princípio. Que liberdade para os lobos quase sempre significa a morte para os cordeiros…
Aprende-se que a liberdade é mais a oportunidade de ação que a ação em si mesmo. É mais o poder fazer do que o fazer propriamente dito. E que o único limite que pode, legitimamente, ser imposto à de cada um, é aquele em que o seu exercício implica restringir a liberdade do próximo.
Nestes 135 anos, tendo participado ativamente de todos os movimentos políticos que o país viveu, O Estado de S. Paulo tem sido identificado por todos os governos por que o país passou, aí incluídos especialmente os que ajudou a constituir, como o seu mais incômodo opositor. Colecionou intervenções, atentados e atos de censura de representantes de todos os quadrantes do espectro ideológico. Arrancou de prisões e acolheu em sua redação fugitivos de todos os regimes.
Tem agido assim porque sabe que, essencialmente, liberdade é a liberdade de dissentir. Tem agido assim, nas palavras de Julio de Mesquita Filho, porque “repudia as afirmações categóricas”. Porque “limita-se a observar o curso dos acontecimentos para pautar por ele as suas ações”. Porque “não admite o apriorismo político e as concepções tendentes a deformar as sociedades humanas e o indivíduo segundo modelos pré concebidos”. Porque “crê na inteligência do homem mas nega-lhe o poder da profecia”.
É em nome de todos os que, através dele, participaram desta luta que recebemos este prêmio.
Muito obrigado.

Discurso proferido dia 8 de abril de 2010 no Palácio das Laranjeiras, Rio de Janeiro, representando o jornalista Ruy Mesquita na entrega do “Prêmio Ícones da Comunicação“, na categoria “Liberdade” conferido pela Associação Brasileira de Agencias de Publicidade






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