Serra x Dilma: qual é a diferença?
23 de maio de 2010 § 5 Comments


Recebo quase todos os dias e-mails (simples e de correntes), com a discussão em torno da escolha Serra ou Dilma. E vejo, neles, todo tipo de argumento, menos aquele que acho realmente importante.
Falam do passado da Dilma na luta armada, na antipatia do Serra, no esquerdismo do Serra que seria igual ao da Dilma e vai por aí…
É verdade que o próprio PSDB e seu candidato não ajudam mantendo essa atitude de “encolha”, não querendo botar as cartas na mesa pra ver se passam pela tangente por cima da popularidade do Lula.
Pra mim o que tem de importante nessa eleição – de muito importante mesmo – é a diferença que não vejo ninguem destacar. Ideologias àparte, a diferença fundamental entre o PSDB e o PT, entre Lula e FHC, entre Dilma e Serra, é que tudo que o PSDB fez no poder trabalhou no sentido de reforçar as instituições em detrimento do personalismo. E tudo que Lula fez e faz e a Dilma promete continuar fazendo, vai na direção contrária.
O Lula desconstruiu tudo que tres gerações inteiras de brasileiros fizeram, a duríssimas penas, pra por o Brasil acima da vontade de um caudilhosinho, primeiro, dos generais, depois, e agora da pessoa do Lula.
Voltamos à estaca zero. Se o Lula está de bom humor, beleza. Se acordar com azia, cuidado…

O Lula destruiu todas as instituições do pais. Aparelhou o Estado para servir ao seu projeto de poder e não a um projeto de Nação; corrompeu o resto que sobrava do Legislativo pondo todos os fugitivos da Interpol na sua base aliada; cooptou os mais explicitos e escrachados entre os ladrões deste país de ladrões e jogou até a liberdade de imprensa no lixo pra preservar os caras que lhe garantem que os seus próprios crimes não serão julgados; aparelhou o judiciário e pôs até o Supremo Tribunal Federal de joelhos, entregando numa bandeja a ultima palavra sobre o que der e vier à pessoa dele; desmontou as agencias setoriais que estavam aí para defender a concorrência e o interesse dos consumidores; se associou a todos os grandes grupos monopolistas do país; coopta falsos empresários com ficha suja na polícia e lhes põe monopólios de setores-chave nas mãos; está acabando com a regra da licitação para os grandes contratos do governo e todos os dias faz um discurso querendo acabar até com os tribunais de contas.
Só sobrou a pessoa dele.
Lula não destruiu só o resto dos partidos podres que já estavam mesmo pra cair da árvore; destruiu o próprio partido dele. Transofrmou-o num ambiente tão insalubre para pessoas com um pingo de vergonha na cara que até a esquerda honesta se mandou do PT. Saíram os católicos, saíram os verdes, saíram os radicais que eram honestamente radicais. Sobrou a corja criada na têta do sindicalismo bandido, que disputa no tiro o dinheiro do imposto sindical.
E pra que tudo isso?
Pra ficar sozinho no palco, dando lições ao Brasil e ao mundo.
Pra ele não tem lei. Lei é só pros inimigos. Até o ultimo minuto, agora nas eleições, ele debocha das regras do jogo porque joga sem regras, mesmo quando põe a sua policia pra cobrar o cumprimento de regras por outros jogadores.

Democracia é o contrário disso. Democracia é a lei acima de tudo e igual para todos. Foi inventada pra gente nao ter de ficar o resto da vida dependendo do rei estar ou não de bom humor; ir ou nao ir com a cara da gente.
Esquerdismo ou o contrário dele é conversa pra boi dormir. Quando assinou a Carta aos Brasileiros, Lula estava passando o atestado de óbito dessa falácia. Não existe saneamento básico de esquerda ou de direita. Aritimética financeira progressista ou conservadora. Só tem um jeito de levar a economia que é o que ele herdou do Fernando Henrique e manteve. Respeitando a matemática. Abaixo disso, sim, pode-se escolher onde e como jogar o dinheiro da conta que fecha. Mas a conta que estoura, a conta do suborno eleitoral, estoura sempre nos mesmos bolsos: os nossos, e com mais força nos dos mais pobres, como veremos logo adiante.
Ele teve o mérito de instituir no Brasil o “fordismo”, com 100 anos de atraso?
Teve.
Pra quem não lembra, “fordismo” é aquela invenção do Henry Ford, um dos pais do capitalismo real que, depois que resolveu o problema das quantidades na produção, se deu conta de que tinha de criar uma nova capacidade de consumo, ou aquele monte de carros ficava sem comprador. Intuitivo e inteligente que é, o Lula aumentou na marra a renda dos mais pobres e o resultado foi o que foi. Não importa que ele tenha feito isso mais pra comprar votos e simpatia do que por qualquer outro tipo de cálculo que remeta a estados de elevação espiritual. O que importa é que ele o fez.
OK. Bravo!
Não foi só o FHC que ensinou coisas pra ele. Ele tambem provou o seu ponto. Mas não é besta de negar o que aprendeu do outro. E nem isso lhe dá o direito de tornar errado tudo o mais que é certo.
Agora isso está feito. Niguem vai ser burro de desmanchar, como ele não foi burro de desmanchar o esquema que lhe permitiu por isso em prática. Mas se deixarmos que, por conta disso, o estado brasileiro seja desmontado para servir só ao plano de poder do lulismo (porque até o petismo ele destruiu); se vendermos por esse troco o nosso direito de ter direitos que continuam sendo direitos acima da vontade pessoal de quem quer que seja, então estaremos condenando nossos filhos e netos a voltar pra Idade Média de onde a democracia, que é extamente esse “estado de direito”, tirou a pequena parcela do mundo que conseguiu escapar da servidão e do terror.
É aí que está o divisor de águas desta eleição. Tem um candidato que está acima das instituições e trabalhando para destrui-las e deixar o país inteiro dependente da pessoa dele, e outro que trabalha dentro das instituições e para reforçá-las.

No pé em que a coisa já chegou, se tivermos mais quatro ou oito anos de PT, viramos a Venezuela ou coisa pior. Não vai sobrar pedra sobre pedra e nossos netos talvez consigam começar a construir novas instituições do zero, algum dia. Se interrompermos esse processo agora para botar A Lei de volta no seu devido lugar, estaremos dando à “elite” sem crise de Brasilia – que é a unica realmente com força para decretar privilegios para si mesma à custa dos outros neste país – o recado de que tudo deve ter limite, e que esse limite deve ser igual para todos os brasileiros, inclusive e principalmente para aqueles que estão mais perto do poder e têm a capacidade de lesar multidões com os seus atos.
Já estão desconfiando…
16 de abril de 2010 § 1 Comment

Ha semanas a bolsa de Nova York sobe sem parar. Ha semanas a Bovespa, quando não cai, anda de lado.
Desde que começou a crise é a primeira vez que se dá essa inversão. Normalmente o que acontecia era o contrário: quando vinha a onda a Bovespa sempre subia mais que Nova York.
Dois fatos se destacam para explicar essa inversão (alem, é claro, das boas notícias que, finalmente, começaram a aparecer nos EUA).
Na ultima reunião do Copom já estava pra lá de claro que o Banco Central tinha de aumentar os juros. O próprio diretor, Henrique Meirelles, afirmou isso várias vezes. Mas como Dilminha paz e amor está querendo subir a escada os juros foram mantidos onde estavam apesar de todos os sinais de inflação que estão se multiplicando por aí. Incerteza quanto aos juros funciona como cruxifixo pra vampiro com investidores. Pelo simples fato de que mudando os juros muda tudo nas contas das empresas e, com isso, o valor das suas ações.
O outro fato é a perda da confiança dos investidores internacionais na Petrobras. Mesmo com o pré-sal mapeado e com o mundo faminto por commodities, cada vez que Lula e o PT gritam que o petróleo é deles; quanto mais eles enrolam e politizam essa operação de capitalização mais a ação cai. Ja esteve a R$ 40. Ontem estava entrando na casa dos R$ 32. No ano a queda de Petrobras está pelos 10%. Vale e Petrobras andavam sempre juntas. Agora Vale está furando a barreira dos R$ 51 e Petrobras, na direção oposta, a dos R$ 32.
Desde o começo do ano o indice Dow Jones já valorizou quase 7% (o Standard & Poors, das 500 ações mais negociadas lá, já subiu mais de 8% e o Nasdaq, das ações de tecnologia, passou dos 10%). Mas o indice Bovespa segue encalhado em torno de 1,5% de valorização.
Ou seja, ainda não nos livramos de ver cada eleição ameaçando baixar o valor de tudo que você trabalhou para conquistar nos quatro anos anteriores. Nesta, não são só os brasileiros; o mundo inteiro já está desconfiado do que vem vindo por aí…

Lulismo x petismo: a luta do século
27 de fevereiro de 2010 § 7 Comments

A mudança radical da clientela eleitoral de Lula a partir da eleição de 2006, conforme mostrou André Singer no artigo “Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo” (http://novosestudos.uol.com.br/acervo/acervo_artigo.asp?idMateria=1356), suscita especulações interessantes.
O artigo é um estudo meticuloso do comportamento do eleitorado nas eleições de 2002 e de 2006 onde se descreve a forma pela qual Lula, afinal, conquista os votos do que o autor chama o “sub-proletariado” brasileiro, com renda entre zero e três salários mínimos, que votava sistematicamente na direita e, nas três eleições anteriores a 2002, tinha sido responsável pelas derrotas do PT. E mostra, tambem, que o partido não acompanhou Lula nessa mudança; continuou preso ao seu eleitorado tradicional, insufciente para levá-lo à Presidência da Republica, composto de funcionários públicos, estudantes e uma parcela da classe média concentrada no Sul e no Sudeste cujos votos sempre se dividiram mais ou menos por igual (cerca de 30% para cada um) entre o PT, o centro e a direita.
Há um indisfarçável travo de desilusão pela forma “desideologizada” pela qual, na descrição de Singer, se dá, ao cabo de 30 anos, o fim da história de irreconciliável desamor entre o PT e a classe em nome de cujos interesses o partido afirmava falar mas que se comportava como a grande força reacionária da Nação, barrando a ascensão ao poder do partido que identificava com “a bagunça”.
O estudo recorda, com farta comprovação numérica, que foram dois os pilares sobre os quais o pragmático Lula, para horror dos quadros mais sofisticados e ideológicos do partido dos quais Singer, ex-porta-voz do atual presidente da Republica é um representante, construiu, afinal, a ponte que o reconciliou com o “povão”. O primeiro, plantado em 2002, foi a negação de todas as veleidades revolucionárias e mesmo reformistas do PT na Carta ao Povo Brasileiro, um compromisso com a continuidade da política econômica de FHC e com a estabilidade do regime. O segundo, ensejado pelo primeiro, foi a maior operação de compra de votos jamais perpetrada na história deste país, na preparação da reeleição em 2006.
Fosse qualquer outro, sem as credenciais ideológicas do autor, que demostrasse com a crueza com que ele demonstrou a exata correspondência aritimética entre o aumento dos gastos e do alcance do Bolsa Família e os votos de quem passava a receber o benefício em Lula , e o estudo seria desqualificado pelo PT como uma denuncia de intenções golpistas.

A citação textual de análise feita por Lula em pessoa, nos bastidores do partido, depois da derrota de 1989, aliás, como que estabelece o dolo no plano de vôo do “lulismo”, daí por diante: “A verdade nua e crua é que quem nos derrotou, além dos meios de comunicação, foram os setores menos esclarecidos e mais desfavorecidos da sociedade. Tem uma parcela da sociedade que é ideologicamente contra nós: não adianta tentar convencer um empresário que é contra o Lula. Nós temos que ir para a periferia, onde estão milhões de pessoas que se deixam seduzir pela promessa fácil de casa e comida”.
Lula teve de esperar até 2002 para estar em posição de se lançar à sua campanha de arregimentação desses estomagos vazios. Mas deu certo.
(…) No princípio (houve) apenas unificação de programas de transferência de renda herdados da administração Fernando Henrique (…) Em 2004, o Programa Bolsa Família (PBF) recebeu verba 64% maior e, em 2005, ano do “mensalão”, teve um aumento de outros 26%, mais do que duplicando o número de famílias atendidas, de 3,6 milhões para 8,7 milhões, em dois anos. Entre 2003 e 2006, o Bolsa Família viu o seu orçamento multiplicado por treze, pulando de 570 milhões de reais para 7,5 bilhões de reais, atendendo a cerca de 11,4 milhões de famílias perto da eleição”.
O resultado nas urnas foi exatamente proporcional:
“Lula teve, no primeiro turno cerca de 60% de votos no Norte e Nordeste e apenas 33% no Sul e Sudeste (praticamente o inverso das proporções por região que teve nas eleições anteriores), sendo que o investimento do PBF na primeira região foi três vezes maior do que na segunda (…) Dos que votaram em Lula pela primeira vez em 2006, a maioria eram mulheres de renda baixa , o público alvo por excelência do Bolsa Família, pois em geral são as mães que recebem o benefício (…) A intenção de voto em Lula pulava de 39% na média para 62% quando o entrevistado participava de algum programa federal”.
“(…) O PT não acompanhou Lula em sua troca de base. Lula teria deixado um eleitorado tipicamente urbano e escolarizado por um francamente popular, mas o mesmo não teria ocorrido com o PT (…) Lula foi mais sufragado quanto menor o IDH do Estado, mas a votação da bancada federal do PT manteve-se associada aos de maior IDH (…) Lula teve particular sucesso no Nordeste e no Norte ao passo que a votação do PT continuou relevante no Sudeste e no Sul”.

O sub-produto dessa operação de compra de votos transformou-se no que Singer chama, um tanto doloridamente, “o pulo do gato” de Lula: “sobre o pano de fundo da ortodoxia econômica construir uma substantiva política de promoção do mercado interno”, o que, independentemente de qualquer especulação sobre as intenções por trás do fato ou da sustentabilidade do efeito, que são temas para outros artigos, inegavelmente aconteceu.
O que nos interessa, para o momento, é esse descolamento entre Lula e o PT e o ingresso na zona de influência sobre as decisões políticas de uma massa de brasileiros (Singer estipula esse “sub-proletariado” em 48% da População Economicamente Ativa e 63% do proletariado) que nunca teve senão as migalhas da partilha das benesses distribuídas pelo Poder, apesar de ser bajulada nos discursos de todos que correm atrás dele.
O momento, agora, é de reeleger o PT e consolidar essa conquista. Só começaremos, portanto, a assistir o desenlace dessa trama a partir de 2011 quando o realismo, por bem ou por mal, vai voltar a se impor à política econômica. Mas a carga adicional de privilégios distribuidos – agora para a massa dos mais necessitados, é verdade – é mais pesada do que o país poderá sustentar. E os sinais dessa realidade já estão todos aí. Os jornais de hoje registram a marca de 1,18% de crescimento no IGP-M de fevereiro. A inflação começa a arreganhar os dentes. E o presidente do BC, Henrique Meirelles já sente a necessidade de vir aos jornais para bradar que “enganam-se aqueles que esperam mudanças na conduta do BC em função do calendário cívico”. Como ninguém aqui fora está pedindo essas mudanças, fica claro que seu recado responde a pressões sentidas pelo lado de dentro…
A novidade importante é que são mutuamente excludentes os interesses da velha clientela eleitoral do PT, cevada nos privilégios de que só o funcionalismo publico e os outros empregados do Estado desfrutam e da qual os trabalhadores organizados mordem um pedacinho, e a nova força eleitoral do “lulismo”, a massa dos sem proteção e sem voz política que agora recebe os bilhões do Bolsa Família.
Como o Brasil já sabe de velho, o cobertor é curto. Quanto mais estável se torna a vida dos parasitas do Estado com a acumulação de novos privilégios, mais instável fica a de todos os outros brasileiros que pagam por eles e, muito especialmente, a dos brasileiros do ultimo degrau da escala social, os primeiros que perdem o emprego do qual depende a sobrevivência de suas famílias. Por isso eles tinham tanto medo da “bagunça” petista. A novidade é que agora essa massa dos que antes apenas pagavam, anonimamente, a conta dos privilégios dos eleitores do PT tambem conquistou o seu. E está perfeitamente claro, como Singer demonstra, que é no Bolsa Família que está a chave que dá (ou nega) a Lula o acesso à Presidência da Republica.
Em outras palavras, mudou o caminho para O Poder. Agora ele passa necessariamente pelos novos eleitores de Lula. Essa massa de brasileiros, que antes ficava apenas e tão somente com o discurso dos políticos, passará, agora, a ser cuidadosamente considerada nos momentos das grandes decisões políticas que, como se sabe, dizem sempre respeito ao modo de dividir a conta dos presentes que o Estado distribui.

Acontece que essa conta aumentou demais, a inflação acordou e é preciso agir. Mas a escolha é a de sempre. Para controlar a inflação gerada pela gastança estatal só há dois instrumentos: aumentar os juros e os impostos (o que custa empregos e agora, também, aumento das dívidas contraídas pela nova clientela eleitoral de Lula engordada na recente festa do financiamento ao consumo popular) ou cortar os gastos públicos (o que significa reduzir os privilégios da velha clientela do PT).
Alguem vai ter que ceder…
As insistentes manifestações da esquerda petista no Programa Nacional de Direitos Humanos e no programa de governo de Dilma, em que se reivindica o reforço do papel dos sindicatos, das “organizações da sociedade civil” e das correntes ideológicas que sempre pautaram as ações dos governos petistas, podem bem ser um sinal de que o velho PT dos donos do Estado está sentindo a perda de influência que decorre da competição dessa nova classe que obedece exclusivamente ao comando de Lula, tornando-o mais independente dos grupos de pressão que ditam os rumos no partido e controlam a máquina do Estado.
A boca pequena, aliás, conforme registra o artigo de Singer, já ha no partido e nas correntes de esquerda que dele se afastaram quem identifique nessa relação direta de Lula com o “sub-proletariado”, depois de 2006, o modelo do “condottiere” fascista, que levaria a “um esvaziamento da dimensão ideológica do confronto de classes” e a uma versão cabocla do peronismo (possivelmente com a nossa “Evi-sabelita”…).
Prosopopéia àparte, o certo é que os numeros indicam que não será possível manter eternamente o aparato assistencialista que sustenta algo em torno de 50 milhõe de brasileiros e tambem todos os privilégios do funcionalismo numa máquina publica enormemente inchada. E isto tende a por o lulismo e o petismo em rota de colisão.
Cabe à oposição desenvolver um discurso didático para mostrar aos novos eleitores de Lula como funciona a relação de exclusão entre os seus intereses e os dos velhos eleitores do PT.

O Camaleão
21 de fevereiro de 2010 § 3 Comments
Há quase duas semanas eu vinha lutando com um texto sobre o Lula sem nunca chegar a uma conclusão que me satisfizesse.
Eu costumo deixar todo texto um pouco mais denso dormir pelo menos uma noite no HD antes de dá-lo ao publico. Volto lá no dia seguinte e, se as idéias alinhavadas ainda fizerem sentido, dou uns retoques na forma e publico.
Nas ultimas semanas, toda vez que eu voltava ao que tinha escrito no dia anterior as coisas não batiam mais. E eu começava tudo de novo. Devo ter escrito uns dez calhamaços, e nenhum, no fim das contas, “fechava”.
Ontem à noite, de repente, me bateu uma luz:
“O problema não é com você, cara! O que o Lula diz é que não faz sentido!”
Eu sento para escrever depois de ler os jornais do dia. E o que acontece é que o Lula diz uma coisa diferente a cada dia. Muda de cara, muda de tom e frequentemente desdiz o que tinha dito no dia anterior.
O erro é que eu estava tentando analisar as suas manifestações com as mesmas ferramentas que uso para pautar as minhas. Acontece que quem está preocupado em entender é que tem de se deixar conduzir pelos fatos para chegar à conclusão. Quem só está preocupado em vender o seu peixe faz o contrário: manipula os fatos para sustentar sua conclusão.
O Lula não está procurando, nem ser coerente, nem entender coisa nenhuma. Só está à caça de votos. Logo, constrói seus raciocínios ao reverso. Diz a cada platéia aquilo que acredita que as fará votar nele.
E isso tambem é um fato.
Olhando de novo para as suas manifestações aparentemente tão contraditórias por esse ângulo da lógica utilitária, tudo se encaixa no seu devido lugar.

“O cara” é um camaleão!
Nasceu para isso! Seu lendário magnestismo pessoal leva cada grupo à sua frente a jurar que ele está plenamente convencido do que está falando, mesmo que esteja dizendo A, hoje, exatamente sobre a mesma coisa de que disse Z, ontem.
Ideologia? Pruridos éticos? São luxos para a “zelites”. Da esquerda ou da direita. Não mudam um mícron o foco absoluto deste sobrevivente que aprendeu a ser rápido e cruamente objetivo driblando a fome e a miséria.
Do alto das suas duas eleições e dos picos das pesquisas, fala para os de casa (e agregados) cada vez mais com a sem cerimonia de quem sabe que puxa o trem para O Poder. Quem não tiver estômago que desengate o seu vagão. A marcha não se detém diante de nada: Celso Daniel, Heloisa Helena, Marina Silva, Delubio e Zé Dirceu, a Igreja Católica, o bispo Macedo, Fernando Collor, José Sarney, os bicheiros, as grandes empreiteiras, Obama e Ahmadinejad, Judas ou Jesus Cristo … põe-se para fora, ou para dentro, tudo que for necessário, no momento em que for necessário. Nega-se ou invoca-se a gosto até o que o próprio Lula disse, fez ou foi; na vida ou ainda ontem…
Só com uma coisa o nosso Camaleão não brinca: o funcionalismo federal e seus fundos de pensão, ao mesmo tempo mola propulsora e guarda pretoriana do estatismo brasileiro, o núcleo duro do PT que, como nunca antes na história deste país, vive hoje refestelada no silêncio dos muito satisfeitos.
Todos os demais, o nosso Camaleão morde e assopra. E quase tudo o mais, Lula é e … Lula não é, se e quando convém.
Mas tudo faz sempre sentido, se considerado o alvo: o tostão para o povão, o milhão para os empresários, os monopólios para os mega-empresários; um homem maduro e moderado, que “quer democracia e uma imprensa forte” quando se dirige ao publico do Estadão; e, para a platéia do PT, o carbonário da censura à imprensa, da impunidade para o MST, da fogueira para os militares, dos “soviets” no lugar do Congresso. O Lulinha Paz e Amor da Carta ao Povo Brasileiro para o eleitorado conservador que tem medo de “bagunça”, ou o timoneiro da Grande Transformação para as viuvas do Muro e os velhos companheiros de estrada.
O nosso Camaleão, indiscutivelmente, é democrático na mentira. E o melhor, para quem leu o Programa Nacional de Direitos Humanos, agora programa de governo de dona Dilma Roussef, e se arrepiou, é torcer para que pelo menos isso seja verdade…

Onde foi parar o filme do Waldomiro?
13 de fevereiro de 2010 § Leave a comment
Charge publicada no Agora São Paulo de 12/02/2010
Vi essa charge no jornal ontem e tive a ideia de publicá-la aqui junto com o filme do Arruda pegando dinheiro e o filme do Waldomiro combinando o suborno com o bicheiro por baixo, só pra lembrar o quanto ela é precisa.
Não faz muitos meses andei procurando o filme do Waldomiro na internet e ainda achei. Não é que foi assim fácil, como era até ha um ou dois anos, mas ainda achei.
Ontem comecei pelo Youtube. Nada.
Aí fui pro Google. Pra encurtar, vasculhei a internet de alto a baixo com tudo quanto é ferramenta de busca; fui aos sites dos jornais; fui ao Muco, o Museu da Corrupção do Diário do Comércio, que ganhou até Prêmio Esso…
Nada!
Ou muito me engano, ou o filme do Waldomiro sumiu da internet. E é claro que isso não foi obra do Espírito Santo.
Eu sei que os jornais, hoje em dia, andam muito fracotes no quesito pauta. E mais ainda no tema “investigações”. Se a Polícia Federal ou algum desafeto de alguém não jogar o pacote pronto no colo deles, adeus…
Ha mais de um mes, por exemplo, a coluna do Merval Pereira, no Globo, informou taxativamente que a India estava comprando 120 Rafale, desses que o Lula e o Sarkozy estão tentando enfiar no povo brasileiro, pelos mesmos US$ 10 bi que o Brasil estava pronto para pagar por apenas 36 dos mesmos aviões. Quatro por um. E mais, que os Emirados Arabes tambem estavam fechando negócio com um pacote de Rafale por preço muito menor que o proposto na transa Lula-Sarkozy.
Ou seja, tratava-se de uma informação clara, checável, e não de uma tese ou conjectura. Existe ou não existe.
Mesmo assim, nenhum jornal do país, nem o próprio Globo, destacou ou deu sequência a essa história embora em algumas redações que eu conheço bem essa pauta tenha sido cobrada inúmeras vezes.
Conclusão: ou o Merval entrou numa informação furada, ou todo mundo patrulhou essa bomba, o que é mais provavel já que se tivesse sido uma roubada do Merval, o resto da imprensa tinha, ao menos, de ter ido checar e publicar o resultado dessa investigação.
Silêncio é a única coisa que é realmente proibida para um jornalista que se preza. Silêncio entrega. É desonestidade. Suja a barra…
Enfim, taí mais uma oportunidade: como foi que o filme do Waldomiro sumiu da internet? Como é que se consegue isso? Existe uma maneira técnica de se fazer isso, tipo um robozinho que fica andando por aí e apagando essa prova? Houve um mutirão organizado de hakers? Ou foi preciso ir de site em site e negociar esse sumiço?
Taí a pauta. Se ainda houver jornalistas por aí, be my guest…

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