Eu acredito no PT

31 de janeiro de 2010 § 1 comentário

Nada me impressiona mais no Brasil de hoje que a irrepreensível transparência com que o PT reafirma o seu projeto autoritário de sempre e a empedernida recusa das forças democráticas de acreditar no que ele diz.

Não se trata mais de acreditar no que ele diz, aliás, mas de observar o que ele faz. Pois a ação do fundador do PT e seu eterno líder, atual presidente da Republica, é perfeitamente fiel ao que o partido sempre pregou e reafirma cada vez com mais ênfase.

A explicação para essa dissonância pode estar no fato pouco debatido de que, no campo da chamada intelligentsia, há “viúvas do Muro” dos dois lados do espectro ideológico, igualmente incapazes de reconhecer a realidade por mais frágil que seja a máscara com a qual tentam disfarçá-la. É aquele tipo de gente que dá mais valor às embalagens que aos conteúdos. Uns ficam exigindo, raivosamente, que venha o que já está aí; os outros não enxergam o que já chegou apenas porque, na versão Terceiro Milênio, as minúcias semânticas penduradas às definições de tirano e de tiranizado não são exatamente as mesmas que costumavam acompanhá-las no final do Segundo.

Para aumentar a confusão, a China lançou no mercado a novidade da tirania prospera, que veio para testar a resistência do desde sempre duvidoso amor da humanidade pela liberdade (veja o artigo O novo canto da velha sereia, publicado aqui em 5 de janeiro passado). O incipiente ensaio lulista dessa nova conjugação já dá sinais da força do seu apelo com a completa sedação do senso crítico daquela parcela esmagadoramente majoritária das classes trabalhadora e empresarial que só raciocina com o bolso traseiro das calças. No momento, todos os interesses são convergentes: há uma eleição pela frente; gastar dinheiro público a fundo perdido virou a muleta do mundo, o que é um excelente álibi; a esmola que se dá aos pobres e compra votos acaba engordando também o bolso dos empresários.

Alem disso, uma nova nobreza está em formação nesta velha meca do “capitalismo de relacionamentos”. Não convém arriscar o que pode vir a ser a oportunidade de uma vida. É o que basta para silenciar os candidatos aos novos condados e baronatos em formação. Para os demais, está sempre à mão o supercomputador da Receita Federal e a matilha de juízes ideológicos, sempre dispostos a uma nova jihad. E, para fechar o cerco, está prestes a sair do forno o novo “Pacto da Republica” que dá à Procuradoria da Fazenda Nacional a prerrogativa de penhorar os bens de qualquer contribuinte via internet, antes de qualquer manifestação da Justiça.

Nem a ralé está a salvo, como se vê…

Neste admirável mundo novo em que o paradigma de “sucesso” é o capitalismo de estado chinês (danem-se os fuzilados), o nosso Lula deu tratamento especial à obra de desmanche dos movimentos de privatização da economia com que Fernando Henrique tinha conseguido reduzir as reservas de caça privativas dos predadores da política e aumentar a eficiência da infra estrutura brasileira. O “toque de classe” desse capítulo está na seleção dos novos sócios do Estado e atores coadjuvantes do projeto de poder do PT, escolhidos a dedo entre os mais assíduos freqüentadores da lista do basfond do capitalismo brasileiro tantas vezes apedrejados pelo partido por suas relações sempre pecaminosas com o dinheiro publico.

Para a dupla Jereissati/Andrade, o gigante da telefonia. Para o Grupo Odebrecht, o monopólio da petroquímica. Acena-se agora com a “super elétrica”, que produzirá e distribuirá mais de um terço de toda a energia elétrica do país, para a Camargo Correa. A Vale, com seu CEO semanalmente ameaçado em publico pelo presidente da Republica, assesta a mira no setor de fertilizantes. Não foi, ainda, anunciado o titular desse novo feudo…

Os outros movimentos, que confirmam a solidez e a extensão dessa política que visa tambem os setores que estão fora da definição clássica de infraestrutura, acontecem ao sabor das oportunidades que surgem: para os Ermírio de Morais, o gigante de papel e celulose; no setor de alimentos, a JBS controlando mais de metade da carne consumida no mundo e a BRFoods, juntando Sadia e Perdigão, controlando 57% do mercado de carnes industrializadas e 88% do de massas prontas do Brasil. Multiplicam-se as “supernovas”  com nucleos superpesados que estão destinadas a tragar todos os outros corpos girando em sua orbita e a preparar o terreno para o embate final. E ha muito mais em gestação. Contam-se nos dedos, hoje, os grupos empresariais brasileiros de maior expressão que não têm um braço do Estado entre os seus maiores acionistas, com representantes do PT ou de seus satélites tocaiados em seus conselhos de administração à espera de uma oportunidade.

Por traz de cada um desses “companheiros de estrada”, desses novos condes e barões da economia brasileira, está a sólida potência dos fundos de pensão das estatais e do funcionalismo publico, alimentado por toda a multidão de brasileiros que subsidia com suas aposentadorias miseráveis e contribuições milionárias as aposentadorias milionárias e contribuições miseráveis dos brasileiros com CPF em Brasília. É de lá que vem o dinheiro para essas fusões e aquisições que o BNDES operacionaliza e o Tesouro Nacional, quando necessário, complementa.

Para pavimentar o caminho, foi limada a legislação antitruste, emasculado o Cade e esvaziadas todas as agencias setoriais independentes, culminando com o golpe de misericórdia da extinção do órgão anteriormente encarregado (SPC) e a criação de uma nova Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), com diretores indicados pelo PT, incumbida de “fiscalizar os fundos de pensão”. A Previc é quem vai “ficar de olho” na Previ e cia. (muito) limitada…

Não ha instituições que não se derrube nem regras que não se revogue. Ha, sim, pessoas imexíveis e projetos de poder que a nenhuma lei é dado limitar.

Neste jovem filho de Portugal, a velha Metrópole cuja história se inaugura com sua majestade atiçando o povo contra a nobreza, na revolução de Avis, para resolver o problema do Tesouro Real esvaziado, movimento que lançou um modelo de operação da política nunca mais abandonado aquém e além mar,  já se vê para onde tudo isso caminha…

E caminha ao som de loas ao “excesso de democracia” desfrutado, segundo dom Lula I, pelos súditos de Chaves, de Ahmadinejad e da dinastia dos Castro, e dos iracundos apedrejamentos verbais contra as falsas democracias de países como os Estados Unidos, a Itália e Honduras.

No vai da valsa, rodopia cada vez mais rápido, no salão, o Poder Legislativo. Trabalho tão maquiavélico quanto eficiente. Primeiro foi o alinhamento preferencial e automático com os ladrões. Lula + Sarney + Collor = Arruda agarrado à carniça como um carrapato, o deprimente espetáculo que prenuncia a saída de todos eles pelo cano de esgoto assim que surgir uma oportunidade de puxar a descarga.

Num ambiente como este já não se faz cerimônia para decretar a anulação das decisões do Tribunal de Contas da União embargando obras onde a roubalheira está visível demais. É a sequencia lógica do processo de contaminação ideológica e aparelhamento do Judiciário, em especial o dos tribunais superiores. Todos eles, hoje, têm maioria de juízes  nomeados por sua majestade (8 em 11 no STF), o que torna pouco surpreendente a vergonhosa rendição do Supremo ao “filho do Brasil” no episódio do julgamento da extradição do “companheiro de armas” Cesare Battisti (leia O ano em que voltamos ao século XVI, publicado aqui em  24/11/2009)…

Com o Programa Nacional de Direitos Humanos, Lula, coadjuvado por 30 ministros e por toda a cúpula do PT, assina a sua versão particular de Mein Kampf explicando, tim-tim por tim-tim, como no modelo famoso, o que quer fazer, como quer fazer  e contra quem quer fazer. Escorregadio que é, nosso herói não pega brigas de frente. Havendo resistência, recua para seguir avançando. Atira ossos à direita e à esquerda para que os cães parem de ladrar e segue, focado, para o cofre dos grandes valores. Confia totalmente na falta de perseverança e na alienação da maioria. Os milicos chiaram? Eles ainda têm alguma força: melhor atenuar o capítulo da anistia. Eles não perdem por esperar. A Igreja chiou? Ela ainda é grande o bastante para pesar numa eleição: altere-se o discurso sobre o aborto…

Mas o resto, que é o que interessa; o resto, que muda para sempre o regime, fica como está.

E ainda assim, os nossos novos ricos e os antigos “companheiros de estrada”, sobre quem já começa a pesar o incomodo de tê-los ajudado a chegar lá, “não acreditam” que o PT é o que é. Ainda assim, os modernos Chamberlain da sempre frívola e decadente Europa seguem com prêmios e paparicações numa mão e vendas bilionárias de armamentos na outra, caminho seguro para seduzir essa gente exotique de lá bas…

Eu não. Eu acredito no PT.

Uma vitória efêmera do mérito

31 de janeiro de 2010 § 1 comentário

Leio o artigo de Boris Fausto deste domingo no Estadão e não resisto a meter minha colher.

Diz ele que: “Desde que voltamos a elegê-los diretamente o Brasil teve cinco presidentes. Dois resultaram de acidentes históricos: Sarney, pela morte de Tancredo, e Itamar, pelo impeachment. Outro, Collor, foi um aventureiro que surgiu do nada, criou um partido de ocasião e se elegeu em circunstâncias excepcionais. Dos cinco, somente dois, Fernando Henrique e Lula, são personagens centrais da trama histórica que se desenrola no Brasil a partir da luta contra o regime autoritário. O fato de serem lideres antes de serem presidentes deu-lhes condições diferenciadas para o exercício do poder (…). Além da legitimidade formal decorrente dos votos, contavam (Lula ainda conta) com a legitimidade substantiva que só a biografia política pode conferir”.

É tudo verdade, sem tirar nem por.

Mas, ainda que de natureza diferente dos outros casos mencionados, a eleição de Fernando Henrique também é fruto de um “acidente histórico”. Ou melhor, de uma cadeia de acidentes históricos não necessariamente conexos entre si.

O primeiro desta sequência foi a fundação da USP, a primeira universidade brasileira, por Julio de Mesquita Filho e Armando Salles de Oliveira, nomeado governador de São Paulo por Getulio Vargas, in extremis, numa tentativa de reduzir a oposição paulista a seu governo. Esse acontecimento já foi uma “zebra”. Fernando Henrique estava numa das ultimas turmas formadas pelos professores franceses que, no sonho do dr. Julinho, deveriam plantar a semente a partir da qual poderia nascer uma nova elite intelectual e política capaz de redimir o Brasil.

“Zebra” sobre “zebra”. Fernando Henrique, o intelectual, o acadêmico, é fruto de uma excepcionalidade dentro de uma excepcionalidade, tão “impossivel” quanto seria, hoje, uma escola publica ser fundada pelo maior crítico do PT e de tudo que ele representa e se dar o luxo de jogar o corporativismo para o alto e contratar apenas professores estrangeiros, selecionados somente em função do mérito.

E é esta a palavra que acaba de definir a absoluta “zebra” que foi Fernando Henrique na Presidência da Republica.

O intransponível abismo de comunicação entre ele e a massa dos eleitores deste país de 85% de analfabetos funcionais em plena aurora do Terceiro Milênio pode ser medido com precisão pela comparação entre o refinamento do seu discurso político e a aderente parlapatice de Lula.

A verdade é que Fernando Henrique, que não conseguiu subir à cadeira de prefeito de São Paulo só com o que era capaz de dizer, foi o único presidente brasileiro, não só da Nova mas de toda a história da Republica,  que foi eleito em função de mérito nesta Meca do “amiguismo” caudilhesco e dos conchavos dentro de um Sistema que devora quem o desafia.

Foi o único que, antes de ser eleito, teve de mostrar o que  era capaz de fazer.

Ele jamais chegaria à Presidência não fosse a oportunidade fortuita, acidental mesmo, de se tornar ministro da Fazenda de Itamar Franco, criar o Plano Real, acabar com a inflação e, assim, promover a maior revolução social já vivida pelo país.

Fernando Henrique foi um ponto fora da reta do que vinha sendo – e tende a continuar a ser – a pré-historia institucional do Brasil. Um fenômeno sociologicamente tão artificial, embora indiscutivelmente democrático, quanto a elite governante arregimentada pelo despotismo esclarecido de d. Pedro II no Segundo Reinado.

Com Lula, o ponto volta para dentro da reta.

O individual, o coletivo, o PT e a democracia

14 de janeiro de 2010 § 5 Comentários

Quando, lá na virada do século XVII para o XVIII, a Revolução Americana afirma que o indivíduo é a base de onde tudo parte e à qual tudo deve se referir numa democracia ela está apresentando a síntese de 2.500 anos de evolução da idéia de governo de participação popular.

E isso por uma razão muito prática, aprendida da História pelo caminho mais duro: o indivíduo é a única entidade cuja vontade pode, de fato, ser conferida.

Apoiar todo o sistema no indivíduo significa, portanto, obrigar a essa conferência cada vez que uma mudança importante tem de ser feita.

Já quando se apóia todo o sistema na abstração que é a “vontade coletiva”, alguém se arroga o direito de falar por ela.

Historicamente, essa evolução tem um nexo perfeito com a reforma protestante. Muito mais evidente, aliás, que aquele que Max Weber foi buscar com toda a sua erudição. Pois o movimento protestante, que decorre indiretamente da invenção da prensa de Guttemberg, foi, antes de tudo, uma revolução educacional. Lutero veio a campo para denunciar a um mundo onde, até então, os livros tinham sido um privilégio inacessível, que o que os padres diziam – que o que o próprio papa dizia – não era o que estava escrito na bíblia. Sua única reivindicação para os príncipes alemães, ainda em pleno século XVI, foi que instituíssem a educação gratuita e obrigatória para todos, para que cada um pudesse ir direto à fonte em vez de seguir ouvindo a tapeação de terceiros.

Os primeiros protestantes da Inglaterra esgueiravam-se à noite, de choupana em choupana, para ler a bíblia à luz de velas para as famílias de miseráveis analfabetos e pregar a sua mensagem subversiva: “aprendam a ler porque a libertação está em cada um poder procurar a verdade por si mesmo”.

É isto que está na raiz da idéia do “um homem, um voto” nos governos do povo, pelo povo e para o povo.  É daí que vem a obrigação de criar uma identificação visível entre cada representante e seus representados (coisa que o sistema eleitoral brasileiro ainda não proporciona). É a isso que responde a obrigatoriedade da participação de todos os eleitores, em votações secretas e fiscalizadas, na hora de tomar decisões.

Só a vontade individual é accountable (a palavra chave das democracias anglo-saxônicas que não tem sequer tradução exata em português; denota algo como “conferível”). Por isso os mandões, os iluminados, os líderes carismáticos, os exploradores da miséria e os ditadores em geral, detestam-na.

Já a chamada “vontade coletiva” é uma abstração que pode  facilmente ser falsificada. Qualquer um pode se declarar o porta-voz dela. E por isso todo ditador a cultua.

Daí o meticuloso trabalho dos inimigos da democracia para confundir a idéia límpida da função da vontade individual nas democracias com a noção de individualismo torcida para a sua pior conotação – a de egoísmo e indiferença pelo outro – por oposição ao coletivo apresentado com a conotação rósea de generosidade, de solidariedade e de altruísmo.

O truque é velho como a humanidade…

E, no entanto, é por esse caminho torto, manchado pelo sangue e pelas misérias da história recente da humanidade, que insiste em caminhar este “Plano Nacional de Direitos Humanos” do PT.

Para criar atalhos e passar ao largo dos poderes independentes, eliminar os contrapesos e a fiscalização do Poder Executivo, erigir os réus em juízes dos seus próprios crimes, criar comitês de iluminados para ditar “A Verdade” (Pravda) e cassar a palavra de quem ousar contestá-la, para determinar que tipo de ciência pode ser pesquisada e que tipo de arte pode ser produzida, o PT dispensa a manifestação de todos os eleitores. Não se digna a consultar sequer os seus representantes eleitos.

Para a construção desse paraíso dos “direitos humanos”, que muda a essência do regime pelo qual todos nós lutamos, não serve a ferramenta de legitimação democrática de processos que a humanidade aperfeiçoou em dois milênios e meio de luta contra a servidão no percurso de Atenas até aqui.

É preciso inventar um sistema “novo”.

Mais que isso. No Programa Nacional dos Direitos Humanos onde o PT desenha esse país do futuro, reinventa-se o nosso passado; cria-se uma nova História do Brasil da qual você não participou mas cujos anônimos protagonistas falam em seu nome.

Vale a pena checar com seus próprios olhos (aqui: http://www.mj.gov.br/sedh/pndh3/index.html) o modo como o redator do projeto que toda a cúpula do PT subscreve como a peça de orientação do futuro dos 180 milhões de brasileiros descreve aquilo que seria a gênese “espontânea” dessa rede de movimentos sociais, fruto de “iniciativas populares primeiro nos bairros … atomizadas, buscando conquistas parciais … que ao longo dos anos foram se caracterizando como movimentos sociais organizados” e como eles, juntamente com os sindicatos “se tornaram os principais promotores da mudança e da ruptura política em diversas épocas e contextos históricos … afirmando-se como pilares da democracia durante a etapa da formulação da Constituição Cidadã”,  articulando-se “em redes de abrangência nacional” daí por diante, “desempenhando, nos anos 90, papel fundamental na resistência a todas as ofensivas orientadas pelo neoliberalismo no sentido da flexibilização dos direitos sociais, privatizações, dogmatismo do mercado e enfraquecimento do Estado” … passando a desempenhar, desse período em diante, “funções de gestores públicos” até que, “com as eleições de 2002 … trouxessem para dentro do mandato presidencial reivindicações históricas acumuladas, passando a influenciar diretamente a atuação do governo vivendo de perto as suas contradições internas”.

Que Diretas Já, que nada!

Teotônio Vilela, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, a resistência da imprensa, as multidões nas ruas, nada disso existiu. Até mesmo Lula está a beira de ser resgatado “de suas contradições” por esses heróis anônimos que ninguem elegeu, cuja chancela o PT considera bastante para legitimar o plano de vôo pelo qual pretende levar o Brasil da democracia para o autoritarismo.

Lendo esse documento delirante ficamos sabendo que há duas histórias do Brasil: a que todos nós conhecemos e eles solenemente ignoram, e a que os autores deste programa começam a nos revelar…

No prefácio do calhamaço, que ele assina, o ministro Vannuchi teve, entretanto, o descuido de ser específico na descrição desse processo de “ampla legitimação democrática” do programa de governo que promete mudar tudo neste país, daqui por diante. Passo a citá-lo:

“Realizaram-se 137 encontros prévios às etapas estaduais e distrital, denominadas Conferências Livres, Regionais, Territoriais, Municipais ou Pré-Conferências. Participaram ativamente do processo cerca de 14 mil pessoas, reunindo membros dos poderes públicos e representantes dos movimentos de mulheres, defensores dos direitos de crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, negros e quilombolas, militantes da diversidade sexual, pessoas idosas, ambientalistas, sem-terra, sem-teto, indígenas, comunidades de terreiro, ciganos, populações ribeirinhas, entre outros. A iniciativa, compartilhada entre a sociedade civil e poderes republicanos, mostrou-se capaz de gerar as bases para a formulação de uma Política Nacional de Direitos Humanos como verdadeira política de Estado”.

A isto se resume o Brasil do PT.

E ele basta para definir que, de agora em diante, o país inteiro passará a navegar em outra direção, diferente dessa bobagem que a humanidade depurou durante 2.500 anos chamada Democracia onde os representantes têm de ser eleitos por todos os eleitores, discutir e votar uma decisão por vez e, ainda assim, submeter essas decisões ao crivo do Judiciário.

Para o PT, toda essa complicação aborrecida – “burguesa” – pode ser substituída por uma consulta prática aos seus 14 mil convidados especiais, cabendo aos outros 180 milhões de brasileiros ouvir e obedecer.

É isto que, levado à sua mesa pela Casa Civil da “competente” Dilma Roussef, o presidente da Republica assinou como o seu projeto para o futuro do Brasil.

Não compre gato por lebre

30 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

luliobama x

Um fenomeno curioso está ocorrendo na cena política brasileira. É a repetição (como farsa…) do mesmo ciclo que acabamos de ver se encerrar melancolicamente lá fora, apenas com sinal invertido.

Em pleno céu das suas pequenas vitórias emprestadas, os infindáveis discursos de Lula nos dão conta de que ele acredita piamente que chegamos ao “fim da História” com a derrota final da economia de mercado e a hegemonia do estatismo que, na sua versão macunaímica, assume a velha feição do populismo assistencialista de clientela.

Trata-se de algo que, possivelmente, virá a ser conhecido no futuro como o “Consenso de Caracas”, que acrescenta aos elementos tradicionais desse tipo de formulação “sociológica”, uma versão reciclada do racismo institucionalizado de que o mundo pensava ter se livrado com o fim do apartheid na África do Sul.

Mas, que ninguem se engane: é muito cedo, ainda, para se levar essa visão de mundo totalmente na piada.

Se ainda é prematuro afirmar a morte definitiva da economia de mercado, acho que existem sobradas razões para temer que Lula venha a estar certo num futuro não muito distante, visto que o seu fã americano e sua equipe econômica tomada de empréstimo ao Goldman Sachs seguem enchendo a bola das mesmas corporações gigantes que detonaram a economia mundial, enquanto faz discursos ôcos contra elas. Esse comportamento põe em cena uma seríssima ameaça de que os Estados Unidos, desde sempre o unico baluarte do capitalismo genuinamente democrático, estejam começando uma deriva sem retorno em direção ao estágio que antecede a morte de qualquer democracia, que são o corporativismo e o “capitalismo de camaradagem”, aquele velho conhecido nosso no qual as amizades certas, e não o esforço individual, é que são o principal fator de sucesso.

luliobama 1

Não é dificil entender a mutua atração de Lula e Obama. Eles têm muito de parecidos. Descontadas as diferenças na definição do que seja esquerda e direita nos Estados Unidos e no Brasil, e levando-se em conta que o carimbo “De Esquerda”, independentemente de seu significado real, tem, aqui e lá, o efeito mágico de anular a capacidade crítica de uma boa metade da população, aí incluida a quase totalidade da imprensa, esses dois mestres da intuição lançam mão dele e governam como os violinistas, segurando o instrumento com a mão esquerda mas tocando com a direita e negando com interminável palavrório vazio e técnicas de animador de auditório aquilo que fazem na prática.

O recurso preferido dos políticos mal intencionados é a critica destrutiva com viés generalizante, desacompanhada da avaliação prévia da alternativa para a situação que se quer revogar. Trata-se de um habito fortemente arraigado entre os latinos, aliás. Da educada França ao mais iletrado grotão latino-americano, costumamos destruir aquilo que temos antes de sabermos o que vamos por no lugar.

lenin

Basta um discurso cheio de indignação e pronto! Lá vão todos os babacas para a rua apedrejar “isto que está aí” para, ao fim do comício, se verem, atônitos, nas mãos de coisa pior. De revolução em revolução, perdemos, todos, as referências do passado antes que tivessemos parado para pensar no futuro, passando das mãos dos reis para as mãos dos imperadores, das destes para as dos caudilhos,  depois para as dos ditadores, as dos governos autoritários e assim por diante.

Trocamos de exploradores, substituimos a nobreza pelo funcionalismo, mas estamos sempre no ultimo degrau da escala das liberdades efetivamente praticadas em partes mais previdentes do planeta num determinado momento histórico. Tão perdidos, desorientados e acostumados ao abuso que perdemos a capacidade de nos indignar e já não sabemos sequer a que temos direito de aspirar em matéria de direitos e liberdades civis.

É o que estamos começando a fazer mais uma vez.

O capitalismo americano foi à rasca, arrastando o mundo consigo, porque o país abriu mão do seu tradicional aparato regulatório pró-mercado, apoiado na legislação anti-truste que punha limites à concentração da propriedade e garantia a competição mais acirrada possivel dentro de cada setor da economia, e passou a permitir a competição sem limites que leva ao crescimento desmesurado das grandes corporações até que alcancem o estágio do monopólio e ao aumento exponencial do seu poder de lobby e de corrupção.

Disso resultou o abandono progressivo das políticas pró-mercado (anti-truste) e sua substituição por medidas pró-empresas articuladas em função de relações pouco claras entre políticos avidos de recursos para financiar seus planos de poder e empresas dispostas a fornecê-los em troca de vantagens regulatórias e negócios bilionários obtidos no tapetão. Foi assim, e não vencendo competidores em disputas honestas, que certas empresas se tornaram “grandes demais para quebrar”, criando castas de privilegiados que não sofrem nas crises e ainda se aproveitam delas para aumentar seus privilégios.

Eis aí o que cria um elo de identificação entre a elite de Brasília e os poderosos de Wall Street, que vêm seus salários crescer quando os do resto do país diminuem embora sejam eles os grandes fabricantes de crises, respectivamente no Brasil e nos Estados Unidos.

O resumo dos fatos é que os Estados Unidos estão percorrrendo, por cima, o caminho para o “capitalismo de camaradagem” que o resto do mundo, em especial os latino-americanos, percorreu por baixo. E isto tem servido de pretexto para o “revival” mundial do estatismo com que o nosso Lula tanto se regozija.

magica

A maneira de reverter esse processo não é, entretanto, com menos economia de mercado, mais estatização (com todo o poder a empresas gigantes cujos numeros a ninguém é permitido olhar) e mais jogo casado entre empresários de araque e políticos com poder de alterar as regras do jogo como este a que assistimos recentemente na área de telefonia, criando fontes eternas de financiamento de projetos de poder.

É justamente o contrário: o poder de intervenção do Estado tem de ser exercido para criar mais mercado, ou seja, mais concorrência, e para por limites legais para o crescimento das empresas. É isso que divide e reduz a concentração do poder econômico e, em consequência, a sua influência sobre a política, sempre conseguida por caminhos tortos.

O eleitor brasileiro está sendo enganado mais uma vez.

“Nem a esquerda desonesta, nem a direita troglodita!”

“Nem monopólios estatais,  nem monopólios privados!”

“Por uma política pró-mercado e pelo fim das mumunhas e manipulações pró-empresas!”

“Pela proteção da concorrência e pelo fim da tramóia regulatória e do jogo de cooptação!”

“Por uma lei e uma polícia para todos e não só para os inimigos!”

Os “pelas” e “por umas” são só uma provocaçãozinha a que não pude resistir. Mas o que está aí são alguns dos pontos-chave para informar um verdadeiro discurso de oposição no Brasil.

Ja apanhamos o suficiente para saber que a unica coisa pior que a propriedade privada dos meios de produção regulamentada pelo Estado, é a propriedade estatal dos meios de produção sem regulamentação nenhuma criando empresários de fachada para garantir reservas estratégicas de dinheiro para eleições (e o mais…).

CORRUP~1

Temos tido provas diárias, nos ultimos sete anos, de que não existe lado são num sistema podre. Dinheiro demais corrompe. Poder demais corrompe. Os dois juntos corrompem absolutamente. E o que a “era PT” nos prova é que qualquer um que chegar a uma distância suficiente dessas máquinas de corromper, será corrompido.

O capitalismo fora dos Estados Unidos sempre esteve preso nesse circulo vicioso: quanto mais o sucesso economico depender das relações políticas e quanto menos o esforço individual e a competência fizerem diferença, mais corrupto será o sistema e menos apoio publico ele terá. E quanto menos apoio publico ele tiver, mais a elite política ocupará espaço na economia, aumentando o seu poder de distribuir favores e desfavores e, com isso, de se perpetuar no poder.

Agora os Estados Unidos tambem flertam perigosamente com a distorção que está na raiz de todos os micos que pagamos. Mas isso não justifica que afundemos ainda mais no brejo que já conhecemos. Só políticas que apontem na direção de reduzir a capacidade de corromper dessas duas máquinas de corrupção – o dinheiro e o poder político – podem sanear o sistema e melhorar a vida do povo, que é quem paga pelos abusos das duas.

Se não trabalharmos para criar um sistema econômico baseado no mérito, que possa ser apoiado por pessoas honestas, continuaremos eternamente assistindo ao achincalhamento do trabalho sério e ao triunfo do crime sem castigo.

(Na seção De Outros Autores estou arquivando o artigo “O Capitalismo depois da crise”, de Luigi Zingales, que inspirou parte deste acima. É enorme. Mas me parece tão importante e bem fundamentado que tive a pachorra de traduzí-lo para os leitores do Vespeiro).

dna $

Saudação ao fim do voto ideológico

29 de setembro de 2009 § 1 comentário

cego fila

Na semana passada, quando andou comemorando “a primeira eleição no Brasil sem os trogloditas da direita” (mesmo porque a maioria deles está ocupada em apoiar o governo Lula que, em troca, os tem salvo da polícia, e vice-versa) nosso presidente disse que “o grande desafio desta eleição será o futuro; quem vai fazer a melhor proposta de futuro para este país”.

É verdade (até ele as diz, quando isso é inevitavel…).

O nível de escracho que Lula “tornou normal” nos arraiais políticos brasileiros fez, pelo fim das ideologias no Brasil, com 20 anos de atraso, o que a Queda do Muro de Berlin não tinha conseguido fazer.  Sua efusiva confraternização com José Sarney e Fernando Collor de Mello foi o marco do definitivo degredo da ética para fora do território petista. A partir de então, passou a ser oficial: nada diferencia os bandalhos assumidos de cada lado do antigo espectro ideológico; todos eles são igualmente nocivos à promoção do Brasil para uma próxima etapa de desenvolvimento sustentado.

E isso abre novas e ricas possibilidades em matéria de eleições. 

Sim, porque o voto ideológico é, antes de mais nada, um voto burro; um voto que fecha os olhos aos dados da realidade presente, emitido por um eleitor que, ao abrir mão, deliberadamente, do seu senso crítico, torna-se surdo a qualquer argumento racional. A ideologia é uma espécie de suborno moral que, do ponto de vista prático, produz no contingente de eleitores afetado por ela o mesmo efeito que o suborno assistencialista produz no voto do miserável: torna-o cativo, independente da avaliação do desempenho do partido, do político ou da administração que o recebe.

politburo

O voto ideológico, assim como o voto subornado, são votos reacionários. Um espontâneo, outro forçado, são votos referidos ao passado que se propõem barrar o avanço para o futuro.

Para cumprir o papel essencial que tem nas democracias, de instrumento de pressão dos representados sobre os representantes, de parteiro do novo e arauto do futuro, o voto tem, por definição, de ser livre, cambiante, errático, dócil aos acontecimentos do momento.

A bandalheira petista teve, portanto, pelo menos esse lado positivo: conquanto Lula tenha aprisionado mais eleitores do que nunca no redil assistencialista, o que compromete, temo que irremediavelmente, a próxima eleição, ao menos libertou o voto ideológico do contingente distorsivo dos votos acríticos.

Considerando-se que o voto subornado tende a ser estéril, durando apenas enquanto durar o suborno, e que o voto ideológico libertado tende a ser fértil, multiplicando-se em função do maior poder de proselitismo dos seus detentores, podemos nos agarrar à ideia otimista de que, do médio para o longo prazo, haverá melhora na qualidade das nossas eleições futuras.

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