A ditadura saiu do armário

24 de agosto de 2022 § 10 Comentários

A custa de descargas irreprimíveis de fel a dupla global conseguiu a duras penas manter sem rugir o seu tantas vezes confessado ódio ao entrevistado na noite de anteontem o que, dado o retrospecto e as condições vigentes em outras dimensões deste país indigente de qualquer traço de civilidade pode ser considerado um avanço, mesmo que apenas tácito. Já tivemos dias piores nessa matéria nos arraiais do moribundo jornalismo pátrio, como ainda temos no ambiente muito mais francamente tóxico do Supremo Tribunal Federal e dos abestados batedores de bumbo da sua “Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito” (14.197/2021).

Os números da audiência da Globo nos últimos quatro anos de desvarios, choro e ranger de dentes é o que explica mais esta “reforma gráfica” (da forma mas não do conteúdo) que tão veementemente nos fala das virtudes do “controle remoto” nas mãos do povo que é tudo que falta ao Brasil das instituições. 

Só quando ele puder “zapear” sumariamente para fora da “grade de audiência” os políticos, os servidores e os juízes que cruzarem a linha do decoro e do interesse público assim que ousarem faze-lo – vulgo democracia – este país terá conserto.

Qualquer dúvida que reste quanto ao Jair Bolsonaro menor e os pruridos que ele provoca na epiderme de cada um, a chaga purulenta da truculência do pequeno Putin do STF, que chantageia a Nação com a “bomba atômica” do estado de anomia espalhado das alturas da instituição que tomou de assalto resolve. Não ha mais como acusar o presidente – e não o primitivo ex-secretário de segurança e ex-advogado do crime organizado para quem democracia é uma questão de polícia – sem passar um recibo de assumida desonestidade e inimizade ao Brasil.

Em tudo o mais, a “entrevista” da Globo foi o de sempre: como culpar Bolsonaro pessoal e intransferivelmente por cada raio, cada rajada de vento e cada gota de chuva da tempestade planetária que cair sobre o Brasil. É um esforço que, a cada insistência, a cada torção de braço, a cada volta do parafuso torna-se mais patético e contraproducente pois a falta de munição real que essa obsessão denota – de par com o sucesso do tratamento que Paulo Guedes está dando aos estragos da tempestade comparado com os de todo o resto do mundo, que a matemática confirma, as bolsas de valores e os investidores internacionais festejam e é o que nos fala do presente e do futuro – são as credenciais que fazem o Jair Bolsonaro que age maior que o Jair Bolsonaro que fala.

A violência assumida dos três patetas do STF, de par com a covardia generalizada dos seus pares e dos supostos patrões de todos eles no Legislativo, mais a morte do jornalismo, tirou os democrafóbicos de 64 do armário. Cessou o chororô – como tudo o mais, transformado em mesada – contra a censura e as “prisões arbitrárias” dos “anos de chumbo”. Agora assumem-se abertamente como o que sempre foram. E é a desonestidade fundamental e agressiva deles que explica a resiliência política de Bolsonaro. Eles mesmos, já na porta de saída, não são suficientes nem para fazer transbordar para a cracolândia do entorno, mais uma criatura da “redemocratização”, o woodstockezinho do pátio da São Francisco.

A síndrome de imunodeficiência à violência ideológica que se tornou física no Brasil é, ainda, a que o PT plantou em seus 13 anos no poder e, para além de todas as outras considerações morais, deteve a marcha do país para o futuro e voltou a ser posta em causa nesta eleição a golpes de casuísmo explícito.

Goste do que tenha gostado no passado, ninguém pode afirmar sem dolo que não sabe que quando acaba o mandato dos bolsonaros, tudo que veio vai embora com eles, como manda o eleitor. E que quando Lula é apeado do poder ele deixa postes plantados, a educação pública destruída, a privada aparelhada, as estatais e outros componentes estratégicos da infraestrutura nacional ocupados e declarados “independentes” dos governos que vierem a ser eleitos, um Estado corrupto colonizado, a competição meritocrática na economia privada subvertida, os bandidos prendendo a polícia e “polícias políticas” instrumentalizadas para espionar com minucia chinesa conversas íntimas dos “inimigos do Estado”, além de um STF recheado de advogadozinhos de porta de cadeia de passado mais que suspeito e futuro cada dia mais certo a serviço de pulverizar qualquer sombra de certeza jurídica, conflagrar a Nação e inviabilizar a ferro, lama e fogo, qualquer país que os brasileiros decidam ter no voto que não seja “o seu”.

Se assumem esse grau de violência e ameaçam criminalizar até o pendão verde-e-amarelo na saída da porta arrombada da cadeia estando ainda na oposição e minoritários em todas as instâncias de representação eleitas pelo País Real, imagine-se o que fariam com o Tesouro Nacional (e possivelmente mais o de São Paulo), as Forças Armadas e todo o poder do Estado nas mãos dos banqueiros do Foro de São Paulo que tomou a América Latina de assalto num país que, para além das exceções heróicas, está inteiramente desprovido de imprensa.

Porque tudo isso me dá nojo

2 de agosto de 2022 § 15 Comentários

Investigando o assassinato de Anselmo Becheli Santa Fausta, o “Cara Preta” em dezembro passado, o Denarc chegou ao contador de confiança da família da Silva, João Muniz Leite, que fez as declarações de renda de Lula, a quem já servia havia alguns anos, entre 2013 e 2016 e a favor de quem depôs em pelo menos dois processos da Lava-Jato até 2019. 

Os delegados de narcóticos descobriram que Muniz e sua esposa “compraram bilhetes premiados de loterias federais por valores maiores que os prêmios a que faziam jus 55 vezes somente no ano de 2021” para “lavar” o dinheiro sujo de “Cara Preta”, um dos principais fornecedores de drogas do PCC. Tudo isso a partir do mesmo prédio na rua Cunha Gago 700, em Pinheiros, sede de seis de suas “empresas”, que Muniz divide com ninguém menos que Lulinha, o ex-primeiro filho, que mantem lá três das empresas que, a partir do posto de zelador do zoológico de São Paulo, construiu durante as presidências de seu pai e de sua sucessora: a FFK Participações, a BR4 Participações e a G4 Entretenimento.

Com o dinheiro assim esquentado “Cara Preta” comprou a UPBus, “empresa de transporte público que mantem contratos de R$ 600 milhões com a prefeitura de São Paulo para operar 13 linhas de ônibus na zona Leste”, em sociedade com cinco membros da cúpula do PCC e 18 de seus familiares. São eles Silvio Luiz Ferreira, o “Cebola”, Claudio Marques de Almeida, o “Django”, Decio Gouveia Luis, o “Português”, Alexandre Salles Brito, o “Xandi”, e Anisio Amaral da Silva, o “Viu”. 

Em razão disso o Denarc e o Ministério Público pediram o arresto dos bens de Muniz em 2 de junho passado, que foi negado pela justiça.

As “empresas de transporte público”, como se recorda, são o “ramo de negócios legais” mais tradicional do PCC. Foi advogando para uma delas que Alexandre de Moraes e senhora saltaram para o estrelato. 

Em maio de 2006, recorde-se, o PCC “tocou o terror” contra São Paulo. Saiu assassinando policiais e agentes públicos civis a esmo nas ruas para demover Geraldo Alckmin, que então ainda era o governador que repudiava ladrões, batia de frente com o crime organizado e estava distribuindo os líderes da facção por presídios federais de segurança máxima blindados para telefonia celular nos confins do Brasil. 

Ao fim de 564 assassinatos foi, porém, Geraldo Alckmin quem se rendeu. Procurando um interlocutor com acesso a ele para negociar a trégua com “Marcola”, o chefão supremo do PCC, foi-lhe indicado o escritório dos Moraes que defendera a Translurb, uma UPBus da época, em 123 processos…

O resto, na carreira do nobre causídico, é história…

Por três vezes os representantes eleitos do povo brasileiro votaram pelo acoplamento de uma impressora nas máquinas de votar brasileiras. Por três vezes os ministros eleitos exclusivamente pelo Lula para o STF revogaram essa decisão alegando motivos fúteis. Depois de anular três instâncias do Judiciário brasileiro para tirar Lula da cadeia e colocá-lo na corrida presidencial, “as últimas” de Alexandre de Moraes e seus endossadores dentro e fora do STF foram censurar, isto é, proibir que se mencione as descobertas do Denarc que convenceram o Ministério Público e, na sequência, tentar criminalizar o ato de Jair Bolsonaro de ler trechos do minucioso relatório da Polícia Federal brasileira demonstrando o contrário com fatos para os mesmos embaixadores a quem Edson Fachin, no papel de presidente do TSE, garantira, semanas antes, que as urnas eleitorais brasileiras são inexpugnáveis e que o presidente eleito do Brasil diz o contrário porque é louco e prepara um golpe.

Nem Alexandre de Moraes nem, muito menos, os donos do banco Itau e os outros brasileiros, oligarcas ou não, que a eles se juntaram num “manifesto pela democracia” apresentado como reação ao gesto do presidente, aceita a palavra de um técnico da confiança do ministro Barroso como garantia de que foi paga uma divida que lhes fosse devida, nem que seja de 10 tostões. Os credores, os devedores, os bancos, e a própria justiça de que o STF é a cúpula só aceitam um comprovante impresso como prova de que a transação de fato ocorreu seguida, se preciso for, da “prova final” da conversão em notas de reais dos termos nele constantes. 

Assim, pra não dizer que não falei de flores, vamos aceitar só metade ou menos da definição de “direito”. Esqueça o que é certo e o que é justo. Fiquemos só com a noção de “ordenamento normativo”; de “regulamentação das relações fundamentais para a convivência  e a sobrevivência do grupo social” de Norberto Bobbio no seu Dicionário de Política. Se o Brasil estivesse impondo à risca a merda de constituição que tem, poderia ser chamado um “estado de direito”. Não um “estado democrático de direito” porque a nossa constituição não é democrática, nem no conteúdo, que reduz a pó-de-traque o povo que as constituições democráticas tratam de por no poder, nem na forma como foi empurrada goela abaixo da massa ignara dos habitantes do favelão nacional mas, assim mesmo, um “estado de direito”, ainda que de um mau direito.

Mas é o contrário disso que está acontecendo. Nem com a merda da constituição brasileira o brasileiro pode contar mais. Não valem nada as leis votadas pelos representantes eleitos do povo nem no passado, nem no presente, nem no futuro. Não vale nada nenhum dos direitos do cidadão brasileiro que elas expressamente garantem. Não vale mais nem mesmo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Agora, dispensado na largada o “devido processo” que, quando há, é “secreto” (!!!), só vale o que der na tampa de Alexandre de Moraes, o nosso Pequeno Putin, cujos atos estão previamente garantidos pelos seus “endossadores” de plantão no STF e fora dele, aí incluída a imprensa do “mas” na sua inglória luta contra os fatos, não porque ele esteja sendo justo ou cumprindo o papel que lhe prescrevem a lei e a constituição, mas só porque é o detentor da “bomba atômica” da ultima palavra do poder da república que tem a prerrogativa de cassar a liberdade de quem viola a lei e passou a considerar que a lei é ele mesmo, em pessoa, e mais nada.

Sentimento é sentimento. Fato é fato. Eu admito, embora discorde porque a consequência é a que é, quem dá uma de avestruz e, diante de tudo que está aí, diz: “eu não voto no Bolsonaro nem a pau porque não vou com a cara dele”. Mas tenho nojo de quem diz “não voto no Bolsonaro para salvar a democracia” elegendo o Lula e esse “estado democrático de direito” do Alexandre de Moraes.

Eleições democráticas x eleições brasileiras – 2

24 de junho de 2022 § 2 Comentários

O Brasil discute apaixonadamente a insegurança das urnas e tem boas razões para isso. Ninguém recheia pacientemente um supremo tribunal com militantes, anula irreversivelmente as três instâncias do Poder Judiciário abaixo dele resgatando um criminoso condenado para enfia-lo diretamente na eleição e mata a pau o Poder Legislativo inteiro ao derrubar três votações democráticas maciças dos representantes eleitos do povo mandando imprimir um comprovante do voto alegando razões futeis porque esteja bem intencionado. Tirar da eleição o caráter de argumento indiscutível da pacificação nacional que a transparência da contagem dos votos lhe confere em todas as democracias do mundo certamente não vale os caraminguás que se quer “economizar” negando ao eleitorado brasileiro um comprovante do voto que ele possa ler.

Mesmo assim, na merda em que estamos a questão da urna chove no encharcado!

A “fraude”, quando “aparece”, verdadeira ou “falsa”, consiste na pessoa votar num nome e seu voto ser transferido para outro pela máquina. Mas o fato é que o otário do eleitor brasileiro vota numa pessoa e elege outra sem o concurso de qualquer hacker. No sistema do voto proporcional essa transferência fraudulenta já é operada PELA LEI. Só 15 a 20% da fauna que habita os legislativos brasileiros, conforme lembrou artigo publicado ontem por José Serra em O Estado de S. Paulo, foi eleita por votos em sua pessoa. 80 a 85% dela ganhou o poder de ditar-nos leis “de carona”.

Hoje essa fraude sistematizada está delimitada ao interior de cada “partido político” criado e sustentado pelo Estado. Até 2020 rolava até entre partidos diferentes, desde que estivessem mancomunados numa mesma “coligação”.

O resultado é esse que está aí. O eleitor não sabe quem elegeu e o eleito não deve lealdade a ninguém senão ao “dono” do partido em que se homiziou. E sua única missão na vida passa a ser a de defender o sistema sem o qual jamais se elegeria e reelegeria, os menos ruins para ter privilégios vitalícios e hereditários às custas do favelão nacional, os mais iguais à média para assaltá-lo impunemente. 

E enquanto rasga-se assim, já não digo a nossa constituição drogada e prostituída, coitada, mas até a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, a imprensa nacional das redações franqueadas aos “jornalistas” formados no “sistema educacional” criado pela fauna dos 15 a 85%, dança em frenesi a dança do “estado democrático de direito” em torno da fogueira da ignorância (e não só da ignorância) como um bando de anacrônicos pajés de uma tribo institucionalmente primitiva.

O resto da tragédia nacional é mera consequência.

O lulopetismo nunca entregou o poder perdido no voto. Parte sempre para a chantagem. Trata de destruir a economia e tornar o país ingovernável até que, sufocado pela miséria multiplicada, pela violência e pelo desespero resultantes o eleitorado aceite pagar-lhe o resgate da devolução ao poder. A diferença é que, até Bolsonaro, alguma imprensa resistia-lhe…

A “vantagem” de quem destrói sobre quem constrói é proverbial. Daí terem tomado os milênios todos do primeiro homem até hoje para que tão poucas democracias se tenham consolidado no mundo. Os bens imateriais que só elas provêm não podem ser “entregues”, nem direta, nem imediatamente. São conquistas indiretas e progressivas do controle do poder de fazer leis pelos próprios interessados nelas que dependem, como toda obra humana, de longos e intrincados processos de construção coletiva aprendidos por ensaio e erro sob a pressão das intempéries formadas nos bolsões onde resiste com unhas e dentes a multimilenar privilegiatura, seja no próprio país, seja nos inúmeros clusters ditatoriais ou totalitários que subsistem na cena planetária. Forças que hoje atuam com potência redobrada pela internet que deu materialidade ao internacionalismo em que só o socialismo antidemocrático investiu e se especializou desde que nasceu.

Só no campo do Brasil do pós-lulismo houve uma mudança “material” de qualidade na recuperação do direito de trabalhar em paz que veio como corolário da reconstituição do direito de propriedade. No vasto favelão nacional houve, quando muito, alterações na quantidade da opressão exercida: o crime seguiu imperando como sempre, mas agora com a polícia formalmente proibida de entrar no território dele pelos supremos militantes, outro dado inacreditável dessa nossa nova “normalidade democrática”. 

E se eles já se sentem livres para agir assim e para “prender e arrebentar” quem lhes ofereça resistência estando fora do poder, imagine dentro, e com todas as condições de reconstituir o pleno sistema de seleção negativa que se vinha tentando desmontar na educação, no serviço público, nas forças de segurança e no resto das instituições do nosso Estado onipresente.

A inflação da soma dos efeitos dos lockdowns, da guerra de Putin e dos trilhões de dólares “grátis” com que Joe Biden engraxou sua eleição que ameaça derrubar todos os governos que estão no poder, independentemente de serem “de esquerda” ou “de direita”, é apenas um fenômeno episódico. Nos países com sorte a tempestade chega para enfraquecer governos antidemocráticos. Nos sem sorte…

A ameaça real é, no entanto, muito mais profunda e resiliente. Nem a democracia americana está incólume ao ódio crescente aos monopólios criados a pretexto de enfrentar os dos “capitalismos de estado” que hoje todo socialista doméstico trata de cooptar e ao achinesamento dos salários e com eles, dos direitos civis que, eliminados os da escolha do patrão e do fornecedor, deixam de existir.

Mesmo as democracias mais sólidas deixaram o inimigo entrar pela porta de saída e agora ninguém sabe como pô-los para fora.

Nesse mundo em que resta tão pouco em que se agarrar, a que distância está este Brasil monocrático, indigente de qualquer memória de cidadania, do ponto de não retorno?

Essa é a pergunta que deveria orientar esta eleição, se conseguíssemos voltar a pautá-la pela razão.

Fechados para o mundo com sentido

7 de dezembro de 2021 § 14 Comentários

“Eu sou se você não for; deixo de ser se você passar a ser”…

O efeito mais deletério dessa fórmula do “raciocínio” binário orientado pelo ódio a que as facções mais barulhentas do Brasil estão reduzidas, para além da insuportável chatice em que ela tudo transforma, é que fecha ainda mais as portas às referências do mundo com sentido a um país cujo maior drama sempre foi a falta de referências civilizatórias.

Tinha só 17 anos a descoberta de Cabral quando Martinho Lutero afixou na porta da igreja, com risco da própria vida, 95 das provas de que a “narrativa” que Roma fazia da bíblia tinha por objetivo transformar a mensagem de Cristo num instrumento de terror a serviço de um sistema de poder e não salvar almas. E quando uma parcela da humanidade anunciou o seu compromisso com a verdade a ser conquistada dando a todo mundo o direito de aprender a ler para ir diretamente à fonte em vez de acreditar em versões, como queria o bom frade alemão, os “Soldados de Cristo” de Ignácio de Loyola renovaram o seu compromisso com a mentira, mas agora armada e jurada a verdade de morte (1534).

Pois foi a estes, e à sua “contra-reforma” pela censura e pela guerra aberta à ciência, que a coroa portuguesa entregou o monopólio da (des)educação de seus súditos d’aquém e d’além mar desde o nascimento da nação brasileira, o que fez do método jesuíta de dissecar e torturar o senso comum e a lógica para servir ao dogma uma segunda natureza de raizes tão profundas que tornou-se “orgânica”, ou seja, não consciente, no brasileiro padrão. 

Esse nosso modo deturpado de estruturar o pensamento não se alterou significativamente com a substituição do dogma “religioso” pelo “materialista dialético” ao longo da transição do Império para a República. Um é filho do outro, aliás, passando pela transição jacobina. É, desde o início, essa forma especialmente subversiva de “cientifização” da ignorância que a torna argumentada e convicta, capaz de por a verdade a serviço da mentira e a lei a serviço do crime (confira neste link como funciona essa arte jesuíta), o fundamento básico da hegemonia da privilegiatura que sempre foi dona do Estado brasileiro.

Ao escorregar do “Não sou conduzido, conduzo” dos seus fundadores para o “Não conduzo, sou conduzido” dos seus herdeiros, a imprensa democrática deixou-se docemente constranger a esse padrão binário dos inimigos que sempre combateu, fato que pôs na sua hora mais escura a resistência civilizatória republicana que se vinha entrincheirando em parte dela desde a penúltima derrota, depois de Tiradentes, que foi o golpe positivista de 15 de novembro de 1889.

E assim chegamos às profundezas em que nos encontramos.

Na farsa brasileira tem gente que vota em Lula porque ele não é Bolsonaro, tem gente que vota em Bolsonaro porque ele não é Lula, tem gente que vota em Sérgio Moro ou em João Dória porque eles não são nenhum dos dois. Mas ninguém vota nem em Lula, nem em Bolsonaro, nem em Moro, nem em Dória pelas reformas que propõem porque nenhum deles propõe reforma alguma. Para cada qual vai o Brasil muito bem, obrigado, no mais perfeito “estado democrático de direito”, e só não desatola se entregar-se a qualquer dos outros candidatos senão ele mesmo.

Para os nossos salvadores da pátria e seus jornais o auge do delírio libertário está em ousar propor as alternativas “com” ou “sem” reeleição, dependendo, é claro, do que pleiteia cada um desses “pensadores” do governo do povo, pelo povo e para o povo, o 1º ou o 2º mandato; “eleições primárias” ou não, desde que a “escolha” fique entre este ou aquele candidato dos caciques; orçamentos “secretos” ou “transparentes” desde que as torneiras permaneçam nas mãos da privilegiatura, vedada a ferro e fogo qualquer participação de quem paga a conta nas decisões do quanto pagar e a quem, primeiro no município, depois no estado e só por ultimo na União. “Democrático” ou “antidemocrático” é coisa que, para essa gente, define-se pelo ator e não pelo ato; “ditadura” ou “estado de direito” por quem é preso e não por quem manda prender, com base em que lei e mediante qual processo; a eficácia da vacinação para controlar pandemias por quem a afirmou primeiro e não pelo esvaziamento das UTIs ou mesmo pela cobertura recorde mundial de vacinados; a assistência à miséria leva ao Prêmio Nobel ou à condenação por “genocídio” dependendo de quem manda abrir o cofre…

Por esse labirinto da estupidez feito de espelhos invertidos e doses cavalares de hipocrisia, entre “Morras!”, “negacionismos” e “Isca, Alexandre!”s, empurram os nossos “candidatos” e os seus jornais o Brasil para apaixonadas discussões sobre o nada, capazes todos e cada um deles de afirmar qualquer absurdo e estabacar qualquer calibre de mentira de estralo bem no meio da tua cara só porque o outro afirmou o contrário.

Mas nem um único – da 1a, da 2a ou da 3a “vias” – tem qualquer “via” alternativa a propor ao Brasil, o que é nada menos que trágico porque, com a democracia inteira por construir, do primeiro ao último degrau do conceito de “representação” – que ainda não galgamos nenhum – este é dos poucos países que ainda têm o século 20 inteiro de problemas com soluções testadas e aprovadas por todo o mundo livre para avançar “no mole”, só revogando a privilegiatura e entregando poder ao povo, antes de ter de se haver com os problemas ainda sem solução do século 21.

Um desperdício da p…!

Porque Sérgio Moro é só mais um

11 de novembro de 2021 § 44 Comentários

Sérgio Moro lançou-se para presidente. Estava muito bem treinado! Fez a lição de casa com a mesma aplicação com que substanciava suas sentenças na Lava Jato. Nem o STF conseguiu contestá-las. Teve de anula-las no tapetão mesmo, como virou hábito.

O juiz, agora político, teve uma palavrinha pra cada público. Usou todas as do dramalhão brasileiro e numa ordem quase perfeita. União. Verdade. Ciência. Justiça. Respeito à diversidade. Proteção à família. Liberdade de crença. Liberdade de expressão. Liberdade de imprensa. Livre mercado. Livre iniciativa. Menos governo. Menos imposto. Privatização. Abertura da economia. Distribuição de renda. Erradicação da pobreza e não apenas com assistencialismo; com educação. Combate à corrupção. Combate à corrupção. Combate à corrupção. Florestas em pé. Economia verde. Fim dos privilégios…

Chegou quase a empolgar finalmente ouvir um candidato com sonhos em vez de só com um inimigo a aniquilar.

Não duvido que seja honesto. Mais bem intencionado que muitos. Foi o único que teve coragem de enfrentar o grande crime.

Faltou só alguma palavrinha pro STF (Moro é louco mas não rasga dinheiro)…

Mas de boas intenções o inferno está cheio.

Estavam lá todos os “QUAIS” … e nenhum dos “COMOS”:

Para erradicar a pobreza, a “criação de uma Força Tarefa de Erradicação da Pobreza”. Mais uma…

Para erradicar a corrupção a “criação de uma Coordenadoria Nacional Anticorrupção com juízes vocacionados”. Mais uma…

“Podem confiar que vou fazer sempre a coisa certa”.

Ãnhãn…

Sergio Moro promete ser o “guardião do interesse do povo” mas não nos dá nenhuma dica de como pretende aferir esse interesse.

É aí que está o “X”!

Só tem um jeito disso virar verdade. E ele, que estudou nos Estados Unidos sabe bem qual é: dar ao povo, o tempo todo, antes, durante e depois de cada eleição, o poder de conferir a qualquer hora se o seu interesse está ou não sendo guardado, e botar pra fora imediatamente quem o estiver violentando.

Aí sim!

Chama-se DEMOCRACIA.

Ela passa a existir quando o povo ganha armas decisivas para mandar nos governantes. Quando o emprego deles passa a depender dele. Não muda a condição humana mas definitivamente encurta de forma drástica e radical o espaço para a tapeação, a contemporização, a procrastinação, a corrupção.

O Estado e os impostos ficam do tamanho que a gente quiser. Põem-se pra fora os ladrõezinhos antes que se tornem ladrõezões. Os privilégios acabam porque quem os sustenta passa a ter o poder de negar-se a pagar por eles. O crime murcha porque juiz “soltão” cai fora e os roubados e barbarizados passam a fazer a lei penal. A educação passa a produzir conhecimento e autonomia em vez de ignorância e dependência, fornecendo condição a cada um de prover o seu sustento e cuidar da própria saude em vez de acostumar todo mundo, desde pequenininho, a comer no cocho do governo, se e quando as “excelências” quiserem. O cara eleito pode até ser mauzinho que se ele passar da conta você põe ele no lixo. Ou em cana. Pra evitar isso até mauzinho age como bonzinho.

Chega de rezar pra deus pra próxima vida ser melhor que esta! Tudo isso, repito, não muda a condição humana, mas disciplina ela beeem, aqui e agora. Pela média. É quanto basta pra você ficar o país mais rico do mundo, longe do segundo lugar, e ir lamentar a condição humana lá de cima, longe do horror da impotência absoluta. Parece pouco mas comparado a quem nem isso tem, fica com cara de paraíso. Esses pra onde todos os fugidos dos salvadores de pátrias querem sempre correr.

A reforma que abre as portas a todas as outras; a reforma que inicia a reforma permanente, como é o viver; a única reforma que realmente reformata as coisas é a reforma politica, a reforma eleitoral. TODO O PODER, desde cada candidatura, TEM DE EMANAR DO POVO. De “partidos” com dono, criados e mantidos pelo Estado, só vai vir mais Estado com dono. Pra sermos nós os donos do Estado, a decidirmos qual o limite da competição, o tamanho máximo do poder político e do poder econômico, só armando o povo de primárias comandadas por ele próprio, recall, referendo e iniciativa de lei e da propriedade permanente de todos os mandatos de todos os “servidores públicos”. Aí tudo passa a referir-se ao povo e até a imprensa passa a defender a do povo!

É tão simples quanto a vida que todos nós, que não temos empregos eternos, sempre conhecemos.

O Brasil deve muito a Sérgio Moro. Mas o que ele está propondo é chegar à democracia sem passar pela democracia. A menos que se emende, não acredite. Isso não existe.

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