Por um Brasil sem fronteiras
26 de julho de 2011 § 1 comentário
Vem ai o programa Brasil Sem Fronteiras
O governo vai oferecer 75 mil bolsas nas 30 melhores universidades do mundo para graduados, pós graduados e pós doutores nas áreas de engenharia, matemática, biologia, física, química e ciências médicas. E está pedindo aos empresários que financiem mais 25 mil.
Eu acho que ela pediu baixo. Os barões do BNDES têm a obrigação de financiar no mínimo mais 100 mil bolsas, para mais que dobrar o programa bancado pelo governo.
Como Miguel Nicolelis fez ver à presidente em sua recente visita ao Brasil, a crise fez com que sobrassem cérebros desempregados no mundo rico. “Ha 4 mil engenheiros da Nasa desempregados”, foi o exemplo que ele deu. “Temos que oferecer carreiras nas nossas universidades para essa gente”.
Dilma comprou a idéia no ato. “Vamos ofecer a eles um contrato de cinco anos renováveis por mais cinco”.
Na verdade, já tinha comprado antes. Esse plano, que ela esboçou vagamente meses atras, foi objeto da materia mais entusiasmada e esperançosa que escrevi no Vespeiro (aqui) desde o início da Era PT.
Dilma sabe o tamanho do problema em que está se metendo e mesmo assim insiste nesse plano: “Não vamos tirar a vaga de nenhum professor brasileiro”.
O jeito vai ser, mesmo, montar outra estrutura por cima da existente. Como petista que é ela sabe exatamente o que foi feito das nossas universidades. Do jeito que o partido as ocupou, aparelhou e entregou à corporação dos servidores, não ha como nos livrarmos dos chupins que estão la dentro. Vamos ter de esperar que eles morram de velhos.
De modo que o jeito de não fazer com que o Brasil perca definitivamente o bonde da modernidade enquanto espera é usar a “solução arqueológica”, isto é, montar uma nova civilização viva por cima da que está morta.
A decisão que se esconde por baixo da disposição de recorrer a esse subterfugio é que me sugere que Dilma Roussef, filha e neta de professores universitários europeus, está firmemente decidida a por esse projeto em andamento.
Será, sem duvida, o maior legado que deixará para o Brasil. Se fizer isso bem feito e não fizer mais nada já terá feito muito.
Eu pertenço a uma família que passou os ultimos 136 anos apagando os incêndios ateados pela ignorância e pela exploração política da ignorância que foi sempre tão cuidadosamente cultivada neste país pelos portgueses, primeiro, e pelos seus descendentes, depois. E ao fim deste quase século e meio de lutas, posso afirmar que, de tudo que fizemos a única coisa que realmente deu frutos capazes de modificar para melhor a História do Brasil foi a criação da primeira universidade digna desse nome no país – a USP que Julio de Mesquita Filho e Armando de Salles Oliveira plantaram em São Paulo em 1936, recheada dos professores franceses que formaram, entre outras figuras de proa da cultura brasileira, Fernando Henrique Cardoso e muitos outros membros da elite que ajudou a formular o novo Brasil que ele inaugurou.
O único erro de Julio de Mesquita Filho, naquela altura, foi ter-se concentrado exclusivamente em professores franceses, com os quais foi transplantado diretamente para o centro formador da elite pensante brasileira o excesso de amor dos gauleses pelo Estado.
Apostando nas ciências exatas e nos centros de excelência que melhor as desenvolvem hoje, os Estados Unidos especialmente, Dilma pode estar plantando a semente que, uma geração mais adiante, poderá vir a corrigir esse desequilíbrio e redimir o Brasil.
Democracia é um subproduto da educação
21 de março de 2011 § 10 Comentários

De tudo de bom que a presidente Dilma Roussef disse a Claudia Safatle na entrevista que deu ao Valor na quinta-feira passada – e quase tudo que ela disse cabe nesse adjetivo – o melhor foi o seguinte:
“Acho fundamental o Brasil apostar na formação no exterior. Todos os países que deram um salto apostaram na formação de profissionais fora. Queremos isso nas ciências exatas – matemática, química, física, biologia e engenharia. Queremos parceria do governo americano (Obama chegaria dali a dois dias) em garantia de vagas nas melhores escolas. Nós damos a bolsa. Vamos buscar fazer isso não só nos Estados Unidos e de forma sistemática”.
Não é pouco para uma ex-guerrilheira que preside o governo de um partido que, até ha pouco, abraçava a ignorância como um dos seus mais caros valores e que tem na xenofobia uma de suas mais renitentes marcas registradas.
Tem havido muito barulho por nada (fora o sofrimento, o sangue derramado e a invariável frustração na obtenção dos resultados inicialmente visados), em torno das revoluções politicas. Esses espasmos de violência e de emoções em ebulição se prestam muito à mitificação pela literatura e pelo cinema mas, olhadas as coisas um pouco adiante dos primeiros arrancos de seus futuros mártires o que se vai encontrar é, invariavelmente, um opressor substituindo o outro e inaugurando uma nova dinastia a se sustentar no poder pela força.
Democracia mesmo – é o que a História confirma – é sempre um subproduto das revoluções educacionais.

Os pioneiros da Europa protestante, a democracia americana, a sua versão reeditada pelas reformas da Progressive Era, o Japão, os “tigres asiáticos”, onde quer que a democracia tenha plantado raízes sólidas, seja em processos mais longos de decantação cultural, seja em turn arounds artificialmente acelerados de longas tradições antidemocráticas, existe um pressuposto comum: a democracia se instala como subproduto de uma revolução educacional.
A primeira grande revolução educacional da era moderna foi o Protestantismo.
Quando Guttemberg, ao imprimir às centenas as bíblias que até então eram copiadas à mão e guardadas a sete chaves nas bibliotecas de uns poucos conventos, tornou acessível a todos aquilo que, na época, era tido como a fonte do conhecimento, o esquema de opressão montado pela Igreja e compartilhado pelas monarquias absolutistas em cima da falsificação de uma suposta “verdade revelada” começou a desabar.
Depois que Lutero “protestou” a fraude com argumentos (e não com opiniões), seus primeiros seguidores liberados para se apresentar como tal, na Inglaterra libertada de Roma pela libido insatisfeita de Henrique VIII, andavam pelo país, batendo de porta em porta, para ler a bíblia para a multidão analfabeta e deixar-lhes a mensagem subversiva:
“Não aceitem as verdades que vos chegam prontas! Aprendam a ler para poderem busca-la por si mesmos. Só a educação liberta!”

Era essa a essência da revolução de Lutero, que fez uma única exigência aos príncipes alemães interessados em se livrar do papa insuflando o Protestantismo: educação obrigatória e gratuita para todos, bancada pelo Estado.
Foi assim que nasceu o mundo moderno.
Libertada das fogueiras da Inquisição a inteligência, fertilizada pela experimentação, fez o mundo “renascer”. E o pensamento científico, desafiando a religião, redesenhou toda a realidade à nossa volta.
Depois disso nada mais foi como era antes.
A Inglaterra plantou o marco inicial submetendo o rei ao parlamento e o parlamento ao povo. E a sua extensão americana, tomando por base o novo Universo de corpos celestes em permanente movimento mantidos na harmonia de suas órbitas pela ação das forças e contra-forças da gravidade, descrito por Isaac Newton, desenhou a democracia de poderes independentes funcionando dentro de um regime de checks and balances e instituiu o esforço e o mérito individuais como únicos critérios de legitimação da riqueza e do poder que vem com ela.
A democracia moderna nasce, portanto, da primeira grande vitória do pensamento científico sobre a ideologia (religião), na virada do século 18 para o 19. E daí por diante, seus altos e baixos, seus progressos e retrocessos, estarão sempre ligados a esse embate.

Um século mais tarde ela passaria pela sua primeira crise profunda. Mesmo onde o novo regime não se tinha fixado, ele abalara mortalmente as monarquias sobreviventes. De tal modo que, nem as jovens democracias, nem essas monarquias periclitantes, estavam prontas para o terremoto que viria.
A desordenada transição da economia rural para a economia industrial e o processo descontrolado de urbanização que concentrou e colocou mais perto uma da outra a opulência e a miséria nas cidades, levaram, em todo o mundo, ao desmoronamento do ordenamento – ético e moral inclusive e principalmente – que servira à sociedade e à economia rurais.
Ao mesmo tempo a economia industrial estava aumentando para patamares nunca antes suspeitados a capacidade de acumulação de riqueza por particulares e, com ela, o poder de corrupção dos magnatas da nova era.
Não sobrou quase nada.
Com o privilégio sustentado pela corrupção voltando a reinar e a consequente desmoralização da democracia criou-se o caldo de cultura propício ao desenvolvimento de novos regimes de força.
E o século 20 nasceu com as revoluções políticas voltando a ensanguentar o mundo.

Esse processo de deformação não se deu com a mesma intensidade em toda a parte, porém. A democracia resistiu e, eventualmente, reformulou-se, onde ela tinha fundamentos na educação. E caiu aos pedaços onde – como em Portugal, por excelência – tinha sido fruto de transplantes tão artificiais quanto superficiais, feitos apenas para dar sobrevida às velhas oligarquias de sempre.
Mas ninguém passou incólume por ele. Nos Estados Unidos, foi dentro desse ambiente deletério que rolou, já no final do século 19, a primeira onda da revolução da gestão corporativa que tudo submetia à eficiência. As fusões e aquisições de empresas levaram a um grau inédito de concentração da riqueza e acumulação de capital e a corrupção foi ao nível do paroxismo.
Com o cidadão comum espremido entre os grandes monopólios e políticos corruptos que respondiam muito mais prontamente ao poder do dinheiro que aos interesses do seus representados, o país enfrentou o desafio de reescrever suas regras para a nova realidade.
A receita poderia ser seguida pelo Brasil que está hoje mais ou menos onde eles estavam nesse momento.
A legislação antitruste, estabelecendo a defesa da concorrência em nome do interesse do consumidor como um valor superior ao da eficiência para limitar o direito de crescer e ocupar espaços do capital, foi o primeiro marco dessa transformação. A conquista de ferramentas de democracia direta inspiradas no sistema suíço como as leis de inciativa popular, os referendos e o direito ao recall (impeachment) de qualquer funcionário eleito a qualquer momento, numa luta que durou quase 40 anos, acabou por restabelecer a legitimidade do sistema representativo e relançar a democracia americana para o seu período de apogeu (século 20).

Mas o pressuposto das reformas desse período, que ficou conhecido como a Progressive Era, foi, mais uma vez, uma profunda reforma educacional inspirada no chamado “movimento anti-intelectualista americano” que concentrou fortemente o ensino publico nas ciências exatas, plantou as bases da revolução tecnológica e projetou a economia americana para os patamares de hoje.
O Japão, destruído moral e materialmente ao fim da 2a Guerra Mundial, foi o próximo a embarcar nas asas da educação. Convencido de que tinham perdido a guerra para a ciência do inimigo, consciência que se tornou ainda mais aguda depois das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, o Japão se concentrou absolutamente na construção de um sistema de educação para a ciência, a tecnologia e a inovação. Nos meados dos anos 60 já era, saindo do zero, uma presença notável na competição mundial. Daí por diante, a pequena ilha, desprovida de tudo menos de gente com vontade e conhecimento, tornou-se a segunda maior economia do mundo.
Coreia do Sul e Taiwan, igualmente sem recursos naturais e ameaçadas pelas ditaduras de que se tinham desmembrado, seguiram-lhe os passos por caminhos semelhantes aos que Dilma prescreve para o Brasil. Entraram para o folclore local, aliás, os voos das sextas-feiras entre o Japão, a Coreia e Taiwan, em que cientistas e técnicos de alto nível das empresas japonesas embarcavam para trabalhar em empresas coreanas e chinesas que lhes pagavam, num fim de semana, mais do que ganhavam em casa na semana inteira para ensinar o que sabiam aos seus nacionais. Paralelamente, os governos desses países criaram extensos programas de bolsas de estudos mandando milhares de seus estudantes aprender no Ocidente.

A história é exatamente semelhante em todas as democracias construídas no século 20.
Onde elementos de democracia foram plantados artificialmente, sem a devida base educacional, balança-se ao sabor da sorte, menos quando calha de haver um governante letrado, com noções de história; mais quando calha de acontecer o contrário. Onde a educação foi o caminho, o sistema político é sólido. E as economias, então, nem se fala: não importam as riquezas naturais nem o tamanho das populações, elas são exatamente proporcionais à colocação desses países nas avaliações internacionais de desempenho de seus estudantes nas ciências exatas.
O mais formidável handicap do Brasil é sem duvida nenhuma este. Com a educação publica inteiramente aparelhada ideologicamente e o sistema voltado exclusivamente para os interesses corporativos que o parasitam, é sempre aí que despertam, com o ânimo aplastado, todos quantos sonham com um Brasil democrático e sem miséria.
Saber que a presidente da Republica é um destes e está disposta a derrubar essa barreira ainda que seja começando por formar uma nova geração de futuros professores onde quer que eles possam de fato aprender é altamente animador.

Japão é um milagre da educação
17 de março de 2011 § 1 comentário

Matéria do Financial Times publicada hoje (aqui), informa que vão faltar celulares, tablets, games e outros produtos eletrônicos em todo o mundo em função da tragédia que se abateu sobre o Japão. Pois a maior parte dos mais sensíveis componentes dos componentes internos que tornam inteligentes os equipamentos de alta tecnologia fabricados e montados pelo mundo afora são produzidos exclusivamente no Japão.
E quando digo componentes dos componentes, estou sendo literal. A Mitsubishi Gas Chemical tem uma fábrica em Fukushima que produz metade de todo o bismaleimidio-triazine, conhecido pela sigla BT, fabricado no mundo (a outra metade fica por conta de duas outras empresas japonesas, a Hitachi e a Sumitomo). A fábrica foi atingida e seriamente danificada pelo tsunami, não havendo previsão de quando poderá voltar a produzir. E o estoque de BT com as especificações do Mitsubishi existente hoje no mercado só dá para um mês e meio.
Acontece que o BT é a resina que recobre os chips de silício onde são impressos os circuitos microscópicos que tornam inteligentes os aparelhos que todos usamos hoje e fazem funcionar controles informatizados de vários tipos de industrias pelo mundo afora.

O Japão produz também 60% de todos os chips de silício consumidos no mundo. Mas o restante é produzido em Taiwan. É também principalmente em Taiwan que esses chips recebem os circuitos impressos. Mas o que os fixa um ao outro mantendo a necessária flexibilidade e aguentando o calor gerado pelo funcionamento desses semicondutores é a resina fabricada exclusivamente no Japão. Nenhum equipamento eletrônico hoje, fabricado onde quer que seja no mundo, pode prescindir desse componente.
Também não é possível reforçar a produção dos concorrentes da Mitsubishi para atender a emergência porque o BT que ela fabrica tem características diferentes das demais, incorporando tecnologia ainda mais moderna. Para substituir uns pelos outros, aparelhos como os celulares Nexus One, da Google, o novo Boeing 787 Dreamliner, prestes a ser lançado, games da Qualcomm e outros teriam de ser redesenhados.
O mundo hoje festeja marcas de fantasia e operações de marketing como se fossem elas as maravilhas que a tecnologia proporciona. Mas quem as torna inteligentes é o Japão, que lhes fabrica os insumos dos insumos, que são, a seguir, montados em Taiwan e, finalmente, enfiados dentro daquilo que o consumidor comum terá nas mãos na China, tudo, em geral, seguindo um design e um projeto de engenharia eletrônica original americano.

Tudo muito de acordo com a proverbial discrição do comportamento dos japoneses
O que se tem visto, nas entrelinhas da cobertura desse desastre de proporções quase bíblicas, a propósito, são verdadeiras lições para o mundo que tornam mais fácil entender como a educação fez da população daquela pequena ilha quase inteiramente desprovida de recursos naturais uma das sociedades mais desenvolvidas e prósperas que a humanidade já produziu.
Para além da crise na indústria de tecnologia de ponta que tornará mais visível, daqui por diante, o papel crucial que o Japão tem nessa cadeia internacional de produção, tem chamado muito a atenção a compostura com que os japoneses enfrentam a desgraça.
A televisão mostrou cenas impressionantes nos centros para desabrigados, nos primeiros dias depois do tsunami, de gente que acabara de perder a família inteira, quando muito, deixando escapar uma ou outra lágrima na frente das câmeras; respondendo com as tradicionais mesuras e gestos de cabeça cada atenção recebida das equipes de socorro; deixando ordenadamente suas casas e até cidades nas operações de evacuação que se seguiram.

O próprio comportamento dos jornalistas japoneses que captaram essas cenas é de chamar a atenção pela sua parcimônia e comedimento.
Ao contrário do que vimos aqui no Brasil no desastre da região serrana carioca, ou nos Estados Unidos, quando da inundação de New Orleans, e mesmo em países europeus quando surge a oportunidade, não houve sequer ameaças de saque em parte alguma, apesar da escassez que quase imediatamente se instalou nas zonas mais atingidas.
Mesmo na desgraça o Japão é um exemplo para o mundo, em especial, para aqueles que acham que a História começou com o seu próprio nascimento e que educação que presta é só a que se recebe “na escola da vida”.
Foi a escola da vida que ensinou ao Japão, a duríssimas penas, a falta que faz a educação formal à qual o país inteiro se atirou com vontade ferrenha a partir da tabula rasa a que ficou reduzido em 1945. Em 65 anos isso os lançou da miséria e da servidão dos shogunatos para o topo da lista das sociedades mais democráticas e mais afluentes que a humanidade jamais produziu.
Não existe outro caminho, aliás.

Cassando o Pedrinho
1 de novembro de 2010 § 1 comentário

Estão cassando as Caçadas de Pedrinho das escolas publicas brasileiras.
Dizem que o esse clássico da literatura infantil de Monteiro Lobato, que sintetiza com as ferramentas da arte a cultura rural em cima da qual nos formamos, é “racista” e “politicamente incorreto” no que diz respeito aos animais.
É como se os americanos cassassem Tom Sawyer pelo mesmo tipo de alegação.
Para o lixo da História com essa bobagem de aprender, nas nossas escolas, como foi mudando a visão da sociedade sobre as coisas. Aqui, os comportamentos que nossas iluminadas “autoridades” educacionais condenam hoje, jamais terão existido para os estudante brasileiros do futuro.
São esses mesmos truculentos reescrevedores da História cheios de sensibilidade e saber e figadalmente intolerantes à diversidade que querem formar comitês para zelar para que a do presente, esta que está sendo escrita pela imprensa, deixe pra lá esses pruridos idiotas com a realidade dos fatos e trate de registrar somente o que “é certo”.

A lei certeira de Serra e as culpas da imprensa
23 de outubro de 2009 § Deixe um comentário

Se esquecer a essência da sua função institucional a imprensa deixará de ser necessária e desaparecerá
No mesmo artigo em que discuti o preço em vidas da impunidade dos nossos políticos e servidores publicos critiquei a imprensa em geral por se contentar em cobrir os efeitos dos nossos aleijões institucionais e nunca se aprofundar na exposição suas causas ou na discussão das possíveis alternativas àquilo que temos.
Um dos mais notórios entre esses aleijões é a total ausência de critérios de mérito para orientar as carreiras do serviço publico.
Em pleno terceiro milênio da globalização, quando cada um de nós tem de dar o máximo de si e se aperfeiçoar desde que nasce até que possa acumular o suficiente para parar de trabalhar, sob pena de perder definitivamente o seu lugar ao sol, o funcionário publico brasileiro que, no mais das vezes, já conquistou o cargo que tem atraves do toque mágico de algum político travestido em midas, não tem de se preocupar com nada disso.
Não é preciso lembrar que uma das raizes mais grossas da miséria brasileira está justamente nesse poder de delegar poder que os políticos se auto atribuiram. Estamos acostumados com isso, mas se trata de nada menos que uma monstruosidade num regime que se pretende democrático, no qual toda soberania deve emanar diretamente do povo, e nenhum tostão dela deve ser delegado por procuração, sobretudo por procuração auto-atribuida.
Mas é assim que é.
E enquanto o político puder estender a mão, tocar alguem e transformá-lo, num passe de mágica, num cidadão especial, dispensado das agruras mais corriqueiras da vida, seguro às custas da insegurança alheia, não haverá milagre capaz de evitar que a corrupção siga roendo a carne, os ossos e a alma do Brasil. E isto pelo simples fato de que a mera existência dessa possibilidade divide o país ao meio e põe metade da população correndo atras desse sonho, para a consecussão do qual tudo que é necessário fazer é puxar o saco de um político, ser cumplice dos seus crimes e o mais que conhecemos.

Não ha o que não apodreça num caldo de cultura desses.
Na base da pirâmide estatal, lá onde estão os milhões de funcionários desnecessários e tambem os milhares de funcionários necessários, a completa impunidade que vale para os políticos vale tambem para os seus apadrinhados. E a forma primária de expressão dessa impunidade está nas relações de trabalho. Por ostensiva que seja a sua preguiça; por acintoso que seja o desrespeito com que trata quem lhe paga o salário, o funcionário publico brasileiro – seja ele médico, policial, professor ou o simples burocrata interposto no seu caminho – sabe, desde que põe um pé dentro do serviço publico, que nada poderá removê-lo de lá; que seus aumentos de salário acontecerão regularmente, com a mera passagem do tempo; que sua progressão na carreira se dará com a passagem das horas e que a sua aposentadoria, gorda e precoce, chegará a tempo dele desfrutar as pequenezas da sua vidinha. E sabe mais: que tudo isso poderá acontecer mais rápido – e em matéria de valores, o céu é o limite – se ele se acumpliciar com os corruptos que encontrar na repartição.
Tudo que ele não pode mesmo fazer, sob pena de sofrer interpelação do ocioso ao seu lado; de ser visto como “traíra” e como “cú-de-ferro”, é trabalhar com afinco.

“Quiéquiéisso, companheiro?! Tá querendo provar que eu sou vagabundo?”
Na melhor hipótese, portanto, nós, que pagamos a conta, receberemos em troca uma soma zero. Mas como gente é o que é, o mais certo é que colhamos um resultado altamente negativo.
Me desminta quem puder.
Quarta-feira passada a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou uma lei enviada pelo governador Jose Serra atrelando aumentos de salário para os professores da rede estadual à sua classificação num exame anual.
Mencionei nos artigos desta semana que desde que milito no jornalismo – e isto vai indo para 35 anos – não me lembrava de iniciativas de nossos políticos que tivessem atacado as causas dos nossos problemas, fora a de Geraldo Alkmin de instituir um rito sumário no julgamento administrativo de policiais suspeitos de corrupção que produziu, ao fim e ao cabo, uma redução de mais de 50% nos indices de criminalidade do Estado e foi quase que integralmente ignorada pela imprensa.
A lei de Serra está longe de ser a ideal. É simplesmente ilegal, neste pobre país, instituir racionalidade plena em qualquer coisa que se relacione com o serviço publico. Estamos tão afundados no hábito de sermos explorados que os privilégios dos empregados do Estado estão garantidos na Constituição e ninguem reclama. Nenhuma força viva, hoje, pode empurrá-los para baixo – na carreira ou na remuneração – nem para fora do serviço publico, ressalvadas raríssimas e complicadérrimas exceções.
O que foi possível ao governador fazer, portanto, foi condicionar ao mérito o avanço para mais adiante do que todo professor da rede publica já sabe que avançará por inércia se não fizer nada para merecê-lo ou até se fizer muito para desmerecê-lo. Quem se classificar entre os 20% melhor colocados entre os professores que fizerem um exame anual durante tres anos, terá um salto de 25% em seu salário, alem dos aumentos a que estamos condenados a dar a todos eles, trabalhando ou não. A frequência às aulas devidas tambem contará pontos para isso.
É quase nada. Mas é um começo. É o que é possível fazer.

Mas, pelo ineditismo, é algo tão importante que o sindicato dos professores do Estado de São Paulo imediatamente sacou suas armas. Na sua proverbial má fé, sabe que os privilégios de que é guardião são insustentáveis, que sua manutenção depende de que sigam sendo impostos na marra e que qualquer fissura no dique poderá, mais adiante, levar toda a construção de roldão.
E o alarme soou:
“Olha aí, gente! Se isso começa assim, um dia ainda teremos de trabalhar!”
Os argumentos contra a medida são nada menos que nauseabundos. Não merecem que se gaste uma linha com eles. E da importância de se melhorar a educação publica na época da competição global dentro da economia do conhecimento nem é preciso falar.
Mas o Estadão, que tem em seu currículo a fundação da USP, a primeira universidade do país, não deu à medida uma chamada na primeira página. A Folha e até o Globo fizeram isso, ainda que com chamadas mais ou menos discretas. E para as televisões, tudo se resumiu, como sempre, a uma simples menção.
Não existe exemplo histórico de reformas políticas ou administrativas importantes partindo do establishment político. É ele quem mais se beneficía dos vícios do nosso equipamento institucional. É a ele que menos interessa que eles sejam corrigidos. Só agirão para faze-lo se forem obrigados a tanto.
Mesmo nas democracias mais maduras, reformas no interesse dos eleitores e dos contribuintes, quando as houve, foram impostas aos políticos em movimentos organizados e amplificados pela imprensa. Com todos os privilégios que têm, os políticos são seres que vivem de exposição na mídia. Farão mais daquilio que receber maior destaque da imprensa. A imprensa tem, portanto, o poder de pautar a Nação, de contribuir para organizar a pressão das ruas e para concentrar sua força sobre os centros de decisão política. E quem tem esse poder, tem um DEVER que o publico reconhece e a teoria política consagra, do qual não tem o direito de abrir mão.
Se esquecer a essência da sua função institucional, a imprensa deixará de ser necessária e desaparecerá.

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