Como reduzir um país à miséria
5 de janeiro de 2017 § 49 Comentários
Você pensou em corrupção?
Nada disso.
O depoimento que lhes ofereço fala das condições que nossos insignes “representantes” e legisladores criam para que a corrupção se instale neste país em que o primeiro e inegociável objetivo das leis é serem tais e tantas que não possam ser cumpridas nunca de modo a deixar todo mundo SEMPRE exposto ao fiscal que, como nos tempos de d. João VI onde essa industria começou, ganham porcentagens do que conseguirem te arrancar para os cofres de sua majestade.
Você (ainda) tem a força!
7 de outubro de 2015 § 29 Comentários
Artigo para O Estado de S. Paulo de 7/10/2015
O PT – que já andou namorando a idéia de que um impeachment seguido de um governo “de união nacional” chefiado pelo PMDB presidindo a fome que será exigida pelo desastre que contratou para o Brasil daria o álibi perfeito para Lula voltar como salvador da pátria em 2018 – agora está pacificado e firmemente unido em torno da tese do tudo ou nada.
Se ha uma “qualidade” que não pode ser negada ao partido é a sua capacidade de enxergar clara e objetivamente a realidade dos fatos e não discutir com eles quando o que está em jogo é a disputa pelo poder. Quem se engana, quando o acusa de brigar com a realidade, são os críticos que medem as ações do PT pela lógica econômica ou pelo interesse da República que jamais entraram em suas considerações. Para a consecução do único objetivo que interessa ao partido o que dizem os fatos é que a via eleitoral está esgotada, tanto mais quanto mais para frente se olhar no horizonte. Não é mais de anos, é de décadas de vacas magérrimas que estamos falando. Eleições, depois da última pela qual passou raspando a custa de quebrar a Petrobras (e não só ela) para embalar em bilhões o maior conto do vigário a que o eleitorado nacional jamais foi submetido são, doravante e até onde se pode enxergar, o perigo a evitar.
Muito antes do previsto, portanto, o furacão Dilma combinado com o fim do milagre chinês empurra o PT para a segunda fase do seu projeto hegemônico antes, ainda, que a primeira tivesse sido completada. O marco oficial dessa inflexão está na desistência, sacramentada pela Fundação Perseu Abramo, de tentar curar a economia da doença que o lulopetismo instilou em suas veias para se agarrar à equação que até ha pouco ele próprio tinha admitido insustentável e tentar durar o bastante no poder, com expedientes protelatórios e a quantidade de “diálogo” ($$) que for necessária no atacado e no varejo, para que a manobra se torne irreversível e passar, então, a ancorar de peito aberto seu projeto naquilo que seus liderados do Foro de São Paulo já ancoram o seu. É um ato de desespero mas é a direção para a qual apontam os fatos. Da combinação de aparelhamento do Estado e das instituições democráticas com farra fiscal para subsidiar a festa do consumo e derrotar opositores nas urnas, vamos sendo inexoravelmente empurrados para o funil da combinação de instrumentalização da miséria com violência para tirar opositores do caminho a qualquer custo que caracteriza todos os estados bolivarianos com economias agonizantes à nossa volta.
Para tanto será necessário acelerar o que ainda está por fazer da “Fase 1” que é a da ocupação do Estado (já completada) e da desmontagem das defesas democráticas da nação (ainda por completar). É esse o sentido da tentativa de golpe contra o TCU. Mesmo diante da inusitada resistência desse tribunal, porém, nada autoriza subestimar a capacidade do PT de conseguí-lo. O PMDB, por exemplo, acredita piamente nisso. Ao ver Lula assumir o leme e dobrar a aposta em sua inabalável convicção de que todo mundo é podre, bastando, para cavalgá-los, melhorar as condições ambientais para que apodreçam mais rapidamente, a raspa do tacho do partido que dias atrás ainda hesitava diante da perspectiva de tudo se esboroar nas mãos de Dilma entendeu que chegou a hora do “free for all” e perfilou-se, salivante, em ordem unida.
A “reforma ministerial”, que começou a pretexto do “ajuste”, converteu-se oficialmente em mais uma vasta operação de distribuição de postos de tocaia aos dinheiros públicos para os membros das organizações investigadas pelo juiz Moro para tratar de impedir que a lei alcance o PT antes que ele tenha tempo de colocá-la exclusivamente ao seu serviço. A crônica política está reduzida a um relato diário sobre quem comprou quem, por quanto e para quê. As “partes” negociam em público os nacos daquilo que a nenhuma delas pertence ameaçando represálias contra a Nação sequestrada. Cada etapa da farsa é encerrada com a manifestação regulamentar do jurista ou do “especialista” estrelados da vez para, invocando umas e esquecendo outras conforme a conveniência do momento, colocar as leis a serviço do crime e garantir que não ha nenhum “elemento técnico” que permita deter essa mixórdia. Quando até isso falha, recorre-se aos agentes do aparelhamento das instituições para exigir deles mais um passo em direção ao ponto de não retorno.
A capital federal é cada vez mais um gueto que o resto do país repudia. Trancados em suas “dachas”, impedidos de frequentar o Brasil que os brasileiros frequentam, ameaçados de linchamento onde quer que apareçam em público, não ha, porém, instituição que alcance os sócios do assalto ao Brasil. Mas não é mesmo em busca de aprovação que está quem troca abertamente nacos do orçamento público pela vontade manifesta de seus eleitores. Só uma ação decidida das ruas poderá alterar o rumo dos acontecimentos. E não ha nenhum “goplpismo” nisso. Ao contrário, é essa a essência do processo democrático. Nos governos “do povo, pelo povo e para o povo” não ha lei alguma que, legitimamente, possa tornar ilegal a vontade do povo. Ele é a unica fonte de legitimidade de onde, por enquanto até para a nossa “Constituição dos Miseráveis”, emana todo poder.
Não é o Brasil, portanto, que tem de perguntar a Brasília o que ele pode ou não pode fazer com os mandatos que temporaria e condicionalmente concede a seus representantes. É o contrário.
O povo põe; o povo “des-põe”.
Como está absolutamente só, traído por todos os seus representantes eleitos, se quiser manter abertos os canais que restam e alimentar a esperança de reconstituir os que estão obstruídos pela cooptação e pela corrupção, o povo brasileiro terá de demonstrar na rua o tamanho dessa vontade. Conseguirá o que estiver realmente disposto a conseguir pois a democracia brasileira está desorientada e cambaleando mas ainda não está completamente surda.
Com que sonhar para 2015
25 de dezembro de 2014 § 20 Comentários
Artigo para o Estado de S. Paulo de 25/12/2014
Getúlio Vargas veio para combater a corrupção, impôs o fascismo como instrumento do desenvolvimento e encarregou o Estado, com o Trabalho e o Capital a reboque, de promovê-lo. Naufragou na corrupção. Os militares vieram para combater a corrupção e prevenir a ditadura comunista, impuseram o autoritarismo tecnocrático como instrumento de desenvolvimento e encarregaram o Estado, com o Capital a reboque, de promovê-lo. Naufragaram na corrupção. O PT veio para plantar “a ética na política”, impôs o patrimonialismo assistencialista como instrumento de desenvolvimento e sujeitou o Capital, o Trabalho e o Estado ao partido para promovê-lo. Naufragou na corrupção.
Receitas e discursos antípodas, resultados idênticos.
Por mais que lhe mintam na cara o brasileiro não aprende qual é o valor do discurso dos políticos. Na Era PT o divórcio entre os fatos e sua descrição em português tornou-se absoluto mas o que há de preocupante nisso não é os governantes mentirem pela gorja, o que é no mínimo um clássico, mas sim os ouvintes terem perdido a condição de identificar tais mentiras como o que são mesmo quando elas colidem estrondosamente com a verdade bem diante dos seus olhos.
“Prenda-se a Venina; liberte-se a Graça!” exatamente diante da prova do crime é só o epílogo da última temporada deste invariável “seriado”.
Tais enormidades fazem parte da nossa memória atávica. Duzentos anos de gente sendo incinerada viva em fogo lento em praça pública ao fim de meses de tortura excruciante produziram o efeito de banir do horizonte da nossa consciência a prova empírica como ferramenta válida de estruturação do pensamento até 12 anos depois da independência do Brasil, quando o instituto da Inquisição foi finalmente extinto nos reinos de Portugal, Espanha e Itália (1834).
Por cima dessa trava derramou-se outro meio século de sobrevivência da escravidão, o que refinou o processo de “seleção natural” onde só permanecia “encarnado” neste mundo quem se mostrasse apto a, com absoluta convicção, afirmar que “era negro o branco que seus olhos viam” se assim o desejasse (o feitor ou) o representante do papa, conforme constava do juramento que antecedia a ordenação dos jesuítas que, por quase 400 anos, tiveram o privilégio do monopólio da educação dos brasileiros.
Isso explica porque, enquanto a ponta da civilização palpava a “harmonia dos mundos” e inventava a ciência e a democracia modernas nós tratávamos de salvar nossos corpos fingindo, sob pena de suplício e morte horripilantes, que tudo que nos interessava era salvar nossas almas.
De lá aos nossos dias, entretanto, a coisa piorou pois se não havia quem não soubesse, naqueles tempos, que tudo não passava de uma palhaçada sinistra necessária para salvar a pele, hoje há um bom contingente de brasileiros trabalhados desde a mais tenra infância nos torniquetes morais da subversão conceitual gramsciana que domina nossas escolas e ainda faz reinações em nossos palcos e em nossas redações que segue engolindo mentiras sinceramente convencido de se tratarem de verdades.
São cada vez mais raros esses inocentes posto que a maioria dos que juram hoje que “é vermelho o marrom que seus olhos vêm” fazem-no apenas para salvar seu emprego vitalício desacompanhado de trabalho, sua aposentadoria precoce não antecedida de contribuições, sua indenização por prejuízos físicos e morais não necessariamente sofridos, a valorização da sua “arte” sem concurso de talento, a sua imunidade ao castigo apesar da monstruosidade dos seus crimes. Mas ainda os há, como acabam de nos lembrar os irrefreados frêmitos de júbilo “humanitário” registrados na super-reação dos jornalistas, escritores e poetas que comemoraram como uma estupenda vitória da liberdade a readmissão no círculo de relacionamentos oficiais do “Grande Satã” da mais longeva das ditaduras que ainda aniquila e promete continuar aniquilando jornalistas, escritores e poetas.
É esse mesmo tipo de compulsão suicida da capacidade de intelecção que reaparece quando, 26 anos depois, com o país atolado até às ventas no brejo dos tribunais surge, mesmo fora da carcomida corporação dos “prestadores de justiça” que lucram com ela, quem ainda afirme embevecido que a Carta de 88, que trata de regular a tudo e a todos em todos os níveis do viver na sua sufocante minuciosidade, marca não a petrificação do Brasil arcaico mas “a refundação do Brasil democrático” ao consagrar, agora como fundamento da Nação, o “a cada um o seu direito e o seu tribunal especiais” segundo o grau da sua fidelidade ao rei.
É ele que se manifesta também quando, 260 escândalos depois, vê-se que ainda ha quem aposte que uma seção de exorcismo a cada década, movida a discursos “pela ética na política” e a delações premiadas, ainda que “dê zebra” e custe uma rápida visita à cadeia, que seja, aos donos de foros especiais, será remédio bastante para nos resgatar de uma vez para sempre dos efeitos obrigatórios que as nossas ancestrais deformações institucionais vêm produzindo década após década, governo após governo, século após século.
É ele que reaparece quando mais uma vez, como desde sempre, sugere-se que “comigo vai ser diferente”; que o que falta é “vergonha na cara” ou “amor aos pobres”; que é a “qualidade dos homens” e não a das instituições que produz o milagre.
Não é. Nunca foi.
A força da corrupção é inversamente proporcional à quantidade de democracia investida numa ordem institucional, definida democracia como igualdade perante a lei, separação entre Estado e Capital, mérito sobreposto à cooptação, proporcionalidade da representação (“um homem, um voto”) e o grau de sujeição do representante ao representado, ou seja, o grau de instabilidade dos mandatos e dos cargos públicos que deveriam ser todos permanentemente sujeitos a recall. É isso que faz as coisas funcionarem da Califórnia para Leste até os “Tigres Asiáticos”, da Noruega para Sul até a Nova Zelândia, passando por tudo que está no meio, independentemente de culturas ou religiões pregressas.
O resto, ou é tapeação, ou é terrorismo.
MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O RECALL COM VOTO DISTRITAL
1
A reforma que inclui todas as reformas
2
Voto distrital com recall: como funciona
3
Mais informações sobre a arma do recall
4
Recall sem batatas nem legumes
5
Porque não ha perigo no recall
6
7
Discutindo recall na TV Bandeirantes
8
O modelo honesto de participação popular
9
A Dilma “não se representa”
7 de novembro de 2014 § 37 Comentários
Ouvir o que diz dona Dilma re-presidenta é uma perda de tempo tão grande quanto ouvir o que dizia dona Dilma candidata à reeleição. Nos dois casos não ha nenhuma relação entre as palavras e a realidade ou compromisso de que daqui a meia hora ela não vá fazer o contrário do que disse e dizer o contrário do que fez.
Entretanto sempre se aprende alguma coisa quando se analisa o discurso petista como fenômeno fechado em si mesmo e não como algo que tenha relação com a realidade.
O Brasil já conhece o método petista de mentir sobre o passado. O partido se apropria à vontade da autoria dos fatos e das políticas que o tempo venha a consagrar como positivas e atribui a terceiros as de sua autoria que venham a ter a trajetória contrária de forma soberanamente independente ao registro histórico dos fatos.
A entrevista coletiva dada aos quatro maiores jornais do país ontem sugere que agora o método passa a estender-se também para o presente e para o futuro. Pois dona Dilma anuncia a quem interessar possa, para começar, que ela “não representa o PT” e nem tem nada a ver com “as opiniões” que ele emite. Ainda que seja a Executiva Nacional, instância máxima do partido, que as tenha emitido na forma de uma “Resolução Política” oficial, não se trata de uma posição “do partido“, mas só de “opiniões” de um grupo dentro dele. A menos, é claro, que tenha sido positiva a repercussão dessa opinião, caso em que ela decerto se transformará em mais uma política oficial desde sempre defendida pelo partido.
Essa deliciosa afirmação veio em resposta às perguntas que lhe foram dirigidas com respeito ao roteiro do que o partido pretende fazer daqui por diante – e com o recurso a quais métodos – divulgado na “Resolução Política” de 3 de novembro último da sua Comissão Executiva Nacional (aqui). Nela o partido reitera a promessa de impor pela via do plebiscito uma “hegemonia popular democrática”, o “controle da mídia“, a entrega de parte das prerrogativas legislativas exclusivas do Congresso Nacional eleito por todos nós aos “movimentos sociais” eleitos pela Secretaria Geral da Presidência da Republica e o mais que a gente sabe.
Como toda essa sinceridade “pegou mal” e vem ajudando a consolidar a união das oposições democráticas num Congresso Nacional em que o PT perdeu substância, a presidenta houve por bem dizer que não tem nada a ver com essas “opiniões do PT” e até que, radicalmente democrática como é, acha que “mesmo a opinião de quem defende o golpe deve ser respeitada“.
Não ficou claro, a essa altura da entrevista, quem é que a presidenta acha que defende o golpe, se é quem tem essa “opinião” dentro do PT ou não. Em caso positivo, o fato dela própria ter assinado um decreto que impunha exatamente essa mesma receita ao país sem pedir a opinião de ninguém enquanto presidenta cinco meses antes da reeleição teria sido, também, uma tentativa de golpe? E agora, depois de abertas as urnas, teria ela deixado subitamente de ter a “opinião” coincidente que tinha antes com esta do PT de que, presidenta de novo, ela passou a discordar?
O esclarecimento dessas emocionantes questões foi coisa com que preferiram não perder tempo nenhum dos muitos jornalistas presentes…
A decorrência, entretanto, é clara: fica de qualquer maneira estabelecida a dualidade que já valia para o passado também para o presente e eventualmente para o futuro.
Por enquanto registre-se que ha um PT que trabalha para acabar com a democracia brasileira mas a presidenta dos petistas não tem nada a ver com isso. Para o momento ela está a favor da democracia contra a qual “opina” e promete agir o seu partido. Mas se eventualmente o PT com que a presidenta “não tem nada a ver” vier a prevalecer e a implantar o que o decreto dela já tinha tentado implantar, ainda que, a julgar pelo que ela afirma agora, à sua revelia, então valerá a norma do passado e a presidenta apropriará como sua desde criancinha, no futuro, a tese que se mostrar vencedora.
Deu pra entender? Não é fácil mesmo…
Com relação à Venezuela dá-se a mesma coisa. Não importa que a ditadura bolivariana estabelecida na Venezuela tenha dado o golpe via plebiscito e armado os seus “movimentos sociais participativos” com fuzis para garantir a “hegemonia” que pedem os “palpiteiros” da Executiva Nacional do PT. Não importa que tudo isso tenha seguido estritamente a cartilha escrita e recomendada por Lula a todos os partidos políticos e movimentos guerrilheiros da América do Sul e do Caribe reunidos no Foro de São Paulo, aquela instituição criada e dirigida por ele. O decreto e o plebiscito da Dilma (infere-se posto que os jornalistas de novo não perderam tempo em esclarecer essa questão de somenos) nada têm a ver com os seus exatos similares aplicada pelos demais sócios do Foro e nem visam os mesmos fins, ainda que todos usem as mesmas palavras alinhadas na mesma ordem.
Assim também o fato do Ministro do Poder Popular, das Comunas e do Desenvolvimento Social da Venezuela, Elias Jaua, justamente o homem que comanda as tais milícias armadas que nos ultimos meses prenderam e mantêm presos pelo menos 13 mil manifestantes contra o regime que foram submetidos a estupros e outras formas de tortura denunciadas ontem pela ONU; o fato de justamente esse homem ter estado no Brasil enquanto transcorriam as nossas eleições assinando acordos de treinamento de possíveis futuros milicianos do MST, um dos “movimentos sociais” mais umbilicalmente ligados ao PT, candidato a escrever nossas leis e garantir a hegemonia do “poder popular” se tivesse prevalecido o decreto assinado pela presidenta em pessoa, tudo isso não passa de outra mera concidência que nada tem a ver com suas preferências pessoais e nem sequer com as dos eventuais defensores de golpes de dentro do PT ou, menos ainda, com expectativa que alimentavam de ganhar a eleição “de lavada“.
Não, nada estava sendo tramado nem tampouco preparado. Foi tudo coincidência. Para comprová-lo dona Dilma mandou que o seu ministro de Relações Exteriores interpelasse oficialmente o encarregado de negócios da Venezuela no Brasil (releve-se o desnível de patentes) para que explique essa “ingerência nos assuntos brasileiros”.
Dona Dilma jurou de pés juntos que nem sabia da presença de um ministro de Estado da Venezueal no Brasil nem, muito menos, que fosse de dar aulas de revolução ao MST que ele estava tratando. Ocorre que enquanto ele ministrava seus ensinamentos em Guararema, foi presa no aeroporto de Guarulhos com um 38 carregado dentro da bolsa uma assessora dele que declarou à Polícia Federal pertencer a arma ao ministro que lhe tinha ordenado que a trouxesse para ele junto com o “material escolar” especialmente preparado para os alunos do MST que ela também carregava. O jornal O Estado de São Paulo fez uma detalhada matéria a respeito desse incidente que, porém, sua direção de redação houve por bem não publicar antes da eleição, sabe-se la em função de qual critério jornalístico. Continua sem publicá-la até hoje, aliás, pelas mesmas misteriosas razões.
Mas se o resto do Brasil não sabe dona Dilma, e mais especialmente o seu ministro de Relações Exteriores que certamente foi chamado a dirimir esse “incidente diplomático”, posto que a meliante armada acabou sendo solta com intervenção do Itamaraty, certamente sabiam da presença dessa boa gente entre nós.
Não obstante tudo isso, fica dona Dilma, para todos os efeitos e até segunda ordem, posicionada “contra golpes bolivarianos”, apesar do decreto que ela assinou embaixo e do plebiscito no qual continua insistindo coincidirem exatamente, seja com a receita que nos prescreve a Executiva Nacional do PT que ela “renega“, seja com o seu próprio decreto revogado sob protestos pelo Congresso Nacional, enquanto o ministro da ditadura vizinha, que festejou sua reeleição como a mais importante vitória da revolução bolivariana na América Latina, retorna com uma advertência para casa onde poderá seguir estuprando e torturando soberanamente quem ouse desafiar sua hegemonia.
Esclarecidas as coisas com este grau de clareza, ergue-se em riste o dedo da presidenta para cobrir de opróbrio e “vergonha” quem quer que tenha tido a má fé de apontar as exatas semelhanças entre o decreto que ela assinou embaixo e as resoluções políticas oficiais do seu partido e os expedientes que deram a Elias Jaua as condições de dispor hoje de uma milícia armada para garantir a “hegemonia” das suas “opiniões“.
O resto das contradições da entrevista foram menos divertidas embora as tenha havido para todos os gostos.
Por exemplo; dona Dilma continua no “doa a quem doer” a respeito da roubalheira na Petrobras mas os ministros do STF nomeados pelo PT reconfirmaram ontem que tudo que consta das delações premiadas do doleiro Youssef e do diretor da Petrobras de Dilma presidente do Conselho, Paulo Roberto Costa, “é sigiloso” e nem o Congresso Nacional que nos representa a todos terá acesso a eles. Se, portanto, os “vazamentos seletivos” até agora havidos (expressão que se tornou obrigatória em todas as menções ao caso, seja do PT que representa, seja do PT que não representa as opiniões da presidenta) levarem à anulação de todas as provas reunidas por eles de modo que tudo acabe não doendo a ninguém a culpa não será de dona Dilma, que simplesmente alegará discordar de mais essa “opinião” do PT e seus agregados.
Aumentos de tarifas no dia seguinte da eleição? Não, “não é estelionato eleitoral”. É só mais uma coincidência. “Estelionato mesmo seria um choque de gestão”, essa violência de condicionar o salário do servidor público à prestação de serviço público.
Pode-se, eventualmente, ainda, especular sobre que nome dar ao prejuízo de US$ 60 bilhões que a Petrobras teve enquanto o preço da gasolina permaneceu congelado — releve-se como troco o esmagamento e a desnacionalização do setor canavieiro que isso custou — já que o aumento no dia seguinte da eleição é outra mera coincidência.
Um desavisado como eu – ou estarei na categoria dos golpistas? – pode, por fim, considerar que a politica oficial do PT contra o automóvel no âmbito dos seus governos municipais como o de São Paulo mostra o que o partido pensa da questão pelo ângulo do interesse público, enquanto a política de subsidiar a venda de automóveis e a gasolina exatamente até o dia do fechamento das urnas reflete o que o partido e a presidenta pensam da questão pelo ângulo do interesse eleitoreiro.
Mas eu sou apenas um cara lógico que avalia os fatos políticos pelo ângulo do interesse público, que humildemente reconhece que há muito mais coisas entre os atos e as políticas do PT e a lógica do interesse público do que sonha a minha vã filosofia.












Você precisa fazer login para comentar.