EUA apontam dedo acusador para a China. Finalmente!

21 de novembro de 2011 § 2 Comentários

Matéria assinada por Robert Kuttner para o Huffington Post de hoje põe, finalmente, o dedo na ferida onde se origina toda a crise em que se debate o Ocidente, como tantas vezes tem sido lembrado aqui no Vespeiro.

O autor avalia o relatório anual da Comissão de Avaliação de Segurança e Relações Econômicas China-Estados Unidos do Congresso americano, uma comissão bi-partidária de 12 membros, seis de cada partido, que faz “um dos poucos diagnósticos do problema nacional em que (pelo menos os membros) republicanos e democratas (desta comissão) concordam totalmente“.

Embora a administração Obama não esteja fazendo nada de sério para enfrentar a crescente ameaça que a China representa para os fundamentos da economia americana, essa ameaça foi, pela primeira vez, descrita sem meias palavras num documento oficial do governo que deveria ser leitura obrigatória para todos os cidadãos americanos“.

São estas as principais conclusões do relatório:

  • a China é um estado mercantilista e autoritário que está determinado a se apropriar não apenas dos empregos mas também da mais avançada tecnologia norte-americana pelo uso dos expedientes de suprimir direitos dos trabalhadores e promover acordos com empresas dos Estados Unidos que incluem chamarizes para o lucro fácil (salários reduzidos e subsídios do Estado) e imposições ilegais (a obrigação de se compor com sócios locais e transferir-lhes tecnologias para fazer negócios dentro da China), acrescentados da obrigação de produzir principalmente para reexportar para o mercado norte-americano e não para vender dentro da China;
  • a maioria das empresas americanas se compraz em fazer esses acordos o que as transforma em aliadas do lobby chinês dentro dos Estados Unidos. Enquanto o governo faz queixas tímidas com relação à desvalorização artificial da moeda chinesa, as corporações que exportam trabalho para a China adoram essa situação porque ela aumenta seus lucros no território nacional com produtos reexportados de lá;
  • a Câmara Americana de Comércio que combate as políticas industriais domésticas faz um lobby pesado contra qualquer pressão mais forte de Washington contra a ação mercantilista de Pequim; a administração Obama ensaia tímidos gestos militares (junto aos países no raio de influência geográfica da China) e assina tratados de livre comércio com países menores, mas não ousa contestar as barganhas entre as grandes corporações americanas e a China nem as práticas ilegais daquele país;
  • o déficit nas trocas entre a China e os Estados Unidos continua a aumentar especialmente nos setores de alta tecnologia. A China vendeu aos Estados Unidos US$ 81 bilhões em produtos de alta tecnologia nos 12 meses encerrados em agosto e comprou apenas US$ 13,4 . O déficit comercial total com a China chegou ao numero recorde de US$ 273 bilhões, mais da metade do déficit comercial total dos Estados Unidos. Em meados de 2011 o superávit comercial total da China, que chega a US$ 3.2 trilhões já tinha crescido US$ 800 bilhões em um único ano;
  • embora o governo chinês tivesse concordado em suprimir a exigência explícita de transferência de tecnologia por toda companhia estrangeira querendo operar em seu território, continua recorrendo a diversos expedientes para mantê-la de fato;
  • além disso, ela segue desrespeitando os direitos de propriedade para manter a sua própria “política de inovação”;
  • todos esses expedientes violam frontalmente as regras da organização Mundial do Comércio;
  • a China está se tornando uma ameaça crescente para a segurança nacional não só por se tornar um player cada vez mais importante na cadeia de suprimentos de diversos itens que deixaram de ser fabricados nos Estados Unidos como também pela sua crescente agressividade e sofisticação na chamada guerra cibernética;
  • o governo dos Estados Unidos, governos estrangeiros, fornecedores de equipamentos de defesa, entidades comerciais e várias organizações não governamentais têm reportado tentativas de invasão de seus bancos de dados a partir da China; a China, por sua vez, define como parte de sua estratégia explorar a vulnerabilidade dos sistemas de comunicação em que se apoia o sistema nacional de defesa;
  • apesar do comportamento ameaçador do governo da Coreia do Norte o Partido Comunista Chinês age como se tivesse concluído que é melhor sustentar aquele regime do que trabalhar pela sua remoção; ela também age abertamente para impedir as medidas internacionais de controle da fabricação de armas de destruição em massa pelo Irã;
  • o regime chinês continua sendo uma ditadura de partido único brutalmente repressiva; apesar da crescente produtividade ela deprime o consumo interno de modo a poder continuar pagando salários muito baixos para fortalecer a sua máquina de produção e subornar a indústria norte-americana para que favoreça internamente os seus interesses;
  • apesar da sub valorização forçada da moeda chinesa estar amplamente comprovada e documentada, o secretário Geithner, do Tesouro, tem se recusado a classificar a China oficialmente como uma manipuladora da moeda, o que implicaria em sanções legais obrigatórias por parte dos Estados Unidos;
  • enquanto o Ocidente oscila na beira de uma segunda onda de recessão, a China, graças a tudo isso, continua incólume, e quando os líderes europeus bateram na sua porta de chapéu na mão, foram avisados claramente de que qualquer ajuda da China só virá em troca da classificação do país como uma “economia de mercado”;
  • este é o 10mo ano em que a China faz parte da Organização Mundial de Comércio como “membro provisório”;
  • embora a indústria nacional se queixe ocasionalmente de roubo de propriedade intelectual pelos chineses, a maior parte de nossas grandes corporações está satisfeita com os acordos individuais que lhes garantem uma mão de obra dócil e barata e amplos subsídios do tesouro chinês. E isto está custando algo entre 600 mil e 2.400 mil empregos aos norte-americanos.

Conclusão: conforme previsto por Lênin, os capitalistas estão fabricando a corda com que estão sendo lentamente estrangulados. E já passou da hora dos que pagam esse mico – os trabalhadores e as classes médias do Ocidente – se darem conta disso, pararem de chutar as canelas uns dos outros em meio ao pânico que essa situação provoca, e se voltarem contra o verdadeiro inimigo que está lá do outro lado do mundo e contra os “traíras” nacionais que venderam suas almas a ele.

E tudo isso sem esquecer que o trabalhador/consumidor que compra o produto “baratinho” made in China nos Estados Unidos e pelo mundo afora está dando de troco o seu próprio emprego. É ele quem torna tudo isso possível.

 

Roendo os pilares da democracia

7 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

Agora é oficial: a reunião de cúpula do G-20 aprovou, em Cannes, a lista dos 29 bancos globais “grandes demais para quebrar”, iniciativa que será replicada em países como o Brasil e outros emergentes em negociações marcadas para começar no primeiro trimestre de 2012.

A intenção parece boa à primeira vista. Trata-se de reforçar as obrigações desses bancos para que, “em caso de turbulências, eles não precisem ser socorridos pelos governos de novo“. Os bancos que já estão na primeira lista – 8 dos Estados Unidos, os dois grandes da Suíça, 15 da União Europeia, três japoneses e um chinês – terão de aumentar seu capital numa proporção variando entre 1 e 2,5% dos seus ativos, acima do aumento já definido para todos de 7% até 2019 se, até lá, todos estivermos vivos.

O conceito fundamental da democracia é o da responsabilidade individual.

Num mundo que sempre foi marcado pela desigualdade econômica outorgada pelos donos do poder político a quem se dispõe a ajuda-los a mante-lo nas mãos, a revolução democrática estabeleceu que só o merecimento, conquistado pelo esforço individual, poderia legitimar a riqueza. E que, para tanto, era necessário separar a economia do Estado, cuja principal função passaria a ser, não mais a de principal agente econômico do sistema, mas a de normatizar e fiscalizar o poder econômico colocando-se à margem dele.

Num segundo momento, quando o aperfeiçoamento das técnicas de gestão corporativa levaram a um crescimento tal do poder econômico que ele passou a submeter o poder político (na virada do século 19 para o 20 nos Estados Unidos), a democracia americana houve por bem estabelecer limites até para a acumulação de riqueza por merecimento, criando a legislação antitruste que obrigava à divisão das propriedades que crescessem além do limite que as dispensasse dos rigores da competição que, quanto mais acirrada, em maiores benefícios resulta para a massa dos consumidores e dos assalariados.

O conceito da empresa “grande demais para quebrar” surge no contexto da competição desigual entre as empresas com crescimento limitado por lei do capitalismo democrático e os monopólios do capitalismo de estado chinês depois que as tecnologias da informação tornaram o trabalho exportável e o mercado consumidor planetário.

Foi um expediente de emergência do governo dos Estados Unidos para evitar que a crise financeira de 2008, ela própria consequência dos paliativos políticos que, há décadas, vinham sendo aplicados para compensar a perda de poder de competição dos produtos americanos em relação aos chineses, se tornasse politicamente incontrolável.

O despejo de centenas de bilhões de dólares do governo em empresas privadas falidas criou o escândalo e a comoção que criou nos Estados Unidos justamente porque fere o conceito fundamental da democracia. Se o mérito legitima a diferença para cima, a responsabilidade pelo fracasso deve ser integralmente assumida por quem foi responsável por ele.

Consagrar institucionalmente o conceito do “grande demais para quebrar” coloca o processo numa direção sem retorno. Não ha lei escrita no papel que faça mais para estimular a prudência e o zelo do banqueiro pelo dinheiro que não é dele do que a perspectiva de ficar na miséria se ele o tratar mal.

O “grande demais para quebrar” estabelece um elo formal entre empresas privadas e governos. E, como já se viu nesta crise (GM e outras também foram socorridas) não são só os bancos que criam “riscos sistêmicos” capazes de justificar socorros de emergência, seja em nome do exorcismo ao contágio financeiro, seja no da prevenção do desemprego em massa e da instabilidade social e política.

Ha 100 anos, para prevenir o mesmo tipo de ameaça, a democracia americana legislou “pró mercado”, tomando a medida mais clara, límpida e lógica: estabeleceu que nenhuma empresa poderia ficar grande o suficiente para se tornar “grande demais para quebrar”. A partir de um determinado limite, era obrigatório dividir essa propriedade fazendo de um monstro ameaçador dois ou mais competidores regulando-se mutuamente em benefício do consumidor.

Um século mais tarde, barrada essa alternativa em função da outra metade do mundo entrar na disputa com monopólios sustentados pelos tesouros nacionais, foram obrigados ao remendo de uma legislação “pró business” como eles dizem lá, mas que seria mais adequadamente chamada de legislação “pró corporações” que, sejam quais forem os eufemismos empregados, cria uma categoria de empresários e negociantes que não responde com o próprio bolso pelos seus erros, ou seja, uma classe de cidadãos que está acima da lei que vale para todos os outros.

E o pior é que estatizar os bancos para eliminar esse privilégio seria pior emenda que o soneto. Algo como a revolução francesa que decapitou reis para criar imperadores.

É contra isso que berram o Tea Party por um lado e o Occupy Wall Street por outro.

Como já disse em outro artigo, não ha alternativa. Ou é o mérito ou é o Estado quem distribui vitórias e derrotas na economia. Quando é o mérito, educação e dedicação no trabalho são os fatores decisivos de sucesso. Quando é o Estado…

A democracia e o movimento de redistribuição planetária da renda

7 de julho de 2011 § Deixe um comentário

Desde o inicio da crise financeira internacional venho chamando a atenção, aqui no Vespeiro, para a ameaça que os seus desdobramentos colocam para a sobrevivência da democracia.

Essa crise reflete o aprofundamento do primeiro grande movimento planetário de redistribuição da renda ao mesmo tempo em que marca a definitiva perda de controle dos Estados Nacionais sobre as economias nacionais para bem dos países que, como China e Brasil, estavam abaixo da média internacional de salários e para mal dos países que, como os Estados Unidos e os europeus, estavam muito acima dela.

A exasperação que se cria com a concentração da renda e a queda continua da qualidade de vida dos assalariados nos países centrais em função de fatores que estão além do alcance dos governos e dos políticos nacionais está levando a uma perigosa polarização ideológica e ao rápido desgaste da associação que até ha poucos anos era vista como necessária entre democracia e progresso material. Inversamente, a ascensão das economias e dos salários nos países periféricos apesar dos desmandos de seus governantes e políticos infla a bola de tiranos e autocratas populistas.

Na semana passada o New York Times publicou uma pesquisa da Northeastern University – “The Jobless and Wageless Recovery From the Great Recession of 2007-2009,” – dando uma nova medida da nova realidade nos Estados Unidos.

“Desde que a recuperação econômica começou, em junho de 2009 depois de 18 meses de recessão, as grandes corporações se apropriaram de 88% do crescimento da renda nacional registrada no período enquanto a massa salarial cresceu um pouquinho mais de 1%”.

Os números concretos são mais eloquentes que as estatísticas.

“…entre o segundo trimestre de 2009, quando a retomada teve início, e o quarto trimestre de 2010, a renda nacional cresceu US$ 528 bilhões com US$ 464 bilhões inflando os lucros antes dos impostos das empresas enquanto apenas US$ 7 bilhões foram acrescentados à massa salarial, descontada a inflação…muito menos do que ocorreu nas ultimas quatro retomadas de recessões vividas pelo país nas ultimas três décadas (…) Na recuperação da recessão de 2000-2001, 15% do crescimento se transformou em salários e 53% em lucros das empresas. Na que começou em 1991, a história foi bem diferente: 50% do ganho foi transformado em salários enquanto os lucros das empresas caíram 1%”.

Ou seja, como sói acontecer nos momentos de perdas chora mais quem pode menos, do que resulta uma forte concentração da renda agravada pela consolidação, forçada pela competição chinesa, dos diversos setores da economia em monopólios (ou quase) que exportam seus empregos para as regiões mais pobres do mundo, aumentando seus lucros e suas vendas fora dos países sede onde o desemprego e a proletarização da força de trabalho tendem a se agravar.

O Economist desta semana traz um artigo de Steven Greenhouse, escrevendo dos Estados Unidos, que completa esse quadro e aponta para os mesmos inevitáveis desdobramentos políticos para os quais venho chamando a atenção dos leitores do Vespeiro.

Segue a tradução dos trechos mais interessantes:

Gideon Rachman levantou um bom ponto em seu artigo do ultimo dia 5 no Financial Times quando disse que as presentes crises político-econômicas dos Estados Unidos e da Europa são basicamente os dois lados de uma mesma crise. Em Washington discute-se a ampliação do limite para o endividamento publico; em Bruxelas todos contemplam impotentes o abismo do excesso de endividamento público. Mas o problema básico é o mesmo. Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia estão com as finanças publicas fora de controle e têm sistemas políticos disfuncionais demais para resolver o problema”.

“…dos dois lados do Atlântico a crise econômica está polarizando a política, o que torna muito mais difícil encontrar soluções racionais. Os movimentos populistas estão em alta – seja o Tea Party nos EUA, o Partido de Libertação Holandesa ou o movimento dos Verdadeiros Finlandeses, na Europa…”

 “…Europa e Estados Unidos sempre se apontaram mutuamente como polos opostos no tratamento das questões econômicas, o que fez com que demorasse para cair a ficha da similaridade das suas situações, que hoje são muito maiores que as diferenças: dividas crescentes, economias fracas, estados de bem estar social cada vez mais caros e irreformáveis, medo do futuro e impasse político são os pontos comuns aos dois”.

“…(pode-se por em duvida as generalizações envolvendo países europeus muito diferentes entre si) mas a questão dos humores políticos, da alta ansiedade predominante e da conexão disso tudo com a crescente radicalização do discurso é indiscutivelmente verdadeira”.

“…a China vai ser a maior economia do mundo em 10 ou 15 anos. E se alguém ainda não se deu conta disso, lembro que a China é um país comunista. A cada ano que a China continuar crescendo a tese de que é necessário ser democrático para crescer e se desenvolver vai enfraquecer mais um pouco”.

“Na verdade o que tem acontecido na Europa e nos Estados Unidos até o momento sugere a hipótese contrária: a de que ter governos democráticos pode se tornar, na moderna conjuntura, o principal empecilho para uma gestão econômica competente. Os sistemas de incentivos criados pela competição política democrática nas sociedades midiáticas em plena era da internet podem, na verdade, estar empurrando os países para a autodestruição fiscal”.

“Nós estamos mergulhando numa progressiva falência intelectual puxada pela polarização política e por um divisionismo vicioso que deságua num populismo delirantemente irresponsável que supera tudo com que poderia sonhar algum agente subversivo do Partido Comunista Chinês”.

(…)

Na semana passada Clive Crook escreveu um artigo, também no Financial Times, sugerindo que os Estados Unidos criassem estabilizadores fiscais de disparo automático para tirar a questão dos estímulos com dinheiro publico em momentos de recessão das mãos do Congresso. Segundo ele, quanto menos decisões políticas ficassem nas mãos daquela “instituição falida”, melhor”.

“Eu até concordo com o argumento. Mas ele embute algo de muito preocupante quanto ao lugar que resta para uma vida democrática neste particular momento da História. Se chegamos ao ponto de concluir que é melhor tirar o mais possível as decisões políticas das mãos dos representantes eleitos, é melhor começarmos rápido a tratar dos problemas que estão tornando o sistema representativo inviável”.

“A democracia é um imperativo moral, antes que uma necessidade econômica, é verdade. Mas se as democracias não conseguirem entregar uma governança responsável, seja em matéria econômica ou em outras mais gerais, então a governança será cada vez menos democrática e a questão moral fará cada vez menos diferença”.

“E esta é uma questão em relação à qual a Europa e os Estados Unidos, onde a democracia tem suas raízes mais profundas, deveriam se colocar do mesmo lado”.

Um dulcíssimo Pão de Açúcar

28 de junho de 2011 § 2 Comentários

E você que ficou com um ponto de interrogação na cabeça quando, lá atrás, o Abílio Diniz declarou voto no Lula, o cara que patrocinou a libertação dos sequestradores dele (se é que foi só isso).

Tolinho…

Amigos, amigos, negócios aparte, já ensinava don Vito Corleone quando foi se compor com os caras que mataram seu filho e quase acabaram com ele próprio.

Aqui falamos do rei e dos seus barões, que se levantam meio donos do mundo depois que se ajoelham para o toque da espada de ouro do BNDES.

Quem vai puxar o tapete de quem, lá na frente, quando o povo estiver “por aqui” dos monopólios que estão sendo criados agora é outra história. Mas aí o Abílio pega um dos seus jatos transoceânicos e vai morar em costas mais civilizadas porque ele é mais é cidadão do mundo e pensar Brasil é pensar pequenininho…

A jogada, como sempre, é simples e transparente.

Em 2006 o grupo francês Casino, concorrente do Carrefour, comprou do dr. Abílio a opção, a ser exercida em 2012, de se tornar majoritário na sociedade 50% x 50% que eles tinham acabado de compor. Pensou que, com isso, tinha posto de lado o concorrente e podia deixar de acordar à noite pensando que ele fosse se unir, um dia, ao Pão de Açúcar para expulsá-lo do mercado.

Pelo jeitão da coisa, coitados, determinaram o Brasil como corte para exigir esse acordo. Mas, seja como for, o dr. Abílio já deu a volta pela lateral. O BTG Pactual, outro daqueles tubarões do mercado financeiro que não tem amigos nem inimigos quando se trata de negócios, foi chamado a constituir uma empresa, a Gama, para fazer no lugar do Pão de Açúcar a oferta que o Pão de Açúcar quer fazer ao Carrefour. Pelo que se sabe até o momento, parece que eles entram com 300 milhões e o BNDES com 1,7 bilhão (e mais 500 milhões de euros de “empréstimo” à firma que nascerá desse “investimento”). O dr. Abílio não se sabe exatamente com quanto entra. Mas a Gama fica com 17,7% do Novo Pão de Açúcar (aquele que vem com o Carrefour na barriga) por “serviços prestados”.

Laranja como se dizia antigamente…

O BNDES, por essa mesma estranha matemática, fica com 18%.

De quê?

O NPA nasce com 1200 lojas em 178 municípios brasileiros e mais 67 centros de distribuição em todo o território nacional, com 216 mil funcionários (grande demais para quebrar) e um faturamento previsto de 52 bilhões de euros por ano.

Negócio da China! Meeesmo: da inspiração à realização…

O Grupo Casino, coitado, está na rua gritando “ladrão”. Mas o governo Lula, sócio do acusado, também é patrão do judiciário, aquele cuja instância máxima, ainda outro dia, abriu mão de dar a última palavra nos casos que interessem especialmente sua majestade como este ultimo envolvendo um assassino italiano que caiu nas graças dela.

O Cade, coitado, não foi palpado nem cheirado sobre esta operação que deixa os consumidores brasileiros nas mãos de um monstro que, depois deste salto, não terá nenhuma dificuldade para engolir o resto dos peixinhos que sobrarem por aí.

O Cade nem sequer julgou ainda as ultimas deglutições do Pão de Açúcar (Casas Bahia e Ponto Frio)…

Quanto ao BNDES que, como a Petrobrás, “é nosso”, agiu com a discrição que se exige em governos que contemplam em voz alta ideias como o sigilo eterno sobre seus atos. Emitiu um “curto comunicado” em que confirma sua participação na transação, que “está seguindo os trâmites habituais”, que são incertos e não sabidos, havendo fortes indícios de que se apoiem apenas e tão somente nas manifestações de vontade emanadas da garganta do “nosso líder”.

Dos bancos aos açougues o processo é sempre o mesmo. Todos os produtores de insumos e serviços básicos da economia brasileira estão monopolizados por sócios do BNDES com os quais o nosso líder não se vexa de exibir sua intimidade, conseguindo-lhes negócios da China em outras monarquias hereditárias da sua zona de influência pelo mundo afora, que visita na companhia de seus barões e nos aviões de seus barões que, em caso de necessidade, lhe pagam extras por palavra proferida.

Mas e o consumidor brasileiro? O pequeno produtor? O empregado com cada vez menos opções de patrão? Não têm medo de ficar nas mãos de tão poucos? Não estão vendo para onde tudo isso aponta?

Estão, claro. Mas pelo momento caminham festivamente para o abismo a bordo de carros próprios (financiados pelo BNDES), com roupinhas de grife (financiadas pelo BNDES), de barriga cheia e tomando uma cervejinha.

O que mais?!

Estão tão felizes quanto os barões.

Depois, vê-se…

Artigo relacionado: \”Empresários: compre um, leve centenas\


A democracia sobrevive à festa dos milionários? Façam suas apostas…

2 de junho de 2011 § Deixe um comentário

Materinha do Wall Street Journal de terça-feira dá um retrato bem preciso da tradução prática do fim da legislação antitruste a que os Estados Unidos (e não só eles) foram obrigados desde que os grandes monopólios operados pelo capitalismo de Estado chinês entraram em cena com a sua operação global de dumping, que está forçando o mundo inteiro a participar de uma insana corrida de consolidações em todos os setores mais importantes da economia, sob o pretexto de ganhar a economia de escala sem a qual é impossível competir com eles.

A matéria corria assim:

O ano passado foi mais um grande ano para os milionários, embora o ritmo do crescimento do numero deles tenha diminuído um pouco.

De acordo com uma nova pesquisa do Boston Consulting Group publicada segunda-feira o numero de milionários no mundo aumentou 12,2% em 2010, alcançando um total de 12,5 milhões. (O BCG define como milionário quem tem US$ 1 milhão ou mais em dinheiro disponível para investimento, descontadas casas, bens de luxo ou participações em empresas próprias).

Os Estados Unidos continuam sendo os primeiros do mundo em numero de milionários, com 5,2 milhões deles, seguidos pelo Japão com 1,5 milhão, a China com 1,1 milhão e a Inglaterra com 570 mil. Singapura é o país que tem a maior “densidade” de milionários, com 15,5% de sua população dentro dessa categoria.

A tendência mais importante que esses números revelam diz respeito à distribuição global das riquezas. Os milionários representam 0,9% da população mundial mas controlam 39% das riquezas do mundo (eram só 37% um ano antes). Eles detêm, hoje, US$ 47,4 trilhões em dinheiro livre para investimento, numero que, em 2009, era US$ 41,8 trilhões.

Os que estão mais altos na pirâmide dos milionários foram os que mais ganharam. Os que têm US$ 5 milhões ou mais, que representam 0,1% da população do planeta, detêm 22% de toda a riqueza mundial, numero que subiu de 20% em 2009.

Nos Estados Unidos, os milionários controlam 29% da riqueza nacional. No Oriente Médio e na África, essa proporção gira em torno de 38%. E como nos Estados Unidos ha um numero muito maior de milionários do que nessas regiões, a riqueza, embora muito concentrada, está mais espalhada entre eles.

Mas por qualquer ângulo que se olhe para os números levantados pelo BCG, eles confirmam uma tendência que não se altera ha anos: a ascensão global da economia em que o vencedor leva tudo”.

A alegação, como ficou dito acima, é que sem economia de escala é impossível enfrentar a competição chinesa. E é uma afirmação verdadeira. A má notícia é que isso não é suficiente. Mesmo com a crescente monopolização de todas as economias nacionais e a opressão da massa dos consumidores que isso implica, continua sendo impossível competir com os monopólios chineses que, por cima da economia de escala, têm a imbatível vantagem de pagar salários esquálidos para trabalhadores que ainda não se revoltam contra isso porque até pouco antes, recebiam salários de fome ou simplesmente trabalhavam como escravos para o Estado.

Esta é a razão pela qual ao fim de décadas a fio de recordes sucessivos no numero de operações de fusão e aquisição de empresas que antes concorriam entre si (merges and aquisitions), fenomeno que desencadeou um processo de elefantíase no setor financeiro de todas as economias do mundo (são eles que operam essas fusões ganhando fortunas a cada passo em cima de produção zero de novos bens reais) os monopólios que daí resultam acabam requerendo, ainda, monstruosos aportes de dinheiro publico para não irem à rasca diante do dumping praticado por seus concorrentes chineses na disputa pelos mercados globais.

Consumidores e assalariados estão, portanto, num jogo de perde-perde, determinado por aquela insolúvel sinuca que o vulgo brasileiro descreve com perfeição no dito “se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.

Onde antes havia centenas de empresas empregando trabalhadores, hoje ha uma, duas ou no máximo três gigantes que, por empregarem uma massa de dezenas de milhares de trabalhadores antes distribuídos entre dezenas de concorrentes, tornam-se “grandes demais para quebrar”, sob pena de, se isso acontecer, precipitarem crises sociais que nenhum governo que dependa de eleições tem condiçōes de assimilar.

Ou seja: sob o chapéu de “trabalhador”, você fica na mão de um único empregador, com força suficiente para arrochar o seu salario o quanto achar necessário ou conveniente, porque você não terá outra alternativa de emprego; sob o chapéu de “consumidor”, você fica na mão de um único fabricante ou distribuidor daquele bem, que pode subir seu preço quanto achar necessário ou conveniente porque não terá competidores para limitar sua ganância; e sob o “chapéu” de pequeno produtor de bens intermediários ou matérias primas para esses gigantes, você ficará nas mãos de um único comprador ou distribuidor, que poderá jogar sua oferta lá para perto do chão porque você não tem para quem mais oferecer o seu produto.

Com a crescente insatisfação e desespero que isso causa, as sociedades nacionais se dividem e conflagram na busca de “culpados”, procurando-os sempre em quem está perto, o que faz a festa dos demagogos que, graças a isso, encontram mais e mais espaço na política. E enquanto todos se chutam uns aos outros acusando-se mutuamente de exploradores ou de cumplices dos exploradores, a China, em quem ninguém ousa tocar porque, mesmo sendo o foco original de todo esse desarranjo, é um cliente grande demais para que possa ser retaliado, segue nadando de braçadas.

Olhando-se para o futuro, ha duas hipóteses: ou esse quadro melhora porque os chineses conseguirão se organizar e ter força para fazer suas reivindicações valerem contra o partido único que os mantem sob férreo controle, até receberem salários competitivos com os dos trabalhadores do lado do mundo onde ha quase dois séculos se vêm acumulando conquistas trabalhistas, ou o rebaixamento geral dos salários para aproximá-los dos padrões chineses, a concentração extrema da riqueza, a corrupção que disso decorre e a crescente simbiose entre governos e super empresários acaba transformando o mundo inteiro em algo parecido com o que a China é hoje, do ponto de vista político.

Façam suas apostas.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com capitalismo de Estado em VESPEIRO.