Seja um filho da puta que o governo garante
19 de setembro de 2012 § 2 Comentários
A democracia foi inventada para opor o Estado ao Capital e dar uma chance aos peixes. Porque quando esses dois tubarões se unem, todo o resto é só comida. O problema é que a soma da China com a internet está empurrando o mundo inteiro para essa receita, nossa velha conhecida.
A Petrobrás já perdeu mais de metade do valor que já teve no mercado internacional desde o início do governo Lula, apesar de ter anunciado, nesse mesmo período, nada menos que 63 descobertas de petróleo no pré-sal em volumes que, afirmam os petistas, porão o Brasil em pé de igualdade com os países árabes em matéria de petróleo.
Nessa pequena charada encerra-se a chave para o entendimento do velho dilema brasileiro que explica porque, para quem olha para um pouco adiante da ponta do próprio nariz – categoria dentro da qual estão também os investidores internacionais de longo prazo – os números brilhantes que os governos petistas não se cansam de alardear não provocam júbilo nenhum mas, ao contrário, assustam e afugentam.
Esta tarde mesmo, leio num site de notícias econômicas, as ações da Petrobras caíam outros 3 a 4% “em função de declarações de Maria das Graças Foster de que não há prazo a vista para o início da correção dos preços dos combustíveis“, defasados em mais de 50% nesta véspera de eleição.
O movimento “inverteu a tendência anterior de alta puxada pelos mercados internacionais que reagiam à última medição de desempenho do mercado imobiliário dos Estados Unidos“.
Declarações políticas de um lado, medições de desempenho do outro.
Este é o “X” da questão.
Na semana anterior, as ações das elétricas perderam, em um só dia, R$ 14,5 bilhões em valor depois que a presidente Dilma anunciou, ao iniciar sua participação direta na campanha de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo, que haverá grandes reduções nas contas de eletricidade dos consumidores industriais e residenciais.
Obviamente, quando alguém perde R$ 14,5 bilhões numa tarde na Bolsa, outro alguém ganha esse mesmo valor. E se o que determina saltos dessa grandeza são declarações de políticos é de todo provável que pessoas do entorno de quem as vai dar fiquem sabendo antes o que vai acontecer.
Quanto vale a informação que pode render R$ 14,5 bi numa única tarde? Impossível resistir…
Mas esta é só a pequena corrupção que se torna inevitável num sistema sujeito a esse tipo de interferência.
“Para o investidor o pior é a instabilidade que o ativismo do governo acaba gerando” diz Mauro Rodrigues da Cunha, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais. “É difícil imaginar hoje um setor que não esteja sujeito a essa falta de previsibilidade“.
Somente na semana passada mais de 100 tarifas de importação foram aumentadas, na sequência de uma série de anúncios semelhantes feitos nas semanas anteriores. Cada uma dessas movimentações determinou enormes perdas para quem acreditou na regra anterior e possíveis ganhos para quem estava na outra ponta sem que o mérito ou qualquer outra coisa de concreto tivesse a menor interferência no processo.
Hoje a Bolsa de Valores de São Paulo, que vinha financiando a produção no Brasil com dinheiro barato depois das reformas dos anos 90, está reduzida a isso: um espelho da grande loteria das decisões do dia do governante de plantão em que se vai transformndo a luta para ganhar o pão de cada dia neste país.
E isso reconfirma todos os céticos que apostaram na esperteza e derruba, mais uma vez, todos os brasileiros que acreditaram que esforçar-se e fazer por merecer não é sempre um logro ao Sul do Equador.
Por todas as empresas, por todas as escolas, em todos os lares brasileiros essas notícias estão se desdobrando em duras realidades neste preciso momento: quem investiu no trabalho chora a “puxada no tapete”; quem investiu em cabalar as pessoas certas para que o seu produto entrasse na lista dos protegidos da semana festeja o “empurrãozinho” com os bolsos recheados.
Ora, se já éramos um dos países mais fechados do mundo, agora somos mais. E se podemos contar sempre com a proteção do governo contra a eficiência alheia, estudar pra quê? Gastar dinheiro com educação pra quê?
Uma coisa puxa a outra…
Sem investidores de longo prazo nas bolsas não ha dinheiro barato para financiar a produção nem mérito a determinar quem sobe ou desce a rampa. O governo tem, então, de entrar em cena para prover as aposentadorias que, no mundo, os fundos de ações que financiam a produção é que sustentam.
E aí, começa: para “os nossos“, contribuições parciais e aposentadorias integrais; para os demais, contribuições integrais e aposentadorias parciais. Com o tempo, fica assim: o funcionário público brasileiro, que paga um milésimo da conta, tem em média aposentadoria 36 vezes maior que o brasileiro comum que paga as 999 partes restantes. O troco é que cada um deles vira um agente eleitoral de quem lhe garante a mamata.
E a produção? Por um tempo, o BNDES segura. Mas só pros amigos. Os 28 fucking-mega-giga-power “empresários” do Conselho de Gestão da Presidência da República, pesando, por enquanto, 2/3 do PIB brasileiro, recebem a parte do leão e decidem quem entra e quem não entra para a próxima lista dos protegidos.
Em troca…
“Filtra de novo”:
“O problema não é haver corrupção, defeito inerente à espécie humana“, dizia há mais de 100 anos um memorável presidente americano. “O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.
“Seja um filho da puta que o governo garante“, repetem, ad aeternum, os atos dos nossos.
Como defender um sistema desses? Daqui a pouco, quando só restar memória viva dele, acaba-se com o fingimento e parte-se logo pra porrada, pondo o jogo todo por cima do pano.
Tá comigo? É tubarão. Não tá? É peixe. Metade da Europa já foi assim. Muito mais da metade do mundo ainda é…
A democracia foi inventada para opor o Estado ao Capital e dar uma chance aos peixes. Porque quando esses dois se unem, o resto todo é só comida.
É por aí que a coisa vai. E o pior é que a soma da China com a internet estão empurrando à força o mundo inteiro para essa receita.
E as mães das favelas, que dormem com esse barulho, que dêm tratos à imaginação para argumentar com seus filhos adolescentes que o melhor para eles é estudar (naquela sórdida escola pública) e não entrar para o tráfico.
O medo da Europa e o único antídoto possível
8 de maio de 2012 § 1 comentário
A França ainda é um rebelde racional.
Por 3,24% de diferença, trocou a meia direita pela meia esquerda.
Um luxo que se pode conceder somente quem ainda tem menos de 10% da população economicamente ativa desempregada.
A Grécia, com 22% e 1/4 dos anéis (cortes nos salários, aposentadorias e outros gastos do Estado) ainda por entregar, já votou francamente sob o signo do medo.
As correntes democráticas da política foram literalmente apedrejadas no berço da democracia; os incendiários da esquerda e da direita, incluindo os nazistas, foram carregados pela turba enfurecida até o limiar do poder.
Não é ainda o mergulho no ódio, mas é quase.
A Itália, em eleições locais, pende para a mesma direção da Grécia. E o que se poderá esperar da Espanha, com 24,4% de desemprego? De Portugal, com 15,3%? Dessa Europa com 17 milhões de desocupados e milhões de outros na fila do bilhete azul?
A fera enterrada desde 1945 sente o cheiro de sangue e começa a dar estremeções.
A imprensa ligeirinha, cabeça século 20, fala em vitória “do crescimento” sobre “a austeridade”.
Mas a Europa não está indo pelo ralo em função do erro no emprego de palavras mágicas. O caminho pela frente é íngreme e longo. O abismo é muito fundo e não ha espaço para brincar.
Não haverá o “novo começo” prometido nas campanhas eleitorais. A França não abandonará a liderança da Europa do euro dividida com a Alemanha para liderar a rebelião aberta da Europa do Sul.
Pelo menos por enquanto.
Desde a boca de urna, antes mesmo que fosse anunciado o resultado oficial, François Hollande já procurava os meios de continuar agindo racionalmente, composto com uma Ângela Merkel agora mais disposta a concessões cosméticas para não obrigá-lo a perder a face e deixá-la sozinha.
Mas eleições na Europa – em qualquer lugar da Europa – não poderão mudar nada de muito concreto a não ser para pior se o sofrimento chegar ao ponto de fazer com que o ódio ocupe definitivamente o espaço da racionalidade, como já se começa a ensaiar.
E este é o verdadeiro problema.
A crise é global. Não pode ser resolvida com aspirinas nacionais.
Não ha como deter a queda. Pode-se no máximo tentar regular a velocidade dela.
Recessão, desemprego, desmonte de benefícios sociais, a quebra de arrecadação (que enfraquece ainda mais a capacidade dos estados nacionais de proporcionar anestesias); tudo isso é efeito do processo de redistribuição da renda proporcionado pela chegada ao mercado agora planetário de trabalho dos bilhões de trabalhadores que, congelados pelo comunismo, pelo islamismo fanático, pelo caos africano, nunca tiveram direitos, nunca tiveram benefícios sociais, nunca tiveram emprego como isso é entendido no Ocidente.
Para esse lumpen do mundo, o morno “inferno” que ameaça os confortos de um francês, de um grego, de um americano parece o mais ameno dos céus.
Os vasos todos, de repente, passaram a ser “comunicantes” e, segundo a lei da física, todo o líquido que eles contêm procura, agora, o nível médio: sobe quem estava abaixo, desce quem estava acima da média mundial na escala do valor do trabalho.
Mas os europeus e os americanos em queda estão muito ocupados culpando-se uns aos outros para ver que o que os atinge não vem dos lados – direito ou esquerdo – vem de baixo.
O processo começou ha mais de 30 anos e foi chegando aos poucos. Seu efeito foi mascarado com overdoses de crédito, numa reação autoimune das economias mais abertas, como a dos Estados Unidos, e com overdoses de anestesias políticas e proteção social nas economias mais mediadas, como as europeias. Mas agora está aí de corpo inteiro. E veio para ficar.
A solidariedade não é mais uma opção altruísta; é um imperativo de sobrevivência.
A luz no fim do túnel só começará a bruxulear de novo quando cada francês, cada grego, cada americano se lembrar que suas ilhas antes inexpugnáveis estão neste nosso mesmo sofrido mundo e que os sinos estão dobrando por todos.
Só haverá direitos do trabalho de novo quando todos tivermos direitos do trabalho. Só haverá benefícios sociais quando todos tivermos benefícios sociais.
Os salários só subirão quando subirem para todos, ou os empregos continuarão saltando pra lá e pra cá, em busca dos miseráveis de ocasião.
Lutar eficazmente por mais direitos e melhores salários em Paris ou em Nova York hoje, é lutar, a partir de Nova York ou de Paris, por mais direitos e melhores salários em Pequim.
O poder do dinheiro, agora formalmente associado ao poder do Estado e livre de fronteiras, só recuará se todos os indivíduos de todas as ilhas se derem as mãos para enfrentá-los e impor-lhes limites.
Enquanto cada um continuar olhando somente para o próprio umbigo e querendo levar vantagem em tudo num mundo onde a alternativa é vencer ou morrer, não haverá espaço para a dignidade e todas as antigas conquistas da civilização continuarão sendo apenas “custos” a serem desbastados e devidamente apropriados pelos tubarões de sempre.
O argumento indiscutível do resultado
29 de março de 2012 § Deixe um comentário
Com quase um século e meio de atraso a comunidade global embarca, com o mesmo misto de fascínio e desconfiança, na submissão de tudo o mais ao “argumento indiscutível do resultado” da aplicação das técnicas de gestão corporativa a todos os níveis da atividade humana em que embarcaram os Estados Unidos, onde essa tecnologia foi inventada, no final do século 19.
Nos primeiros arrancos, essa tecnologia produz um enorme ganho de eficiência e uma fulminante multiplicação das riquezas materiais que passam, então, a ser invocados pelos maiores beneficiários da mudança para calar toda forma de crítica ou resistência aos prejuízos que logo ela começa a produzir no campo das liberdades individuais.
Não é difícil entender como isso acontece.
É sempre mais fácil argumentar em torno de cifras e histórias estonteantes de sucesso econômico do que de direitos difusos difíceis de definir mas muitíssimo concretos como a humanidade acaba por descobrir sempre tarde demais.
O efeito econômico das tecnologias de gestão corporativa, que surge sempre bem antes dos demais, reflete essencialmente os ganhos de escala na produção que se obtém com a voragem crescente das fusões e aquisições entre empresas que antes concorriam entre si e pela “redução de custos” que, curto e grosso, decorre de demissões e/ou redução de direitos trabalhistas.
É por esse caminho que a nova ordem empurra inexoravelmente a economia para a criação de monopólios com poderes cada vez maiores sobre os consumidores e leva a um processo agudo de concentração da riqueza que tem como corolário o desenvolvimento de relações cada vez mais promíscuas entre o Capital e o Estado com a consequente exacerbação da corrupção.
Assim como os nossos barões do BNDES de hoje, os “robber barons”, ícones da crônica da corrupção nos Estados Unidos daquela época, e o poder político tornam-se íntimos, um passando a servir ao outro.
Não é a primeira vez que passa, portanto, o filme a que vimos assistindo nestes últimos anos. Mas os próprios americanos parecem esquecidos dessa página tão importante da sua própria história.
Um século de hegemonia econômica incontestável levaram-nos a esse “apagão”.
De fato, tudo levava a crer que progresso material e democracia fossem fenômenos indissociáveis naquele século 20 ao longo do qual nenhum governo autoritário ou totalitário logrou vencer a miséria, ao contrário, só a agravaram.
Hoje as coisas estão mais claras.
É que autoritários e totalitários rejeitados por populações que os recusavam dedicaram o século 20 inteiro quase exclusivamente a exercer o terror sobre seus súditos para conseguirem se impor. E populações aterrorizadas não conseguem se dedicar ao trabalho, à inovação e ao desenvolvimento.
Tendo entrado no século 21 com seu poder consolidado pela supressão pela força e pela troca de gerações de toda memória anterior, porém, o regime chinês restabeleceu a verdade a esse respeito.
E essa verdade é bem simples. Como todas as outras, a tecnologia de gestão corporativa é neutra. Um apagador de matizes em nome da eficiência e da objetividade matemáticas que serve indiferentemente a qualquer um que queira dele se servir. E serve muito melhor ainda a quem não oponha limitadores morais ou ideológicos, como direitos individuais e de trabalhadores, à essência matemática da lógica que a inspira.
Iniciado o Terceiro Milênio, a China partiu no limite mínimo no quesito direitos trabalhistas, e no limite máximo no quesito associação entre Capital e Estado, para a disputa com concorrentes que, com gradações variadas, encontravam-se nos extremos opostos nesses dois campos, conquistados ao fim de longas trajetórias de lutas.
Como “direitos” é igual a “custos” a vantagem matemática, que é o que define quem vence a disputa pelos mercados neste nosso mundo sem fronteiras, é indiscutivelmente dela.
Como conseqüência os Estados Unidos vão sendo arrastados de volta a um passado de que eles próprios já se esqueceram pela mesma força que, 150 anos atrás, fez deles a primeira vítima a embarcar no abuso da lógica corporativa aplicada sem limites em função da miragem do enriquecimento rápido: o “argumento indiscutível do resultado”, que a tudo submete. Ou seja, os direitos e a qualidade de vida de cada trabalhador deixam de ser o objetivo último do sistema; tudo passa a ser sacrificável ao dogma da redução de custos que se torna condição essencial de sobrevivência econômica.
Além disso, uma vez iniciada a corrida das fusões e aquisições, passa a ser imperativo “crescer ou morrer”. E como hoje os concorrentes são os monopólios chineses que só sobrevivem anabolizados pelo dinheiro estatal é preciso emula-los também nisso.
E por aí entra a corrupção galopante.
Foi assim que, de referência de alternativa para as populações do mundo submetidas a todos os graus de iniquidade econômica, o centro do Capitalismo Democrático passou a funcionar para o resto do planeta como Brasília funciona para o Brasil.
“Se os Estados Unidos que são os Estados Unidos ‘são’, quem ha de não ser”?
Para não deixá-los ir dormir sem um aceno de esperança, lembro que, na virada do século 19 para o 20, um quadro muito semelhante ao de hoje desaguou nas reformas da Progressive Era (ponha essa expressão na ferramenta de busca do Vespeiro e aprenda mais a respeito) que levaram a democracia ao seu apogeu.
Os ingredientes desse feito, do qual a imprensa foi o maior artífice, foram os seguintes, mais ou menos pela ordem da entrada em cena no cenário institucional:
- reforma do funcionalismo público com drástica redução dos cargos preenchidos por nomeação, eleição direta de funcionários e facilitação da sua demissão (a partir de 1870);
- introdução de legislações antitruste (1890) subordinando o direito de propriedade e o crescimento das empresas à preservação da concorrência em favor do consumidor;
- despartidarização das eleições municipais e profissionalização da gestão das cidades (1º passo em 1894);
- introdução de ferramentas de democracia direta (começando em 1898) como leis de iniciativa popular, referendo das iniciativas mais controvertidas dos Legislativos; impeachment/recall de governantes e funcionários eleitos, usadas hoje principalmente para limitar o poder dos governos de cobrar impostos, determinar as prioridades no gasto público e criar politicas de segurança pública e educação;
- criação de agências setoriais de controle com mandatos independentes (1914) para despolitizar as decisões mais importantes nas áreas de alimentos industrializados, saúde publica, informação, energia e outros setores essenciais;
- eleição direta de juízes de direito e possibilidade de cassação de sentenças judiciais por meios plebiscitários (atualmente em discussão).
O Brasil chegou a implementar algumas dessas reformas sob Fernando Henrique Cardoso mas voltou para trás na Era Lula.
Amanhã conto porque acredito que só partindo da despartidarização da política municipal poderemos chegar a um resultado mais sólido numa próxima tentativa.
As super-empresas e você
2 de março de 2012 § Deixe um comentário
O artigo é de David Rothkopf e saiu na Foreing Policy.
O valor das vendas anuais da maior empresa privada do mundo, a Wal-Mart Stores Inc. é maior que o PIB de todos os países do mundo menos os 25 maiores. Com 2,1 milhões de empregados, ela tem em sua folha de pagamentos mais gente que a população de 100 dos países do mundo. O maior gestor de investimento do mundo, gerido por uma empresa bem low-profile de Nova York chamada BlackRock, controla US$ 3,5 trilhões em valores – mais que as reservas nacionais de qualquer país no planeta. Em 2010, uma instituição filantrópica privada, a Gates Foundation com seus fundos de US$ 33,5 bilhões, distribuiu mais dinheiro em diferentes ações pelo mundo afora do que a Organização Mundial de Saúde tinha no seu orçamento anual.
Ao longo do último século, as maiores organizações privadas do mundo se tornaram maiores que tudo menos meia dúzia dos governos dos mais ricos países do mundo em matéria de recursos, alcance global e influência. Ao mesmo tempo, até os países mais ricos estão às voltas com burocracias inchadas, crises orçamentárias e a perda generalizada de confiança do público nos governos. Os governos estão ainda, em toda a parte, limitados a agir dentro de suas fronteiras em uma época em que todos os problemas que afetam as pessoas são, cada vez mais, transnacionais.
Conseguir um balanço adequado dos poderes público e privado é o maior desafio de nossa época. Encontre o ponto de equilíbrio – uma dose prudente de regulamentação, poder suficiente às pessoas para competir, condições de dinamismo para a economia, condições justas de luta para todos – e a sua será uma das sociedades prósperas do século 21. Erre a equação e o resultado virá na forma de instabilidade social, prosperidade declinante, menos condições de construir o seu próprio destino. E decisões que hoje ainda parecem inteiramente locais vão ter consequências geopolíticas decisivas.
Nos Estados Unidos esta é a questão política do momento. O governo é grande demais, um fardo para a sociedade e uma ameaça para as liberdades individuais? Ou foi cooptado pelos donos do dinheiro e é fraco demais para proteger os interesses das pessoas comuns? Tem contribuído para o bem estar geral ou está institucionalizando a desigualdade, a serviço de uns poucos – os 1% – e não da maioria?
Na Europa esse debate também está quente, ainda que abafado no momento pela discussão sobre quanto de suas prerrogativas o governo de cada país deve ceder à União Europeia e a que interesses esse governo colaborativo serve – o que já deixa para trás o papel tradicional do estado-nação. Faça essa pergunta a um grego e a um alemão e você colherá respostas bem diferentes.
Na China, o cabo-de-guerra entre o público e o privado é visível em todos os níveis de uma sociedade que está se reinventando numa velocidade tão alucinante que estabilidade e crescimento frequentemente parecem conceitos tão irreconciliáveis quanto eles são essenciais um para o outro. É um tipo de desafio que também esta sendo enfrentado em outros lugares do mundo emergente, da Rússia das batalhas entre oligarcas e governantes ao mundo árabe mergulhado na agitação social que reage tanto contra esquemas patrimonialistas e governos a serviço dos interesses econômicos de pequenas elites quanto contra a falta de liberdade e oportunidade para todos.
É preciso achar um ponto de equilíbrio. Ha uma década e meia os Estados Unidos estavam comemorando o triunfo do capitalismo e a derrota do estatismo pelas forças do mercado. Dançava-se sobre o túmulo do comunismo e do socialismo Mas hoje está claro que a comemoração foi prematura.
Desde então o mundo evoluiu da luta entre capitalismo e comunismo para algo bem mais complexo: uma batalha entre diferentes formas de capitalismo na qual a diferença está nos papéis relativos dos agentes públicos e privados. Enquanto o modelo do livre mercado que Washington promovia se vê às voltas com ferimentos auto-infligidos, outros formatos ganham terreno. Modelos em ascensão competem por influência – do “capitalismo à chinesa” de Pequim ao “capitalismo desenvolvimentista democrático” da Índia e do Brasil; das economias apoiadas numa forte disciplina fiscal mas também numa aliança forte entre o público e o privado da Europa do Norte ao “capitalismo de estado empreendedor” de países pequenos como Israel, Singapura e os Emirados Árabes.
Nos Estados unidos e outros países que adotaram o modelo americano, a noção de que a mão pesada do poder econômico nas esferas legal, legislativa e regulatória desequilibrou as coisas a favor do poder econômico vai se generalizando. A desigualdade aumentou, tanto no que diz respeito à distribuição dos benefícios econômicos e aos privilégios ostentados por uma elite super-poderosa quanto, o que é mais grave, no que se refere ao alcance da lei. Nada pode ilustrar melhor essas distorções que a última crise na qual as grandes instituições financeiras passaram por cima dos regulamentos, abusaram da liberdade que lhes foi dada, convenceram o governo a resgatá-las (mas não às vítima dos seus abusos) e, em seguida, barraram as reformas e voltaram quase exatamente às mesmas práticas que as meteram na enrascada inicial. O resultado é essa ressaca moral que se manifesta em movimentos como o Occupy Wall Street e os protestos nacionalistas contra a globalização.
O mundo precisa de uma nova ordem institucional que reflita a nova realidade. Todos os países do mundo tiveram sua soberania enfraquecida; a autoridade dos governos deixou de ser o que era. Pilares básicos do poder do Estado como o controle de fronteiras, o poder de emitir dinheiro, o poder de impor a lei e o de projetar força internacionalmente foram afetados de modo irreversível. Graças à internet, os meios de transportes modernos e a globalização em geral, os Estados nacionais não conseguem mais ver, quantificar ou controlar a maior parte das coisas que atravessam as suas fronteiras. Só uma pequena minoria de países tem moedas de fato conversíveis enquanto a quantidade de papéis de valor internacional emitidos por entidades privadas, como os derivativos, ultrapassa enormemente o valor das moedas emitidas por governos. As companhias globais têm hoje meios de escapar de regulamentos e legislações nacionais que não lhes convêm simplesmente mudando suas operações de lugar. Em contrapartida, não existem mais de 20 países com condições reais de projetar poder além de suas fronteiras.
Uma companhia como a Exxon Mobil, com vendas de US$ 350 bilhões em 2011, opera em duas vezes mais países do que aqueles em que um pais rico como a Suécia, por exemplo, mantém embaixadas. O orçamento de defesa da Suécia inteira, aliás, é seis vezes menor do que os gastos previstos no orçamento anual da Exxon. O gigante da energia tem mais dinheiro investido e um envolvimento muito mais decisivo em dezenas de economias; é capaz de mobilizar muito mais recursos para influenciar decisões políticas pelo mundo afora do que a Suécia. Agora responda: qual entidade, a Suécia ou a Exxon, influenciará mais as decisões internacionais sobre a mudança climática? Ou qualquer decisão internacional sobre meio ambiente?
Comparar o tamanho de empresas privadas com o de países é sempre uma tarefa complicada porque as métricas são diferentes, mas considere o seguinte: a milésima maior companhia do mundo tem vendas anuais maiores que os PIBs de 57 países. Trata-se da Owens-Illinois, que produz garrafas de vidro; suas vendas passaram de US$ 7 bilhões em 2010, mais que o PIB do Benin, das Bermudas, do Haiti, de Kosovo, Liechtenstein, Moldávia, Mônaco, Nicarágua, Níger, Ruanda, Tadjiquistão e dúzias de outros países. Na verdade, as 500 companhias listadas entre as maiores do mundo pela Forbes poderiam, sem exceção, se alinhar entre as 100 maiores economias do mundo. (PIB é uma medida complicada e enganosa que não pode ser comparada diretamente a vendas de uma empresa. Mas a comparação dá, de qualquer maneira, uma ideia de grandeza.)
O fenômeno do poder corporativo não é novo, é verdade. A Companhia das Índias Ocidentais Britânica governou o subcontinente indiano e mantinha um dos maiores exércitos do mundo em seu tempo. Andrew Carnegie e Henry Ford construíram cidades completas com escolas e o mais para seus milhares de trabalhadores. Ao longo do século passado esses papéis que companhias privadas dividem com o Estado foram mudando e se tornando mais complexos à medida que as multinacionais iam crescendo. Hoje em dia muitas dessas companhias podem se dar o luxo de ter a sua própria política externa. Lançam suas próprias campanhas políticas, como a Exxon fez, por exemplo, com seu lobby para impedir que os Estados Unidos assinassem o Protocolo de Kyoto. Assumem importantes iniciativas na área de segurança, como aconteceu com a Blackwater na guerra do Iraque. Montam sistemas de saúde, de treinamento, de habitação e assumem outras funções que os estados nacionais deveriam mas já não aguentam oferecer.
O resultado disso é que sociedades inteiras tornam-se dependentes de corporações gigantes com excesso de poder nas mãos mas com centros de decisão distantes e que respondem apenas e tão somente aos seus acionistas. E aparelhos institucionais construídos a duras penas ficam cada vez mais fracos, incapazes de processar os pleitos das pessoas. O contrato social, base da democracia, vai sendo rasgado numa realidade em que os problemas que eles teriam de resolver estão, cada vez mais, fora da sua jurisdição.
Este artigo não é um chamado para a revolução. Se a carnificina, as experiências em arquitetura social e a polarização do século 20 nos ensinou alguma coisa foi que soluções extremas não funcionam quando se trata de procurar a melhor dosagem de poder público e poder privado. Nenhuma sociedade pode ir para a frente sem conseguir um equilíbrio entre os dois. Para alguns americanos é preocupante realizar que ficou bem reduzida a prerrogativa de influenciar a decisão sobre o modo pelo qual esse equilíbrio deve ser procurado. Mas para a maioria, para os 99% que saíram perdendo nessa troca, esse capitalismo híbrido que está emergindo da competição global pelo mercado das idéias (tão avesso às tradições da democracia ianque) vai acabar parecendo uma alternativa mais justa e sustentável do que o que eles têm hoje em dia.
(Tradução FLM)
Steve Jobs, o mau patrão, ou, Há capitalismos e capitalismos
30 de janeiro de 2012 § 3 Comentários
O “golpe do gato” consistia no seguinte. O sujeito ia lá para os mais miseráveis grotões do Brasil e oferecia uma boia de salvação. “Precisa-se gente disposta e decidida para trabalhar em frentes de desmatamento na Amazônia. Paga-se bem“.
Eram os anos 70 e as beiradas da Amazônia estavam tão longe do mundo com leis quanto um planeta distante.
O cara ia e logo se dava conta de que para comer, se vestir, tomar um remediozinho, ter qualquer contato com a civilização, dependia da estrutura montada pelo patrão. Só aí começava a aparecer o outro lado da moeda. Na vendinha do patrão, a única lá daquele fim de mundo, tudo custava 10 vezes mais caro. Mas podia ser comprado a prazo…
Moral da história: o sujeito ficava devendo sempre mais do que ganhava e virava escravo.
O golpe arquitetado por Tim Cook para Steve Jobs, o mau patrão, é exatamente semelhante.
Tinha gente que se achava esperta ganhando dinheiro no mole nos Estados Unidos explorando, aqui e ali, condições de trabalho na China que, em casa, os meteria na prisão. Mas isso já se tinha tornado uma commodity. Mortos os concorrentes mais “patrióticos” e “moralistas” que insistiam em não trocar trabalhadores americanos por chineses, todos os que tinham sobrevivido eram igualmente “modernos”.
Assim, simplesmente explorar miseráveis chineses deixou de ser um fator definitivo de sucesso. Era preciso “inovar“.
Jobs tinha o homem certo para o momento certo. E sentiu que esse momento chegara. Lá se foi Tim Cook para a China para descobrir onde estavam as “novas oportunidades de aprimoramento de gestão e ganhos de escala” sobre a miséria chinesa.
A China é um país novo, apenas emergindo do pesadelo maoísta que, debaixo de porrada, levou aquele quarto da humanidade de volta para a Idade Média sob o aplauso entusiasmado de boa parte da inteligentsia ocidental. Tendo regredido ao ponto zero de industrialização, tinha tudo por fazer e nada por reformar.
“É isso“, pensou Tim!
Depois de espremida a laranja até o bagaço dentro dos limites das legislações de trabalho civilizadas, o Ocidente andava, ultimamente, apertando parafusinhos nas cadeia de fornecimento para reduzir estoques e obter pequenas vantagens competitivas. Mas a coisa acabava batendo sempre na dispersão das estruturas existentes e na dificuldade e no custo de reorganizá-las.
Na China não. Onde antes não havia nada não era preciso derrubar para construir ou deslocar para abrir espaços. E, especialmente, não era necessário perder muito tempo fazendo contas. Lá estava o Estado chinês, único dono da economia nacional, e seus ávidos, todo poderosos e sempre seduzíveis funcionários, fiscais de si mesmos, para pagá-las quaisquer que fossem.
Tem mais que um dedinho da Apple, portanto, essa Chengdu, no Sudoeste da China, onde brotou do chão “o maior, mais rápido e mais sofisticado polo de manufaturas do planeta Terra“.
Ali pode-se realizar o sonho de todo contador de tostões: uma série de fabricazinhas absolutamente focadas para cada componente de um produto, umas vizinhas das outras, com centros de montagem espargidos pelo meio, alimentando-se mutuamente com transporte e estoque zero; uma força de trabalho sem nenhum direito constituído, flexível o suficiente para ser jogada pra lá e pra cá, a qualquer hora do dia ou da noite, para atender milimetricamente, para cima ou para baixo, as flutuações da demanda.
E tudo pago a preço vil.
Estava feito o milagre do supply chain!
Uma verdadeira maravilha. E irreplicável fora da China!
Mas o melhor ainda estava por vir. Como a rede de fornecedores, e de fornecedores dos fornecedores, constituía-se para atender a um único cliente – a Apple – este ficava com a faca e o queijo na mão. Com cada fábrica fazendo um pedaço de peça interessante apenas para a fabriqueta vizinha, não se corria o risco, nem de se ver pirateado, nem de ter tal mão de obra disputada por outro.
No way out!
No primeiro ano as coisas corriam conforme o combinado. Mas a cada renovação de contrato, Steve Jobs arrancava mais 10% de seus “parceiros”.
“Não gostou? Ok. Procure outro comprador. Ou feche as portas” (os diálogos são imaginários).
Começava a aparecer o outro lado da moeda…
Espremidos contra a parede, toca cortar custos.
E se foi desenhando o quadro que o New York Times descreveu em minúcias nas reportagens publicadas na semana passada (veja o original aqui):
- montadoras com até um milhão de operários trabalhando seis dias por semana sem sair de dentro da fábrica, dormindo amontoados em quartinhos, quase celas;
- cartazes “à la Aushwitz” dominando os salões de montagem, lembrando àqueles meninos e meninas vindos do interior da China para as garras do “gato”: “Trabalhe duro na tarefa de hoje ou você terá de trabalhar duro para arranjar outro trabalho amanhã“;
- “castigos” para quem chega atrasado à sua bancada variando entre “escrever autocriticas”, copiar centenas de vezes a mesma frase ou fazer flexões deitado no chão da fábrica;
- casos comprovados de “trabalho involuntário” (prisioneiros do regime, talvez?);
- instalações muito mais que precárias, cada vez mais inseguras;
- repetem-se em escala crescente as explosões, com mortos e queimados, de salões de montagem sem ventilação pela acumulação de pó de alumínio (limado do corpo do seu lindo iPad);
- empregados envenenados pela substituição de álcool pelo ultra cancerígeno n-hexano, que evapora três vezes mais rápido, na limpeza das telas dos iPads montados (resultando em mais iPads limpos por pulmão intoxicado);
- salários de fome;
- exploração de menores…
A lista segue em frente.
Sob pressão de ativistas chineses, ONGs dos próprios Estados Unidos e até de organismos do Banco Mundial, a Apple, durante anos, finge que não é com ela. Quando entende que não dá mais para evitar o assunto institui comissões e relatórios anuais de “responsabilidade social” e “normas mínimas de segurança e condições de trabalho”.
Mas, alegando a necessidade de segredo industrial, não revela a lista dos seus fornecedores chineses, sujeitos a tais regras.
Depois da onda de suicídios na Foxconn, cede e “revela” o nome de 156 deles. Reporta punições cosméticas contra alguns, agora que se tornou possível checar o que os relatórios afirmam. Mas os casos de envenenamento e as explosões se multiplicam: os fornecedores desses fornecedores, continuam “secretos”…
“Se você se depara com os mesmos problemas nos relatórios, ano após ano, é porque a companhia os está ignorando em vez de tentar resolvê-los“, diz um funcionário graduado da Apple pedindo anonimato.
Em compensação os números da companhia vão à estratosfera. Steve Jobs brilha. “É tão bom para inventar e desenhar quanto é para gerir“. Eu mesmo caí no logro. A Apple desliza de braçada por sobre o lodo da miséria chinesa, até chegar ao fantástico lucro de US$ 13,06 bilhões de dólares sobre US$ 46,3 bilhões em vendas em um único trimestre anunciados na semana passada.
São esses recordes sucessivos que provocam reuniões sem fim entre os concorrentes e a fila crescente dos “I wannabe Apple” pelo mundo afora: “Então, seus perdedores! Cadê a performance? Não me venham com desculpas românticas. Eu quero é a satisfação dos acionistas“.
É o grito da dupla Jobs/Cook para o lumpen chinês voltando como um eco maldito para o lugar de onde partiu.
E, pelo Ocidente afora, dezenas, centenas de milhões de trabalhadores com direitos vão para a rua da amargura com a substituição da onda “monte seu produto na China ou morra” pelo tsunami “exporte toda a sua cadeia de produção para a China ou morra“.
Eficiência? O milagre do supply chain?
Nada disso. “Quando a esmola é demais até o santo desconfia“. Tem sempre alguém pagando por qualquer “almoço grátis” que se oferece por aí…
“Voltar atrás significaria deter o ritmo da inovação“.
A desculpa de Steve Jobs num seminário onde era acusado de explorar a miséria alheia pouco antes de morrer, é a que resta diante da contundência dos fatos. Uma espécie de curinga para sair de saias justas morais. O mesmo ao qual recorrem, de mr. Kim Dotcom, o megauploader de mercadoria roubada defendido por certa inteligentsia cibernética pelas mesmas razões que seus predecessores defenderam Mao Tsetung, ao Google e todas as criaturas do lado escuro de Silicon Valley sempre que se lhes aponta as vergonhas desnudas.
“E não é isso o capitalismo?“, vem o coro dos que não resistem a uma boa tragédia americana.
Não. Não é isso o capitalismo.
O capitalismo democrático (que antes não precisava ser adjetivado porque não havia outro a não ser este bandalho que conhecemos, que se diz capitalismo mas apenas bandalho é) é, precisamente, o sistema que coloca em campos opostos e nitidamente delimitados o Estado e o capital privado, cabendo ao primeiro fiscalizar o segundo e dizer-lhe, em nome do coletivo, até onde ele está autorizado a crescer, mesmo que jogando inteiramente dentro das regras.
É isto que o define e distingue de tudo o mais.
O capitalismo democrático é aquele que vê o homem como o perigo que ele é e trata de cerceá-lo na sua essência feral, enfim.
É um corolário da democracia, invenção que parte exatamente da mesma visão e tem exatamente o mesmo propósito, e que teve o seu apogeu no século 20 com a criação das legislações antitruste desenhadas para impedir que qualquer homem, qualquer empresa, se tornasse “grande demais para quebrar” ou para se impor ao comum dos mortais, mesmo que exclusivamente em função de competências próprias.
Este da China está muito além deste quase ingênuo capitalismo bandalho nosso velho conhecido. Tem o Estado não apenas como sócio mas como proprietário único do Capital e, consequentemente, todo o resto da sociedade na palma da sua mão.
Nada de conter a fera humana. Nele juntam-se o Capital e o Estado para caçar em matilha. Sobreviva quem puder.
O fato da internet ter permitido que ambições há muito domesticadas por legislações antitruste nacionais hoje escapem delas para ir matar as saudades dos bons velhos tempos da lei da selva alhures, forçando o resto do mundo a se “achinezar”, prova apenas que a tal “inovação” que eles tanto invocam para justificar a sua sede de suor alheio não altera rigorosamente nada o pendor do homem de explorar o homem, que voltará a se manifestar com toda a força da Natureza sempre que a um deles for dada essa prerrogativa.





























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