Civilização é só medo da polícia

27 de maio de 2013 § 15 Comentários

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Enquanto nossas autoridades seguem mergulhadas na momentosa discussão para saber se a transformação do tiro na cabeça à queima roupa numa espécie de esporte nacional é mesmo função da pobreza e se há alguma coisa que se possa fazer a respeito mais que manter seus praticantes soltos pelas ruas do Brasil enquanto se distribui dinheiro por aí, o mundo rico nos dá provas cada vez mais veementes de que a civilização não é mais que medo da polícia, bastando tirar de cena a perspectiva da cadeia para que regressemos ao estado selvagem.

Não é que o dinheiro não é capaz de curar-nos do que somos. Nem mesmo a educação é capaz disso por si só.

Ao contrário, o que os fatos demonstram é que dinheiro e conhecimento sem polícia fazem dos mais refinados e ricos entre os exemplares da espécie apenas predadores mais eficientes.

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Os produtos da Apple, por exemplo, revolucionaram todos os processos humanos, dos atos mais prosaicos do cotidiano ao modo de se abordar a mais alta ciência. E Steve Jobs, seu criador, tem sido saudado, com toda a propriedade, como o maior gênio da raça depois de Leonardo da Vinci.

Mas bastou que as ferramentas que ele próprio ajudou a inventar universalizassem as leis da economia – que ritualizam os nossos instintos básicos – antes que pudessem universalizar as leis da política – que ritualizam os diferentes graus de superação desses instintos básicos que as sociedades humanas foram capazes de atingir – para que ele próprio indicasse aos seus concorrentes a oportunidade que isso abria de voltar impunemente ao mesmo grau de exploração do homem pelo homem dos primórdios da Revolução Industrial.

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E lá migrou a empresa símbolo do auge da sofisticação científica atingida pela humanidade para os mais remotos grotões da China para explorar a miséria criada pela utopia socialista e o trabalho quase escravo de crianças para cima, em esquemas marcados por tais extremos de vilania que chegaram a produzir ondas de suicídios em massa.

O seu espetacular “sucesso” como “empreendedor” – tinto de sangue pouco importa – arrastou para os antros de miséria do mundo os empregos dos seus próprios conterrâneos que, não obstante, babavam de admiração por esse grande feito “empresarial” enquanto compravam baratinho os produtos desse esquema vil com seus salários reduzidos pela competição dos pobres do mundo.

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Graças a essa mesma oportunidade de fazer sem medo da polícia o que os levaria para a cadeia em seus próprios países, os mais “sensíveis” e “criativosdesigners de moda exportaram a produção das roupas e acessórios que criam “para tornar a vida mais confortável e glamurosa” para “fábricas” sórdidas nas Bangladeshs da vida onde trabalhadores famintos que imploram por um salário de US$ 38 por mês se amontoam em tugúrios onde mourejam de sol a sol sob o risco de morrerem envenenados ou esmagados por desabamentos.

Benetton, Mango, Primark, H&M, Tommy Hilfigher, Calvin Klein, Tchibo, The Children’s Place, Monsoon, DressBarn ou a nossa C&A, foram algumas das marcas que, por tras de seus desfiles e editoriais de moda recheados de beleza e abundância, tiveram de se desculpar pelo último desastre do gênero. Nada que outros que ainda não tiveram tanto destaque não façam também.

ban13Mas suas lojas espalhadas pelo mundo continuam abarrotadas de gente ansiosa por desfilar por aí um look cool a preço conveniente.

Bangladesh que se lixe!

O mesmo caso da nossa Vale do Rio Doce, que faz com os seus carvoeiros de Moçambique o que nem no Brasil é permitido fazer…

A civilização, repito, não é mais que medo da polícia. Está na hora, portanto, de nossas autoridades meterem mãos a obra em vez de seguirem esperando, com as nossas e as cabeças de nossos filhos como alvo, que alguma espécie de milagre convença os assassinos que andam a solta por aí a nos entregar de livre e espontânea vontade aquilo que nem os mais ricos, sensíveis e educados representantes da espécie entregam senão contra uma muito concreta certeza de acabarem seus dias numa jaula se resistirem a faze-lo.

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Seriam só bois que a JBS anda matando?

20 de fevereiro de 2013 § 5 Comentários

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O Estado de ontem noticiou que o Cade vai iniciar uma investigação sobre o crescimento vertiginoso do frigorífico JBS.

A JBS e a holding J&F “à qual pertence” é caso, no mínimo, para o dr. Roberto Gurgel e o seu Ministério Público, o último xerife que paira acima de qualquer suspeita neste país bichado.

Mas antes o Cade do que nada.

Diz a agência que eles triplicaram de tamanho nos últimos quatro anos, indo de 15% para o controle de 40% da carne bovina vendida no pais (na verdade, já é bem mais que isso).

Fora as que registraram no Cade, a JBS fez pelo menos outras 70 operações de aquisição ou arrendamento de frigoríficos no país e 20 ou mais no exterior que nem se deram o trabalho de comunicar à agência de controle da concorrência.

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Só os abatedouros e processadores arrendados somados constituiriam, hoje, o terceiro ou quarto conglomerado do setor, afirma o Cade.

Muitos dos arrendamentos, queixam-se os criadores que estão nas mãos desse monopólio, são feitos para fechar os abatedouros envolvidos e, assim, eliminar a concorrência.

E para completar o quadro, comentam os investigadores do Cade, “a já elevada capacidade ociosa da empresa torna essas aquisições questionáveis do ponto de vista da racionalidade econômica, reforçando as suspeitas de estratagema para eliminar a concorrência”.

O “caso JBS” é mais uma daquelas obviedades rodrigueanas, “que clamam aos céus”. Não só é evidente que não se trata de operação que responda a imperativos de racionalidade econômica como, mais ainda, todas essas compras têm sido feitas com dinheiro do BNDES, hoje caudatário do Tesouro Nacional, ou seja, com transferência líquida de dinheiro dos contribuintes para a “família Batista” que é quem aparece à frente desse vasto “empreendimento”.

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O fato de entre o primeiro e o terceiro colocado, encarnado pela soma das empresas “arrendadas” por esse mesmo grupo, estar a Marfrig, outra fabricação do BNDES, já indica de modo clamoroso que há, sim, forte racionalidade política nessa vasta armação feita com dinheiros públicos.

Seria uma forma eficiente de, por exemplo, resolver o problema que todos os governos socializantes, desde o primeiro lá na Rússia soviética, enfrentaram, de encontrar meios e modos de controlar o setor fortemente pulverizado da agropecuária e dos pequenos e médios produtores agrícolas, sempre um calcanhar de Aquiles nesses projetos de controle total da economia.

Acredite em coincidência se preferir. Mas que é preciso investigar a fundo porque interessa a um banco nacional de desenvolvimento de um pais mendigo de infraestrutura, educação e saúde gastar centenas de bilhões para fazer da família Batista não o rei mas o imperador do gado no Brasil e no mundo, disso não há dúvida nenhuma.

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Afinal, com uma migalha do que se enterrou na JBS, poder-se-ia, só para dar um exemplo, resolver a crise de todas as Santas Casas do país, que decorre de um endividamento de meros R$ 15 bilhões e ameaça por em colapso todo o Sistema Unificado de Saúde que atende a esmagadora maioria dos brasileiros que não podem pagar um médico e um hospital decentes.

Outro aspecto para o qual vale a pena olhar é o seguinte: quem tem a rede de empresas que o BNDES jogou nas mãos dos Batista em todos os continentes do mundo não precisa de bancos ou quaisquer outros canais para lavar dinheiro suspeito. É só “comprar” aqui, “vender” ali, “arrendar” acolá que tudo se resolve dentro de casa…

Não afirmo que é isso que esteja acontecendo. Mas quem não se lembra que meia hora depois que veio à tona tudo que estava enterrado na fossa da Construtora Delta, rainha do PAC filho da Dilma, no trono da qual sentava-se o ininvestigável Fernando Cavendish, o menos traquejado dos irmãos Batista jogou a holding da família na arena propondo comprar a empresa que acabara de ser declarada inidônea “de porteiras fechadas” antes mesmo de examinar qualquer um dos seus números, projeto de que só recuou em função do escândalo que tal oferta produziu num momento em que de escândalos este governo já estava superlotado?

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E mais: não é a J&S, também, que, com a gordura dos seus bifes, criou a sua própria empreiteira e está mordendo nacos suculentos das obras de infraestrutura que o PT está terceirizando para a iniciativa privada?

Não é ela, finalmente, que a par de financiar sozinha, por trás dos panos, inúmeras revistas e publicações pelo país afora, está começando a assumir agora também as suas pretensões no setor de mídia com a anunciada compra (ainda não confirmada) do Canal Rural do grupo RBS do Rio Grande do Sul?

Seja como for, uma coisa é certa. Muito pouco desse império supersônico foi construído com bifes ou com alguma secreta alquimia capaz de transformar carne de vaca em diamantes. Tudo foi amealhado com o inestimável concurso do dinheiro fácil do BNDES.

De modo que, senão por outra razão, ao menos por essa isso seria caso para o dr. Gurgel e o seu Ministério Público, mesmo porque o resto já morreu. Mas ainda que seja via Cade, que alguém precisa jogar um pouco de luz dentro desse imenso matadouro, isso sem dúvida nenhuma, precisa.

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É aí que mora o perigo

16 de novembro de 2012 § 1 comentário

O Capitalismo de Estado chinês é o marco ao pé do qual foi enterrada para sempre a ilusão que embalou os sonhos de certos estudiosos das ciências sociais de que o capitalismo é capaz de engendrar a democracia, e vice-versa.

Desde que, no final dos anos 70, Deng Xiaoping proclamou, com alguns séculos de atraso em relação aos protestantes, que “Enriquecer é glorioso”, esses rousseaunianos às avessas vêm esperando em vão que o “socialismo de mercado”, ao estimular a demanda reprimida por mais liberdade, acabe por empurrar a China para mais abertura política.

O 18º Congresso do Partido Comunista Chinês que delibera a sucessão no comando da ditadura que governa a China desde 1949, acaba de reafirmar textualmente que não há no horizonte qualquer sinal de relaxamento.

O que há, ao contrário, é um muito concreto movimento universal de refluxo do capitalismo democrático, aquele caracterizado pela oposição do poder do Estado ao poder do Capital, para fazer frente à competição predatória que os grandes monopólios chineses estão impondo ao mundo na disputa pelo mercado dos manufaturados que ainda sustentam a maior parte dos empregos do mundo.

Dos Estados Unidos democrata-goldmansachianos de Barak Obama ao Brasil petista-gerdau-mckinseyniano de Dilma Rousseff e Fernando Haddad, passando por onde mais se queira passar, o Estado e o Capital cada vez mais se dão as mãos com a consequência necessária de que não sobra em cena nenhuma força capaz de se lhes opor.

A lição reintroduzida pelo pragmatismo chinês, superados os mal entendidos do século 20, é a de que nada se parece mais com o “centralismo democrático” leninista que a organização interna de uma empresa capitalista, havendo, portanto, muito mais a aproximar do que a afastar o governante autoritário do megaempresário, estes irmãos siameses que nasceram para buscar o poder pelo caminho do dinheiro ou o dinheiro pelo caminho do poder.

A verdade histórica, aliás, é que eles sempre andaram de mãos dadas sendo a democracia – um artifício da inteligência inventado exatamente para forçá-los a separar-se e opor-se um ao outro – um mero interregno a truncar o livre curso das forças da natureza nos pouquíssimos lugares onde chegou a realizar-se de modo pleno.

E no entanto, todos os segmentos “educados” dos diversos países do mundo, sob a regência de uma imprensa em crise que, por assim dizer, lidera a onda mundial de pânico, age e vocifera como se o que estivesse acontecendo fosse precisamente o contrário.

O problema é que, especialmente quando estão com o rabo preso no torniquete da crise da hora, as pessoas costumam perder todo sentido de perspectiva. Que dizer, então, da perspectiva histórica.

E é aí que mora o perigo.

O mundo viveu o certame Obama x Romney como se fosse seu. Num instigante artigo para o New York Times anterior à reeleição, Capitalists and other Psycopaths, William Deresiewicz argumentava com humor para concluir que “a ética, no capitalismo, é puramente opcional e extrínseca à sua natureza”.

Não é só “no capitalismo”. A ética é extrínseca aos seres humanos enquanto espécie. É uma construção defensiva das sociedades humanas (entidade com natureza própria) que tem de ser imposta à força a cada um de seus membros.

O pormenor sintomático é que, para ilustrar seu ponto, Deresiewicz teve de viajar 300 anos para traz para lembrar “A Fábula das Abelhas – Vícios Privados, Benefícios Públicos”, do inglês Bernard Mandeville, “um Maquiavel do reino da economia que nos mostrou como realmente somos e afirmou que a sociedade comercial criava prosperidade ao constranger (para uma boa direção) os nossos impulsos naturais para a fraude (não há lucro sem ao menos uma pequena mentira), a luxúria e o orgulho” (que criam a demanda), de onde saiu o conceito que teria inspirado Adam Smith a formular o seu sobre “a mão invisível” do mercado.

A ‘mão’ de Smith era ‘invisível’”, alertava Deresiewicz. “Mas a de Mandeville tinha de ser ‘manejada com destreza por um político muito qualificado’, ou seja, em termos modernos essa ‘mão’ seriam a lei, a regulamentação e os impostos”.

Os Estados Unidos podem dar-se o luxo de dividirem-se apaixonadamente em torno da nuance da “mão visível” x a “mão invisível”, que parece ridícula para quem vive a realidade esmiuçada no julgamento do Mensalão, porque nos 300 anos que nos separam do início dessa discussão têm sido uma excrescência histórica: o primeiro e único governo da Terra desenhado a partir da premissa de que “os homens não são santos”, por isso necessitam que a lei lhes imponha à força um comportamento (ético) que os afaste de sua natureza corrupta, aperfeiçoado logo a seguir com a definição complementar de que a principal função do Estado, encarnado por gente movida a sede de poder, é impor limites ao Capital, detido por gente movida a sede de poder, mesmo quando o que o Capital conquista é estritamente função de mérito.

Fogo contra fogo.

Já a esmagadora maior parte do resto do mundo vem desde os primórdios e sem nenhuma interrupção, submetido a ligeiras variações do eterno modelo de um rei cercado de seus barões para os quais não vale lei nenhuma vivendo em eterno banquete, enquanto o resto da patuléia pasta.

O medo é o maior inimigo da razão, já se sabe. Mas a Era das Comunicações Instantâneas já vai longe o bastante para que os jornalistas vacinem-se contra a ilusão da “aldeia global”, que por enquanto só se realizou no que diz respeito ao alcance da voz, e reaprendam a focar seu discurso na sua própria realidade em vez de confundi-la com a realidade alheia.

Está na hora, aliás, de todos os que vivem sob patrões e governos se lembrarem, dentro e fora dos Estados Unidos, que o auge da democracia foi a cruzada antitruste que o tsunami chinês afogou e que este continua sendo o grande objetivo a ser perseguido.

Ou seremos todos engolidos, feito patos laqueados, e jogados de volta para o passado da selvageria política.

Pelo imposto da dignidade

1 de outubro de 2012 § 1 comentário

O motim que explodiu na semana passada na unidade de Taiyuan, província de Shanxi, China, da Foxconn, com 40 feridos, foi o enésimo episódio de violência do trabalho registrado sob essa marca que se vai transformando no símbolo mundial do capitalismo selvagem, mas que cresceu e apareceu no cenário das gigantes da manufatura da China especializando-se em trabalhar para a Apple, representante máxima do último refinamento do capitalismo democrático.

A Apple e a Foxconn são, por assim dizer, o ponto onde a cobra morde o próprio rabo, a mostrar que a civilização é mesmo só uma fina camada de verniz e a dar uma nova leitura ao velho ditado de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“.

Comentei quinta-feira passada a entrevista à Veja do poeta Ferreira Gullar em que ele dizia que, sendo um reflexo dos instintos humanos que empurram para a desigualdade e a injustiça mas, ao mesmo tempo, a forma mais eficaz de produzir riqueza, único remédio capaz de corrigir essas injustiças da natureza, o capitalismo é uma necessidade, “uma fatalidade” que precisa ser controlada, sendo função do Estado impedir que ele seja reduzido a uma mera expressão da lei do mais forte e leve a exploração do homem pelo homem a níveis extremos.

Somente essa fábrica da Foxconn, grupo que emprega mais de um milhão de pessoas, tem 79 mil funcionários, mais ou menos o equivalente a toda a força de trabalho que move a General Motors, um dos últimos “gigantes” (coitados!) remanescentes da era pré-globalização e um dos maiores empregadores que restam nos Estados Unidos.

Este motim, que se segue a episódios que chegaram a extremos como o de suicídios em massa ha dois anos, começou com uma briga entre dois funcionários bêbados que foram atacados com tanta “ferocidade” pelos “seguranças” da fábrica que provocaram uma rebelião geral que requereu a interseção de 5 mil policiais para amainar os ânimos.

A fábrica de Shanxi trabalha tão somente para a Apple, onde se materializam os sonhos futuristas do genial Steve Jobs, símbolo do ápice da sofisticação do capitalismo democrático mas que … jamais teria chegado onde chegou se não explorasse da maneira mais vil e desonesta possível – e antes dos seus concorrentes – a oportunidade de fugir às leis de proteção ao trabalho dos Estados Unidos e pisar na garganta de seus operários aberta pela globalização do mercado de trabalho proporcionada em parte pela informática por ele desenvolvida, exportando a montagem dos computadores que desenhava para a China Comunista onde vale tudo.

Foxconn é uma estrutura que fica a meio caminho entre uma fábrica e uma prisão. Boa parte dos funcionários vive em cubículos dentro da própria fábrica cumprindo turnos de até 12 horas sob a fiscalização estrita de brutamontes armados.

Como foram trazidos do interior da China, sem um tostão, tornam-se totalmente dependentes desse empregador, quase escravos submetidos a “castigos físicos“, turnos dobrados e etc.

Essa condição vai piorando desde o momento em que se inaugura a produção. Como essas empresas são montadas apenas para servir a Apple, uma vez completado o investimento começam as renegociações draconianas, ano a ano, entre os chineses e a empresa americana que se torna a compradora única de tudo que eles produzem.

Como sempre, entre fechar e seguir vivendo como der, a corda da “redução de custos” e dos “ganhos de produtividade” estoura do lado mais fraco: salários e direitos são esmagados, turnos são aumentados, a qualidade dos materiais, especialmente os que envolvem segurança e limpeza das fábricas, alojamento e alimentação dos operários e outros que não aparecem imediatamente em seu produto final, é espremida…

Vai por aí. Não tem mágica.

Um dia, quando se cansarem de chutar-se uns aos outros em nome de esotéricos conceitos de “esquerda” e “direita“, e métodos “monetaristas” ou “keynesianos” de lidar com o empobrecimento geral que a exportação dos empregos, o aviltamento planetário dos salários e o mau humor geral que disso resulta, os americanos talvez atentem para o verdadeiro foco do problema que eles foram os primeiros a identificar e encaminhar ha quase 240 anos.

Qual seja: não sendo os homens santos, é preciso que sejam controlados para que não se devorem uns aos outros, cabendo ao Estado esse papel. Se o estado se associar ao capital (como está fazendo em marcha acelerada no Brasil do PT e até, em certa medida, nos próprios Estados Unidos), resultam daí as chinas e as foxconn da vida. E, nesta nova realidade globalizada onde “nenhum homem é uma ilha“, havendo um “chinês” disposto a trabalhar como quase escravo, a quem os steve jobs possam recorrer para ganhar um pouco mais, todos nós estaremos fadados a virar quase escravos também.

De modo que a solução para a crise dos Estados Unidos e da Europa não está nos livros de Keynes ou dos monetaristas, nem muito menos em ter uma atitude “liberal” ou “republicana” e em esgrimir brilharecos retóricos em torno dessas nulidades pela imprensa, mas sim em dar um jeito de taxar os produtos que se consome segundo o grau de liberdade e dignidade do trabalho embutidos neles.

Porque sendo o homem a fera que é, regida pela economia (“quem come mais vive mais“), se a liberdade e a dignidade do trabalho continuarem não valendo nada e sendo apenas “custo” estão irremediavelmente fadadas a desaparecer da face da Terra.

Um brasileiro para se admirar

27 de setembro de 2012 § 2 Comentários

Ferreira Gullar é daqueles raros seres humanos que fazem a gente acreditar na viabilidade da espécie.

Aos 82 anos, é o sobrevivente da travessia de oceanos especialmente revoltos e desertos incomumente ásperos. Varou a ambos absolutamente íntegro, sublimando em poemas o que é impossível compreender e encarando com a coragem tranquila dos fundamentalmente honestos as peças e armadilhas que o tempo prega em todos quantos o senso de justiça e a generosidade empurram para fora de si mesmos, em busca de respostas.

Deu uma entrevista à Veja desta semana em que, mais uma vez, mostra o quanto é grande.

De sua desilusão com a utopia comunista, diz que foi “uma questão de experiência de vida“.

O capitalismo é forte porque é instintivo. Não é uma teoria. Nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível (…) O capitalismo é uma fatalidade (grifo meu). Ele produz desigualdade e exploração. Mas a natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce atlético e o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. (…) A capacidade criativa do capitalismo é fundamental (…) para a solução da desigualdade porque só a produção de riqueza resolve isso. A função do Estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar“.

Alguém já disse que a democracia é o governo dos desiludidos.

Não no sentido de cansados, de desistidos da vida, mas nesse sentido gullartiano, galhardo, de experientes da vida que insistem no senso de justiça, este também um dado concreto da nossa especial condição na ordem natural das coisas.

O governo dos que têm a coragem de encarar a vida como ela é sem colocar-se fora dela e aceitar o desafio de disciplinar-se para honrar, pela vertente de um altruísmo ainda que compulsório, o privilégio que temos de ser o único animal da natureza que abriga, ao lado do instinto de sobrevivência, o senso moral, e é capaz de mudar o seu próprio destino.

Se os homens fossem anjos“, argumentava James Madison no 51º dos Federalist Papers, ao sugerir a sua clássica fórmula que deu ao mundo o caminho para a solução prática desse desafio, “não seria necessário haver governos. E se os homens fossem governados por anjos, seria dispensável qualquer instrumento de controle interno ou externo desse governo.

Mas se estamos pensando em desenhar um governo para ser exercido por homens que terão autoridade sobre outros homens, a grande dificuldade está no seguinte: você terá de dar ao governo os meios de controlar os governados e, ao mesmo tempo, obrigá-lo a controlar-se a si mesmo“.

A fórmula do petismo, emulada do capitalismo de estado chinês, que tanto atrai os brasileiros com pouca experiência de vida com a miragem do enriquecimento rápido, vai na direção contrária. Associa o poder político ao poder econômico, derruba todas as barreiras erguidas para deter a natural propensão do capitalismo para a exploração e não cria riqueza, apenas a ilusão passageira dela.

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