Donald Trump é a crise americana
27 de abril de 2011 § 3 Comentários

Quem ainda tinha duvidas sobre a profundidade da crise americana as vai deixando para traz a medida que a “candidatura” à presidência da Republica de Donald Trump, com aquela cara de bolo fofo penteadinho, vai deixando de ser piada para se tornar assunto sério.
Esta manhã, depois que Obama, ao fim de meses de insinuações obviamente desonestas de que não tinha nascido nos Estados Unidos, pôs na internet a certidão de nascimento que mandou buscar no Havaí, Trump deu uma declaração à TV (veja aqui) que comprova, palavra por palavra, “ironia” por “ironia”, que aquele jeito acanalhado de insinuar aleivosias dos políticos profissionais é uma doença que pega rápido em quem confessa que passou a se dedicar full-time a correr atrás do poder.
“Estou muito honrado por ter contribuído para acabar com essa controvérsia” (que ele próprio criou), dizia o lasanha. “Agora podemos voltar a discutir assuntos sérios como…” (e tome o próprio cara que acabara de definir a sua falta de seriedade enumerando, como quem não quisesse faze-lo, tudo que está pesando contra Obama neste momento).
Enfim, pra Maluf só falta o sotaque.

Não é que o Obama, também, seja a ultima coca-cola gelada do deserto, com aquele discurso todo encenadinho, dirigido ora para o lado direito, ora para o lado esquerdo da plateia, tudo muito silvio santos, mas que nunca afirma nada que não possa ser desdito no parágrafo seguinte.
É pura vaselina.
Bem que o Tocqueville previu que a democracia americana ofereceria tantas oportunidades de realização na vida a quem mostrasse um mínimo de competência que só a raspa do tacho se dedicaria à política…
De qualquer jeito, eu sigo torcendo pela democracia americana porque a humanidade, como se vê pelo caso comentado aqui, é muito parecida em toda a parte mas a democracia americana (que se pratica exclusivamente nos Estados Unidos e nas culturas mãe e filhas da deles), doa a quem doer, é a única que de fato existe (ainda…).
O resto do mundo vive debaixo de porrada ou submerso num mar de lama recoberto por uma grossa nata de mentiras, sem condições institucionais nenhumas de esboçar qualquer reação.

Se fosse só pelo fato do roberto justus deles estar contornando a curva para entrar na reta da corrida presidencial o quadro ainda não seria de desespero. Ao contrário de todas as outras que têm de ser nomeadas entre aspas, a democracia americana foi especificamente desenhada para viver em permanente reforma. Historicamente, nos momentos de crise, surgem por lá “terceiras vias” partidárias e cacarecos eleitorais como esse Trump, bons para dar uma chacoalhada no status quo e desencadear a próxima temporada de aperfeiçoamento do sistema.
La entre eles, enfim, eles sempre conseguiram se arranjar saltando à frente e não andando para traz. Duro vai ser tourear a fera que os ataca a partir do outro lado do planeta e está fora do alcance das instituições americanas.
O capitalismo de Estado chinês, atuando num mercado global onde o xerife ainda não chegou, está forçando o Estado a abraçar o Capital em todo o mundo. E isto sim, pode matar a democracia.
O outro lado: a tecnologia da informação contra a democracia
12 de abril de 2011 § Deixe um comentário

Enquete interessantíssima proposta hoje no site da Reuters (aqui) traz à memória um aspecto pouco lembrado da crise instalada pela mudança de paradigma tecnológico que, junto com o tsunami chinês, está levando à concentração da capacidade de produção em mãos cada vez menos numerosas e, com isso, à perda de força relativa do consumidor e do trabalhador como agentes do processo social, quadro que põe diretamente sob ameaça a democracia como a conhecemos hoje.
A Reuters registra que o iPhone e seus concorrentes cortaram mais uma cabeça ontem no universo dos fabricantes de produtos eletrônicos de consumo com o anuncio pela Cisco, que caminha para a falência, de que esta descontinuando a fabricação das pequenas filmadoras Flip, que fizeram grande sucesso ha dois anos.
A industria de filmadoras, assim como, antes dela a de máquinas fotográficas, vem sendo fortemente abalada desde que, com o lançamento do modelo 3GS, em junho de 2009, uma filmadora foi incorporada às funções do iPhone, apenas três meses depois que a Cisco anunciou a compra, por 590 milhões de dólares, da patente da Flip, uma mini-filmadora em alta definição desenhada pela Pure Digital Technologies, com uma tomada USB acoplada ao aparelho que permitia ao usuário gravar e “subir” seus filmes imediatamente para a web.
Desde então o iPhone e seus concorrentes acoplaram inúmeras outras funcionalidades como GPS e outros, e seguem devastando industrias ao seu redor.

A enquete da Reuters está formulada assim.
Marque com um “X”:
Meu “smartphone” é tão inteligente que eu nunca mais precisei de:
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Maquina fotográfica
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Vídeo câmera
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Aparelho para e-mails
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GPS
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Gravador de MP3
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Leitor de livros eletrônicos
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Vídeogame portátil
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Cronometro para a minha cozinha
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Companheiro de vida
O processo de crescente monopolização da produção nos mais diversos setores, com o consequente efeito de concentração de renda e redução de opções nos campos do consumo e do trabalho que são as dimensões sociais onde o cidadão realmente exerce a sua liberdade, não tem final à vista.
A democracia só desceu à base da pirâmide social quando os Estados Unidos, na virada do século 19 para o 20, inventaram a legislação antitruste que estabeleceu limites à concentração do poder econômico em nome da proteção do consumidor e do trabalhador.
Isto não é mais possível no mercado globalizado onde sistemas capitalistas democráticos enfrentam a concorrência predatória do capitalismo de Estado chinês que, como outros players no mercado global hoje, não obedece regras, respeita leis ou reconhece direitos.
O panorama, nesse aspecto, é sombrio.
A tecnologia da informação tem sido saudada como uma ferramenta de libertação, mas seu efeito no panorama macroeconômico é devastador no sentido contrário. Ela está contribuindo decisivamente para concentrar a produção e, indiretamente, para destruir o mercado, que é o habitat da democracia.
Resta esperar que aquilo que antes o Estado nacional podia impor pela lei, em matéria de disciplinamento dos impulsos mais egoístas do homem em nome da preservação da diversidade econômica, que é o outro nome da democracia, a vontade organizada de todos os consumidores do mundo possa impor aos grandes monopólios globais num futuro mais próximo que aquele que é possível vislumbrar hoje.
Por enquanto, não da para imaginar como chegaremos a isso.

Por que Lula deu certo
20 de dezembro de 2010 § 4 Comentários

Dinheiro é Poder.
Existem empreendedores com múltiplas dimensões e existem os que usam a capacidade de empreender exclusivamente para fazer muito dinheiro. Para estes, empreender é, antes de mais nada, o caminho alternativo ao da política para conquistar Poder.
“Porque fulano, já tão rico, continua se matando de trabalhar? Nem tem tempo de gastar o dinheiro que amealhou?” Para aqueles que se deixam atrair por outras dimensões da vida, dinheiro é só um meio de alcança-las. Mas ha os que vivem para o Poder. E Poder nunca é suficiente.
Nada se parece mais com uma ditadura de partido único que a organização de uma grande corporação:
- em ambas todo o poder emana de um “comitê central”;
- não existe nenhuma instância de moderação ou divisão desse poder (e isso é tanto mais verdadeiro quanto mais fraca é a legislação de proteção dos acionistas minoritários);

- a economia é absolutamente planejada, sem nenhuma obrigação de transparência;
- não ha um “Quarto Poder” (imprensa), direito de associação ou liberdade de expressão;
- não existe nada que se pareça com um júri ou com a figura da presunção da inocência até prova em contrário;
- a menor resistência a qualquer ordem emanada do “comitê central” implica em exílio imediato;
- todos têm os seus movimentos permanentemente medidos e monitorados; as comunicações eletrônicas entre funcionários são frequentemente fiscalizadas e em muitas empresas até os relacionamentos amorosos entre empregados são proibidos;
- quem tenta organizar grupos de oposição, como sindicatos, passa a ser vigiado, é banido ou incluído numa lista negra;
- os “governantes” manipulam somas gigantescas, maiores que os produtos nacionais da maioria dos países;
- quanto mais o poder se concentra em grandes monopólios setoriais mais a força desses “comitês centrais” vaza para a sociedade como um todo através da corrupção governamental que eles fomentam, da sua influencia sobre os legisladores e da manipulação que exercem sobre o Poder Judiciário;
- a corrupção desses “governantes” superpoderosos (da empresa para dentro, a favor de si mesmos e contra os interesses dos acionistas) também é proporcional à falta de elementos moderadores dentro do sistema.

A tendência no mundo que o capitalismo de Estado chinês está moldando é, nitidamente, a de que o poder político seja cada vez mais compartilhado entre os agentes dos governos eleitos e os chefões das grandes corporações, restando ao Estado apenas o monopólio da força.
No Brasil não é diferente.
Lula e os super empresários que ele atraiu para a sua orbita – e que se deixaram docemente constranger para ela – são as duas faces de uma mesma moeda. Perseguem, por caminhos diferentes, o mesmo objetivo. E são idênticos na precisão com que são capazes de focá-lo, assim como na persistência e no pragmatismo muitas vezes extremo com que obsessivamente o perseguem.
Conhecem-se desde sempre. Entendem a lógica um do outro. Lula, na verdade, aprendeu com eles na mais refinada das escolas: a da negociação pela repartição dos resultados produzidos pelas maiores empresas do mundo que, nos seus tempos de sindicalista nos anos 70 e 80, eram as multinacionais automobilísticas.
Nem eles nem ele jamais pretenderam mudar as regras do jogo. Mas distinguiram-se sempre, cada um no seu lado do campo, por aprender melhor e mais rápido que os outros a tirar vantagem delas, especialmente das suas falhas.

A social democracia, sim, faz restrições morais e ideológicas à manifestação da força, mesmo quando decorrente do mérito. Preocupa-se precipuamente, junto com as demais correntes democráticas, com a legitimização e a moderação do Poder político. Nascida na academia, sem experiência vivida na seara áspera dos números e na permanente urgência das pressões que cercam o ato de produzir bens materiais, tem o seu foco no devir, no aperfeiçoamento das regras do jogo para fazê-las servir ao engrandecimento do individuo, referencia de todas as coisas.
É aí que ela se afasta da esquerda radical que, ao eleger “o coletivo”, cuja única encarnação possível é o Estado, e o igualitarismo a qualquer custo como valores supremos, escorrega inevitavelmente para a intolerância, a centralização do Poder e a anulação do indivíduo.
Era esta a equação do século 20. A esquerda radical, aquartelada no PT, cooptou Lula, que nunca foi ideológico, porque viu nele, acertadamente, o seu passaporte para o Poder num ambiente que explicitamente a rejeitava (e continua rejeitando). A zebra se deu no fato de que foi Lula quem catequizou o PT e não o contrário, como esperavam os seus ideólogos.

No poder (1995 a 2003), a social democracia limpou o entulho autoritário, reduziu drasticamente o território de caça privativo dos predadores da corrupção inerente ao Estado e cercou o Poder de instituições moderadoras. Mas, no seu desconhecimento de causa, errou feio a mão na carga de impostos que imaginou que a produção seria capaz de suportar. A forte turbulência da virada do milênio fez o que faltava para diminuir a sua colheita.
A “Carta aos Brasileiros”, para além dos discursos de palanque, foi o tributo de Lula à obra de FHC. E a resposta à crise de 2007 com a mais pura e “reaganiana” supply-side economics (forte redução de impostos, ainda que setorial, relaxamento da regulamentação e farta irrigação de crédito sobre o consumo, com ênfase nas camadas mais pobres da população) nos falam da longa experiência vivida de Lula no centro do grande capitalismo multinacional de seus tempos de sindicalista, ausente entre nossos social democratas.
A fome por commodities da China fez o resto.
E isso reforçou a confusão ideológica em que vivemos: o nosso “partido comunista” é que parece estar entrando para a Historia como o grande artífice do capitalismo brasileiro…
Mas o que assistimos até agora foi apenas o trailler de um filme que está só começando.

Para quem nunca provou de fato dessa sopa; para quem se formou e viveu no ambiente polarizado do século 20, “capitalismo” era, pura e simplesmente, a antítese do comunismo, quase um sinônimo de democracia.
A China invadiu o mercado pela porta dos fundos, esmagando nuances, para nos lembrar que não é assim.
Os americanos, que sentiram o gosto amargo dos monopólios ha mais de 100 anos quando os robber barons, unidos, tentaram submeter os consumidores acabando com a concorrência, aprenderam a duras penas que eles são incompatíveis com a democracia. Por isso sempre distinguiram capitalismo democrático de capitalismo selvagem. E cuidaram zelosamente de trancar essa fera na cela da legislação antitruste, que será lembrada pelos historiadores do futuro como a mais refinada obra da democracia ocidental, ora em processo de desmontagem.
O capitalismo de Estado chinês – onde o patrão único de uma constelação de monopólios ainda trata reivindicações trabalhistas com tiros na nuca – anabolizado pela digitalização da vida econômica num mundo onde tudo se copia e tudo se distribui, sem barreiras possíveis, para um mercado globalizado, pôs o monstro de volta nas ruas.

Educação e capacidade de inventar já não são fatores decisivos de sucesso. O custo – que, em ultima análise, é a quantidade de dignidade humana preservada no ato de produzir – é a única arma que decide hoje quem ganha e quem perde a competição econômica.
Como os Estados Unidos de 100 anos atrás, o mundo foi empurrado pela China para a voragem das fusões e aquisições que, em 20 anos, criou os maiores níveis de concentração de riqueza já registrado nas democracias ocidentais (e fora delas).
A perspectiva não é brilhante.
As ditaduras se profissionalizaram. Operam hoje segundo as “melhores práticas de governança corporativa”. Se a incapacidade de criar riqueza foi o que realmente derrubou as ditaduras do século 20, a novidade da ditadura próspera, introduzida pela China, será o mais duro teste do amor do homem pela Liberdade que a história produziu até hoje.
Lula, com sua legendaria intuição e seu proverbial desprezo pelas virtudes “burguesas”, entendeu perfeitamente o recado. Esta formando, com a plêiade dos eleitos do BNDES, o time que vai jogar com ele o grande jogo mundial dos monopólios, onde esses cacos da velha política a quem ele ainda atira pedacinhos do Estado terão papel menos que coadjuvante, apenas enquanto forem necessários.

“Passou o tempo das revoluções armadas”
22 de julho de 2010 § 1 comentário
O guia do nosso guia faz uma excelente ideia de si mesmo…
Que o PT sempre manteve relações libidinosas com as Farc e que essas relações tinham o sentido que a ela atribuem os seus críticos e adversários políticos é coisa tão indiscutivelmente certa e sabida que tudo que restou ao partido, posto diante da afirmação do fato em véspera de eleição, foi dar a ele o mesmo tratamento que o seu mais recente aliado, Paulo Salim Maluf, invariavelmente dá a todos quantos o põem diante dos fatos que fizeram dele um dos homens mais procurados pela Interpol: confiar na celeridade e na imparcialidade da justiça brasileira e abrir um processo por calunia e difamação daqueles que, um dia, pode ser que acabe.
Para que você tire suas duvidas, estou publicando, na postagem que se segue a esta, a integra (traduzida) da matéria da revista colombiana Cambio que, na sua edição da ultima semana de julho de 2008, fez uma seleção dos 85 e-mails a que teve acesso da longa série dos que foram trocados entre o líder das Farc, Raul Reyes, morto em um bombardeio da força aérea colombiana em território equatoriano poucas semanas antes, e o “padre Camilo”, representante das Farc no Brasil, e outros membros de destaque da organização narcoterrorista, dando conta das suas intimas relações com altos representantes do PT, inclusive e principalmente depois que eles se tornaram ministros do governo Lula ou figuras de destaque nos setores mais “aparelhados” do Judiciário brasileiro.
É coisa que vale a pena ser lida para que se possa avaliar o grau do cinismo que se tornou marca registrada de quem hoje manda no Brasil e o nível de profundidade a que chegou a instrumentalização do Estado brasileiro a serviço do projeto de poder do lulismo que, por sua vez, é parte de uma ação internacional ampla e meticulosamente coordenada.
Muito desse saboroso caldo se perdeu nos resumos que a imprensa brasileira publicou na época…
“Tirofijo”
A pesquisa do tema, a que me entreguei nos últimos dias, sugeriu-me, aliás, uma possível explicação para o fato do sacrossanto Fidel, chefe de todos os lulas do Cone Sul, que ate então só tinha escrito sobre si mesmo, ter se dado o trabalho de escrever um livro inteiro em defesa da paz na Colômbia, fato ao qual imediatamente se seguiu a disciplinada mudança da atitude publica até então mantida com relação às Farc por parte de todos os seus chefiados. E o primeiro a entrar em ordem unida foi o coronel Chávez, da Venezuela, este que, ontem de novo, voltou a negar sua cumplicidade com as Farc mostrando ainda mais “indignação” que o PT.
Enquanto Fidel pensava e escrevia “La Paz en Colômbia” (que o guia do nosso guia terminou precisamente “às 3:15 da tarde de 16 de setembro de 2008”, segundo curioso registro em que insistiu um de seus propagandistas internacionais), foram mortos, um depois do outro, todos os representantes da “linha dura” das Farc e aceleraram-se as deserções de guerrilheiros, que passaram a incluir até alguns dos ícones da organização. Mas, curiosamente, essa sucessão de vitórias do exército colombiano não impediu que se abrisse o coração dos remanescentes da antes duríssima organização para a série de “libertações humanitárias” de prisioneiro seqüestrados que viviam ha décadas acorrentados a troncos de árvores em volta dos acampamentos do grupo. Ao contrário, foram essas mortes que, indiretamente, precipitaram esse processo.
Ao fim de 44 anos de assassinatos, seqüestros e operações de trafico de cocaína em grande escala entusiasticamente apoiados por ele, Fidel, tido pelos narcoguerrilheiros como seu grande inspirador, revela ao mundo que “sempre esteve em desacordo com as Farc”, especialmente em dois aspectos, digamos assim, técnicos: “o seqüestro e humilhação de combatentes” (que ele e seu grupo também praticaram antes de tomar o poder em Cuba) e a insistência em levar adiante uma estratégia de “guerra prolongada” excessivamente desgastante (a cocaína não foi mencionada). E disse mais o homem que dedicou a vida a fomentar guerrilhas pelo mundo afora: “Passou o tempo das revoluções armadas. Hoje a solução é política”.
O acampamento de “Negro Acácio”
Só esta frase provocou indignação e escândalo maiores nos meios da nunca suficientemente desiludida esquerda honesta do que os termos duríssimos empregados na principal “revelação”, feita na pagina 105 do livro onde são reproduzidos diálogos de Fidel com Manuel Marulanda, dito “Tirofijo”, o líder histórico das Farc que acabara de morrer na selva aos 78 anos de idade. Ali Fidel afirmava que o dono daquele corpo, ainda morno quando o livro foi publicado, não passava de “um homem ignorante e pouco estudado” que nunca tinha conhecido nada maior que as pequenas aldeias do interior da Colômbia e que, por isso, tinha uma visão delirante do mundo inteiramente alheia à realidade. As ações de seu grupo, enfim, só serviam (nas palavras do prestimoso coronel Chavez) “para dar argumentos aos nosso inimigos e aos aliados do Império”.
Para as Farc, que já vinham cambaleando diante da morte (natural, supostamente) de “Tirofijo”, o veredicto de Fidel soou como um tiro de misericórdia.
Os revezes tinham começado em setembro de 2007 quando “Negro Acácio”, o primeiro dos membros do “Secretariado” das Farc a cair, foi morto num bombardeio. Depois dele morreram “Martim Caballero” e “Martin Sombra”, este muito próximo a “Tirofijo”. Em seguida foi a vez dele próprio, em maio de 2008. Meses depois, cai Raul Reyes, que substituiu “Tirofijo” no comando das Farc, também bombardeado em seu esconderijo no Equador. Foi nos computadores em poder de seu grupo que foram encontrados os e-mails envolvendo Lula e sua entourage. Seis dias depois, Ivan Rios, o ultimo dos “linha dura” é morto por seu próprio guarda-costas na selva. Ele arranca-lhe a mão direita e entrega-a aos militares colombianos como prova de seu feito. Ainda em 2008, entrega-se, com seu amante, Nelly Ávila Moreno, a “Karina”, até então conhecida pelos seus pendores sanguinários, que confessa que temia ter o mesmo fim de Rios. Havia 24 anos que ela combatia na selva…
Iván Rios
Essa sucessão de derrotas das Farc, com a virtual eliminação de toda a linha de sucessão de “Tirofijo”, se dá, segundo o governo colombiano, graças ao amadurecimento de diversas ações de inteligência e infiltração do grupo por agentes do inimigo ou em função da decisão espontânea de guerrilheiros próximos das vitimas que tomam a iniciativa de se oferecer ao exercito colombiano para vender a localização de seus chefes. Mas o fato é que, de “Negro Acácio” em diante, todas as mortes, com exceção, ate segunda ordem, da de “Tirofijo”, começam por um ato de traição. E, no final, a eliminação da “linha dura” da organização desagua na ascensão de Alfonso Cano, o “moderado” que inicia as negociações para a libertação de reféns.
Coincidência ou não, tudo isso se passa enquanto o bom Fidel se preparava para anunciar ao mundo, ao fim de 44 anos de irrestrito apoio às Farc, que mudara de ideia.
Em janeiro de 2008, a Fundación Pais Libre, da Colômbia, contava 3.254 vitimas de seqüestro pelas Farc. Perdeu-se a conta do numero de assassinados e mortos em combate nestas mais de quatro décadas. Quanto mais dispersas as “frentes” ocupadas pelas Farc, quanto mais interrompidas as comunicações entre elas pela ação do exército colombiano, mais subia o numero de deserções e mais a organização se misturava aos cartéis do tráfico da Colômbia e da Bolívia.
E maior se tornava o horror da opinião publica em relação a ela e aos seus crimes.
Nada elege mais na Colômbia que declarar guerra sem trégua às Farc
Ha muitos anos, já, que nada elege mais na Colômbia que declarar a disposição de combater as Farc sem tréguas. E, de Chávez para cá, o pais desponta como a mais sólida exceção à onda esquerdizante que varre o Cone Sul. De prova de independência em relação ao “Império” e insubordinação à “mentira da Justiça burguesa”, declarar amor às Farc, justificar seus assassinatos e seqüestros e exibir relações libidinosas com esse híbrido de grupo terrorista e quadrilha de traficantes, dentro ou fora da Colômbia, passa a “sujar a barra”; a afastar eleitores. Transforma-se na bandeira de tudo o que não se quer num continente onde boa parte da população civil vive no meio do fogo cruzado de uma guerra crônica contra o narcotráfico.
E então, Fidel abraça “a paz”. E então, Hugo Chávez passa a clamar pela libertação dos seqüestrados. E então, lá vai o nosso Lula, que chama “bandidos” aos prisioneiros de Fidel, intermediar libertações na selva colombiana…
O que foi que mudou realmente? O que foi que fez com que o maior ícone de “la revolución“, que ha 50 anos “prende e arrebenta” quem ousar falar contra ela (não é preciso agir), o campeão do pragmatismo e da razão de Estado, avesso ao “sentimentalismo burguês”; o que fez que tal homem amolecesse o coração, de repente, diante da tragédia pessoal dos “agentes do Império” (os verdadeiros, da CIA, libertados com Ingrid Betancourt inclusive) seqüestrados na selva colombiana?
O “Foro de São Paulo” em ação
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O que mudou foi a conjuntura internacional.
A crise financeira do Ocidente tornou claras as ilimitadas possibilidades do novo paradigma chinês. Entrou em cena a tirania próspera, capaz de derrotar o capitalismo em seu próprio terreno com a infalível ferramenta dos ganhos de produtividade “at gun point”.
E é em torno disso que se articula hoje a esquerda latino-americana, com todos os recursos das “melhores práticas de governança corporativa”, no Foro de São Paulo, esse templo de reverência a Gramsci onde brilha o “case” brasileiro, “benchmark” da nova revolução que deve começar pelas urnas e prosseguir pelos plebiscitos bolivarianos, empurrada por um irresistível tsunami de dinheiro fácil.
Esqueçam o que eu escrevi! Calem-se os argumentos em contrário! Reescreva-se a História!
“Passou o tempo das revoluções armadas. Hoje a solução é política”.

O fim do livre mercado
21 de julho de 2010 § 3 Comentários

A partir do e-mail enviado pelo robot da Amazon.com para me provocar com base nas encomendas anteriores e pesquisas que tenho feito no site, fiquei sabendo do lançamento nos EUA do livro “O Fim do Livre Mercado – Quem Ganha a Guerra entre os Estados e as Grandes Corporações?, de Ian Bremmer.
Abrindo a série de resenhas comentadas enviadas pelos leitores, padrão da loja, a Amazon desta vez foi mais longe. Chamou Nouriel Roubini, que ficou conhecido como “o profeta do caos” por ter sido dos poucos economistas a prever a chegada da ultima crise financeira e o mais pessimista entre os que antecipam as próximas, para entrevistar Bremmer a respeito do seu livro. A Amazon teve a boa idéia de inverter os papeis na página em que vende o livro de Roubini. Lá é Bremmer quem o entrevista. Mas as idéias de Roubini são deja vu.
Bremmer parece mais interessante.
Não li o livro dele, que acabo de encomendar (http://www.amazon.com/dp/1591843014/ref=pe_5050_16321390_snp_explore). Mas, pela entrevista, já da pra ver que sua análise vai na mesma linha que tenho usado aqui no Vespeiro para interpretar o que está acontecendo no mundo desde a entrada em cena do capitalismo de Estado chinês, especialmente nos artigos O fim da revolução americana?, de setembro de 2009, (http://vespeiro.com/2009/09/14/o-fim-da-revolucao-americana-2/) e Condenados ao Supercapitalismo, publicado ha 10 dias (http://vespeiro.com/2010/07/08/no-mundo-do-supercapitalismo/). É o primeiro autor americano que encontro, olhando para as coisas com a necessária coragem.
E ele também não parece otimista com o que vem por aí.
Veja a tradução da entrevista:

Roubini: Seu livro sugere que uma velha tendência, que você chama de capitalismo de Estado, se tornou muito mais importante ultimamente. O que aconteceu para as coisas mudarem desse jeito?
Bremmer: Nos últimos 18 meses a crise financeira ocidental e a recessão global aceleraram a inevitável transição do mundo do G-7 para o mundo do G-20. Isso não implica apenas um numero maior de negociadores em torno da mesa. Não é só uma questão de fazer um rebanho maior de gatos andar numa mesma direção para fazer as coisas acontecerem no cenário internacional. Trata-se de tocar gatos junto com outros animais que, definitivamente, não gostam dos gatos. Na verdade não se trata mais de um rebanho.
No tempo do G-7 todo mundo que interessava para o crescimento da economia global aceitava o pressuposto de que a prosperidade depende do império da lei, da existência de tribunais independentes, de transparência e de uma imprensa livre. Todos acreditavam no valor do capitalismo de livre mercado, enfim. Naquele mundo, as multinacionais eram os principais peso pesados da economia. Esse consenso norteou o processo de globalização nos últimos 40 anos.
Pois o sol acaba de se por nesse mundo. O país que emergiu mais depressa e mais forte da desaceleração global é um país que não aceita a idéia de que uma economia regulamentada de livre mercado é imprescindível para o crescimento. O sucesso da China convenceu os autoritários do mundo inteiro de que eles podem ter um crescimento explosivo sem ter de abrir mão do monopólio do poder político que detêm em seus países. A China conseguiu um crescimento de dois dígitos durante 30 anos sem liberdade de expressão, sem regras econômicas estabelecidas, sem juízes em condições de ignorar as pressões políticas, sem nenhum direito de propriedade confiável – sem democracia, para resumir. E os acontecimentos dos últimos 18 meses tornaram a China mais importante que nunca para a continuação do crescimento global. Essa é uma enorme mudança que tem implicações tremendas nas quais seria melhor que nós começássemos a pensar.

Roubini: O termo capitalismo de Estado significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Como você o define hoje?
Bremmer: Eu escrevi sobre um sistema em que o Estado usa as forças do mercado, antes de mais nada, para conquistar objetivos políticos. Os líderes desses países sabem que, mais cedo ou mais tarde, as economias dirigidas virão a falhar, mas têm medo de perder o controle sobre o modo como a riqueza passará a ser criada se derem espaço para que o mercado seja realmente livre. Isso poderia gerar forças econômicas capazes de desafiar a autoridade do governo de manter sob controle a vida política da Nação. Assim eles usam a estatal do petróleo, outras estatais estratégicas, super empresas leais aos donos da política e os maiores fundos de investimentos do país, antes de mais nada, para reforçar o controle que exercem sobre o processo de criação de riqueza dentro das fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo, mandam essas super empresas e fundos de investimento para fora para fazer negócios que reforcem o poder político e geopolítico de seus governos.
E esse sistema é fundamentalmente incompatível com a liberdade de mercado.
Roubini: Criando atrito entre os capitalistas de Estado e outros governos. Isso para não falarmos das companhias privadas.
Bremmer: Exatamente. No sistema de livre mercado as grandes empresas multinacionais estão focadas em maximizar o lucro. Quando os mercados não são regulados de uma forma inteligente – e nós acabamos de ver isso nos Estados Unidos – elas acabam se concentrando em aumentar os ganhos de curto prazo em detrimento da sustentação do crescimento de longo prazo que interessa aos seus acionistas. Os últimos dois anos nos serviram de lição para o perigo dos excessos do capitalismo de mercado.
Mas no capitalismo de Estado os principais atores econômicos estão olhando principalmente para alvos políticos. Os lucros ficam subordinados a esses objetivos. Em outras palavras, se o lucro serve para os interesses do Estado, eles vão perseguir o lucro. Mas se interessar ao Estado que a estatal de petróleo perca dinheiro para acumular os estoques de longo prazo de óleo, gás, metais e minerais que os políticos entenderem necessários para garantir seu crescimento futuro a perder de vista e manter uma massa de trabalhadores empregados independentemente dos custos, o lucro e a eficiência passarão a ser encarados como um passivo político e essas companhias vão pagar o preço que for necessário para que o objetivo político seja satisfeito.
Só que essas estatais estão competindo com multinacionais que não podem pagar mais do que as coisas valem. E assim, a interferência política no mercado vai distorcer todo o jogo – no caso, forçando uma alta no preço que o mundo inteiro paga pela energia e pelas outras commodities.

Roubini: Quando você menciona os capitalistas de Estado a que países especificamente você esta se referindo?
Bremmer: Você encontra capitalismo de Estado nas monarquias árabes do Golfo Pérsico – Arábia Saudita e Emirados Árabes são os mais importantes. Essa tendência também esta presente na Rússia de Putin. Existem outros exemplos de países que misturam livre mercado com políticas de capitalismo de Estado. Mas nós não estaríamos falando do capitalismo de Estado como detonador de uma mudança total das regras da economia global e da política internacional se não fosse pela China, hoje a segunda maior economia do mundo e o mercado que mais cresce no planeta.
Roubini: O fim do livre mercado é um titulo provocativo. Você esta tentando ser mais catastrófico do que eu?
Bremmer: Eu não faria isso. Mas você tem de admitir que não é um exagero. Não é que eu acredite que os Estados Unidos estejam jogando fora os princípios do livre mercado. Nem que Obama seja algum tipo de socialista. Washington vai endurecer os regulamentos do mercado financeiro nos próximos meses e muita gente não vai gostar disso. Os americanos não vão abrir mãos de sua fé no capitalismo de livre mercado só para conseguir um pouco mais de prosperidade. Mas a mesma coisa não pode ser dita sobre o resto do mundo.
O sistema econômico global não é mais regido por um consenso em torno desses valores. Agora existem formas diferente de capitalismo competindo entre si. Você usou a palavra atrito. É exatamente disso que se trata. Atrito, competição e ate conflito. Haverá ganhadores e perdedores, e está na hora das lideranças políticas e econômicas começarem a pensar em quem estará em cada uma dessas listas.
Roubini: Você chegou a sentir a tentação de chamar seu livro de “O fim da globalização”?
Bremmer: Não, isto não é o fim da globalização. É o fim do poder exclusivo e irresistível da globalização de modelar nossas vidas e o futuro da economia global. A globalização depende do acesso aos mercados globais de consumidores, de capitais e de trabalho. O capitalismo de Estado compromete as três coisas. A globalização ainda importa e vai continuar importando no futuro previsível. Mas não é mais a força diretora fundamental do crescimento numa economia global que tem de se voltar cada vez mais para a China para a próxima etapa de expansão.
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Nouriel Roubini é professor de economia na Stern School of Business da New York University. Tem uma longa experiência no governo. Assessorou a Casa Branca e o Tesouro entre 1998 e 2000. É autor de A Economia da Crise e de Bail-outs and Bail-ins.
Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group, a maior empresa de consultoria de risco político do mundo, e presença assídua nas páginas de analise dos principais jornais e revistas americanos. É autor de The J Curve: A New Way to Understand Why Nations Rise and Fall e de The Fat Tail: The Power of Political Knowledge for Strategic Investing.

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