“Programa de índio”
31 de agosto de 2012 § 5 Comentários
Você é você e a sua circunstância. A sua história, o cenário onde ela se deu, a sua cultura.
Você é esse todo e se lhe arrancarem qualquer parte dele é você que estará sendo mutilado. Tanto quanto se lhe arrancassem um pedaço do corpo.
E ser humano nenhum se deixa despedaçar em silêncio e sem luta.
A natureza conservada é, por excelência, o locus da ausência do bem e do mal. Nela as coisa se dão ou deixam de se dar porque assim é. E essa é a lição mais importante que ela tem para nos ensinar.
Já no Brasil a coisa é bem mais “sofisticada”. Aqui, o que sobra de natureza conservada é, para a maioria de nós, uma coleção de imagens de televisão sublinhada pelas judiciosas considerações de algum “especialista” sobre as suas preferências pessoais em torno das ideias do bem e do mal.
Ninguém viveu lá. Ninguém nunca foi lá. Nenhum pedaço da sua vida, da sua história, da história de alguém que você conheça se deu lá.
Aquilo não faz parte das suas memórias nem das memórias das suas memórias.
Não faz parte da sua cultura. Não é seu.
Conforme o peixe que lhe tenha sido vendido na escola, na TV, nas fontes costumeiras de pensamentos “politicamente aceitáveis”, você – no vai da valsa ou até com paixão pela ideia – repete que é preciso “preservar o verde”, os bichinhos que você nunca viu, os matos que você nunca cheirou.
O seu “Avatar” particular, enfim, tão irreal e impalpável quanto o de James Cameron. Uma mera coleção de vagas palavras, ideias e imagens.
Quem, no Brasil, jamais pôs os pés na Flona (de “Floresta Nacional”) do Jamanxin? Ou pisou as Florestas Nacionais de Itaituba 1 e 2?
Quem, desta nossa massa de urbanóides, jamais ouviu falar que elas existem?
Algum amigo seu que, na adolescência, tenha ido acampar por lá com a primeira namorada? Que tenha passado uns dias de comer e beber o que elas têm para oferecer? Que, quase criança ainda, tenha feito ali a primeira caçada da vida na companhia do avô? Que tenha fisgado num dos rios que as cortam o seu primeiro peixe e nunca mais deixado de voltar a esse santuário das suas memórias? Que, tendo-o amado tanto e, mais tarde, ficado rico, tivesse doado sua fortuna para estender a outros o privilégio de também poder plantar as suas em cenários assim?
Nada!
Nos nossos “parques nacionais” é proibida a entrada. Ninguém conhece. Ninguém nunca foi. São ficções que só existem em discursos autoritários e em imagens da televisão.
A função do governo, aqui, é esvaziá-los de brasileiros e vedar-lhes a entrada neles.
Agora pergunte se existe algum americano de mais de cinco anos de idade que nunca tenha posto os pés no Parque Nacional de Yellowstone ou nas Florestas Nacionais de Sequóias da Califórnia onde cada árvore tem um nome de gente como nas confrarias de velhos conhecidos. Que nunca tenha acampado num deles, ainda que fosse só com os colegas de escola porque frequentar fisicamente a natureza, palpá-la com as mãos e o nariz, aprender a viver nela e dela é matéria tão obrigatória quanto inglês e matemática.
Pergunte a um europeu de qualquer quadrante se ele não conhece, não comeu e não dormiu todas as suas montanhas, todas as suas árvores, todos os seus frutos, todos os seus animais selvagens.
A função do governo, em cada um desses países, é levar todo cidadão para dentro dos parques; garantir os meios para que cada um deles possa usa-los.
“Educação ambiental” é isso: frequentar a natureza.
Nós falamos de natureza para pontilhar discursos sobre o bem e o mal.
Eles tratam de vivê-la.
Por isso eles reagem às eventuais ameaças contra esses pedaços do que são como quem defende um membro ou um órgão vital do próprio corpo.
Por isso nós abrimos mão dos nossos com a mesma emoção passageira de quem vê um filme de final infeliz e os deixamos ir com a mesma facilidade de quem muda de canal.
Esta semana li no Estadão mais um daqueles relatórios sobre o curso inexorável da devastação do Brasil.
Dezessete áreas protegidas estão dentro da zona de influência de projetos hidrelétricos e outros de natureza “estratégica” do PAC, filho da Dilma. Aproveitando o cheirinho de sangue no ar, os tribunais fervem de novas ações tentando arrancar mais um pedaço de alguma área indígena ou floresta nacional reservadas. Só por conta disso, mais 33 mil km2 do Brasil de sempre estão sob ameaças diretas…
E, veja bem, os nossos Yellowstones, as nossas florestas de sequóias ha muito já se foram. No país sem daniel boones; no país onde o escravo – índio ou negro – é que caçava para o branco ou empurrava o mato “ameaçador” sempre um pouco mais para longe, as araucárias, os ipês, os jequitibás de mil anos não são mais que lenha.
“Programa de índio“.
É nesta terra de ninguém que afundam-se para sempre as Sete Quedas da vida sem que se ouça um único suspiro mais prolongado.
O que sobra em pé por aqui é aquilo que ninguém quis. O que até então ainda não se podia derrubar e por isso foi dado aos índios. Mas agora, com as novas estradas, a mineração, a tecnologia agrícola, as mega-hidrelétricas (dinossauros a quem a corrupção prolonga a vida), tudo pode seguir, como sempre, virando dinheiro fácil.
Venho de umas férias na amazônia boliviana.
Na Bolívia, como se sabe, é índio que sabe o que é bom pra índio. E, sendo assim, eles resolveram abrir a sua maior reserva preservada – aquela onde moram e de que vivem desde que o mundo é mundo – à exploração de pesca esportiva vendida e controlada por eles próprios, dentro dos padrões praticados em países que vêm sustentando assim as suas reservas naturais e o cenário dos idílios dos seus habitantes por séculos a fio.
Além do que de semelhante se oferece nesse programa ao que há de parecido com ele ao redor do mundo, está a oportunidade tão valiosa quanto é rara de observar o jeito como o indígena lida com esses ambientes com todas as valiosas lições que isso encerra a respeito do que somos, de onde viemos e para onde vamos, e a chance de se viver a experiência de darem-se culturas a conhecer dando saltos no tempo, incorporando uma da outra o que cada uma tem de mais aproveitável.
É tão bom que tem anos de fila na porta, apesar do caro que é!
No Brasil, onde quem sabe o que é bom pra índio é “especialista”, dir-se-á que tudo isso é politicamente incorreto; que tais praticas “contaminarão a pureza da cultura indígena”; que os ianques estão é de olho no que é nosso; que como “os outros” não sabem usar a natureza o jeito é proibir que o façam e blá, blá, blá…
Frequentar e usar a natureza no Brasil é contra a lei. Torna-se, assim, um privilégio só de quem vive de pisoteá-la (à lei). Aqui, em meio à aguda escassez planetária de florestas em pé, a natureza só tem valor econômico deitada.
Está condenada à morte.
Nós temos muito que aprender. Até com a Bolívia…
Porque sou um “maldito caçador”
29 de fevereiro de 2012 § 17 Comentários
28/2 (na página “Quem somos“)
Fernão, bom dia!
Gostaria que fizesse uma matéria sobre os caçadores malditos (acredito que deva ser contra a caça, claro). Hj recebi um e mail com esse artigo que achei muito interessante: “Caçador bom é caçador morto“.
Imaginei que poderia desenvolver sua opinião sobre o assunto e que poderia dar um ótimo post…
Abraços! Jeanne
27/2 (na página “Quem somos“)
Estou adorando seu blog (…) Vc realmente segue a proposta que acredito em relação ao jornalismo: deve ser instrumento de reformas (…) um jornalismo decente.
Abraços e parabéns pelas postagens! Jeanne
27/2 (no post “E o Oscar dos Direitos Humanos vai para…“)
Parabéns pela abordagem excelente!
Mais triste ainda constatar que a maioria das pessoas (costumo chamá-las de “normais”) age como esses famosos…dinheiro, a bosta (perdão, mas é preciso) que move o mundo para o abismo…
***
Olá, Jeanne.
Que ótima oportunidade você me dá!
Nada poderia ser mais eloquente para provar meu ponto – o de que, na vida real, não existe branco nem preto puros, só tons de cinza – do que os agrados que você me fez nos últimos dois dias postos ao lado desses tiros disparados contra os caçadores dos quais, desde já, reivindico o quinhão que me cabe.
Não, Jeanne, eu não sou contra a caça. Na verdade eu sou um dos seus “malditos caçadores”.
E agora, como é que fica?
…
Dou-lhe um tempo para respirar…
…
Se passou adiante do parágrafo anterior você já faz parte da minoria em extinção dos que insistem em preservar a autonomia da razão nestes tempos de “mais do mesmo, AGORA!, JÁ! e em quantidades googleianas” em que vivemos.
A ausência de contraditório nessa infinidade de guetos onde só convivem “iguais”, uns reforçando as certezas dos outros, em que a internet se vai transformando ameaça banir do dicionário a palavra TOLERÂNCIA em cima da qual foi construído o edifício da democracia.
Está cada vez mais difícil pensar com autonomia, sobretudo a respeito dos temas que os patrulheiros cercam daquele velho cheirinho de fogueira de queimar herege para desencorajar dissidentes, como este que o título “Caçador bom é caçador morto” resume tão bem.
Não me entenda mal, Jeanne. Eu compreendo o seu ponto.
Sobre o tipo de comércio de que fala a matéria que você indicou, estamos de pleno acordo, menos por um detalhe: aquilo não é caça, é só mais uma maneira covarde e criminosa de correr atrás da “bosta que move o mundo para o abismo“.
Àparte isso, você, eu e todos os demais seres vivos somos caçadores e somos caça.
Na realidade urbana de hoje é fácil perder isso de vista.
Você compra a sua carne no supermercado, empacotadinha e sem sangue; o couro do seu sapato e a pele que estofa o banco do seu carro já chega a você bem acabada e cheirosa; você não estava lá quando o fogo e os “correntões” arrasaram de uma vez para sempre os milhões de hectares de cerrado, de Mata Atlântica, de Hileia Amazônica com suas perdizes, lobos guarás, araras, onças pintadas e macucos, para abrir espaço para o algodão indiano de que são feitas as camisetas das campanhas pelos direitos dos animais ou a soja asiática dos menus vegetarianos; ninguém te lembrou a tempo de que, do segundo filho em diante, você se tornaria um agente direto da usurpação de habitats dos demais seres vivos do planeta…
Mas a cada um desses atos, e mesmo apenas ao ser, ao estar, ao procriar, ao consumir e ao descartar; ao disputar espaço neste mundo, enfim, você esta caçando e sendo caçada como sempre foi e como sempre será.
Não sei de que maneira você procura deus, Jeanne, mas a minha é esta: despir-me da minha circunstância para, revivendo ritualmente a experiência comum a todos os homens desde o nosso primeiro ancestral, submeter-me integralmente À Lei para procurar o que existe de permanente em todos nós; entregar-me docilmente à minha essência e caçar até ser caçado (torço pelos grandes predadores de preferência aos microscópicos no que diz respeito à disposição da minha própria carcaça); viver na e da natureza até ser capaz de entender a morte como o que é, reciclagem e não trágica derrota da nossa pretensão à onipotência.
Coisas que só se aprende caçando…
Compreendo perfeitamente o estranhamento que essas idéias possam causar a todos quantos terceirizaram a sua necessidade de caçar para permanecer vivos e até o horror com que esses fatos de todas as vidas em todos os tempos chegam a quem tem vivido como real a vida editada por terceiros que se vive hoje.
Mas rechaço os julgamentos morais em torno da necessidade de comer e do modo com que a natureza aparelhou todos os seres vivos para satisfazê-la; essa prática que nos trouxe a todos até aqui e cujo domínio obrigou o bicho homem a desenvolver as habilidades que hoje chamamos de inteligência.
A ausência de uma cultura de caça entre as elites brasileiras é geralmente tida como “progressista”. Mas é justamente o contrário. Trata-se de um aleijão sociológico. E dos mais feios.
A figura de Daniel Boone, que vivia de e para a natureza, em perfeita simbiose com ela, está totalmente ausente da galeria clássica de “tipos brasileiros” porque desde que o primeiro português pôs os pés nestas terras até o finalzinho do século 19 (fomos o último país do Ocidente a acabar com ela) é o escravo, índio ou negro, quem caça para o branco comer e quem desmata sob as ordens dele para empurrar para mais longe do canavial esse “limite da civilização”; esse esconderijo hostil dos “bugres”, das “feras”, dos “miasmas” e das “febres”.
O brasileiro da praia, o amigo do rei que olhava sempre para Leste, nunca caçou.
Continua assim. Caçar segue sendo “programa de índio”…
Essa estranha suposição de que viemos de algum tipo de fábrica ascéptica isenta das leis que regem a vida neste planeta que nós teríamos o poder de revogar por decreto tem sido um desastre para os nossos biomas.
Sendo as sociedades humanas economicamente dirigidas e perdiz o único produto da natureza que vale mais que boi ou soja, a proibição da caça resulta em que ambientes conservados e seus produtos naturais não tenham valor econômico no Brasil, o que explica porque eles estão desaparecendo na velocidade vertiginosa em que estão para abrir espaço para os únicos produtos da natureza que nossos ambientalistas permitem que se explore em detrimento da perdiz: soja e boi.
Não vai sobrar nenhuma nem para exemplo.
É simples assim, Jeanne…
E não se iluda. A questão do uso da terra não se resolve com polícia como temos provado todos os dias nos últimos 500 anos. Um único cochilo basta para que se destrua o que a natureza leva milênios para construir. Já a da caça predatória, sim, especialmente se houver um interesse econômico na conservação. O resto do mundo está aí de prova.
Mas temo que esta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados acorde mais tarde para essa realidade do que seria bom para a saúde do nosso planetazinho azul.
O espesso analfabetismo ambiental brasileiro tem raízes profundas. É mais uma das terríveis cicatrizes da escravatura que carregamos.
E não ha solução fácil. Educação ambiental é uma cultura. É fruto de uma vivência que não se pode adquirir à distância nem por revelação iluminada de terceiros. Só frequentando a natureza.
Impedido de conviver com ela o Brasil tem a floresta, ainda hoje, como a humanidade tinha a natureza antes do advento da ciência: como um pastiche confuso de verdades reveladas; como o mero suporte de uma religião.
Já passou da hora de permitir que a ciência ocupe nesse campo o lugar do preconceito. E em matéria de educação ambiental, Jeanne, a caça, escoimada de suas perversões, é o curso de doutorado.
Vender preservação é um alto negócio
4 de abril de 2011 § 2 Comentários

Na semana passada os jornais mencionaram uma discussão que estaria começando a correr nos meios ambientais do governo para ceder a exploração (turística) de nossos parques e áreas preservadas pela iniciativa privada.
Seria um passo decisivo para mudar o quadro dramático de absoluto analfabetismo ambiental que assola o Brasil.
Entre os muitos aleijões que a escravidão prolongada produziu neste país, o analfabetismo ambiental conta entre as piores.
O mato, para o colonizador português de beira de praia, sempre foi apenas e tão somente o limite do canavial além do qual só havia “bugres, feras e miasmas”. Eles nunca puseram os pés nele nem para caçar o de comer quando isso era absolutamente necessário. Sempre tiveram o escravo, índio ou negro, para fazer isso por eles, ou para, preferencialmente, empurrar a ferro e fogo o mato para mais longe.
Quando, finalmente, entramos pelo interior adentro, já o fizemos com motosserras, tratores de esteira e “correntões”. Destruímos nossas floresta sem nunca termos tido sequer de entrar nelas.
Isso criou uma distorção que é única no mundo, especialmente nestes tempos em que, com a exceção deste glorioso país com verde na bandeira, todo o mundo valoriza cada vez mais conviver de fato com a natureza selvagem.

A indústria do turismo outdoors é uma das grandes forças econômicas do planeta. E paga-se tanto mais caro quanto mais puro e básico ele puder ser. Finalmente juntou-se a conservação com a necessidade de conservar, uma valorizando a outra. Mas aqui, para a esmagadora maioria de uma população de urbanoides que dificilmente viram mais mamíferos vivos que um cachorro ou um rato de esgoto, isso ainda é “programa de índio”.
Os programas de TV que miram esse segmento, dito “da aventura”, expressão que remete diretamente para as noções de risco e inospitalidade, ainda chamam eucaliptais e campos plantados de braquiária de “áreas verdes” a serem “curtidas” e até “amadas” (porque hoje “gostamos”, do que quer que seja, à americana).
E a primeira providencia dos nossos “ambientalistas” ao criar um parque nacional ou uma área de preservação é proibir a entrada do publico nela, para que não haja o mais remoto perigo de virmos a ter, um dia, algo que se pareça com uma educação ambiental de fato, que nada mais é do que viver uma boa parte da vida nesses ambientes – em geral a melhor porque é lá que se vai para fugir do trabalho e ter prazer. As pessoas lutam por lugares de que se sentem donas. E se sentem donas dos lugares que fazem parte das suas melhores memórias de vida.
Mas entre nós, educação ambiental não é uma prática. É uma ideologia. Uma cagação de regras que raramente fazem sentido. E, no mato pra valer, só se entra clandestinamente, para destruí-lo. Até os cientistas têm sua condição de estudar o que é preciso estudar na natureza para poder conviver razoavelmente com ela restringida de forma absurda quando não ridícula pelos ambientalistas mais radicais.

Na África, com apoio da Cites que é o órgão da ONU para espécies ameaçadas, diversos países reservam as terras lindeiras com reservas e parques nacionais exclusivamente para fazendas de caça ou outras formas de exploração de esportes de natureza, porque isso aumenta a extensão da área preservada, cria uma guarda realmente interessada em coibir abusos (para proteger investimentos e interesses econômicos concretos) sem custo para os cofres públicos e bem menos subornável que as dos governos.
Isso interessa aos investidores pela razão simples de que o parque, lá atrás, repõe caça nas fazendas lá na frente, e caça é a única coisa que vale (muito) mais que soja. A coisa funciona sozinha, em função de mutuo interesse, portanto. É só deixar que aconteça.
Mas nossos “ambientalistas” decretaram que a atividade que define a nossa espécie e garantiu que o homo sapiens chegasse até os dias de hoje é “imoral”. Temos de ensinar nossas crianças que os dentes caninos estão na nossa boca por acaso e os frangos e bifes que comemos todos os dias são fabricados, já com a conveniente embalagem de plástico, nos fundos dos supermercados, sem sangue nem custo ambiental algum, e que a equação da sustentabilidade não se refere nem à superpopulação humana nem ao que temos de derrubar e suprimir para abrir espaço para fabricar o que comemos e o que vestimos, mas sim aos malvados dos americanos e seu “modo perverso de produção”.
Tudo bem! Concedo! Religião não se discute!

Mas vamos, pelo menos, adaptar as ideias civilizadas que deram certo. Que tal incentivar os gringos – e também os ricos brasileiros, porque não! – a comprar bem mais barato terras no entorno dos restos do nosso cerrado, da mata atlântica, nas beiradas da Amazônia, em volta dos nossos “invioláveis” parques nacionais, na beira dos nossos rios só para esses “esportes de aventura”, nem que seja esses do critério politicamente correto (dependendo do horário) das nossas redes de TV?
Ha meses que o Brasil discute apaixonadamente a proibição da venda de terras a estrangeiros, como se eles pudessem carregar o que comprarem debaixo do braço para fora daqui.
Para ser franco, nunca entendi porque estrangeiros investirem para produzir soja ou outra commodity agrícola aqui teria efeitos mais perversos que estrangeiros investirem para produzir automóveis ou televisores aqui.
Criados os empregos, pagos os impostos, passados todos os trâmites legais para exportar essa produção, o que, de fato estaríamos perdendo? Se queremos impedir que a China fabrique proteína animal lá com a proteína vegetal plantada aqui para exportar mais valor agregado, a questão a ser atacada não é o “custo Brasil” sobre a mão de obra (desqualificada), a infraestrutura (sucateada) e os impostos (excessivos para sustentar gastos obcenos de uma casta política privilegiada) que tiram a condição de competir da indústria nacional?

Pra exportar mais valor agregado é preciso domar o PT e o resto dos políticos e não os chineses.
Aos chineses nós devíamos é propor que comprem três alqueires de terras para conservação a cada alqueire de terra para agricultura, por exemplo.
Se ha uma fonte de dinheiro sem custo virtualmente inesgotável, hoje, é essa: todo bilionário do mundo, toda grande empresa do mundo quer enfiar seus bilhões, antes de mais nada, em preservação ambiental. Estão comprando áreas para preservar ou até para devolver à natureza em toda a parte e só não fazem isso aqui porque o governo não deixa.
Se apenas lhes oferecêssemos a oportunidade de comprar para preservar áreas do nosso quase extinto cerrado, nas bordas do que resta da mata atlântica ou em terras amazônicas nesta véspera daquela região ser eletrificada, o que vai multiplicar de forma devastadora a velocidade da devastação, nossos filhos poderiam dormir um pouco mais tranquilos.
Insisto: ha maneiras melhores de gastar neurônios com o binômio terras x estrangeiros do que escolher que tipo de dinheiro pode ou não explorar aquelas que já estão entregues à sanha da agricultura. Muito mais importante – para o Brasil e para o resto do mundo – é convocar os donos de todo dinheiro ocioso ou culpado do mundo (e se incluirmos este já não escapa quase nenhum) a vir comprar uma chance de subir para o purgatório evitando que o que ainda não foi engolido pela fronteira agrícola venha a sê-lo logo ali adiante.

A crise no rio Iriri
25 de outubro de 2009 § 2 Comentários
Imagine a seguinte situação.
Você mora no Pacaembu, ou no Flamengo ou em qualquer outro grande bairro de qualquer grande cidade brasileira. Existe em algum ponto do bairro um imóvel abandonado disputado por diferentes grupos de sem-teto. Preocupado com sua vida, mergulhado no seu trabalho, concentrado em garantir o futuro dos seus filhos, você não tem nenhuma idéia de que isto está acontecendo. Mas a briga lá entre os marginais disputando algo que não é de nenhum deles está esquentando. E então, uma freira estrangeira, que toma o partido de um dos grupos que disputam o imóvel, acaba sendo assassinada pelo grupo contrário.
Nada, enfim, que não aconteça de fato quase todos os dias em alguma grande cidade brasileira.
Mas em vez da corriqueira ação policial para caçar o assassino e da ação judicial para decidir quem tem a posse do imóvel, o presidente da Republica em pessoa, sem mais aquela, decreta que o bairro inteiro está desapropriado e todos os seus moradores terão, do dia para a noite, de arrumar outro lugar para morar.
Pois é isso que está acontecendo no rio Iriri, com o agravante de que, ao contrário do que acontece nos bairros de grandes cidades, os moradores das margens daquele rio, ali instalados há várias gerações, tiram o seu sustento das suas águas e das matas do seu entorno. Não têm nenhuma reserva de alimentos ou, muito menos, de dinheiro. Vivem do que pescam, do que colhem em pequenas roças de subsistência e do que caçam na mata, de um dia para o outro.
Não têm eletricidade nem geladeira; não contam com transporte publico nem com qualquer coisa que se pareça com assistência social. Não sendo nem índios, nem “quilombolas”, nem tendo qualquer título ou traço racial que os torne elegíveis por ONGs ou os defina como pertencentes a um dos grupos de brasileiros definidos como “especiais” pela nossa legislação mais recente, são absoluta e rigorosamente ignorados pelo Estado, que dispõe dos seus destinos como se eles não existissem.
Nos últimos anos, a vida estava melhorando no Iriri. A castanha do Pará, resgatada das populações isoladas a preço vil pelos atravessadores, é a ultima ponte a conectá-los com o mundo civilizado onde nada se faz sem dinheiro depois que os produtos da caça foram proibidos e que o fim do subsídio à borracha tornou a seringa anti econômica (ouça, abaixo, o relato de um castanheiro em A vida dura do coletor de castanha).
Mas o turismo chegou para salvar a situação.
A Pousada do Iriri, que recebe brasileiros e, sobretuto, europeus e americanos interessados na pesca esportiva, na observação de pássaros ou, simplesmente, em ver um lugar que continua como Deus o fez, operou o milagre de resgatar os antigos castanheiros da miséria sem obrigá-los a abandonar o seu estilo de vida. Eles conhecem aquele rio e aquelas matas como você conhece a sua casa. Desde que a Pousada chegou, em vez de migalhas em troca do trabalho extenuante de coleta de castanha, recebem, como guias e “piloteiros”, salários fixos e gorjetas em dólares.
Mas a alegria durou pouco.
Mataram uma freira na “Terra do Meio” (o Iriri corre por milhares de quilômetros no sentido Sul-Norte cortando ao meio a “Terra do Meio”, o território delimitado pelos cursos paralelos dos rios Tapajós e Xingu, do qual ele é tributário), e agora, vá você saber porque, toda a população ribeirinha tem de pagar por isso.
Desde 2006, o Iriri se transformou no verdadeiro rio da dúvida.
O que fazer?
Para onde ir?
A Pousada vai fechar?
Como sustentar as crianças, que pela primeira vez, estão freqüentando escolas em Altamira?
O governo vai pagar pela desapropriação?
Vai arranjar outro lugar para morarmos em que possamos viver de pescar e caçar que é o que sabemos fazer?
Quando?
Onde encontrará espaço desocupado com essas características?
Não se fala mais das fruteiras que estão atraindo caça, da onça que anda rondando o barraco de Zé Boi, dos poções onde está dando peixe, de como conter os pescadores profissionais que descem, em balsas, de Altamira, das castanheiras mais produtivas…
Agora, só há um tema nas conversas ao pé do fogo das noites do Iriri: a duvida.
Pelos barrancos mais altos do rio, já são diversas as casas abandonadas – o barro amarelo claro socado, a grossa cobertura cor de palha feita de grandes folhas de babaçu. Fica todo o equipamento de coleta e processamento de castanha. Levar pra que? Levar como? As roças tomadas pelo mato.
O povo do Iriri não tem quem fale por ele…
E pra onde está indo essa gente?
A vida virou uma aventura. E do pior tipo: aquela que lhe é imposta (veja, abaixo, como Juca quase morreu tentando mudar de vida em Aventura na Guiana Francesa).
Com o avanço inexorável da ocupação econômica do território nacional, áreas como a do Iriri só podem ter um entre dois destinos: o desmatamento e a incorporação à economia agrícola ou a conservação para fins turísticos. Com terras pobres que, no passado, foram fundos de oceanos, destiná-las à agricultura é uma falsa solução. É sob esse pretexto que madeireiros mancomunados com os políticos locais se locupletam colhendo o que não plantaram. Não há maneira de esconder uma atividade visível até do espaço sideral, cujo produto são toras gigantescas que têm de atravessar vastos territórios e sair por portos marítimos.
O que explica o desmatamento desenfreado da Amazônia é mesmo a corrupção. Portanto, não ha solução pelo caminho das proibições que nunca são cumpridas. O Brasil está de prova…
Mas a pressão econômica é o fato incontornável que tem de ser considerado antes de todos os outros, se quisermos uma solução real. E aí é que a política ambiental brasileira naufraga. Presa a preconceitos ideológicos do século passado impostos por ambientalistas que dominam a formulação das políticas governamentais, ela rejeita soluções econômicas e insiste em propostas baseadas em devaneios “morais”, em posturas autoritárias, e na fé na repressão que, historicamente, não tem feito de prático mais que a felicidade dos corruptos.
E, no entanto, a Amazônia toda está a menos de US$ 500 dolares de distancia de vôo dos Estados Unidos. O valor de reservas virgens se multiplica a cada minuto num mundo onde isto é cada vez mais raro. O produto sustentável, por excelência, das áreas preservadas, são a caça, a pesca e os frutos. E a prova disso é a presença do homem, que sempre viveu deles, na Terra.
Hoje, o único produto da terra que vale mais que a soja é a perdiz. Mas nossos ambientalistas não perdem tempo com considerações realistas nem com cálculos “imorais” de “capitalistas cínicos”. Proíbem, em nome de mal costurados argumentos “morais”, a caça que sustentou seus antepassados e trouxe a humanidade até aqui, embora tolerem a pesca. Autorizam, no entanto, o “manejo sustentável” de florestas para a coleta de madeira, embora saibam melhor que ninguém que isso é uma mentira. Antes de mais nada porque, por critério nenhum, pode-se chamar de “sustentável” o corte de arvores de mil anos. E eles sabem que ainda que se conseguisse fazer que o corte seja mesmo seletivo, o que nunca acontece, serão as milenares as árvores mais cobiçadas pelos madeireiros e pelas serrarias. Nossos ambientalistas aprovam esse tipo de predação cujo rastro um milênio inteiro não apagará, mas não permitem a coleta de fauna, que produz “safras” todos os anos, tanto mais abundantes quanto melhor for a condição de conservação da floresta.
E mais, não querem o homem amazônico integrado. Querem-no – índio ou coletor – congelado no tempo e no espaço…
Somos o único país do mundo a ancorar nossa política ambiental numa coleção de contradições tão gritantes. E os resultados, como não poderia deixar de ser, são os que colhemos todos os anos, ha 509 anos, e escandalizam o mundo.
Mesmo assim, recusamo-nos a aceitar a lição dos fatos.
Não seria possível sustentar todos os 20 milhões de habitantes da Amazônia Legal apenas com programas de turismo ecológico e de caça e pesca esportiva. Mas certamente seria possível sustentar com isso toda a parcela dessa população que ainda vive dos rios e da floresta, praticando exatamente uma coleta ponderada de caça, de pesca e de frutos da floresta conservada. Seria possível preservar com ela tudo que ainda é necessário preservar, na Amazônia: ambientes e modos de vida dependentes da conservação da saúde da floresta. Um esquema como este, baseado na expectativa de lucros com a conservação ambiental, substituiria a “fiscalização” de agentes mal remunerados de governos corruptos de hoje pela fiscalização de investidores em hotelaria e logística para a coleta de caça e pesca cuja remuneração dependeria do bom estado de conservação da floresta. Se ultrapassassem os limites do sustentável, poriam a perder o seu investimento.
O tamanho das industrias de caça e pesca esportiva no mundo hoje são prova mais que suficiente do sucesso dessa receita em todo o planeta.
Tudo que é necessário para fazer esse esquema funcionar no Brasil é que nossos ambientalistas admitam o que o resto do mundo – de Cuba à China, passando por tudo que está no meio – já admite e pratica.






























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