Serra é só mais do mesmo

15 de fevereiro de 2011 § 1 comentário

Acho patética essa insistência do Serra num salario mínimo de R$ 600 diante dos sinais gritantes de aceleração da inflação, sinais estes que não são só nacionais. A onda que está batendo por aqui e que vai ganhar volume com a herança maldita do Lula é a mesma que está derrubando governos no Oriente Médio, obrigando a China a subir os juros e afetando o mundo inteiro.

O nefando Paulinho Pereira da Silva, da Força Sindical, que já era o oportunista dos oportunistas muito antes do Lula que, antes dele, foi o oportunista dos oportunistas, chama-lo assim, se contenta com R$ 560. As centrais sindicais, para não perderem a face, aceitam qualquer numero acima dos R$ 545 propostos pelo governo.

Mas o dr. Jose Serra, do PSDB,  um dos criadores da Lei de Responsabilidade Fiscal, insiste nos R$ 600 que nem o seu próprio partido consegue fingir que leva à sério.

Como mostrou a Confederação Nacional dos Municípios cada real de aumento no salario mínimo gera R$ 38 milhões de aumento de despesas. No âmbito federal (previdência, etc.), cada real a mais no mínimo implica cerca de R$ 300 milhões de custo adicional. O salario proposto pelo governo vai custar, portanto, R$ 1,3 bi; o do Paulinho da Força custaria 1,8 e o do “competente administrador” José Serra R$ 3,4 bi.

Isso num contexto em que o governo é o primeiro a admitir que se não conseguir cortar já R$ 50 bi em despesas – coisa que não vai conseguir cortar nem em quatro anos – desanda a maionese.

Sendo o Congresso Nacional o que é e o representante da suposta elite republicana oriunda das universidades o que está demonstrando ser, Dilma, para se precaver, guardou para depois desta que vai ser a primeira votação importante para seu governo, a distribuição do resto dos cargos de segundo e terceiro escalões que tem para distribuir nas estatais para os deputados e senadores que se mostrarem “leais”.

A reconfirmação dessa prática corrosiva é o único resultado prático que o dr. José Serra ajudará o Brasil a colher com a sua atitude “esperta” de aumentar a insegurança quanto à aprovação de algo de tão evidente interesse nacional.

Tudo isso reforça o sentimento de orfandade que compartilho com os 40 milhões de brasileiros que votaram contra a tomada final de assalto do Estado pelo PT revoltados por serem obrigados a sufragar o nome de um sujeito que fez sua campanha inteira pretendendo ser mais Lula que o Lula, como se não houvesse mais nada de errado neste país que pudesse servir de bandeira para uma oposição com vergonha na cara e algum amor pela democracia no coração.

Naquela altura eu tentava me consolar forçando-me a acreditar que aquilo era um erro de cálculo – burrice, até – de um candidato desesperado com os índices de popularidade do seu opositor.

Não era.

Serra é mesmo igual ao Lula. É capaz de destruir o país se achar que isso pode atrapalhar seu adversário ou leva-lo um passo mais perto do poder, exatamente como o Lula e o PT se dedicaram integralmente a fazer durante cada minuto dos 17 anos que transcorreram entre o primeiro dia da Nova Republica e o primeiro dia do seu primeiro mandato como presidente eleito. Faz o mesmo tipo de oposição chantagista que ele fazia. Não tem nenhuma ideia na cabeça para propor ao Brasil. É mais do mesmo. Mais um que só quer “chegar lá”.

Se o Aécio quiser ter alguma chance tem que começar a provar desde já o quanto ele é diferente disso.

Troca de e-mails

25 de agosto de 2010 § 1 comentário

…com uma amiga francesa radicada no Brasil…

Fernão:

Estou muito aflita: vejo um paralelo apavorante entre Peron-Evita e Lula-Dilma. Será q estou delirando ??

Peron assumiu o governo com os cofres recheados, gastou tudo (boa parte no bolso dele e companheiros) e  Evita, a mãe dos “descamisados”,  fazia caridade com chapéu alheio …. até hoje são venerados … destruíram a Argentina …  que nunca  se recuperou e sonha com um governo populista que tudo dá….

Lula , pegou o governo com as reformas fiscais já implantadas  numa condição de economia externa favorável … aumentou os gastos do governo e agora vamos herdar  uma “mãe dos pobres” …

O Brasil de amanhã  vai ser a Argentina de hoje ?????? vamos para uma “democracia populista” a la Kirchner ou  a la Chavez ????

Será q estou delirando ?????

Até agora sempre acreditei que o Brasil neste século seria os USA do século passado……uma grande potência…temos tudo para dar esses salto….

Fiz parte de equipes que lançaram os Eurobonus brasileiros no mercado internacional desde 1986…New Money Bonds.. Telebrás …nessa época a dívida Brasileira estava cotada a  16/100 !!!!..

mas agora estou na  dúvida…

Help !!!

Nicole

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lamento nao poder ajudar, nicole…

o proprio fernando henrique escreveu um livro – “o presidente acidental” – mostrando que ele foi uma “zebra”, um ponto fora da curva na trajetoria politica do Brasil.

a logica é o lula. e a logica do lula esta muito mais para kirchners e chavez que para fernando henrique.

o que dá vertigem é que, de fato, não ha limite para o quanto um desvio importante na politica pode afundar um país. uma vez instalado um filtro de seleção negativa como costumam ser esses governos figadalmente corruptos, a coisa tende a piorar a cada nova safra de “vencedores” que consegue suplantar os demais corruptos e chegar ao topo da piramide. isso é quenem derretimento de reator atomico: quando começa, nao para mais de afundar; vai até o centro da Terra.

a sindrome da argentina é, sim, uma possibilidade real…

ponha suas esperanças na possibilidade de que o outro brasil, este que está fora da sanha dos coroneis hoje aliados ao lula, ou por algum tipo de acidente benigno ou porque resolva, afinal, se profissionalizar, volte a ter peso na política.

é improvavel porque as qualidades requeridas para vencer no brasil do trabalho e no brasil da política são mutuamente excludentes. mas sempre é possivel.

e, enquanto isso, torça para que a china e os estados unidos mantenham as coisas apontadas para cima para nunca termos de descobrir quem, de fato, são o lula e a dilma…

beijo,

fernão

É bom levar a sério o Ato Institucional do Lula

10 de janeiro de 2010 § 1 comentário

Descartado todo o palavrório em torno de questões pontuais – e o decreto inclui todas as que se possa imaginar – o que há de “sistêmico” dentro do Ato Institucional do PT é a supressão do mecanismo democrático de legitimação do poder político e dos seus atos pela totalidade dos eleitores e sua substituição pelo velho sistema de “comitês populares” cooptados pelo partido exumado das ditaduras comunistas do século passado e ainda funcionando em Cuba (veja o artigo Como funciona o regime que o PT mais admira, postado em 13/12/2009).

Atraves do Programa Nacional de Direitos Humanos, que pretende subordinar todos os tema tratados pelo governo daqui por diante, o PT anuncia o que quer fazer e como quer fazer. 

Não ha porque não levá-lo à sério.

Destruído o Congresso (pela gangrena mensaleira coroada pela institucionalização da intocabilidade dos bandalhos), rendido o Judiciário (quando o STF nomeado pelo próprio abriu mão da ultima palavra devolvendo-a ao “filho do Brasil” no caso Cesare Battisti) e subornada a opinião publica (as classes C e D com a mesadinha direta e as classes A e B faturando em vendas essa injeção de dinheiro do Tesouro na turma de baixo), começa a fase explícita da versão brasileira do “golpe bolivariano” com o “assustador arremedo de constituição” que é, nas apropriadas palavras do editorial do Estadão deste domingo, o decreto 7.037, dito “dos Direitos Humanos”, que Lula assinou no dia 21 de dezembro de 2009, quando a atenção do país estava voltada para as festas da virada do ano.

Fazendo jus à sua obrigação de estar sempre alerta, as Forças Armadas foram as únicas que reagiram desde o primeiro momento com a ameaça de renuncia coletiva dos ministros das três armas se o decreto mantivesse a revogação da lei de anistia apenas para um lado dos que – terroristas e militares – se enfrentaram durante o regime militar.  Continua mal explicado, a propósito, o recuo dos militares já que a revogação da lei foi mantida…

Mas a tentativa de reescrever o passado – que define o estilo (stalinista) do documento e, assim, aponta para seus autores – é o que menos preocupa em tudo que foi amarrado dentro do AI-Lula que, se vier mesmo a vigorar, não vai requerer numeração já que resolve tudo de uma só vez. A insistência na questão da anistia é reveladora do caráter dos autores do decreto. Mas também pode facilmente vir a ser o “bode” a ser retirado da sala para que passe o que realmente importa.

E a desmontagem do sistema de “checks and balances” por poderes independentes, aí incluído o chamado “Quarto Poder”, que é a imprensa livre, tão afinada com a figadal aversão de Lula a qualquer crítica, cobrança ou obstáculo institucional que se interponha entre a expressão de sua vontade e a imediata transformação dessa vontade em ações do estado, é o que realmente importa.

É esse sistema, que caracteriza a democracia e o estado de direito, que o decreto ataca de frente.

Insisto no Estadão porque ninguém resumiu melhor: “o decreto reduz o papel do Congresso, desqualifica o Poder Judiciário, anula o direito de propriedade, institui o controle governamental dos meios de comunicação e sujeita a pesquisa cientifica e tecnológica (e a produção artística e intelectual) a critérios e limites ideológicos, numa manobra articulada para consolidar um regime populista autoritário sustentado na relação direta entre o chefe do poder e as massas articuladas em sindicatos, comitês e outras organizações ditas populares”.

No seu tradicional estilo Macunaíma (o “herói sem nenhum caráter”), Lula já soprou por aí que “assinou o decreto sem ler”, para o caso da reação ser forte demais e ele ter de recuar. Se é assim, há que considerar umas tantas questões:

  • se o presidente assinou um decreto desse teor sem lê-lo, caberia um processo de impeachment, tal seria o grau de irresponsabilidade caracterizada;
  • se ele não leu, a Casa Civil e o Ministério da Justiça leram, já que sua função é dar acabamento formal e jurídico às propostas do governo;
  • é provável, aliás, que a Casa Civil tenha feito mais que isso, a julgar pela insistência na questão da anistia: com Paulo Vannuchi, da secretaria de Direitos Humanos, que foi da ALN de Carlos Marighella (o grupo terrorista mais “barra pesada” dos “anos de chumbo”) e Franklin Martins, das Comunicações Sociais, que foi do MR-8, Dilma Roussef foi da VPR, e essas são as três organizações clandestinas daquela época que não se detiveram diante do limite do assassinato a sangue frio;
  • o governo Lula, formalmente, está na ante sala do passado, é verdade, e, com exceção da questão da anistia, o decreto trata do futuro; entretanto, o que consta dele é tudo que sempre fez parte do programa oficial do PT e teve de ser revogado pela Carta aos Brasileiros sem a qual eles não chegariam ao poder pela via “burguesa”; quem espera ditar regras ao país nas condições definidas pelo decreto são aqueles a quem se atribui sua autoria (Dilma, Vannuchi, Martins, Tarso Genro…), todos eles, diga-se de passagem, paus-mandados do presidente em fim de mandato totalmente destituídos de força política própria.

Seja como for que este monstrengo foi parido, o fato é que o presidente da Republica apôs nele a sua assinatura e 30 dos seus ministros avalizaram publicamente o documento. Assim, nada recomenda que não se leve à sério esse esboço de Ato Institucional petista. Ele veio na sequencia de um meticuloso e intenso processo de desinstitucionalização do qual resultou que uma única figura – a do presidente – restou em pé na cena política. E, mesmo que tenha havido “passa moleques” até que chegasse onde chegou, esse documento se encaixa perfeitamente na lógica e no histórico petistas.

É extremamente preocupante, aliás, a falta de reação do Legislativo e do Judiciário diante de tão contundente patada nas suas respectivas partes baixas. Alguns legisladores e juristas registraram o golpe, é verdade. Mas reação como instituição, só mesmo a das Forças Armadas que, entretanto, não sustentaram sua posição inicial.

O momento para jogar essa bomba na praça foi cuidadosamente escolhido para atingir a Nação na ressaca das festas de fim de ano. E o truque funcionou.  A imprensa em geral, burocratizada e presa ao vício das coberturas “declaratórias” que limitam-se a reportar o que dizem as autoridades em vez de ir buscar o que elas querem esconder com suas declarações, chegou com semanas de atraso ao assunto embora a integra do decreto esteja publicada na internet desde o dia em que foi assinado, e até agora mostra-se atordoada e recalcitrante. Continua presa ao vício declaratório, concentrando o foco onde o governo quer que ela o faça, que é no problema menor da anistia, e ignorando o que ele contem de mais venenoso que é a virtual revogação da democracia representativa no país pela instituição de mecanismos paralelos de “legitimação” dos atos do Executivo que excluem a participação dos eleitores.  

Conforme prevista aqui no Vespeiro, vem se aproximando rapidamente A tempestade perfeita (ver post com este título de 1/11/2009) que ameaça envolver o país.

Para enfrentar com as armas da democracia este golpe que visa acabar com ela é preciso concentrar o foco no documento e não naquilo que seus autores ou comentaristas interessados dizem sobre ele para desviar a atenção do principal. É preciso desembrulhar o pacote petista e desmontar, uma por uma, as bombas que ele esconde. E para isto será necessária uma combinação de eficiência e perícia técnica nos campos jornalístico, legislativo e jurídico, as tres instâncias de controle democrático do Poder Executivo.

Os poderes Legislativo e Judiciário não se têm mostrado, ultimamente, à altura desse desafio, com os reiterados sinais que têm emitido de sua disposição de aceitar a cooptação lulista. Resta saber como se comportará a imprensa. Esta batalha vai dar ao país a medida exata  do seu estado de saude.

Não compre gato por lebre

30 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

luliobama x

Um fenomeno curioso está ocorrendo na cena política brasileira. É a repetição (como farsa…) do mesmo ciclo que acabamos de ver se encerrar melancolicamente lá fora, apenas com sinal invertido.

Em pleno céu das suas pequenas vitórias emprestadas, os infindáveis discursos de Lula nos dão conta de que ele acredita piamente que chegamos ao “fim da História” com a derrota final da economia de mercado e a hegemonia do estatismo que, na sua versão macunaímica, assume a velha feição do populismo assistencialista de clientela.

Trata-se de algo que, possivelmente, virá a ser conhecido no futuro como o “Consenso de Caracas”, que acrescenta aos elementos tradicionais desse tipo de formulação “sociológica”, uma versão reciclada do racismo institucionalizado de que o mundo pensava ter se livrado com o fim do apartheid na África do Sul.

Mas, que ninguem se engane: é muito cedo, ainda, para se levar essa visão de mundo totalmente na piada.

Se ainda é prematuro afirmar a morte definitiva da economia de mercado, acho que existem sobradas razões para temer que Lula venha a estar certo num futuro não muito distante, visto que o seu fã americano e sua equipe econômica tomada de empréstimo ao Goldman Sachs seguem enchendo a bola das mesmas corporações gigantes que detonaram a economia mundial, enquanto faz discursos ôcos contra elas. Esse comportamento põe em cena uma seríssima ameaça de que os Estados Unidos, desde sempre o unico baluarte do capitalismo genuinamente democrático, estejam começando uma deriva sem retorno em direção ao estágio que antecede a morte de qualquer democracia, que são o corporativismo e o “capitalismo de camaradagem”, aquele velho conhecido nosso no qual as amizades certas, e não o esforço individual, é que são o principal fator de sucesso.

luliobama 1

Não é dificil entender a mutua atração de Lula e Obama. Eles têm muito de parecidos. Descontadas as diferenças na definição do que seja esquerda e direita nos Estados Unidos e no Brasil, e levando-se em conta que o carimbo “De Esquerda”, independentemente de seu significado real, tem, aqui e lá, o efeito mágico de anular a capacidade crítica de uma boa metade da população, aí incluida a quase totalidade da imprensa, esses dois mestres da intuição lançam mão dele e governam como os violinistas, segurando o instrumento com a mão esquerda mas tocando com a direita e negando com interminável palavrório vazio e técnicas de animador de auditório aquilo que fazem na prática.

O recurso preferido dos políticos mal intencionados é a critica destrutiva com viés generalizante, desacompanhada da avaliação prévia da alternativa para a situação que se quer revogar. Trata-se de um habito fortemente arraigado entre os latinos, aliás. Da educada França ao mais iletrado grotão latino-americano, costumamos destruir aquilo que temos antes de sabermos o que vamos por no lugar.

lenin

Basta um discurso cheio de indignação e pronto! Lá vão todos os babacas para a rua apedrejar “isto que está aí” para, ao fim do comício, se verem, atônitos, nas mãos de coisa pior. De revolução em revolução, perdemos, todos, as referências do passado antes que tivessemos parado para pensar no futuro, passando das mãos dos reis para as mãos dos imperadores, das destes para as dos caudilhos,  depois para as dos ditadores, as dos governos autoritários e assim por diante.

Trocamos de exploradores, substituimos a nobreza pelo funcionalismo, mas estamos sempre no ultimo degrau da escala das liberdades efetivamente praticadas em partes mais previdentes do planeta num determinado momento histórico. Tão perdidos, desorientados e acostumados ao abuso que perdemos a capacidade de nos indignar e já não sabemos sequer a que temos direito de aspirar em matéria de direitos e liberdades civis.

É o que estamos começando a fazer mais uma vez.

O capitalismo americano foi à rasca, arrastando o mundo consigo, porque o país abriu mão do seu tradicional aparato regulatório pró-mercado, apoiado na legislação anti-truste que punha limites à concentração da propriedade e garantia a competição mais acirrada possivel dentro de cada setor da economia, e passou a permitir a competição sem limites que leva ao crescimento desmesurado das grandes corporações até que alcancem o estágio do monopólio e ao aumento exponencial do seu poder de lobby e de corrupção.

Disso resultou o abandono progressivo das políticas pró-mercado (anti-truste) e sua substituição por medidas pró-empresas articuladas em função de relações pouco claras entre políticos avidos de recursos para financiar seus planos de poder e empresas dispostas a fornecê-los em troca de vantagens regulatórias e negócios bilionários obtidos no tapetão. Foi assim, e não vencendo competidores em disputas honestas, que certas empresas se tornaram “grandes demais para quebrar”, criando castas de privilegiados que não sofrem nas crises e ainda se aproveitam delas para aumentar seus privilégios.

Eis aí o que cria um elo de identificação entre a elite de Brasília e os poderosos de Wall Street, que vêm seus salários crescer quando os do resto do país diminuem embora sejam eles os grandes fabricantes de crises, respectivamente no Brasil e nos Estados Unidos.

O resumo dos fatos é que os Estados Unidos estão percorrrendo, por cima, o caminho para o “capitalismo de camaradagem” que o resto do mundo, em especial os latino-americanos, percorreu por baixo. E isto tem servido de pretexto para o “revival” mundial do estatismo com que o nosso Lula tanto se regozija.

magica

A maneira de reverter esse processo não é, entretanto, com menos economia de mercado, mais estatização (com todo o poder a empresas gigantes cujos numeros a ninguém é permitido olhar) e mais jogo casado entre empresários de araque e políticos com poder de alterar as regras do jogo como este a que assistimos recentemente na área de telefonia, criando fontes eternas de financiamento de projetos de poder.

É justamente o contrário: o poder de intervenção do Estado tem de ser exercido para criar mais mercado, ou seja, mais concorrência, e para por limites legais para o crescimento das empresas. É isso que divide e reduz a concentração do poder econômico e, em consequência, a sua influência sobre a política, sempre conseguida por caminhos tortos.

O eleitor brasileiro está sendo enganado mais uma vez.

“Nem a esquerda desonesta, nem a direita troglodita!”

“Nem monopólios estatais,  nem monopólios privados!”

“Por uma política pró-mercado e pelo fim das mumunhas e manipulações pró-empresas!”

“Pela proteção da concorrência e pelo fim da tramóia regulatória e do jogo de cooptação!”

“Por uma lei e uma polícia para todos e não só para os inimigos!”

Os “pelas” e “por umas” são só uma provocaçãozinha a que não pude resistir. Mas o que está aí são alguns dos pontos-chave para informar um verdadeiro discurso de oposição no Brasil.

Ja apanhamos o suficiente para saber que a unica coisa pior que a propriedade privada dos meios de produção regulamentada pelo Estado, é a propriedade estatal dos meios de produção sem regulamentação nenhuma criando empresários de fachada para garantir reservas estratégicas de dinheiro para eleições (e o mais…).

CORRUP~1

Temos tido provas diárias, nos ultimos sete anos, de que não existe lado são num sistema podre. Dinheiro demais corrompe. Poder demais corrompe. Os dois juntos corrompem absolutamente. E o que a “era PT” nos prova é que qualquer um que chegar a uma distância suficiente dessas máquinas de corromper, será corrompido.

O capitalismo fora dos Estados Unidos sempre esteve preso nesse circulo vicioso: quanto mais o sucesso economico depender das relações políticas e quanto menos o esforço individual e a competência fizerem diferença, mais corrupto será o sistema e menos apoio publico ele terá. E quanto menos apoio publico ele tiver, mais a elite política ocupará espaço na economia, aumentando o seu poder de distribuir favores e desfavores e, com isso, de se perpetuar no poder.

Agora os Estados Unidos tambem flertam perigosamente com a distorção que está na raiz de todos os micos que pagamos. Mas isso não justifica que afundemos ainda mais no brejo que já conhecemos. Só políticas que apontem na direção de reduzir a capacidade de corromper dessas duas máquinas de corrupção – o dinheiro e o poder político – podem sanear o sistema e melhorar a vida do povo, que é quem paga pelos abusos das duas.

Se não trabalharmos para criar um sistema econômico baseado no mérito, que possa ser apoiado por pessoas honestas, continuaremos eternamente assistindo ao achincalhamento do trabalho sério e ao triunfo do crime sem castigo.

(Na seção De Outros Autores estou arquivando o artigo “O Capitalismo depois da crise”, de Luigi Zingales, que inspirou parte deste acima. É enorme. Mas me parece tão importante e bem fundamentado que tive a pachorra de traduzí-lo para os leitores do Vespeiro).

dna $

Saudação ao fim do voto ideológico

29 de setembro de 2009 § 1 comentário

cego fila

Na semana passada, quando andou comemorando “a primeira eleição no Brasil sem os trogloditas da direita” (mesmo porque a maioria deles está ocupada em apoiar o governo Lula que, em troca, os tem salvo da polícia, e vice-versa) nosso presidente disse que “o grande desafio desta eleição será o futuro; quem vai fazer a melhor proposta de futuro para este país”.

É verdade (até ele as diz, quando isso é inevitavel…).

O nível de escracho que Lula “tornou normal” nos arraiais políticos brasileiros fez, pelo fim das ideologias no Brasil, com 20 anos de atraso, o que a Queda do Muro de Berlin não tinha conseguido fazer.  Sua efusiva confraternização com José Sarney e Fernando Collor de Mello foi o marco do definitivo degredo da ética para fora do território petista. A partir de então, passou a ser oficial: nada diferencia os bandalhos assumidos de cada lado do antigo espectro ideológico; todos eles são igualmente nocivos à promoção do Brasil para uma próxima etapa de desenvolvimento sustentado.

E isso abre novas e ricas possibilidades em matéria de eleições. 

Sim, porque o voto ideológico é, antes de mais nada, um voto burro; um voto que fecha os olhos aos dados da realidade presente, emitido por um eleitor que, ao abrir mão, deliberadamente, do seu senso crítico, torna-se surdo a qualquer argumento racional. A ideologia é uma espécie de suborno moral que, do ponto de vista prático, produz no contingente de eleitores afetado por ela o mesmo efeito que o suborno assistencialista produz no voto do miserável: torna-o cativo, independente da avaliação do desempenho do partido, do político ou da administração que o recebe.

politburo

O voto ideológico, assim como o voto subornado, são votos reacionários. Um espontâneo, outro forçado, são votos referidos ao passado que se propõem barrar o avanço para o futuro.

Para cumprir o papel essencial que tem nas democracias, de instrumento de pressão dos representados sobre os representantes, de parteiro do novo e arauto do futuro, o voto tem, por definição, de ser livre, cambiante, errático, dócil aos acontecimentos do momento.

A bandalheira petista teve, portanto, pelo menos esse lado positivo: conquanto Lula tenha aprisionado mais eleitores do que nunca no redil assistencialista, o que compromete, temo que irremediavelmente, a próxima eleição, ao menos libertou o voto ideológico do contingente distorsivo dos votos acríticos.

Considerando-se que o voto subornado tende a ser estéril, durando apenas enquanto durar o suborno, e que o voto ideológico libertado tende a ser fértil, multiplicando-se em função do maior poder de proselitismo dos seus detentores, podemos nos agarrar à ideia otimista de que, do médio para o longo prazo, haverá melhora na qualidade das nossas eleições futuras.

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