O que as contas do dr. Mantega têm a ver com o linchamento de Yoani Sanchez

22 de fevereiro de 2013 § Deixe um comentário

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Parecem coisas distantes entre si, mas não são. A diferença é de grau e não de gênero.

Existe um nexo perfeito entre a “matemática criativa” do dr. Mantega, a nova política de controle de preços agrícolas que o governo começa a esboçar porque a inflação nos alimentos insiste em ficar acima de 10% desde 2008 e a fúria dos “camisas pardas” do PT encarregados por agentes do governo brasileiro sob ordens diretas do governo de Havana de perseguir, passo a passo, e calar na porrada a boca da blogueira Yoani Sanchez em suas andanças pelo Brasil.

O ponto exato de “ruptura revolucionária” com a lógica que desloca o pensamento de esquerda para o campo ideo-lógico é a negação do princípio do mérito.

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Quer tirar um estatólatra do sério? Por um funcionário público em pânico? Provocar urticária no governante autoritário que gostaria de não ser apeado nunca do poder em função do julgamento de eleitores que não sabem sequer o que é bom para eles próprios?

Proponha-lhes um sistema de mérito em que o esforço empenhado na ação seja medido pelo seu resultado e a remuneração do agente seja estipulada em função da medida colhida como esse que vigora para o resto do mundo e para todos os reles mortais aqui do Brasil real.

Negar o conceito de mérito é, em última instância, negar a relação de causa e efeito e, por inferência direta, também as ideias de responsabilidade individual e de livre arbítrio.

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Daí decorre que para fazer regredir a inflação, nada dessa besteira de alterar os fundamentos políticos e as práticas concretas no trato do dinheiro público que levam as contas nacionais para um resultado indesejado, basta alterar as contas para que o resultado indesejado não apareça.

Analogamente, para evitar que Yoani Sanchez se queixe da repressão em Cuba ou que a “imprensa golpista” cobre ética na política, nada dessa besteira de promover mais liberdade e democracia na ilha daqueles dois velhinhos fardados ou de deter a roubalheira e a institucionalização do lenocínio parlamentar no governo do PT, basta estabelecer na porrada o “controle da mídia” – um blog que seja – para que cessem as queixas contra a falta delas.

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O critério ideo-lógico, como diz a palavra, põe a ideia à frente da lógica e insiste em submeter esta àquela. O problema é sempre que, como a lógica traduz o que dizem os fatos e os fatos insistem em se rebelar contra o que querem deles as ideias, estas só podem se sobrepor a eles mediante o emprego da força bruta. De modo que esse conflito insanável acaba sempre em violência.

Violência contra a rebelião da matemática ou violência contra a rebelião das pessoas são, portanto, apenas estágios diferentes do mesmo desvio fundamental. No fim, tudo chega ao mesmo lugar.

Ou volta-se a entronizar o mérito, ou institucionaliza-se a violência. Não ha exemplo histórico de meio termo. As variações possíveis são só de grau, e este oscila exclusivamente em função da resistência oferecida pelo violentado.

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Discutindo “o Coringa” com Jabor

24 de julho de 2012 § 3 Comentários

Comentando o massacre do Clorado hoje no Estado (aqui), Jabor se permite fazer voar o seu pessimismo apocalíptico.

Já andei por esses territórios escuros…

Cada vez mais, nessa primavera do nada dele, ele pensa despudoradamente como quem se põe a uivar. Na sua ânsia psicanalisada de negar mistério ao mistério e procurar causalidade em tudo, tem usado a sua inteligência com a mesma absoluta dispensa de filtros ou seleção prévia de alvos com que o atirador sorridente usou suas armas naquele cinema do Colorado.

Tentação temerária, essa de atribuir à inteligência a missão de varrer O Mistério da face da Terra!

Insisto nisso porque não é de hoje que suspeito que, na raiz desses massacres, está justamente a aridez da vida sem mistério.

Jabor nota, a certa altura, que “quando o Código Hays da terrível censura careta dos anos 30 foi extinto em Hollywood, a sexualidade continuou ausente dos filmes. Só floresceu a brutalidade total, o substitutivo puritano para o sexo“.

É verdade, sobretudo agora.

Mas essa sugestão de que ainda é ao patrulhamento das suas avozinhas para que não durmam com as mãos por baixo dos lençóis, bulindo “nas partes”, que se deve a entrega desses “puritanos” ultrareprimidos à violência é Freud demais pro meu caminhãozinho!

Eu não acredito nem por um minuto que religião, nos dias que correm, pese tanto assim nem praqueles caras dos grotões do Islã para os quais qualquer violação redunda em pesado castigo físico e até na morte.  Até eles já sabem que isso é só mais uma das ferramentas covardes do jogo do poder e que não existe mão de deus nenhuma nessa brutalidade toda.

Que dirá os americanos do ano da graça de 2012!

Por que, então, derrubada a “censura careta dos anos 30“, só a “brutalidade total” floresceu nos filmes de Hollywood?

Porque o ato de infligir a morte ao outro e suas multiplicações – a brutalidade total, o assassinato, o genocídio – são o último limite do proibido, a derradeira transgreção da qual não se pode sair impune, o último território ao qual homens e mulheres, velhos e crianças, não podem ir e voltar livremente a qualquer hora do dia ou da noite, até do computador do escritório enquanto trabalham ou fazem a lição de casa.

Já não digo matar simplesmente, mas matar a esmo ainda é o unico modo infalível de se impor à atenção alheia (e já quase nem isso).

O sexo até à última das suas perversões, nesta era da internet, é a essência do déjavu, do óbvio, do já sabido. Nem Pedro Bial no seu dia mais inspirado consegue produzir o mais leve rubor na face de uma criança que seja explorando o filão desse “tabu”.

Suspeito, portanto, que é a arte quem imita a vida nesse caso, como sempre realimentada até o empanturramento pela força do dinheiro.

Quem sou eu pra ensinar padre nosso a vigário!

Mas a mágica do cinema, o fascínio que ele exerce sempre esteve na possibilidade que ele enseja de tornar possivel o impossível, de materializar o apenas sonhável, de colocar o espectador onde ele nunca poderia estar, de passar o ponto de não retorno e retornar.

“Cinema verdade” nunca deu ibope porque de realidade já temos, todos nós, muito mais do que somos capazes de engolir. O que falta cada vez mais é o que se não sabe; é o que se não pode saber. O que falta cada vez mais é espaço para o sonho, é espaço para o mistério.

E essa é a fresta pela qual sempre se esgueirou a esperança. Já foi “na outra vida”, já foi no “Novo Mundo”, já foi “além da última fronteira” que dormiu a utopia à espera de que os audazes, os santos, os sonhadores e até os machucados viessem abraça-la.

Hoje onde é que ela se esconde?

Já a dor, dói como sempre doeu…

Resta sempre a alternativa de se provar sublime para quem não suporta ter a sua ignorada. Mas isso não é para quem quer. Daí haver sempre mais tarantinos que chaplins e woody allens, tanto no cinema quanto na vida real.

É pra comemorar ou pra chorar?

6 de junho de 2012 § 1 comentário

“Drone” mata Nº 2 da Al Qaeda

E a gente não sabe se comemora, aliviado, ou se chora.

Da guerra generalizada  à guerra individualizada. O que se tem agora são operações policiais com alcance planetário nas quais o alvo é previamente julgado, condenado à morte e inexoravelmente caçado até a execução.

Só fica-se sabendo que houve um julgamento e uma sentença depois que ela é executada.

É preciso formalizar esses processos de algum modo, ou…

Mas e a necessidade de segredo, como é que fica?

O terrorismo funciona.

Hoje toda pessoa é vigiada onde quer que esteja e seja o que for que estiver fazendo. Não era isso a anti-utopia de Orwell? (1984)

Não demora nada e algum stalinzinho (que certamente já nasceu e anda por aí) vai nos mostrar que o inimigo não era exatamente quem nós pensávamos que era e começará a ter “novas ideias” sobre pra que usar essa parafernalia toda…

A busca de segurança foi sempre o que levou os homens a se atirar nos braços da tirania.

Tiririca, Obama e a questão palestina

20 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

E Benjamin Netanyahu chamou Mahmud Abbas para conversar em Nova York e seguir conversando em Jerusalém e Ramallah…

Os pessimistas dirão que nada mudou e que negociar um acordo de paz abrangente para toda a região sempre foi a condição prévia de Israel para discutir a criação de um Estado Palestino.

E assim é, por enquanto.

Mas se a aprovação iminente de um Estado Palestino pela ONU já o obrigou a se mover, é claro que a consumação do fato poderá convence-lo a mudar a qualidade dessa conversa.

Foi exatamente assim, aliás, que nasceu o Estado de Israel, que estaria até hoje nessa mistura de blá, blá, blá com pólvora e sangue em que está atolada a questão palestina ha 63 anos se a ONU tivesse “encolhido” em 1948 e ficasse esperando a anuência dos árabes.

A esta altura, de qualquer maneira, não ha mais nada a perder. Quando você chega ao ponto em que cada uma das partes envolvidas pode retrucar a qualquer argumento da parte contrária com um “Você matou meu pai”, “Você matou meu irmão”, a racionalidade não tem mais lugar.

Os votos de ódio eterno estão feitos e é deles que vivem todos quantos, de parte a parte, querem mante-los vivos para sempre.

Mas um empurrão da ONU nos fatos para que as formalidades tratem de correr atrás deles como puderem depois pode criar para os palestinos o problema novo de construir uma Nação, desviando o foco absoluto na destruição que hoje é tudo que lhes resta. E isto pode proporcionar o hiato que falta para levar àquele vale de lágrimas, o sopro de esperança que está faltando para que todos possam gritar unidos um “Chega de tanta dor!”.

Barak Obama desistiu de esperar respostas desemocionalizadas dos republicanos para a necessária ação contra a crise da divida doméstica, e forçou uma decisão ao prometer vetar qualquer corte no Medicare sem a contrapartida de um aumento nos impostos dos ricos, que é a única solução possível para o problema.

Ele pouparia tanto tempo e sofrimento para seu país e para o mundo quanto ha de nos render a todos este – vá lá! – ato tardio de  coragem se mostrasse a mesma decisão com relação à questão palestina, permitindo à ONU fazer já aquilo que, de qualquer maneira, terá de ser feito um dia.

Mesmo porque, nos dois casos, pior do que está não fica.

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