EUA apontam dedo acusador para a China. Finalmente!

21 de novembro de 2011 § 2 Comments

Matéria assinada por Robert Kuttner para o Huffington Post de hoje põe, finalmente, o dedo na ferida onde se origina toda a crise em que se debate o Ocidente, como tantas vezes tem sido lembrado aqui no Vespeiro.

O autor avalia o relatório anual da Comissão de Avaliação de Segurança e Relações Econômicas China-Estados Unidos do Congresso americano, uma comissão bi-partidária de 12 membros, seis de cada partido, que faz “um dos poucos diagnósticos do problema nacional em que (pelo menos os membros) republicanos e democratas (desta comissão) concordam totalmente“.

Embora a administração Obama não esteja fazendo nada de sério para enfrentar a crescente ameaça que a China representa para os fundamentos da economia americana, essa ameaça foi, pela primeira vez, descrita sem meias palavras num documento oficial do governo que deveria ser leitura obrigatória para todos os cidadãos americanos“.

São estas as principais conclusões do relatório:

  • a China é um estado mercantilista e autoritário que está determinado a se apropriar não apenas dos empregos mas também da mais avançada tecnologia norte-americana pelo uso dos expedientes de suprimir direitos dos trabalhadores e promover acordos com empresas dos Estados Unidos que incluem chamarizes para o lucro fácil (salários reduzidos e subsídios do Estado) e imposições ilegais (a obrigação de se compor com sócios locais e transferir-lhes tecnologias para fazer negócios dentro da China), acrescentados da obrigação de produzir principalmente para reexportar para o mercado norte-americano e não para vender dentro da China;
  • a maioria das empresas americanas se compraz em fazer esses acordos o que as transforma em aliadas do lobby chinês dentro dos Estados Unidos. Enquanto o governo faz queixas tímidas com relação à desvalorização artificial da moeda chinesa, as corporações que exportam trabalho para a China adoram essa situação porque ela aumenta seus lucros no território nacional com produtos reexportados de lá;
  • a Câmara Americana de Comércio que combate as políticas industriais domésticas faz um lobby pesado contra qualquer pressão mais forte de Washington contra a ação mercantilista de Pequim; a administração Obama ensaia tímidos gestos militares (junto aos países no raio de influência geográfica da China) e assina tratados de livre comércio com países menores, mas não ousa contestar as barganhas entre as grandes corporações americanas e a China nem as práticas ilegais daquele país;
  • o déficit nas trocas entre a China e os Estados Unidos continua a aumentar especialmente nos setores de alta tecnologia. A China vendeu aos Estados Unidos US$ 81 bilhões em produtos de alta tecnologia nos 12 meses encerrados em agosto e comprou apenas US$ 13,4 . O déficit comercial total com a China chegou ao numero recorde de US$ 273 bilhões, mais da metade do déficit comercial total dos Estados Unidos. Em meados de 2011 o superávit comercial total da China, que chega a US$ 3.2 trilhões já tinha crescido US$ 800 bilhões em um único ano;
  • embora o governo chinês tivesse concordado em suprimir a exigência explícita de transferência de tecnologia por toda companhia estrangeira querendo operar em seu território, continua recorrendo a diversos expedientes para mantê-la de fato;
  • além disso, ela segue desrespeitando os direitos de propriedade para manter a sua própria “política de inovação”;
  • todos esses expedientes violam frontalmente as regras da organização Mundial do Comércio;
  • a China está se tornando uma ameaça crescente para a segurança nacional não só por se tornar um player cada vez mais importante na cadeia de suprimentos de diversos itens que deixaram de ser fabricados nos Estados Unidos como também pela sua crescente agressividade e sofisticação na chamada guerra cibernética;
  • o governo dos Estados Unidos, governos estrangeiros, fornecedores de equipamentos de defesa, entidades comerciais e várias organizações não governamentais têm reportado tentativas de invasão de seus bancos de dados a partir da China; a China, por sua vez, define como parte de sua estratégia explorar a vulnerabilidade dos sistemas de comunicação em que se apoia o sistema nacional de defesa;
  • apesar do comportamento ameaçador do governo da Coreia do Norte o Partido Comunista Chinês age como se tivesse concluído que é melhor sustentar aquele regime do que trabalhar pela sua remoção; ela também age abertamente para impedir as medidas internacionais de controle da fabricação de armas de destruição em massa pelo Irã;
  • o regime chinês continua sendo uma ditadura de partido único brutalmente repressiva; apesar da crescente produtividade ela deprime o consumo interno de modo a poder continuar pagando salários muito baixos para fortalecer a sua máquina de produção e subornar a indústria norte-americana para que favoreça internamente os seus interesses;
  • apesar da sub valorização forçada da moeda chinesa estar amplamente comprovada e documentada, o secretário Geithner, do Tesouro, tem se recusado a classificar a China oficialmente como uma manipuladora da moeda, o que implicaria em sanções legais obrigatórias por parte dos Estados Unidos;
  • enquanto o Ocidente oscila na beira de uma segunda onda de recessão, a China, graças a tudo isso, continua incólume, e quando os líderes europeus bateram na sua porta de chapéu na mão, foram avisados claramente de que qualquer ajuda da China só virá em troca da classificação do país como uma “economia de mercado”;
  • este é o 10mo ano em que a China faz parte da Organização Mundial de Comércio como “membro provisório”;
  • embora a indústria nacional se queixe ocasionalmente de roubo de propriedade intelectual pelos chineses, a maior parte de nossas grandes corporações está satisfeita com os acordos individuais que lhes garantem uma mão de obra dócil e barata e amplos subsídios do tesouro chinês. E isto está custando algo entre 600 mil e 2.400 mil empregos aos norte-americanos.

Conclusão: conforme previsto por Lênin, os capitalistas estão fabricando a corda com que estão sendo lentamente estrangulados. E já passou da hora dos que pagam esse mico – os trabalhadores e as classes médias do Ocidente – se darem conta disso, pararem de chutar as canelas uns dos outros em meio ao pânico que essa situação provoca, e se voltarem contra o verdadeiro inimigo que está lá do outro lado do mundo e contra os “traíras” nacionais que venderam suas almas a ele.

E tudo isso sem esquecer que o trabalhador/consumidor que compra o produto “baratinho” made in China nos Estados Unidos e pelo mundo afora está dando de troco o seu próprio emprego. É ele quem torna tudo isso possível.

 

Para onde aponta o desastre europeu

16 de novembro de 2011 § 3 Comments

E o terremoto da Europa vai parando o mundo.

Sobre suas causas, não ha nenhuma dúvida. O cataclismo econômico europeu é, como todos os fenômenos do gênero, filho do oportunismo político.

A China entrou na competição jogando sujo? Não está dando para ganhar? Os salários e o numero de empregos estão em queda?

Em sistemas onde é preciso se eleger ninguém quer encarar problemas de frente. Tudo que importa é inventar maneiras de adiar o fim da festa.

Nos Estados Unidos via o aumento artificial da capacidade do consumidor se endividar em cima da hipoteca da própria casa; na Europa pelo expediente de esticar ao máximo as amenidades do bem estar social sem lastro na realidade da economia.

Tanto faz: os desastres financeiros das proporções deste são sempre o caótico final dos expedientes para comprar votos no presente cavando buracos no futuro, na expectativa de que sejam “outros” os governantes a cair neles.

E o povo? Ora, o povo só é lembrado antes de depositar seu voto na urna…

As autoridades da União europeia autorizaram que seus bancos alavancassem na proporção de até 450 por 1 sobre o capital, desde que fosse para “investir” na compra de títulos públicos de governos. Os bancos imediatamente aceitaram o convite para o banquete e se endividaram para comprar dívidas de governos e embolsar o spread.

Foi uma orgia de lucros.

Agora é um pesadelo.

Tostão por tostão, o buraco das economias europeias chega aos 3 trilhões de euros (se incluirmos só da Irlanda à Itália, que são os oficialmente “estourados” por enquanto). É um rombo “intapável” mesmo admitindo-se um calote geral de 50% desse valor, como os bancos carregados desses títulos já avisaram que aceitariam sem que o pânico arrefecesse.

Já se desvaneceu, igualmente, a esperança de qualquer fórmula milagrosa de reestruturação que permitisse que a economia europeia crescesse mais rápido que a dívida, que seria a única perspectiva matemática dela vir a diminuir. Há algumas semanas, já, só os juros cobrados pelos financiadores dos governos ainda andam para a frente. A Europa inteira já está andando pra traz ou quase parando. Nem da Alemanha espera-se crescimento neste ano ou no próximo.

Cortar despesas, o outro caminho matemático de solução, tem o efeito colateral de desacelerar ainda mais essas economias agravando a situação.

A única saída que resta, portanto, é a de desvalorizar fortemente a moeda. É a única forma politicamente praticável de se desvalorizar os salários na medida suficiente para fazer com que uma economia ganhe competitividade comercial e se reanime com dinheiro de  fora mesmo carregando todos os seus defeitos presentes. Nós, brasileiros, conhecemos bem esse tipo de “truque”…

Resta saber se os europeus com maiores problemas – os países já oficialmente arrebentados como Grécia, Portugal, Espanha, Bélgica, Itália – se desligarão da União Europeia para tomar o remédio amargo da desvalorização na denominação de suas antigas moedas nacionais, ou se a União Europeia fará isso como um todo, preservando a construção política erguida até aqui e que cada um de seus membros sabe que será essencial para enfrentar a nova realidade global jogando na primeira divisão.

Como dinheiro de verdade para resolver a crise não existe e todas as outras alternativas – defecções da União, calotes ainda que seletivos e consensuais, ajustes dolorosos – conduzem ao contágio global imediato, a crises bancárias sistêmicas, a recessões prolongadas ou à combinação disso tudo, o mais provável é que, ao fim de muito choro, ranger de dentes e reformulações drásticas e solenes nas regras sobre o direito de cada um de fabricar déficits daí por diante, a União Europeia faça como os Estados Unidos de hoje e o Brasil de outrora e ligue a máquina de imprimir euros.

Os alemães ainda resistem mas é isso ou aceitar a volta ao passado das economiazinhas nacionais.

E aí?

Aí o euro desvalorizado significará menos exportações dos Estados Unidos e da China para a Europa (o maior comprador da China que, por sua vez é o maior comprador do Brasil) e mais competição dos europeus com o resto do mundo, emergentes em especial. E o resto do mundo não ficará de braços cruzados diante desse desafio o que aponta para ondas sucessivas de “desvalorizações competitivas” e medidas protecionistas.

Esta segunda do Terceiro Milênio, enfim, não promete ser uma década de que venhamos a ter saudade no futuro…

O que está tornando Washington idêntica a Brasília

3 de novembro de 2011 § Leave a comment

Com todas as explicações amenizadoras que estão sendo aventadas, o dado revelado pelo Census Bureau de que Washington se tornou a cidade mais rica do país pela média de ganhos por residência chocou os Estados Unidos e está jogando lenha na fogueira do Occupy Wall Street.

Os americanos nunca avaliaram tão mal o seu governo quanto agora e com certeza as razões que tornaram Washington tão rica são as mesmas que explicam porque o país passou a detestar tanto o que aquela cidade simboliza e abriga.

Está ocorrendo uma metástese dos parasitas. Existe uma rede de empresas privadas e empregados do governo, uns trocando empregos e contratos com os outros, que explica esse fantástico enriquecimento. E ele está ligado, também, ao crescimento exponencial do valor dos contratos negociados num contexto onde se misturam os gastos astronômicos de um país permanentemente em guerra e obcecado pela segurança interna e as gigantescas operações de resgate dos grupos financeiros que ameaçam quebrar a Nação“, diz uma fonte ao Economist.

Até 2010, San Jose, na Califórnia, onde moram os zilionários das novas tecnologias, era a cidade mais rica dos Estados Unidos. A diferença entre os muito ricos e os remediados é muito maior lá do que em Washington, sendo as super fortunas que puxam a média tão alto.

Na capital federal a diferença é menor. Não ha tantos super ricos mas há uma quantidade impressionante de ricos e muito ricos.

Não é só porque o governo paga bem. Nem o grande número de advogados que também ganham muito. É que os empregados do Estado e a burocracia do Congresso sempre acabam ‘assessorando’ as empresas privadas ou se empregando naquelas a quem ajudaram a ganhar subsídios estatais ou regulamentações favoráveis“.

Há, ainda, outra causa subsidiária desse enriquecimento. Embora fale se muito em austeridade, até agora não se viu nada nesse sentido. Todo o processo de retomada continua pendurado nas operações de resgate financeiro. E com isto a crise afeta os empregos privados enquanto os empregos públicos continuam preservados.

Nós conhecemos de cór esse filme…

As relações do Estado com a indústria bélica, de qualquer modo inevitáveis, sempre foram o foco crônico da corrupção nos Estados Unidos. Mas, fora disso, o governo pouco se metia diretamente com a economia.

Nas últimas décadas, porém, isso foi mudando progressivamente. A competição com o capitalismo de Estado chinês ensejou uma interferência cada vez maior do governo e do Congresso na economia até que a subsequente crise financeira jogou uma boa parte das maiores empresas americanas diretamente nos braços do Estado.

O resultado é que, pela primeira vez na história daquele país Washington se tornou para os Estados Unidos aquilo que Brasília sempre foi para o Brasil.

Conclusão: não existe meio termo; se não é o mérito, é o Estado quem decide quem ganha e quem perde no jogo econômico. E quanto mais o Estado se mete na economia mais ganha quem se especializa em puxar os sacos certos e mais perde quem investe e se esforça no trabalho.

Kadafi morreu. E agora?

20 de outubro de 2011 § 5 Comments

Kadafi está morto e, fora daqueles bolsões do Itamaraty tomados pelo pessoal do Marco Aurélio Garcia, não há sinais de luto.

E agora?

Eu vinha guardando uma matéria do Economist de 27 de agosto passado para ajudá-los a pensar a resposta a essa pergunta. Era quilométrica mas excelente. Lamento ter perdido o link para remetê-los ao original. Mas aí vai um resumo traduzido das informações mais relevantes que ela continha:

O Conselho Nacional de Transição que, desde que a revolução se instalou se apresenta como a sua representação política é um grupo auto nomeado cujo núcleo é constituído por ativistas de direitos humanos que organizaram os primeiros protestos em Bengazi. A figura central é o velho ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil, que parece ter o respeito de muitos. Eles se apresentaram, primeiro como “a face política da revolução” e, logo depois, como “os únicos representantes de toda a Líbia“.

O CNT conseguiu, logo após a queda de Bengazi, montar uma equipe de gestores das usinas de eletricidade, especialistas em logística e outros técnicos que, de fato, conseguiram manter as luzes acesas e os estoques de comida bem abastecidos.

Conseguiu também se articular rapidamente para obter o reconhecimento de países árabes de importância estratégica, como o Qatar, que garantiram o suprimento de petróleo e outros bens essenciais.

Foram igualmente rápidos em se fazer reconhecer pela França, a Inglaterra e os Estados Unidos que, na última hora, armaram a revolução do decisivo poderio aéreo da OTAN que salvou Bengazi de ser retomada pela coluna de blindados de Kadafi que chegou a entrar na periferia da cidade.

A medida em que a revolução foi avançando para outras cidades, afirmam fontes do conselho, o CNT foi ampliando a sua representação. Os novos membros do conselho – ao menos é o que a direção central alega – foram escolhidos em consultas com líderes tribais e chefes da revolução das zonas liberadas ou, quando elas estavam ausentes, em acordo com representantes daquelas regiões no exílio em países vizinhos ou até no Ocidente.

Ainda assim, o próprio CNT reconhece desde sempre que a sua legitimidade é frágil e foi isso que os inspirou a agir com muita cautela ao longo do período revolucionário para não alimentar ressentimentos futuros e contemplar o que eles chamam de “sensibilidades locais”.

Houve sempre um esforço para incluir lideranças locais no planejamento de ataques contra novas cidades, “de modo a dar a todos os habitantes da Líbia a sensação de ter participado do processo de libertação“.

O CNT, enfim, tem trabalhado consistentemente desde os primeiros passos da revolução para evitar que o caos substitua o regime de Kadafi. E uma das estratégias para isso foi manter na maior medida possível policiais e outros funcionários essenciais em seus postos nas cidades libertadas sempre que possível e dando especial atenção ao esforço para evitar matanças e linchamentos por vingança. O discurso sempre repetido era de que o respeito aos direitos humanos básicos seria a base sobre a qual se consolidaria ou não as relações da revolução com o resto do mundo (e com a OTAN).

O líder do CNT, Abdel Jalil ameaçou renunciar todas as vezes em que o conselho foi pressionado por algum de seus próprios membros a admitir vinganças e execuções arbitrárias nas zonas libertadas, exigindo sempre “o devido processo legal”. E para provar o valor de sua própria lei, declarou desde sempre que faz questão de ser julgado ele próprio, quando chegar o momento, por sua participação no regime de Kadafi.

Alguma coisa ele sem dúvida conseguiu com essa política já que é unânime a opinião dos líbios e dos observadores estrangeiros de que as eventuais atrocidades  praticadas pelos revolucionários, especialmente contra mercenários a serviço dos Kadafi, não se comparam nem de longe com as que foram praticadas pelas forças a serviço do ditador morto.

O ponto nevrálgico de problemas futuros está na cidade-oásis de Seba, dominada pela tribo dos Gadafa da qual Muamar era originário. Mas nenhuma outra das tribos líbias é apontada como tendo ligações estreitas com o antigo regime.

Uma diferença essencial entre a Líbia e outros países da região submetidos a longas ditaduras é que Kadafi nunca montou sequer um partido único, como é praxe entre seus congêneres. Ele confiava no seu próprio modelo de “democracia direta tribal” que girava exclusivamente em torno de sua pessoa. E isso pode livrar a Líbia do destino do Iraque de Saddan Hussein onde, assim que o regime caiu, começou a caçada a todo e qualquer membro do partido Baath e o país acabou fincando sem nenhuma força política organizada, a burocracia do Estado foi destruída e todas as instituições e instalações de infraestrutura ficaram no vácuo, o que jogou o país no caos.

Mas mesmo com todos esses cuidados, a situação a ser enfrentada daqui por diante não é nada fácil.

As forças rebeldes estão constituídas por “katibas” (ou brigadas) de em torno de 40 homens, cada uma ligada a uma cidade ou aldeia e comandada por algum veterano militar local ou, até, pelos homens de negócios que as financiaram. Elas usam picapes ou carros particulares adaptados com armas antitanque ou antiaéreas capturadas do regime ou compradas por patrocinadores locais ou do exterior.

Não ha comando centralizado ou disciplina militar no senso estrito e, ao longo da revolução chegou a haver atritos sérios entre as “katibas” e o comando do CNT.

O mais sério deles ocorreu em julho passado quando Abdel Fatah Younis, um general que se passou para o lado dos revolucionários e se transformou na mais alta patente militar ligada ao CNT e acabou sendo assassinado em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas ao tentar centralizar o comando das “katibas“.

O principal suspeito do crime são os membros da Brigada Abu Ubeida Ibn al-Jarrah, um grupo constituído por ex-prisioneiros políticos muitos dos quais são radicais islâmicos.

Seja como for, depois do assassinato de Younis, as “katibas” juraram lealdade ao CNT.

Nós todos temos o mesmo objetivo e queremos que isto acabe para que possamos voltar a nossas vidas e ao nosso trabalho“, resumiu Muftah Barrati, chefe de uma das maiores “katibas” de Bengazi, a Brigada dos Mártires 17 de Fevereiro. Muftah era o diretor financeiro de uma empresa de computação local, e foi quem iniciou as negociações que estabeleceram, por enquanto, que quem tinha atividades anteriores volta para elas e quem não as tinha, tem a opção de vir a constituir o exército do novo regime.

A questão preocupante, entretanto, é a quantidade de armas de guerra que hoje inunda o país. Todo mundo tem uma ou mais de uma e o amor que os líbios mostram por suas metrancas pode ser medido pelo hábito de comemorar toda e qualquer ocasião, de vitórias militares a aniversários, disparando-as para o ar.

Desde sempre está clara a falta de disposição da maioria de abrir mão delas…

Ha também uma promessa do CNT a outras organizações políticas como a Irmandade Muçulmana e a Frente de Salvação Nacional, estabelecida ha anos no exílio, de iniciar uma contagem regressiva de oito meses para a convocação de eleições a contar do momento em que for declarada a vitória final. Um prazo obviamente curto demais para um país cujos habitantes jamais tiveram qualquer experiência de organização política.

A ameaça de divisões religiosas comum à maioria dos países árabes também é menor na Líbia, de grande maioria sunita. Mas ha exceções e até núcleos ligados a Al Qaeda.

Terminada a luta, porém, começa uma corrida pelo poder onde, no mínimo, cada voz vai fazer questão de ser ouvida, senão por outras razões, pelo simples fato de que todos participaram da libertação.

Uma “causa” para todo esse protesto – 2

18 de outubro de 2011 § Leave a comment

Ficou capenga o meu artigo de ontem sobre a ausência de foco das manifestações que se espalharam pelo mundo a partir do Occupy Wall Street iniciado em Nova York ha um mês.

Eu critiquei o artigo de Nouriel Roubini por mencionar como solução a situação ideal com que todo mundo sonha, muito ao estilo dos políticos brasileiros, mas sem dar nenhuma sugestão sobre como chegar lá.

Mas acabei fazendo a mesma coisa que ele. Fiquei apenas na enumeração daqueles entre os pleitos dos manifestantes que, ainda que muito justos, não são solução para o problema. E apenas indiquei que a solução não está no Ocidente, onde se acumulam as piores consequências do processo ora em curso no mundo, mas sim na Ásia, onde ele se origina.

Recordo a síntese de que processo é esse.

Ao jogar no mercado de trabalho 2,3 bilhões de novos braços pagos a preço vil, a China e a Índia (assim como os países menores que engrossam essa conta), aviltaram o valor do trabalho no mundo todo sem aumentar de forma correspondente o numero de consumidores porque o que esse novo contingente ganha mal dá para viver.

Há muito mais trabalhadores e cada vez menos demanda.

A única maneira de reequilibrar o quadro é ajudar esses trabalhadores a serem melhor remunerados o quanto antes porque a lei do mercado sempre acerta as contas por baixo. O consumidor compra o bem mais barato, que é o produzido pelo trabalhador mais mal pago, e assim os trabalhadores bem pagos, que é a outra identidade dos consumidores, acabam sendo expulsos do mercado. Disso resulta, ao longo do tempo, que todos os salários do mundo são rebaixados até encontrar o nível em que serão capazes de concorrer com os dos trabalhadores chineses e indianos.

Ora, salários baixos são, em última instância, sinônimo de falta de democracia. Quanto mais democracia, mais poder de reivindicação e mais direitos conquistados. O inverso também é verdadeiro. Só debaixo de pau é que se consegue segurar a insatisfação de quem se mata de trabalhar por nada ou, pior ainda, de quem fica sem emprego nenhum.

Logo, se quiserem manter os seus direitos, os seus salários e a sua democracia os trabalhadores do Ocidente terão de se organizar politicamente para ajudar a acelerar a libertação dos trabalhadores semi escravos da Ásia, boicotando o consumo do que eles produzem e trabalhando ativamente pelo aumento dos direitos e dos salários deles.

Impossível?

E quem diria que seria possível levar, em menos de um mês, uma manifestação local a se transformar numa manifestação global? Não são as próprias empresas ocidentais, ao alcance da pressão direta de seus conterrâneos, as que mais se servem desses trabalhadores semi-escravos da Ásia?

É o mundo aqui fora que terá de fazer campanha salarial pelos trabalhadores chineses e denunciar quem os explora no Ocidente para aumentar seus lucros. O empenho da China em censurar a internet, o que felizmente é tecnicamente impossível, não é outra coisa, aliás, senão uma confissão da vulnerabilidade que ela sente a campanhas de mobilização por mais direitos (= a mais salários) vindas de fora da sua “muralha” que ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, começarão a acontecer.

É hora, portanto, de tratar de criar um foco para essa mobilização mundial que já se provou possível.

O caminho para isso é uma política comercial e uma atitude de consumo condicionadas a uma política de direitos humanos, nos níveis governamentais, e uma política sindical globalmente sincronizada para exigir a elevação do nível mínimo de direitos e salários ao menos nas industrias que fabricam bens de consumo global.

E a melhor contribuição que pode dar quem analisa profissionalmente esse problema é demonstrar exaustivamente o seu componente essencial, qual seja, o de que neste novo mundo sem fronteiras o salário do trabalhador de Nova York ou de Geneve, será determinado muito mais pelo que a Foxconn estiver pagando em Shenzhen do que por qualquer ação política cosmética ao alcance do presidente Obama, do Congresso dos Estados Unidos ou do comando da União Européia em Bruxelas.

Uma vez comprendido esse dado incontornável da realidade, o resto fica mais fácil.

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