Kadafi morreu. E agora?

20 de outubro de 2011 § 5 Comentários

Kadafi está morto e, fora daqueles bolsões do Itamaraty tomados pelo pessoal do Marco Aurélio Garcia, não há sinais de luto.

E agora?

Eu vinha guardando uma matéria do Economist de 27 de agosto passado para ajudá-los a pensar a resposta a essa pergunta. Era quilométrica mas excelente. Lamento ter perdido o link para remetê-los ao original. Mas aí vai um resumo traduzido das informações mais relevantes que ela continha:

O Conselho Nacional de Transição que, desde que a revolução se instalou se apresenta como a sua representação política é um grupo auto nomeado cujo núcleo é constituído por ativistas de direitos humanos que organizaram os primeiros protestos em Bengazi. A figura central é o velho ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil, que parece ter o respeito de muitos. Eles se apresentaram, primeiro como “a face política da revolução” e, logo depois, como “os únicos representantes de toda a Líbia“.

O CNT conseguiu, logo após a queda de Bengazi, montar uma equipe de gestores das usinas de eletricidade, especialistas em logística e outros técnicos que, de fato, conseguiram manter as luzes acesas e os estoques de comida bem abastecidos.

Conseguiu também se articular rapidamente para obter o reconhecimento de países árabes de importância estratégica, como o Qatar, que garantiram o suprimento de petróleo e outros bens essenciais.

Foram igualmente rápidos em se fazer reconhecer pela França, a Inglaterra e os Estados Unidos que, na última hora, armaram a revolução do decisivo poderio aéreo da OTAN que salvou Bengazi de ser retomada pela coluna de blindados de Kadafi que chegou a entrar na periferia da cidade.

A medida em que a revolução foi avançando para outras cidades, afirmam fontes do conselho, o CNT foi ampliando a sua representação. Os novos membros do conselho – ao menos é o que a direção central alega – foram escolhidos em consultas com líderes tribais e chefes da revolução das zonas liberadas ou, quando elas estavam ausentes, em acordo com representantes daquelas regiões no exílio em países vizinhos ou até no Ocidente.

Ainda assim, o próprio CNT reconhece desde sempre que a sua legitimidade é frágil e foi isso que os inspirou a agir com muita cautela ao longo do período revolucionário para não alimentar ressentimentos futuros e contemplar o que eles chamam de “sensibilidades locais”.

Houve sempre um esforço para incluir lideranças locais no planejamento de ataques contra novas cidades, “de modo a dar a todos os habitantes da Líbia a sensação de ter participado do processo de libertação“.

O CNT, enfim, tem trabalhado consistentemente desde os primeiros passos da revolução para evitar que o caos substitua o regime de Kadafi. E uma das estratégias para isso foi manter na maior medida possível policiais e outros funcionários essenciais em seus postos nas cidades libertadas sempre que possível e dando especial atenção ao esforço para evitar matanças e linchamentos por vingança. O discurso sempre repetido era de que o respeito aos direitos humanos básicos seria a base sobre a qual se consolidaria ou não as relações da revolução com o resto do mundo (e com a OTAN).

O líder do CNT, Abdel Jalil ameaçou renunciar todas as vezes em que o conselho foi pressionado por algum de seus próprios membros a admitir vinganças e execuções arbitrárias nas zonas libertadas, exigindo sempre “o devido processo legal”. E para provar o valor de sua própria lei, declarou desde sempre que faz questão de ser julgado ele próprio, quando chegar o momento, por sua participação no regime de Kadafi.

Alguma coisa ele sem dúvida conseguiu com essa política já que é unânime a opinião dos líbios e dos observadores estrangeiros de que as eventuais atrocidades  praticadas pelos revolucionários, especialmente contra mercenários a serviço dos Kadafi, não se comparam nem de longe com as que foram praticadas pelas forças a serviço do ditador morto.

O ponto nevrálgico de problemas futuros está na cidade-oásis de Seba, dominada pela tribo dos Gadafa da qual Muamar era originário. Mas nenhuma outra das tribos líbias é apontada como tendo ligações estreitas com o antigo regime.

Uma diferença essencial entre a Líbia e outros países da região submetidos a longas ditaduras é que Kadafi nunca montou sequer um partido único, como é praxe entre seus congêneres. Ele confiava no seu próprio modelo de “democracia direta tribal” que girava exclusivamente em torno de sua pessoa. E isso pode livrar a Líbia do destino do Iraque de Saddan Hussein onde, assim que o regime caiu, começou a caçada a todo e qualquer membro do partido Baath e o país acabou fincando sem nenhuma força política organizada, a burocracia do Estado foi destruída e todas as instituições e instalações de infraestrutura ficaram no vácuo, o que jogou o país no caos.

Mas mesmo com todos esses cuidados, a situação a ser enfrentada daqui por diante não é nada fácil.

As forças rebeldes estão constituídas por “katibas” (ou brigadas) de em torno de 40 homens, cada uma ligada a uma cidade ou aldeia e comandada por algum veterano militar local ou, até, pelos homens de negócios que as financiaram. Elas usam picapes ou carros particulares adaptados com armas antitanque ou antiaéreas capturadas do regime ou compradas por patrocinadores locais ou do exterior.

Não ha comando centralizado ou disciplina militar no senso estrito e, ao longo da revolução chegou a haver atritos sérios entre as “katibas” e o comando do CNT.

O mais sério deles ocorreu em julho passado quando Abdel Fatah Younis, um general que se passou para o lado dos revolucionários e se transformou na mais alta patente militar ligada ao CNT e acabou sendo assassinado em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas ao tentar centralizar o comando das “katibas“.

O principal suspeito do crime são os membros da Brigada Abu Ubeida Ibn al-Jarrah, um grupo constituído por ex-prisioneiros políticos muitos dos quais são radicais islâmicos.

Seja como for, depois do assassinato de Younis, as “katibas” juraram lealdade ao CNT.

Nós todos temos o mesmo objetivo e queremos que isto acabe para que possamos voltar a nossas vidas e ao nosso trabalho“, resumiu Muftah Barrati, chefe de uma das maiores “katibas” de Bengazi, a Brigada dos Mártires 17 de Fevereiro. Muftah era o diretor financeiro de uma empresa de computação local, e foi quem iniciou as negociações que estabeleceram, por enquanto, que quem tinha atividades anteriores volta para elas e quem não as tinha, tem a opção de vir a constituir o exército do novo regime.

A questão preocupante, entretanto, é a quantidade de armas de guerra que hoje inunda o país. Todo mundo tem uma ou mais de uma e o amor que os líbios mostram por suas metrancas pode ser medido pelo hábito de comemorar toda e qualquer ocasião, de vitórias militares a aniversários, disparando-as para o ar.

Desde sempre está clara a falta de disposição da maioria de abrir mão delas…

Ha também uma promessa do CNT a outras organizações políticas como a Irmandade Muçulmana e a Frente de Salvação Nacional, estabelecida ha anos no exílio, de iniciar uma contagem regressiva de oito meses para a convocação de eleições a contar do momento em que for declarada a vitória final. Um prazo obviamente curto demais para um país cujos habitantes jamais tiveram qualquer experiência de organização política.

A ameaça de divisões religiosas comum à maioria dos países árabes também é menor na Líbia, de grande maioria sunita. Mas ha exceções e até núcleos ligados a Al Qaeda.

Terminada a luta, porém, começa uma corrida pelo poder onde, no mínimo, cada voz vai fazer questão de ser ouvida, senão por outras razões, pelo simples fato de que todos participaram da libertação.

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§ 5 Respostas para Kadafi morreu. E agora?

  • Margareth Tuma disse:

    Muito esclarecedor! Parabéns e Obrigada!

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  • Varlice disse:

    O governo que surge começa mal.
    Usa dos mesmos métodos de seu antecessor. Deduz-se, então, que pouco ou nada mudará por aqueles lados.
    Kadafi foi capturado vivo e executado. Por menos que se gostasse dele há o direito inalienável de defesa a que ele, como qualquer outro ser humano, faria jus – mesmo que esse direito fosse negado por ele aos seus inimigos.
    Ao fazer o que considera justiça com as próprias mãos – lei de Talião ou coisa que o valha – o futuro governo peca, não pode ser levado a sério e há que temê-lo.

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    • flm disse:

      é sempre horrível ver um ser humano ser trucidado, quem quer que seja ele, as culpas que carregue e os suplícios semelhantes ao que sofreu que tenha infligido a outros.
      e nada de bom pode advir de atos como este, eu concordo.
      uma frase que vive comigo, fruto de 40 anos acompanhando a tragédia humana com curiosidade profissional, é que a coisa mais fácil do mundo é abrir as portas do inferno e a mais difícil, cercar os demônios escapados por ela, empurra-los de volta para as profundezas e voltar a tranca-los de novo lá embaixo…
      entretanto era mais que previsível que isto fosse terminar assim, mesmo com todos os esforços do grupo que, a julgar pelas informações do Economist, tem feito esforços sinceros para reduzir ou prevenir os danos que toda guerra produz.
      Kadafi era a Líbia que os líbios queriam revogar. ele assombrou aquele povo por 42 anos com sua onipotência e sua invencibilidade. e durante todos eles, acabou não só com todos quantos o desafiaram mas com toda a raça dos que os tinham gerado.
      sua morte representa a destruição daquilo que aqueles que o enfrentaram desta vez mais temiam. enquanto estivesse vivo nenhum deles estaria seguro. enquanto estivesse vivo essa guerra não terminaria.
      Kadafi jurou-os de morte desde os primeiros dias da rebelião em Bengazi. e foi a sanguinolência com que começou a cumprir essa ameaça que levou a OTAN a entrar nessa guerra.
      a Líbia se levantou contra Kadafi para matar ou morrer…

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  • fernaslm disse:

    …nem salomão, com toda a sua glória…

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