História condensada do século 20 na Europa

5 de agosto de 2022 § 2 Comentários

Onde, além do ótimo resumo e da excelente solução gráfica, enxerga-se claramente o “efeito pêndulo”, que é outra das “quase leis” da História…

O mundo de ontem “já era”…

8 de março de 2022 § 11 Comentários

Nem volta ao passado, como pretendia Putin, nem “freio de arrumação” como sugere o ditado. Tudo se parece mais com o violento chacoalhão para frente de uma súbita arrancada da integração da humanidade para um outro patamar de velocidade. 

O modo como cada nação se vê e é vista pelos outros”, disse um observador inglês, “é que é a matéria prima da evolução, um processo lento e gradual onde as camadas se vão assentando uma a uma. Mas a guerra de Putin mudou coisas muito profundas em pouco mais de uma semana”. Yuval Harari vai na mesma direção. “Essa guerra tem o potencial de acabar com a guerra cultural. A humanidade se deu conta, de repente, de que liberdade, autodeterminação ou não, é a única escolha real”.

Depois de anos contemplando e lambendo a própria “decadência”, o Ocidente redescobriu coisas como orgulho e razão de ser. Depois de décadas esmiuçando seus próprios fracassos ele foi posto, de repente, frente a frente com a alternativa concreta para o seu modelo de liberdade e democracia. 

A determinação da Ucrânia não é a de quem tem dúvidas filosóficas a respeito de teorias conflitantes, é a de quem experimentou na carne viva uma coisa e a outra e prefere morrer lutando a voltar ao passado soviético. Volodymyr Zelensky levanta-se formidável, inspirando seu povo contra Putin e suas bombas atômicas, armado tão somente de uma atitude moral num mundo amoral. Um herói numa era de anti-heróis.

A humanidade estava com saudades disso!

E então foi como um tsunami. Nem uma união de interesses mesquinhos focados na luta pelo dinheiro, nem uma quase ocupação estrangeira resultando na perda de um pouco de soberania por cada um. A União Européia voltou a ser, num átimo, o esforço comum de povos envolvidos em duas guerras monstruosas no espaço de 30 anos, para compartilhar sua soberania em vez de seguir matando por ela. Uma iniciativa com foco na segurança e na paz. Em menos de 10 dias a NATO deixou de ser um anacronismo da guerra fria para voltar, incontestavelmente, a ser o recurso inventado para defender-se de agressões que sempre foi desde que foi criada e continuou sendo enquanto existiu. 

Quem está fora da unanimidade planetária que a resistência da Ucrânia cristalizou? 

Nem a “esquerda”, nem a “direita” civilizadas que, cada vez mais, distanciam-se por milímetros. A anti-humanidade. A anti-democracia, tão somente. A convicta e a disfarçada. As mentiras todas transformaram-se em pó. O que têm os BRICS em comum senão a ausência de democracia? É por isso, aliás, que são só BRICS e não países ricos. Apesar de terem tudo o mais que se requer para sê-lo – extensão territorial, recursos naturais, tamanho de mercado – são imunodeficientes à corrupção sistêmica e à subjugação de suas populações por privilegiaturas, para as quais democracia é o único remédio conhecido.

A Russia sempre foi o campeão dessa modalidade. Um monopólio férreo de poder e riqueza no topo da pirâmide cercado de miséria por todos os lados. Isso nunca mudou, nem sob os czares brancos, nem sob os czares vermelhos, nem sob o czar marrom. 

Muito antes do que seria de se esperar, uma imprensa ocidental que ia numa perigosa ordem unida de volta à justificação da censura, mãe de todas as ditaduras e de todos os horrores, viu esse mesmo discurso surgir na boca do celerado Putin antes que tivéssemos de esperar, em ritmo de evolução, a lenta mudança da maré do poder que invariavelmente confirma, ao longo da História, que essa classe de feitiço volta-se SEMPRE contra o feiticeiro.

O fato veio para confirmar o quanto isso é velho. A fantasia que o Ocidente criou em trono dos czares vermelhos é do Ocidente só. O povo russo nunca a viveu. Exorcizado e devidamente punido e banido o nazismo, nenhuma voz se ergueu contra esta nova Alemanha que envia armas aos ucranianos e dobra o seu orçamento militar para defender-se – e à toda a Europa – do agressor que só pôde continuar sonhando livremente com seu império perdido porque o totalitarismo comunista continua valendo-se de uma chancela moral que nunca mereceu. Porque ainda ha, dentro e fora da Russia, quem considere os stalins heróis e possa cultuá-los impunemente. Porque ainda há, na periferia do Ocidente, quem acredite com alguma razão de ser, que pode eleger-se com esse discurso.

Raça, gênero, polícias do pensamento, a irrefreada ditadura da maioria que Tocqueville previu, e mesmo esse esforço todo para manter a covid mais viva do que está… Quanto disso, quanto da famigerada “guerra cultural” não é filha do tédio? A humanidade é mesmo capaz de viver na plenitude, sem uma ameaça imediata e palpável contra a continuação da sua aventura na Terra que lhe tome o tempo que adora gastar fabricando fantasmas? Estariam as Américas longe demais para aprender a lição que a Europa aprendeu?

Ha sinais controvertidos vindos da Ucrânia. Quem está contendo a violência toda de que Putin é materialmente capaz, além do heroísmo dos ucranianos? A China? Essa “humanidade civil” que, em toda parte, extrapolou os governos e materializa os boicotes e até as tomadas de posição na ONU à revelia deles? Os próprios russos?

Difícil dizer… 

Mas uma coisa é certa. Este mundo de hoje não é mais o mesmo de ontem. Talvez nunca tenha sido e a Ucrânia apenas desenterrou da desinformação o que sempre esteve aí. Mas o certo é que, verdadeiro ou falso, aquele de ontem nós nunca mais voltaremos a ser.

Kadafi morreu. E agora?

20 de outubro de 2011 § 5 Comentários

Kadafi está morto e, fora daqueles bolsões do Itamaraty tomados pelo pessoal do Marco Aurélio Garcia, não há sinais de luto.

E agora?

Eu vinha guardando uma matéria do Economist de 27 de agosto passado para ajudá-los a pensar a resposta a essa pergunta. Era quilométrica mas excelente. Lamento ter perdido o link para remetê-los ao original. Mas aí vai um resumo traduzido das informações mais relevantes que ela continha:

O Conselho Nacional de Transição que, desde que a revolução se instalou se apresenta como a sua representação política é um grupo auto nomeado cujo núcleo é constituído por ativistas de direitos humanos que organizaram os primeiros protestos em Bengazi. A figura central é o velho ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil, que parece ter o respeito de muitos. Eles se apresentaram, primeiro como “a face política da revolução” e, logo depois, como “os únicos representantes de toda a Líbia“.

O CNT conseguiu, logo após a queda de Bengazi, montar uma equipe de gestores das usinas de eletricidade, especialistas em logística e outros técnicos que, de fato, conseguiram manter as luzes acesas e os estoques de comida bem abastecidos.

Conseguiu também se articular rapidamente para obter o reconhecimento de países árabes de importância estratégica, como o Qatar, que garantiram o suprimento de petróleo e outros bens essenciais.

Foram igualmente rápidos em se fazer reconhecer pela França, a Inglaterra e os Estados Unidos que, na última hora, armaram a revolução do decisivo poderio aéreo da OTAN que salvou Bengazi de ser retomada pela coluna de blindados de Kadafi que chegou a entrar na periferia da cidade.

A medida em que a revolução foi avançando para outras cidades, afirmam fontes do conselho, o CNT foi ampliando a sua representação. Os novos membros do conselho – ao menos é o que a direção central alega – foram escolhidos em consultas com líderes tribais e chefes da revolução das zonas liberadas ou, quando elas estavam ausentes, em acordo com representantes daquelas regiões no exílio em países vizinhos ou até no Ocidente.

Ainda assim, o próprio CNT reconhece desde sempre que a sua legitimidade é frágil e foi isso que os inspirou a agir com muita cautela ao longo do período revolucionário para não alimentar ressentimentos futuros e contemplar o que eles chamam de “sensibilidades locais”.

Houve sempre um esforço para incluir lideranças locais no planejamento de ataques contra novas cidades, “de modo a dar a todos os habitantes da Líbia a sensação de ter participado do processo de libertação“.

O CNT, enfim, tem trabalhado consistentemente desde os primeiros passos da revolução para evitar que o caos substitua o regime de Kadafi. E uma das estratégias para isso foi manter na maior medida possível policiais e outros funcionários essenciais em seus postos nas cidades libertadas sempre que possível e dando especial atenção ao esforço para evitar matanças e linchamentos por vingança. O discurso sempre repetido era de que o respeito aos direitos humanos básicos seria a base sobre a qual se consolidaria ou não as relações da revolução com o resto do mundo (e com a OTAN).

O líder do CNT, Abdel Jalil ameaçou renunciar todas as vezes em que o conselho foi pressionado por algum de seus próprios membros a admitir vinganças e execuções arbitrárias nas zonas libertadas, exigindo sempre “o devido processo legal”. E para provar o valor de sua própria lei, declarou desde sempre que faz questão de ser julgado ele próprio, quando chegar o momento, por sua participação no regime de Kadafi.

Alguma coisa ele sem dúvida conseguiu com essa política já que é unânime a opinião dos líbios e dos observadores estrangeiros de que as eventuais atrocidades  praticadas pelos revolucionários, especialmente contra mercenários a serviço dos Kadafi, não se comparam nem de longe com as que foram praticadas pelas forças a serviço do ditador morto.

O ponto nevrálgico de problemas futuros está na cidade-oásis de Seba, dominada pela tribo dos Gadafa da qual Muamar era originário. Mas nenhuma outra das tribos líbias é apontada como tendo ligações estreitas com o antigo regime.

Uma diferença essencial entre a Líbia e outros países da região submetidos a longas ditaduras é que Kadafi nunca montou sequer um partido único, como é praxe entre seus congêneres. Ele confiava no seu próprio modelo de “democracia direta tribal” que girava exclusivamente em torno de sua pessoa. E isso pode livrar a Líbia do destino do Iraque de Saddan Hussein onde, assim que o regime caiu, começou a caçada a todo e qualquer membro do partido Baath e o país acabou fincando sem nenhuma força política organizada, a burocracia do Estado foi destruída e todas as instituições e instalações de infraestrutura ficaram no vácuo, o que jogou o país no caos.

Mas mesmo com todos esses cuidados, a situação a ser enfrentada daqui por diante não é nada fácil.

As forças rebeldes estão constituídas por “katibas” (ou brigadas) de em torno de 40 homens, cada uma ligada a uma cidade ou aldeia e comandada por algum veterano militar local ou, até, pelos homens de negócios que as financiaram. Elas usam picapes ou carros particulares adaptados com armas antitanque ou antiaéreas capturadas do regime ou compradas por patrocinadores locais ou do exterior.

Não ha comando centralizado ou disciplina militar no senso estrito e, ao longo da revolução chegou a haver atritos sérios entre as “katibas” e o comando do CNT.

O mais sério deles ocorreu em julho passado quando Abdel Fatah Younis, um general que se passou para o lado dos revolucionários e se transformou na mais alta patente militar ligada ao CNT e acabou sendo assassinado em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas ao tentar centralizar o comando das “katibas“.

O principal suspeito do crime são os membros da Brigada Abu Ubeida Ibn al-Jarrah, um grupo constituído por ex-prisioneiros políticos muitos dos quais são radicais islâmicos.

Seja como for, depois do assassinato de Younis, as “katibas” juraram lealdade ao CNT.

Nós todos temos o mesmo objetivo e queremos que isto acabe para que possamos voltar a nossas vidas e ao nosso trabalho“, resumiu Muftah Barrati, chefe de uma das maiores “katibas” de Bengazi, a Brigada dos Mártires 17 de Fevereiro. Muftah era o diretor financeiro de uma empresa de computação local, e foi quem iniciou as negociações que estabeleceram, por enquanto, que quem tinha atividades anteriores volta para elas e quem não as tinha, tem a opção de vir a constituir o exército do novo regime.

A questão preocupante, entretanto, é a quantidade de armas de guerra que hoje inunda o país. Todo mundo tem uma ou mais de uma e o amor que os líbios mostram por suas metrancas pode ser medido pelo hábito de comemorar toda e qualquer ocasião, de vitórias militares a aniversários, disparando-as para o ar.

Desde sempre está clara a falta de disposição da maioria de abrir mão delas…

Ha também uma promessa do CNT a outras organizações políticas como a Irmandade Muçulmana e a Frente de Salvação Nacional, estabelecida ha anos no exílio, de iniciar uma contagem regressiva de oito meses para a convocação de eleições a contar do momento em que for declarada a vitória final. Um prazo obviamente curto demais para um país cujos habitantes jamais tiveram qualquer experiência de organização política.

A ameaça de divisões religiosas comum à maioria dos países árabes também é menor na Líbia, de grande maioria sunita. Mas ha exceções e até núcleos ligados a Al Qaeda.

Terminada a luta, porém, começa uma corrida pelo poder onde, no mínimo, cada voz vai fazer questão de ser ouvida, senão por outras razões, pelo simples fato de que todos participaram da libertação.

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