O outro lado: a tecnologia da informação contra a democracia
12 de abril de 2011 § Deixe um comentário

Enquete interessantíssima proposta hoje no site da Reuters (aqui) traz à memória um aspecto pouco lembrado da crise instalada pela mudança de paradigma tecnológico que, junto com o tsunami chinês, está levando à concentração da capacidade de produção em mãos cada vez menos numerosas e, com isso, à perda de força relativa do consumidor e do trabalhador como agentes do processo social, quadro que põe diretamente sob ameaça a democracia como a conhecemos hoje.
A Reuters registra que o iPhone e seus concorrentes cortaram mais uma cabeça ontem no universo dos fabricantes de produtos eletrônicos de consumo com o anuncio pela Cisco, que caminha para a falência, de que esta descontinuando a fabricação das pequenas filmadoras Flip, que fizeram grande sucesso ha dois anos.
A industria de filmadoras, assim como, antes dela a de máquinas fotográficas, vem sendo fortemente abalada desde que, com o lançamento do modelo 3GS, em junho de 2009, uma filmadora foi incorporada às funções do iPhone, apenas três meses depois que a Cisco anunciou a compra, por 590 milhões de dólares, da patente da Flip, uma mini-filmadora em alta definição desenhada pela Pure Digital Technologies, com uma tomada USB acoplada ao aparelho que permitia ao usuário gravar e “subir” seus filmes imediatamente para a web.
Desde então o iPhone e seus concorrentes acoplaram inúmeras outras funcionalidades como GPS e outros, e seguem devastando industrias ao seu redor.

A enquete da Reuters está formulada assim.
Marque com um “X”:
Meu “smartphone” é tão inteligente que eu nunca mais precisei de:
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Maquina fotográfica
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Vídeo câmera
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Aparelho para e-mails
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GPS
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Gravador de MP3
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Leitor de livros eletrônicos
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Vídeogame portátil
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Cronometro para a minha cozinha
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Companheiro de vida
O processo de crescente monopolização da produção nos mais diversos setores, com o consequente efeito de concentração de renda e redução de opções nos campos do consumo e do trabalho que são as dimensões sociais onde o cidadão realmente exerce a sua liberdade, não tem final à vista.
A democracia só desceu à base da pirâmide social quando os Estados Unidos, na virada do século 19 para o 20, inventaram a legislação antitruste que estabeleceu limites à concentração do poder econômico em nome da proteção do consumidor e do trabalhador.
Isto não é mais possível no mercado globalizado onde sistemas capitalistas democráticos enfrentam a concorrência predatória do capitalismo de Estado chinês que, como outros players no mercado global hoje, não obedece regras, respeita leis ou reconhece direitos.
O panorama, nesse aspecto, é sombrio.
A tecnologia da informação tem sido saudada como uma ferramenta de libertação, mas seu efeito no panorama macroeconômico é devastador no sentido contrário. Ela está contribuindo decisivamente para concentrar a produção e, indiretamente, para destruir o mercado, que é o habitat da democracia.
Resta esperar que aquilo que antes o Estado nacional podia impor pela lei, em matéria de disciplinamento dos impulsos mais egoístas do homem em nome da preservação da diversidade econômica, que é o outro nome da democracia, a vontade organizada de todos os consumidores do mundo possa impor aos grandes monopólios globais num futuro mais próximo que aquele que é possível vislumbrar hoje.
Por enquanto, não da para imaginar como chegaremos a isso.

McDonalds não é mais o maior do mundo
11 de março de 2011 § Deixe um comentário

O McDonalds perdeu para a rede Subway, também dos Estados Unidos, o titulo de maior cadeia de restaurantes do mundo.
Segundo o Wall Street Journal, a Subway terminou 2010 com 33.749 restaurantes ao redor do mundo, enquanto o McDonalds terminou com 32.737. As informações foram tiradas dos portfolios das próprias empresas enviados ao SEC, que é a autoridade do mercado financeiro norte-americano.
A Subway abriu o seu milésimo restaurante na Ásia e declarou que o crescimento fora dos Estados Unidos é a sua opção estratégica hoje.


O primeiro restaurante da Subway fora do país foi aberto em 1984 no Bahrein. Agora seus gestores afirmam que por volta de 2020 eles já terão mais restaurantes fora do que dentro dos Estados Unidos. Hoje a rede tem 24 mil restaurantes no país que geraram US$ 10,5 bilhões do seu lucro total de US$ 15,2 bilhões no ano passado.
A rede deu seu grande salto com o lançamento do sanduiche Footlong (um “pé” ou 33 centímetros de comprimento), vendido a US$ 5,00 e, desde então, passou a investir pesadamente em publicidade no exterior para expandir sua rede por meio de um sistema de franquias muito parecido com o do concorrente, segundo a Bloomberg.
Mas o McDonalds não está dormindo e também anunciou uma forte campanha de expansão na Ásia e na Índia para alcançar o concorrente.

Steve Jobs é imortal
3 de março de 2011 § 3 Comentários

Se você ainda não viu o filme de Steve Jobs apresentando o iPad 2 (aqui), não perca.
Outro dia eu escrevi sobre a blitzkrieg do Google para cima da Apple, usando as armas do costume: o completo despudor com que pisoteia os direitos de propriedade intelectual, toneladas de dólares, dumping, vastas redes de alianças com grupos que se parecem com eles na dureza matemática de seus produtos, na ausência do poder de realmente inovar e, especialmente, na disciplina militar com que abordam o mercado como um campo de batalha onde só se vai para matar ou morrer.
E me perguntava, diante disso, se a Apple resistiria.
A Apple, não sei. Mas Steve Jobs é eterno. Enquanto ele estiver aí, misturando iluminadamente technology com liberal arts, como ele gosta de descrever sua obra, ele é imbatível. E, depois que se for, será cultuado para sempre como um dos maiores gênios que a humanidade produziu.
Conhecimento + arte. Não ha algoritmo que possa suplantar essa conjunção de talentos que sinaliza para a “geração pós PC” que ele inaugurou com o iPad, o que poderá ser a nova humanidade, se a velha permitir que a caminhada da espécie continue.
Se você ainda tem duvidas, salte a longa comemoração das vendas de 2010 e vá diretamente para os dois demos que seus engenheiros fazem das novas versões do iMovies e do Garage Band, aplicativos que levam para dentro daquela maquininha um fantástico estúdio de edição de vídeo de precisão que pode ser usado por qualquer analfabeto no assunto e a sua mágica coleção de instrumentos musicais que põe ao alcance de todo mortal comum a semi-divina capacidade de fazer música que, até hoje, foi de tão poucos.
E voe, com Jobs, imaginando as maravilhas que essas incríveis ferramentas vão começar a devolver a nós todos assim que chegarem às mãos do grande publico.

“Graças a Deus não me mataram!”
28 de fevereiro de 2011 § 2 Comentários
Não tem nada que explique melhor o Brasil do que a frase que se ouve, dia sim dia não, de alguém muito próximo da gente: “Fui assaltado! Graças a Deus não aconteceu nada! Não houve tiros, não houve estupro, não barbarizaram minha família…Só levaram nossas coisas“.
O brasileiro está tão acostumado a ser tratado como a mosca do cocô do cavalo do bandido que não tem a mais vaga noção sequer daquilo que tem direito a aspirar. Que dirá do que tem direito de exigir…
E isso não é só com o favelado, o “excluído”, o desvalido explícito. É com todo mundo, de qualquer classe social. Todos nós somos democrática e “inclusivamente” esfolados, vilipendiados, humilhados e ofendidos “di-á-ri-a-mente”, como diria a Marisa Monte.
Saindo vivo, tá no lucro!
É isso que explica o sucesso do Lula.

A unica divisão real que existe no Brasil é entre quem paga e quem cobra impostos; quem tem de dividir o resultado do seu trabalho suado e quem tem “direito adquirido” ao ócio remunerado; quem faz das tripas coração todo santo dia porque vive ameaçado de ser empurrado para a porta de saída e quem, como diz candidamente o eterno senador José Sarney, leva a vida na santa paz daquele mundinho encantado onde “só existe a porta de entrada”.
Esta ilustração sobre o que acontece com os automóveis vale para tudo, do leite do brasileirinho que vai nascer hoje ao remédio do doente miserável que vai morrer amanhã neste país do “graças a deus não me mataram”.
Resta esperar que a universalização dos bens de consumo e a internet tornem isso mais claro pra quem vive preso atras da inexpugnável muralha da língua portuguesa, e um dia a gente faça com os nossos mubaraks o que até os egípcios já fizeram com os deles…
Ilustração enviada por Carlo Gancia
Google ataca. É o fim da Apple?
21 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário
Steve Jobs: fora de combate, de novo
Aproveitando-se da péssima repercussão entre os produtores de conteúdo do novo modelo de cobrança anunciado pela Apple na terça-feira passada (15/2), o CEO da Google, Eric Schmidt, anunciou, no dia seguinte, uma plataforma concorrente de venda em regime de dumping de conteúdos digitalizados e, neste fim de semana, no Mobile World Congress em Barcelona, um novo e revolucionário sistema de games que podem vir a ser o golpe de misericórdia na fantástica usina de gadgets e centro de criação de novos modelos de distribuição e consumo de musica, produtos editoriais, filmes e aplicativos para computador de Steve Jobs.
A Apple é totalmente dependente do gênio inovador e da elegância do design de Jobs, um espírito solitário e obsessivamente centralizador, que está mais uma vez fora de combate, derrubado pelo câncer que já lhe impôs um transplante de fígado e agora compromete o seu pâncreas.
Larry Page e Sergei Brim: tudo menos poesia
E se existe alguma coisa que o “admirável mundo novo” importou intacto do velho, foi a ganância dos poderosos e a ausência de poesia na competição entre as grandes corporações que eles montam para galgar as escadarias do poder: no momento crítico vivido pelo adversário a Google atacará por todos os flancos e com todas as armas que tem, aliada com dezenas de fabricantes de hardware e de software.
Foi Steve Jobs quem abriu o flanco. Comprou antipatias poderosas ao impor seu novo modelo de cobrança no momento em que as casas editoriais do mundo todo, estranguladas pela pirataria, viram uma tábua de salvação no seu iPad e se preparavam para “fechar” seus conteúdos ainda abertos na internet e passar a cobrar assinaturas. Como o caminho para os produtores de livros, jornais e revistas tem sido desenvolver aplicativos oferecidos gratuitamente no iPhone e no iPad que dão acesso aos seus produtos, Jobs decidiu virar a mesa.
Sucessos de Barcelona: LG Optimus 3D, grava vídeos em 3D que vão direto para o Youtube (Android)
De agora em diante, aplicativos que dão acesso a esses conteúdos não poderão ser distribuídos de graça em suas App’s stores e qualquer assinatura feita através deles pagará 30% para a Apple que, ainda por cima, continuará explorando os direitos sobre esses cadastros de assinantes. As editoras de jornais, livros e revistas têm a alternativa de vender o aplicativo que dá acesso ao seu produto em seu próprio site e ficar com 100% do que cobrarem pelas assinaturas. Mas se quiserem se oferecer também nas plataformas globais já estabelecidas de Steve Jobs, terão de dar ao assinante as mesmas condições ofertadas na sua própria banca e aceitar um corte de 30% no faturamento.
As condições são draconianas, portanto.
Tendo sido o inventor do novo modelo, Steve Jobs ainda conta com uma boa dianteira. Domina 66% do mercado de venda de musica online, via iTunes , o precursor desse novo filão que ele ainda explora praticamente sozinho. Atrás do iTunes veio o iPhone que, com velocidade fulminante, se transformou na maior plataforma universal de venda de aplicativos, e o iPad, que pretendia se transformar na maior banca de jornais e revistas do mundo e disputar com o Kindle, da Amazon, o título de maior livraria do planeta.
Sucessos de Barcelona: Samsung Galaxy S II, smartphone com duas webcams; voce vê quem fala ou vê o que ele vê (Android)
Mas este mundo em que pouco se cria e tudo (muito rapidamente) se copia, com a Google à frente, está nos seus calcanhares.
O novo sistema One Pass, baseado na nova geração da plataforma Android, que anima os celulares de todos os fabricantes do mundo que aderiram à Google para ocupar o mercado antes dominado pelo iPhone, mira a jugular da Apple: cobrará apenas 10% e deverá incluir, em breve, um aplicativo para venda de música que o tornará completo, uma vez que já é capaz de entregar filmes e texto. Além disso, a Google, ao contrário do que sempre fez até aqui, entregará todas as informações sobre os assinantes aos donos dos conteúdos vendidos. Esse novo sistema poderá rodar em celulares, tablets e computadores, indiferentemente, de todo e qualquer fabricante do planeta que quiser “motorizar” seus gadgets com ele. E eles são muitos e poderosos.
Sucessos de Barcelona: Sony Xperia Play; o “telefone Playstation”, nas lojas em abril (Android)
(No ultimo trimestre de 2010, foram vendidos 33,3 milhões de celulares com o sistema Android contra 31 milhões “motorizados” com o sistema Symbian, 16,2 milhões de iPhones, 14,6 milhões de Blackberrys (sistema RIM) e 3,1 milhões com o sistema da Microsoft).
Para matar a Apple, portanto, a Google abre mão do padrão de entregar “de graça” os conteúdos alheios, que ela sempre defendeu como sendo de fundamento “ideológico” e “libertário” aos que a acusavam de roubo de conteúdo. Não mais que de repente passa a reconhecer o direito de autoria e concede a quem produz musica ou matéria vender pelo seu sistema por módicos 10%…
Ha um consenso de que os 30% de Steve Jobs são demais. Mas isso pouco interessa à Google porque se a Apple tira, hoje, a maior parte do seu faturamento das comissōes sobre vendas de conteúdos de terceiros, a companhia de Serguei Brim e Larry Page vive de vender informações sobre os usuários da sua ferramenta de busca e dos sites de agregação de conteúdos alheios que monta, além de publicidade customizada em sites de terceiros. Não precisa da nova fonte de faturamento. E se for o caso, tem muuuuito dinheiro para perder…
Sucessos de Barcelona: Umeox Apollo, sem aplicações novas mas tocado a energia solar (Android)
Entretanto, perder dinheiro não é o que ela pretende fazer, a não ser pelo tempo necessário para ganhar muito mais logo adiante. A Google é odiada pelos produtores de conteúdos de informação que ela direta ou indiretamente pirateia. Mas vem trabalhando ha tempos os produtores de entretenimento e de hardware que tinham medo de se tornar reféns de Steve Jobs tendo se associado a alguns dos mais fortes entre eles (Sony, Intel, Best Buy e outros) em projetos de intenções matadoras. A Sony (gravadora) e a Rapsody anunciaram quase junto com o comunicado de Eric Schmidt movimentos de boicote contra o novo sistema de cobrança de Jobs. Na frente regulatória também não ha trégua e investigações por abuso de poder de mercado contra a Apple estão sendo tentadas junto às autoridades de concorrência europeias e americanas.
Com sua nova política de cobrança sobre os aplicativos, Jobs desastradamente também pisou no calo dos produtores de informação que o tinham como um aliado potencial. Como resultado, alguns grandes editores de jornais e revistas europeus (Axel Springer, na Alemanha, DMGT, na Inglaterra, Prisa, na Espanha) abriram a fila e anunciaram sua adesão ao sistema One Pass.
Sucessos de Barcelona: Sony Ericsson Live View, sincroniza com qualquer fone com Android; e-mails textos, aplicativos, etc.
A potencial pá de cal, entretanto, foi esboçada neste fim de semana em Barcelona, no Mobile World Congress do qual participaram 60 mil profissionais do setor de 200 países do mundo.
O evento foi inteiramente dominado pela Google que ocupou dois andares da exposição para apresentar a nova geração do sistema Android e, junto com seus sócios do mundo todo, os novos gadgets que ele vai animar.
O foco da exposição foi a integração dos telefones inteligentes, tablets e computadores às novas e revolucionárias capacitações para games que o novo sistema da Google vai proporcionar.
O setor de games é reconhecido como o grande laboratório de inovação das tecnologias de informática. Os aparelhos “motorizados” pelo Android terão, já a partir de abril próximo, a mesma capacidade de processamento e definição de games hoje oferecidas pelas melhores plataformas dedicadas exclusivamente aos jogos de computador como o Playstation 3 da Sony ou o Xbox 360, o que os levará muito além da capacidade hoje apresentada pelo iPhone e pelo iPad. O principal animador de jogos associado à Apple, a Gameloft, passou para o lado do Google e está lançando jogos em 3D para telefones e tablets no sistema do novo sócio.
Sucessos de Barcelona: HP WebOS; video-calls, 32 gigas e tudo que tem de ter (Android)
Mas isso é só o começo. O grande parceiro da Google no setor é a NVIDIA, que apresentou sua nova tecnologia de processamento Tegra 2, que acelerará a capacidade de telefones, tablets e computadores em 10 vezes, processará imagens, em qualquer deles, em HD de 1080 linhas e terá consumo ultra-baixo de energia capaz de oferecer 16 horas de filmes em HD ou 140 horas de música com uma unica carga.
A grande revolução, entretanto, é que o sistema promete “para o final do outono”: a possibilidade de jogos em plataformas múltiplas, em que os participantes poderão formar times para disputar uns com os outros a partir de qualquer lugar do mundo com conexão de internet. Imagine-se as possibilidades de uso de uma ferramenta com essa capacidade no mundo corporativo.
“Para 2014, o Tegra 2 evoluirá para um sistema 75 vezes mais rápido que o novo e oferecerá assinaturas para jogos em streaming video e conexão sem fio com qualquer aparelho de HDTV, sem necessidade de nenhum programa ou hardware adicional. Cada vez mais os consumidores usarão um único aparelho para tudo, incluindo games, multimídia, entretenimento e navegação na rede. E o Android está perfeitamente posicionado para esse momento”, diz Schmidt.
Com Steve Jobs com a saúde gravemente abalada o futuro da Apple não parece brilhante. Tim Cook, o segundo em comando, já tem falado, até com o endosso tácito de Jobs, em entrar no território da Google abrindo suas plataformas e programas para todo fabricante que quiser usá-los e aderindo a um sistema de desenvolvimento colaborativo. Resta saber se haverá tempo para uma mudança desse tipo.
Sucessos de Barcelona: Samsung Galaxy 10.1; Android 3.0, CPU dual-core, duas webcams, 32 gigas… (Android)
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