O poder está onde o dinheiro está

18 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Ao longo de quase mil anos, desde a Magna Carta de 1215 que iniciou formalmente o processo, a Inglaterra, que inventou a democracia moderna, usou um único truque para ir encurralando a monarquia: manter o rei sempre pobre e dependente do Parlamento até para montar seus exércitos (só em caso de necessidade e por tempo limitado) e fazer suas guerras.

Cada vez que a coisa apertava ou um inimigo externo ameaçava a sobrevivência da dinastia da hora, sua majestade tinha de vir ao povo de mão estendida e, para obter  o que precisava, era obrigada a entregar-lhe mais um conjuntinho de direitos.

Enquanto isso, no Continente, na Europa absolutista, dava-se precisamente o contrário. Era o monarca que concentrava toda a riqueza do país e sempre que o povo ou seus representantes vinham a ele de mãos estendidas eram obrigados a ceder-lhe mais um direito para conseguir a graça de entrar para a lista dos escolhidos para não morrer de fome.

Continua sendo exatamente assim, especialmente no mundo ibérico onde o instrumento corporativista de fragmentação da sociedade vedou ainda mais do que alhures a penetração dos ares purificadores das revoluções democráticas do século 19.

Ao contrário do que ocorre nas democracias de verdade, o sistema de arrecadação de impostos no Brasil é tanto mais concentrado em cada ente arrecadador quanto mais distante ele estiver do povo que, teoricamente, é o objeto dos serviços e das obras a serem financiadas com esse dinheiro.

A União arrecada mais que os Estados que arrecadam mais que os municípios que é onde as pessoas de fato moram. No total os três confiscam mais de um terço do resultado final do trabalho de todos os brasileiros mas, depois de pagos todos os funcionários do Estado, isso não chega nem para prover aos contribuintes educação, saúde, segurança e uma infraestrutura digna desse nome. Para buscar o que fica faltando para fechar a conta o Estado, por cima do que arrecada, ainda se endivida.

O governo – enorme; tornado legião voltada para si mesma, cheia de privilégios tanto maiores quanto mais perto estiver o nomeado do ente que mais arrecada – recorre, então, ao setor financeiro privado de quem toma o que lhe faz falta a juros exorbitantes.

É por isso que, entre nós, os banqueiros não precisam fazer força nem correr risco para obter seus lucros obscenos. Eles são agentes financiadores exclusivos do Estado.

Depois de raspar o tacho do sistema financeiro privado, o governo se apresenta à Nação faminta de crédito como o provedor providencial do plasma que mantém viva a economia.  Financia da infraestrutura ao consumo de bens perecíveis, passando pela cultura, pela agricultura, pela habitação e pela indústria privada.

Se se colocasse no seu devido lugar e com o seu devido tamanho, sobraria dinheiro nos bancos privados para financiar democraticamente (sem privilégios de acesso) a produção e o consumo privados, e os bancos teriam de brigar por clientes baixando juros e ajustando custos para poder faze-lo. Nesse caso, o mérito, a qualidade do projeto e o retrospecto do desempenho econômico financeiro seriam os critérios de seleção de quem mereceria crédito ou não, e a que preço.

Mas isso não interessa ao Estado brasileiro porque fazer-se o único provedor de crédito da praça é, na verdade, o seu mais forte instrumento de poder.

Quem pode escolher a que barões (da industria) dará ou negará os bilhões do BNDES a juro subsidiado pode ter a eterna certeza da sua lealdade. Eles jamais vão encurrala-lo para exigir uma Magna Carta de direitos como fizeram os ricos barões ingleses com seu rei pobre em 1215.

Inversamente, quem tem no Estado o único provedor de crédito rapidamente aprenderá que obte-lo ou não independe de capacidade ou de performance econômica; é coisa que responde à “qualidade” das amizades que se compra junto ao organismo decisório repartindo os lucros do projeto com quem outorga os meios de coloca-lo em pé.

Entre nós, os filhos do absolutismo monárquico, os Estados são ricos e as sociedades são pobres. E, nem é preciso dizer, o governo que tem o poder de decidir quando e para quem se abre ou se fecha a torneira do crédito neste mundo regido pela economia tem a faca e o queijo na mão; tem o poder de regulagem fina até da sua própria “popularidade”: abriu a torneira do crédito o índice sobe; fechou, ele desce.

E nos momentos de vacas magras, ali estão, sempre à mão, os banqueiros privados para levar a culpa, um preço barato a pagar, convenhamos, em troca da vida de potentados orientais que levam sem ter de fazer força.

Dona Dilma e seo Mantega andam falando muito de juros, ultimamente.

É que o “espetáculo do crescimento” está começando a murchar exatamente no mesmo momento em que o ponteiro que mede a capacidade do povo de se endividar bate no vermelho e os alarmes da inadimplência disparam.

E bem num ano de eleição…

Bater em banqueiros nunca fez mal à popularidade de governo nenhum. Mas a mim é que não me enganam. Estou cada dia mais pragmático. “Se você quer saber onde está o poder, follow the money” (siga o dinheiro).

O arranjo multi-secular entre os governos e os bancos em sociedades como a nossa não mudará por iniciativa dos únicos que realmente se beneficiam dele. Simplesmente porque para estes mais que pra ninguém é que vale a máxima do Tiririca: melhor do que tá, não fica.

Adeus calibradores, adeus borracharias

13 de março de 2012 § 1 comentário

Depois de alguns anos em teste na sua fábrica da Carolina do Sul, Estados Unidos, a Michelin está anunciando que a próxima revolução na industria de transportes estará no mercado (e tudo que vivia da antiga, fora dele) a partir de agosto próximo.

A nova tecnologia de pneus – Tweel – foi apresentada esta semana no Salão do Automóvel de Philadelphia.

Venda de app’s no Natal foi chuva de bilhões

4 de janeiro de 2012 § Deixe um comentário

As vendas de aplicativos para telefones e tablets baixados da rede passaram longe a marca recorde de 1 bilhão de unidades esperada para a semana do Natal. Foram a mais de 1,2 bilhão.

20 milhões de novos aparelhos das famílias Apple (iOS) e Android entraram em funcionamento nessa mesma semana. A estimativa da agência especializada Flurry, inglesa, era de que 245 milhões desses aparelhos estavam em atividade antes da semana do Natal, o que quer dizer que o crescimento do numero de “conectados” foi de 8% só naqueles sete dias.

A agência estimou ainda que 6,8 milhões de novos aparelhos entraram em funcionamento somente no dia do Natal (a Google confirmou que 3,7 milhões de aparelhos motorizados pelo Android entraram no ar durante toda a semana de Natal, o que deixa 16,3 milhões na conta da Apple).

Desse bilhão e duzentos de novos aplicativos os Estados Unidos baixaram 509 milhões (42,3%), a China 99 milhões, a Inglaterra 81 milhões. O Financial Times, de onde tirei a notícia (íntegra aqui), não publicou dados sobre o Brasil.

Os games Angry Bird e Where’s My Water foram os campeões, seguidos pelas adaptações para celular de Monopoly, Scrabble e Trivial Suit.

Entre os aplicativos gratuitos os campeões na Inglaterra foram os novos softs para assistir TV tais como BBC iPlayer, ITV Player e 40D Catch Up. O aplicativo da Skype também estava entre os 10 mais baixados. A Flurry monitora os downloads e o uso de 140 mil aplicativos à venda no Android Market e nas App Stores da Apple.

Mamãe eu quero

11 de novembro de 2011 § 4 Comentários

A novela dos royalties do petróleo é um dos exemplos mais expressivos da babaquice metida a esperta do brasileiro.

Pra começar, royalties pra valer (confira no dicionário) referem-se a um direito de propriedade sobre uma invenção. O tipo da coisa que o nosso governo, que dificulta de todas as maneiras que pode o esforço de invenção no Brasil, se recusa a pagar.

Os royalties por aqui, como quase tudo o mais, são Denorex, como se dizia antigamente: “parecem mas não são”.

É só mais um imposto a ser pago por todos os brasileiros sobre tudo que usa petróleo num país que é ainda mais movido a petróleo que os países que inventaram esse veneno e hoje se esforçam por se livrar dele. Cada tostão de imposto cobrado sobre o petróleo se transforma em alguns tostões a mais no preço de qualquer coisa que se planta, colhe, fabrica, transporta ou consome, numa espiral que encarece exponencialmente a produção e o custo de vida no Brasil inteiro.

Acontece que o governo, de cima dos seus 500 anos de experiência em testar a solidez da nossa burrice, aprendeu que, para enfiar a mão no nosso bolso e se servir à vontade com pouco barulho, basta chamar o assalto de privilégio ou benemerência para um grupinho por vez dos próprios assaltados.

O brasileiro simplesmente não resiste à ideia do privilégio; de tomar do próximo “só na base do bilabial”. Os seus miolos perdem todas as propriedades de processamento à simples menção dessa palavra. E só pronunciá-la e todos se esquecem da existência do ladrão e passam  a se digladiar a respeito de quem fica com que parte do roubo, esquecidos de que os roubados são eles próprios.

Deixam de se reconhecer como quem paga e aliam-se incondicionalmente a quem cobra.

A perspectiva de uma teta em escala Unidade da Federação é bastante para transformar os contribuintes do Rio numa espécie de imensa UNE, que faz passeatas pedindo mais impostos. Põe em sintonia os governistas, a oposição, os anarquistas, a imprensa, as igrejas, as ONGs, as torcidas de futebol, o asfalto e os morros, genros e sogras, esquerda e direita, árabes e judeus…

E no entanto, bastam dois segundos de raciocínio não muito sofisticado para entender que neste país que cobra impostos padrão Norte da Europa e devolve benefícios padrão Norte da África, os únicos que ganharão alguma coisa com a cobrança desses royalties serão os mesmos de sempre: os políticos que detêm o poder de mamar nessas entidades da federação.

Quem está na mesma latitude dos poços, lá longe no mar, já ganhará naturalmente por ser o ponto de partida do que eles precisam para produzir e de chegada do que eles produzirão. E se quisermos mesmo indenizações por vazamentos e afins, o primeiro passo é tirar a extração de petróleo das mesmas mãos que detêm a polícia ambiental.

A mais elementar aritmética basta para provar, enfim, que quanto menos imposto houver sobre o petróleo melhor será para cada contribuinte, consumidor, trabalhador, dona de casa, velho ou criança  de cada município e de cada estado do Brasil, inclusive os fronteiriços aos poços.

Mas como nós somos “eishpérrtos pra dedéu“, nós não entramos nessa não. Nos aliamos aos Joaquins Silvérios dos Reis contra os Tiradentes…

É tão fácil que em cima da nossa reação aos royalties do petróleo o governo já está se preparando para dobrar os que cobra também sobre os minérios.

Estamos todos de parabéns!

Um campeão da cara-de-pau

30 de junho de 2011 § 3 Comentários

Bateu todos os recordes da cara-de-pau o dr. Abílio Diniz na sua aparição de ontem nos jornais das TVs para “explicar” a sua tentativa de comprar o Carrefour com o vosso e o meu dinheiro como “mais uma das suas contribuições para o nosso país”.

A indignação com que escrevi o primeiro artigo sobre essa tramóia explica-se pelo fato de que se tornou imediatamente claro para mim o jogo de cartas marcadas que agora tratam de nos empurrar pela goela.

As declarações ao Jornal Nacional aqui reproduzidas são definitivas.

Primeiro porque barões não se manifestam antes do nihil obstat do rei. E o dr. Abílio, que entra nessa jogada só com o corpinho, só poderia mandar a “sua oferta” depois que tivesse garantido o dinheiro do BNDES. Ele deve ter acessos de riso toda vez que roda o vídeo dessa entrevista no trecho em que diz que, ao presentea-lo com R$ 4 bilhões, “o BNDES fez um ótimo negócio e prestou um serviço aos consumidores, à sociedade e a todos os brasileiros“.

Segundo porque, como já tinha intuído, também o destino do contrato entre o Pão de Açúcar e o Grupo Casino, concorrente do Carrefour, em direção à lata de lixo dos achegos da Justiça brasileira, ganha ainda mais impulso com o ultimato velado que este homem pouco dado a improvisos atirou ao seu antigo sócio em rede nacional: “espero que o Casino analise a proposta com atenção, com cuidado (grifo meu) e sem emoção porque poderá até gostar dela”...

Por enquanto o Casino não parece disposto a entrar no jogo, já que, em dois dias, comprou na bolsa mais 6% do Pão de Açúcar para fortalecer seu poder de fogo nesse tiroteio. Mas pela segurança demonstrada pelo novo sócio de Lula, é provável que ele vá ter de escolher entre os males o menor…

A menção à “completa desnacionalização do sistema de abastecimento brasileiro”, aliás, remete ao direito que o dr. Abílio vendeu ao Grupo Casino em 2006, de se tornar sócio majoritário do Pão de Açúcar mediante  exercício de uma opção que vence agora em 2012.

Vendeu mas não pretende entregar.

Foi provavelmente essa a linha de argumentação com que ele começou o seu canto de sereia junto aos altos potentados financeiros do PT. Mas minha aposta é que não foi preciso insistir em temas ideológicos para leva-la mais adiante.

Se ainda tivesse sobrado qualquer sombra de dúvida – e conhecendo o elenco e o país onde se desenrola a farsa já não tinha – a obscena declaração do ministro Fernando Pimentel, que não precisou nem de 24 horas para pensar no assunto antes de afirmar que a concretização do negócio “abrirá uma porta importantíssima para a colocação de produtos brasileiros no exterior”, acrescentando que “a participação do BNDES no negócio tem unicamente essa função”, acabaria com ela.

É fato notório que o PT não entende nada de negócios (excluídos os escusos). Mas uma cretinice desse calibre não pode ser aceita como de boa fé nem na boca de um petista.

Enfim, é como eu digo sempre. Se Sherlock Holmes, por alguma razão, viesse acabar no Brasil, ficaria desempregado. Aqui não ha nada por descobrir. É tudo sexo explícito.

Onde estou?

Você está navegando atualmente a Consumidor categoria em VESPEIRO.