O Brasil já foi bem melhor e não faz tanto tempo assim

18 de maio de 2026 § 2 Comentários

No artigo que escreve hoje no Globo, Carlos Alberto Sardemberg lembra dois casos do governo Itamar, do ano de 1993.

São só 33 anos atrás, e o que ele descreve é um Brasil totalmente irreconhecível para as gerações, não que nasceram, mas que começaram a se informar sobre o seu país a partir da virada para o 3º Milênio.

Confira o texto dele:

“Estamos em 1993, o presidente da República é Itamar Franco, e seu ministro da Fazenda é Eliseu Resende. Vaza a informação de que Resende recebera vantagens impróprias de uma empreiteira durante viagem a Nova York. Itamar o demite. A empreiteira era a Andrade Gutierrez, que pagara uma conta de hotel de Resende. Valor: US$ 830!”

“Reparem. O ministro, técnico respeitado, caiu por aceitar uma cortesia de míseros US$ 830. E mais: a viagem havia sido feita antes de Resende assumir o Ministério da Fazenda”.

(…)

“Outra do Itamar. Seu ministro-chefe da Casa Civil era Henrique Hargreaves, amigo de absoluta confiança. No Congresso, estava em andamento a CPI do Orçamento, e ali apareceram denúncias de que Hargreaves recebia dinheiro “por fora”. Eram suspeitas, mas Itamar resolveu afastá-lo até que se provasse sua inocência. O golpe foi tão pesado que Hargreaves sofreu um infarto. Sobreviveu, provou-se a inocência, e ele voltou ao cargo”.

“Há duas lições aqui”.

“Primeira, a suspeita ou, como alguns diriam, a “simples” suspeita é, sim, causa de afastamento do serviço público”.

“Segunda, um homem honrado pode literalmente morrer de vergonha quando envolvido em denúncias de corrupção”.

Hoje…

No resto do artigo, Sardemberg compara esses dois casos com a esculhambação que se seguiu à destruição da Lava-Jato:

“A cada dia que passa, temos a sensação de que a corrupção tomou conta do país; não há o que fazer: sofremos de uma doença incurável…”

E então ele passa a especular vagamente sobre como sair dessa espiral descendente, que aponta diretamente para o inferno.

Carlos Alberto Sardemberg tem milhares de quilômetros de estrada em jornalismo, nos tempos em que ainda havia jornalismo no Brasil. E mesmo naqueles tempos, ele estava entre os melhores. Eu mesmo, indiretamente, aprendi muito com ele.

Mas hoje sou mais direto que ele, tanto no diagnóstico, quanto na receita do remédio para acabar com isso.

Principalmente no que diz respeito à administração pública, eu não acredito em virtude; eu só acredito em polícia. É esse o ponto do qual parte a democracia.3, aquela que nasceu na Inglaterra e se fez gente nos Estados Unidos: ela sabe que o homem é um animal tão incuravelmente falível que precisa de governo, e que, exatamente por isso, quem mais precisa de governo é o governo dos homens.

Parece complicado, mas não é tanto assim.

Metade dos 33 anos transcorridos entre as cenas que o Sarbemberg descreve e hoje, 17 anos para ser mais exato, concentrados a partir de 2003 até este momento, Lula e o PT estiveram na Presidência da República. E nos poucos anos que não estiveram, colonizavam quase absolutamente o serviço público, dos barnabés às universidades, e governavam de fato indiretamente.

E ao longo desse mesmo período — e absolutamente não por acaso — a “polícia” desapareceu do Brasil, começando pela responsável pelo policiamento ostensivo do Poder, que é aquela imprensa da qual o Sardemberg é um sobrevivente.

Nas democracias verdadeiras, como as que o Brasil nunca chegou perto de ser, o povo, armado dos poderes de fazer e recusar leis, aceitar ou não aceitar impostos, eleger e deseleger representantes, sem ter de pedir licença a ninguém, o povo é a polícia do Poder. Manda no governo. E isso é quanto basta.

Nas precárias quase-democracias, como o Brasil chegou a se aproximar de ser por uns tempos, a imprensa chegou a fazer esse papel. Depois da internet e da destruição do modelo de negócios que a sustentava, virou uma ferramenta de negócios de oligarcas bilionários fabricados por governos que, não sendo jornalistas e nem tendo interesse objetivo algum num jornalismo jornalístico, sustentam sovietes em suas redações, que fazem o que querem quando não estão sendo usadas para enriquecer ainda mais os seus donos, que me fazem lembrar recorrentemente de uma coisa que meu avô sempre repetia.

“O mau jornalismo é muito mais daninho que o tráfico de drogas, porque o seu veneno atinge muito mais gente”.

Enfim, taí a prova!

Este Brasil sem jornalismo e sem democracia — dois estágios da mesma doença — é esse em que os ladrões estão prendendo a polícia, e que nos põe na distância do de 33 anos atrás, que faz o Sardemberg, e todo mundo que o conheceu, morrer de saudades.

Veja o texto completo do Sardemberg,

§ 2 Respostas para O Brasil já foi bem melhor e não faz tanto tempo assim

  • Heymann Leite disse:

    Lamentavelmente verdadeiras estas palavras!

  • gracefullyf6aa39b6a3 disse:

    Não há o que contestar, o caso é mesmo de polícia.
    Uma polícia que já era cooptada, desde antes de Filinto Müller, por governos oligárquicos patrimonialistas, desde 1889.
    Sim, democracia, só o cheiro da que era tostada em fogo alto, por todos os governos autocráticos republicanos, desde a República da Espada.
    Assim, o berço esplêndido já estava armado, quando a quadrilha foi formada, há mais de quarenta anos.
    Usando como fachada de honestidade a carta idealista e ingênua de fundação do partido, feita pelos intelectuais aliciados pelo partido, a quadrilha agia como se fosse o novo baluarte do combate aos ricos e à pobreza, porém, agia ardilosa e sorrateiramente, infiltrando-se e corrompendo instituições, como aconteceu com a CEPLAC, na Bahia, transformando-a em uma das primeiras fontes de renda, ao mesmo tempo em que desestruturava a lavoura cacaueira, usando a “vassoura de bruxa” e criava seus primeiros pobres de estimação, todos esperançosos, crentes nas promessas redentoras comunistas e revoltados contra os “ricos” de Ilhéus e Itabuna, para quem trabalhavam, sem imaginar que eram felizes e estavam prestes a viver a maior desgraça moral e material de suas vidas.
    Tudo, exatamente como Marx mandou; desestruturar e corromper para “tomar o poder”.
    Da Bahia para o ABC foi um pulo e, em conjunto com a sociologia torta de FHC, foi só invadir novas instituições e aumentar a corrupção e a roubalheira.
    A folha corrida é imensa, mas falta a tal da polícia…
    Socorro, pega ladrão!…

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