Onde Marcelo Ivo, PCC e CV entram numa mesma história
23 de abril de 2026 § 5 Comentários


Passadas quase 20 horas (começo a escrever este texto por volta das 16 horas) da publicação das espantosas revelações de David Ágape sobre as profundas relações com a mais alta cúpula do PCC, e indiretamente também com o Comando Vermelho, da advogada Gisele Cristina de Carvalho, irmã de Marcelo Ivo de Carvalho, o delegado da PF expulso dos Estados Unidos esta semana, o homem que, até há muito pouco tempo, era o encarregado do policiamento do aeroporto de Guarulhos, o maior porto da América Latina para o tráfico de cocaína para a Europa e os Estados Unidos, nenhum canal de televisão ou site da imprensa tradicional brasileira — Folha, O Globo, Estadão, Veja, UOL, GloboNews, Record, SBT, BandNews ou CNN, confirma-me a inteligência artificial do Grok — sequer registrou o que foi apurado, embora todas as fontes de Ágape sejam registros oficiais incontestáveis da própria Policia Federal e do Ministério Público brasileiros.

As revelações apuradas por David Ágape sobre Marcelo Ivo desde sua expulsão dos Estados Unidos por suas maquinações contra Alexandre Ramagem num país estrangeiro, teleguiadas por Alexandre de Moraes, o mais caro contratado de Daniel Vorcaro que não respeita nem constituições nacionais nem fronteiras internacionais, já garantiam a ele um lugar de destaque no triste cenário atual da imprensa brasileira. Afinal, o que ele tinha divulgado até ontem — sobre a biografia da figura e, mais especialmente, sobre o seu inexplicável endereço de luxo em Miami — dependia mais da simples vontade de registrar o que estava à disposição de quem quisesse divulgar a verdade, do que propriamente de um feito jornalístico de garimpagem profunda.
As de hoje, pelo rigor, pela profundidade da apuração e pela velocidade do feito, fazem dele água no deserto e garantem-lhe um lugar especial nos anais da história do jornalismo brasileiro em seu pior momento.

Senão vejamos:
Ao fim de uma investigação que começou em janeiro de 2006, o Ministério Público de São Paulo denunciou Gisele Cristina de Carvalho, 55, por integrar uma quadrilha armada vinculada ao Primeiro Comando da Capital.
O GAECO de São José do Rio Preto monitorara 56 ramais telefônicos por quatro meses e cinco dias e descobrira uma estrutura de narcotráfico abastecida por cocaína boliviana, com distribuição por São Paulo, operações de câmbio informal no Paraguai e liderança exercida, em parte, de dentro dos presídios.
No centro dessa estrutura havia dois nomes: Marcos Roberto Cicone, vulgo “Magrelo”, e Valdeci Alves dos Santos, que circulava com os apelidos “Prateado”, “Colorido”, “Pintado” e “Vermelho”.
O promotor Lincoln Gakiya, tido como maior inimigo e conhecedor do crime organizado no Brasil, descreve Valdeci como “o Numero 2 histórico da facção, braço direito de Marcola”.

Em 12 de abril de 2006, a menos de um mês do “Salve” em que o PCC saiu matando policiais a esmo e literalmente parou São Paulo, o fato que deu o “start” na carreira política de Alexandre de Moraes, que negociou a paz entre o governador Geraldo Alckmin e Marcola, Gisele entrou em uma unidade prisional para visitar Valdeci.
A investigação do GAECO descreveu assim o papel de Gisele nos autos: “…mantinha os demais integrantes permanentemente informados, repassando mensagens importantes para aqueles que se encontravam recolhidos em estabelecimentos prisionais, contribuindo significativamente para a atuação criminosa do bando”.
O policial militar Marcelo Pandin Porto — um dos responsáveis pelo monitoramento — afirmou que a advogada do grupo “era conhecida pelo vulgo ‘gravata’”, e acrescentou que ela “recebia mensalmente para acompanhar os membros da facção na delegacia, quando presos em flagrante”.
“Sintonia das Gravatas”, como se sabe, é o nome do “departamento jurídico” do PCC, constituído pelos advogados que fazem a ponte entre os chefes presos e os “soldados” em ação no Brasil inteiro e, hoje, no mundo.

Gisele também declarou em juízo ter sido advogada de Elisabete Gonçalves na comarca de Taubaté havia muitos anos. Elisabete era co-ré no mesmo processo e apontada pelo GAECO como “gerente de Valdeci”. Em seu interrogatório, declarou também ter sido contratada por Leila, companheira de Valdeci, para tentar obter uma transferência penitenciária.
Ouvida por Ágape, Gisele disse que “meu irmão não sabia desse processo, nem minha família sabia. Eu escondi de todo mundo por vergonha”.
A ação penal em que tudo isso resultou correu na 1ª Vara Criminal de São José do Rio Preto durante 16 anos. Em 17 de julho de 2023, a juíza Luciana Cassiano Zamperlini Cochito encerrou o caso e absolveu todos os 14 réus “por insuficiência de provas”. Os CDs com as conversas monitoradas existiam. Os policiais depuseram sobre o que ouviram. Mas sem a transcrição formal, a prova não pôde embasar condenação. E, nessa “justiça” sem mistérios do Brasil, a absolvição transitou em julgado em 10 de abril de 2026 — 13 dias atrás!

Mas isso não é tudo.
Na tarde de 23 de novembro de 2010, agentes da SENAD — Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai, interceptaram uma Land Rover ao deixar um hotel em Pedro Juan Caballero/Ponta Porã, cidade na fronteira com o Brasil conhecida como um dos eixos centrais de todo o tráfico de cocaína do continente.
No carro estavam quatro pessoas: Ariane dos Anjos, advogada de Araraquara contra quem havia um mandado de prisão da justiça brasileira. Os outros três, entre eles Gisele Cristina de Carvalho e dois homens, foram entregues à Polícia Federal brasileira na fronteira e soltos por ausência de ordem judicial.
Gisele diz ter conhecido Ariane “por um processo em comum” e não ter conhecimentos dos problemas dela com a Justiça.

Em setembro de 2006, o relator da CPI do Tráfico de Armas, deputado Paulo Pimenta, anunciou que o relatório final pediria o indiciamento de Ariane por co-participação no assassinato do juiz-corregedor da Vara de Execuções Penais de Presidente Prudente, Antônio Machado José Dias, morto com três tiros em 14 de março de 2003. Naquele mesmo dia, Ariane havia visitado Marcola no presídio de Avaré, entre 14h e 16h15. Às 18h31 — um minuto depois do assassinato — recebeu uma ligação de oito segundos do celular de Priscila Maria dos Santos.
Perante a CPI, Ariane declarou Valdeci Alves dos Santos — o mesmo “Colorido” que Gisele visitou em abril de 2006 — como um de seus clientes.
Em 30 de abril de 2021, Gisele constituiu sociedade com outra advogada, Fabiana Kelly Pinheiro de Melo. Em 14 de maio de 2009, a Polícia Federal tinha prendido Fabiana durante a Operação Riqueza, que desarticulou um grupo especializado em abastecer favelas do Rio de Janeiro dominadas pelo Comando Vermelho com cocaína adquirida em Ponta Porã.

A OAB-SP esperou sete anos para instaurar um processo disciplinar contra Fabiana … que não deu em nada.
Marcelo Ivo ingressou na PF em junho de 2003, começando em Sorocaba — cidade onde Gisele tinha domicílio declarado e exercia a advocacia. Em outubro de 2016, quando o processo de São José do Rio Preto contra Gisele já tramitava havia 9 anos, e 6 tinham se passado desde o episódio de Ponta Porã, assumiu a chefia da delegacia do Aeroporto Internacional de Guarulhos. No mesmo mês de sua nomeação, dirigindo bêbado uma Mercedes Benz confiscada pela PF e com a carta vencida havia mais de um ano e meio, ele atropelou e matou um vigilante na Rodovia Raposo Tavares. Pagou fiança e saiu livre. Nunca foi afastado.
De março de 2018 a maio de 2021, chefiou a Delegacia Regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado em São Paulo. Em 21 de janeiro de 2022, o governo Bolsonaro o nomeou superintendente regional da PF na Paraíba. Nessa data, o processo contra Gisele ainda corria. A sociedade com Fabiana havia sido aberta oito meses antes, com a condenação da sócia já formalmente proferida. Em março de 2023, já sob o governo Lula, foi exonerado da superintendência e nomeado oficial de ligação junto ao ICE. O processo de São José do Rio Preto foi encerrado em julho de 2023 — um mês antes de Marcelo Ivo embarcar para Miami.

Em nenhum desses degraus o histórico de Gisele apareceu como obstáculo, embora o envolvimento de parentes com o crime organizado esteja especificamente descrito pela PF como “fator de risco institucional”.
O antecessor de Marcelo Ivo em Miami, Fabrício Scarpelli, contou a Ágape que, desde o início do governo Lula, passou a receber pedidos informais para executar ações no exterior fora dos canais oficiais. Ao se recusar, passou a ser perseguido dentro da corporação.
O salário era de R$ 15 mil, mais R$ 4 mil em auxílios. Mas Marcelo Ivo morava no SLS Lux Brickell, 801 S Miami Avenue, apartamento 2301, alugado em agosto de 2024 por perto de R$ 48 mil por mês.
Ninguém é responsável pelos atos dos irmãos.
Mas aqui temos uma irmã processada como pombo-correio do PCC; detida, quatro anos depois, num hotel de fronteira ao lado da advogada de Marcola; a mesma mulher que visitava o mesmo Valdeci que a irmã visitava, e que tinha uma sócia presa como pombo-correio em uma rede que abastecia o Comando Vermelho de cocaína.

E um irmão delegado que passou pelo maior aeroporto do Brasil, pela superintendência de um estado, pelo posto mais estratégico da PF nos Estados Unidos e por um apartamento de luxo em Brickell sem que ninguém perguntasse quem pagava a conta, e sem que nenhum desses capítulos fosse examinado em conjunto, antes ou depois de cada degrau das promoções porque passou.
Termino este texto às 17:24 e consulto novamente o Grok: nenhum registro na imprensa tradicional.
Se esse grau de relação perigosa não é manchete, e não pára o país nas quatro, é porque é provável que o Brasil não tenha mais cura.
Veja todos os impressionantes detalhes desta e das outras matérias de David Ágape que contam a vida e a obra de Marcelo Ivo e família,

Se esse grau de relação perigosa não é manchete, e não pára o país nas quatro, é porque é provável que o Brasil não tenha mais cura.
Triste.
Claramente faz parte do PT e Lula pelas características dos crimes.
Não é novidade para ninguém que toda rede criminosa tem que contar com a cumplicidade da banda podre da polícia.
Não é novidade para ninguém que o Aeroporto de Guarulhos faz parte da via de exportação de cocaína.
Portanto, Marcelo Ivo e Gisele seguiram pela banda errada da polícia.
Parabéns Fernão, mais uma vez um ótimo artigo.
Toda banda podre interligada…é triste demais mesmo, mas eu tenho certeza de que muita gente vai cair. O mal vai continuar agindo, até que Deus desça sua mão sobre a humanidade. E acho que não está longe, já previu Pe. Pio.