O otário fundamental

9 de agosto de 2021 § 16 Comentários

Quinta-feira passada, no Valor, Cristiano Romero descreveu didaticamente o mecanismo de automatização do roubo do favelão nacional pela privilegiatura que funciona ha séculos no Brasil:

1) O Estado gasta muito mais do que arrecada e esse déficit é estrutural. Não para de crescer porque por mais dinheiro que entre esse volume nunca vence o do dinheiro que sai em função dos mecanismos de aumento automático dos salários da privilegiatura e dos gastos feitos para perenizar os seus representantes no poder, seja os “por dentro”, seja os “por fora” que nunca cessam de se reproduzir na forma de “auxílios”, “reposições”, “correções”, “abonos”, “fundos partidários e eleitorais” e outros adjetivos do inesgotável estoque dos “me engana que eu gosto” que o Poder Judiciário rejeita implacavelmente quando vindos do mundo dos “contribuintes” mas traga com casca e tudo quando da lavra da galera estatal, criando salários e mordomias de nababo isentos de imposto de renda que os meritíssimos são, naturalmente, os primeiros a “merecer”.

2) Como consequência a necessidade de financiamento do governo é cada vez maior e as condições de sustentabilidade dessa dívida em eterna ascensão cada vez mais matematicamente impossíveis. O juro aumenta, então, exponencialmente, o que faz crescer ainda mais a dívida pública, agora embarcando água pelos dois bordos, e seca a fonte de financiamento da economia viva. Para esta, que não pode pagar suas contas com dinheiro alheio, o juro aumenta ainda mais que para o governo, o que reduz drasticamente a disponibilidade de empregos e a competitividade geral da produção nacional.

3) Para manter a roda girando o governo aumenta então os impostos e toma mais dinheiro do povo que já vinha chupando indiretamente pelos juros com que lhes roía os salários e os empregos, enquanto vocifera contra os “banqueiros sem coração” e “o mercado desprovido de consciência social”. Essa grita faz, no entanto, crescer a expectativa de calote do governo, o que empurra os juros ainda mais para cima e acelera o giro da roda infernal para gáudio dos “rentistas” que vivem do cinismo da privilegiatura.

4) No limite o governo passa a emitir dinheiro falso pondo para correr a inflação, o que engata a terceira marcha da roubalheira automatizada do favelão nacional pela privilegiatura, pois os salários cá de fora passam a ser reduzidos por decurso de prazo enquanto os lá de dentro “são corrigidos” mais que proporcionalmente enquanto a dívida pública passa a ficar cada dia “menor” pela desvalorização da moeda, ficando, naturalmente, a culpa pela carestia, para os agentes do setor privado cuja “ganância” é a razão da disparada da inflação.

A tudo isso o otário fundamental não dá a mínima. Rarissimamente um jornalista gasta um grama da indignação sempre tão mal distribuída da imprensa para denunciar esse mecanismo institucionalizado de escravização do favelão nacional pela privilegiatura “porque”, como concluía Romero, “o Brasil tem dono” e esse dono não é o povo brasileiro como está sendo exemplarmente ensinado aos vencedores da última eleição.

Com 400 anos de conexões contra-reformistas de neurônios proporcionados pelo monopólio do modo jesuíta de “argumentar” na educação brasileira, no passado “endossado diretamente por Deus” ficando os “hereges” destinados à fogueira e hoje pelas “verdades estabelecidas” que substituem a “autoridade divina”, “cancelados”, censurados ou presos os contestadores, o otário fundamental está organicamente treinado em atacar antes os seus vizinhos que os seus algozes. Qualquer isca artificial que se lhes atire é o pretexto para a abertura de uma apaixonada discussão em torno da momentosa questão: como impedir a manifestação dos efeitos da nossa doença sem remover as suas causas:

“Não, não são os 11 monocratas em que ninguém votou que censuram, prendem e arrebentam quem pensa diferente, é quem ousa denunciar a violência com que eles defendem com atos essa mamata que é ‘antidemocrático’”.

“Não, não é a Constituição da privilegiatura, pela privilegiatura e para a privilegiatura, que petrifica a desigualdade perante a lei, é denuncia-la como a impostura que é, visto que nunca foi dado ao povo referenda-la ou não, que é ‘atentar contra o estado democrático de direito’”.

“Não, não é da estatização dos partidos e das campanhas eleitorais (agora em 6 bi!) e sua apropriação por quem vive à sombra do Estado, a culpa dessa mixórdia política é ‘desse povinho que Deus pôs aqui’ que ‘não sabe votar’ e precisa que os 11 monocratas os salvem deles próprios”.

“Não, não é sentença de ladrão valer mais para condenar juiz que sentença de juiz para condenar ladrão que nos condena a viver sob o império da corrupção, somos nós que somos geneticamente viciados nela”.

Moral da história: há um milhão de boas razões para desejarmos ver pelo retrovisor o “rei Sadim” da comunicação que nos preside, com seu inigualável dom de tornar indefensável tudo que tenta defender, mas nenhuma é a única que seus detratores alegam: a de recolocar no poder na marra o elemento que o STF arrancou da cadeia e colocou-nos, com a mão, de volta diante do pára-brisa.

O golpe, senhoras e senhores, rolou lá atras e, não importa quem receba a unção dos 11 papas em que ninguém votou mas fazem gato e sapato do Brasil democraticamente eleito, ou esteja ameaçado de danação eterna pelo Torquemada das Alagoas, o fato que nada pode elidir é que quem cria e expande o favelão nacional; os pais da miséria do Brasil são os que, dentro e fora das redações, se vendem pela indemissibilidade eterna com aumento de salário por decurso de prazo e aposentadoria integral precoce (fora o resto…).

Enquanto o cidadão brasileiro não acordar do encantamento, entender essa realidade simples e unir-se para enfrentar quem o devora pela esquerda ou pela direita, continuará sendo o otário fundamental, extinguível apenas e tão somente por auto-deliberação, sem a anuência do qual a privilegiatura automaticamente deixa de existir.

§ 16 Respostas para O otário fundamental

  • Marcos Andrade Moraes disse:

    Pensei que fosse autocrítica.

    MAM

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  • Nivaldo disse:

    Lembro que em 1984 estava em um bar na periferia cadastrando o estabelecimento para uma empresa de convênio, quando no radio alguém anuncia algo como aumento de imposto ou coisa parecida. Um “cliente” do bar que já estava lá as 09 da manhã comentou: não quero nem saber, não pago imposto mesmo. Disse a ele que daquele cigarro e do fósforo e da cachaça que ele pedia naquele momento, o governo já tinha dado uma solene mordida. Ele já tinha pago o imposto dele logo as 09:00 da manhã. Lá se vão 37 anos e os otários fundamentais ainda existem aos milhões.

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  • Jackson Blecker disse:

    O Brasil Republicano foi criado sem moral e somente para estabelecer uma vingança pela Lei Áurea e entronizar o funcionário público sanguessuga. Vivemos até 30 no cabresto de uma oligarquia agrícola ignorante que não soube aplicar o capital ganho dos explorados . A partir daí só tivemos lixos ocupando a presidência: Getúlio, Juscelino, Quadros, Goulart, Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. Se prestarmos atenção só esquerdista corrupto

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  • Fernão cada vez mais lúcido e o Brasil cada vez mais cheio de milhões de otarios

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  • Prezado Fernão
    Enquanto o cidadão brasileiro não acordar…
    Como conseguir isso? Diversas vezes em diferentes abordagens conclui-se essa pergunta sem haver respostas…
    Gostaria realmente poder discutir ideias com esse fórum nesse sentido.
    Sds

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    • Fernão disse:

      Repito a receita de sempre. Não ha mágica.
      Democracia se impõe na medida em que se torna conhecida e desejada.
      TUDO que o povo deseja de fato, até a queda de governos do PT, acontece onde o elemento voto ainda é fator decisivo, mesmo que defeituoso.
      O trabalho, portanto, é de furar a censura que a privilegiatura e sua imprensa exercem e divulgar a democracia verdadeira mostrando como ela funciona, sem blablabla teórico…
      Os inimigos da democracia são melhores que nós para se organizar, juntar forças e profissionalizar o esquema deles pagando gente para pensar e transformar esse pensamento em fórmulas simplificadas 24/7 em thinktanks, estruturar redes nacionais para receber essas formulas simplificadas e dissemina-las em seus territórios, formar partidos e assim por diante.
      O “nosso” lado se deixa afetar mais por vaidades e assim segue pulverizado, cada um no seu nicho, falando pra poucos, com mensagens confusas, antiquadas (“liberalismo” e etc.) e sem foco.

      Temos de ter a humildade de aprender com eles…

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      • Marcelo Melgaço disse:

        Caro Fernão,

        Bom dia!

        É sempre uma satisfação ler os seus textos e comentários!

        Neste, penso que resumiu de forma primorosa a organização estratégica do tal “sistema” ou “mecanismo” que visa única e exclusivamente a nossa exploração:

        “Os inimigos da democracia são melhores que nós para se organizar, juntar forças e profissionalizar o esquema deles pagando gente para pensar e transformar esse pensamento em fórmulas simplificadas 24/7 em thinktanks, estruturar redes nacionais para receber essas formulas simplificadas e dissemina-las em seus territórios, formar partidos e assim por diante.”

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  • Fernão disse:

    Democracia, só para recordar, existe quando o povo manda no governo e não existe quando o governo manda no povo.
    Como em tudo que acontece no mundo real, também no mundo da política manda quem tem o poder de demitir. Assim, para haver democracia e o povo mandar no governo, é preciso que o povo tenha o poder de demitir o governo a qualquer momento, isto é, que tenha os poderes de recall, ou retomada dos mandatos condicional e temporariamente concendidos a quem ele elege a qualquer momento, de iniciativa e de referendo das leis que aceita cumprir, e de retenção de juizes para que eles entendam para além da “doutrina” (bull shit!) qual é o lugar deles.
    Essa é a receita. O resto é tapeação pra continuar tudo como está…

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  • Tornar a Democracia conhecida e desejada furando a censura da privilegiatura é uma boa resposta.
    Não perder o foco, sermos menos vaidosos, mais humildes e mais objetivos. Organizando-se tão bem quanto os opositores (embora saibamos também que nos grupos organizados sempre há dissensões)
    Considero que seu trabalho neste blog é um excelente exemplo de divulgação da meta democrática, entretanto de pequeno alcance para as massas.
    Como chegar essa mensagem a todos se a media também joga contra?
    Considero que a TV é o meio de comunicação de massas mais poderoso no Brasil. Em todo lar há sempre uma TV ligada desinformando e lavando os cérebros…

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    • A.(sno) disse:

      Vivemos à espera de uma intervenção única e federal. E nos esquecemos do GIGANTESCO trabalho de uma única formiguinha. Será que nossas esposas, nossos filhos, nossos parentes mais próximos, nossos amigos mais íntimos tem o mesmo ideal que nós? Não é o melhor lugar para semear, ao redor de nós mesmos? A historia do passarinho que queria apagar o incêndio não nos ensina nada????

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  • Gilson Almeida disse:

    Ambula: este é o ponto. Traz angustia. Tb me pergunto sobre os caminhos. Porque os da imprensa falada e escrita são poucos. Os do Judiciario, menos ainda. Alem do Fernão, claro, penso no J R Guzzo que escreve no Estadão, mas so. Dos políticos, o Novo, parecia algo novo mas o Amoedo, deixa pra lá. Dos antigos, FHC, já se mostrou recentemente quem ele é mesmo. Não é muito animador. Continuemos tentando. É o caminho.

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  • E mais uma vez o otário fundamental ficou sem o voto distrital…
    Os tais caminhos são sempre barrados pelos “espertos” estamentais

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    Até 25 anos atrás existia o sistema de se votar em cédulas de papel – onde vinham impressos os nomes de alguns candidatos e espaços com linhas para serem preenchidas com os nomes e números de candidatos que escolhíamos. Haviam as listas enormes com os nomes dos candidatos, seus números e partidos políticos exibidas para consulta dos eleitores nas seções eleitorais. O voto em papel era colocado em urnas de lona lacradas previamente à vista de delegados e fiscais dos partidos, do povo e de representantes do judiciário eleitoral. Terminada a votação as urnas eram guardadas em salões ou ginásios de esporte durante a noite, iluminadas e sob os olhares de quem quisesse vigiá-las. De manhã, as juntas e turmas apuradoras compostas de pessoas nomeadas pelos juízes eleitorais e fiscais partidários faziam a apuração dos votos. Se houvesse dúvida sobre o voto recorria-se, ou se pedia impugnação. Era mais demorado, mas um tremendo exercício de cidadania participativa, que gerava um grande senso de pertencimento a Nação. Muitos que hoje votam confundem o voto impresso pela urna eletrônica com o voto em cédulas de papel – dobradas para manter o sigilo do voto – pois não conheceram o antigo sistema.
    Em carta minha publicada no Fórum dos Leitores de O ESTADO afirmei que o povo – de quem deveria emanar o poder, conforme está estabelecido na Constituição Federal de 1988 – não foi consultado, através de voto em papel, se queria votar em urna eletrônica ou continuar com as cédulas em papel depositadas em urnas de lona, e apuradas manualmente após a eleição.

    Porque tanta pressa? O custo-benefício do voto em cédulas de papel é altamente compensador, a começas pelo grau de credibilidade devido a se poder acompanhar visualmente todo o processo.
    Será que as turmas e juntas apuradoras eram compostas cidadãos mui desonestos escolhidos a dedo para fraudar os resultados? Claro que não! Há vinte e cinco anos de votação em urna eletrônica, eu, que no tempo das cédulas de papel já fui presidente de seção eleitoral, em diversas eleições aqui em Rio Claro-SP, sinto-me um otário prestidigitado. Peço-lhes vênia, pois não sou doutor em mídia eletrônica, nem juiz eleitoral monocrático. E não me importo se me chamarem de caipira desconfiado!

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