O que há por traz do drama do Rio

28 de novembro de 2010 § 8 Comentários

Fora do Brasil e com condições de editar bastante restringidas, acompanho passo a passo a Guerra do Rio. Peço desculpas pelo texto bruto mas a descrição mais bem informada do drama carioca e da crua realidade por traz dele que vi desde que essa batalha começou está no artigo de Luis Eduardo Soares que reproduzo abaixo.

Tudo que tenho para acrescentar é que para que seja possivel sanear as policias brasileiras será preciso, antes, sanear a política brasileira.

Existe aqui uma ampla cadeia de impunidade que explica o grau de corrupção em que vivemos mergulhados. O primeiro elo dessa cadeia é a impunidade dos políticos que se transmite, por efeito de vaso-comunicação, a todo o funcionalismo publico e, pela mão dele, é praticamente imposta ao resto da sociedade brasileira que, se não se corromper também, não consegue se relacionar com o Estado.

Sendo a policia a ponta do Sistema que encosta no crime, é nela que essa cadeia de impunidade produz os efeitos mais dramáticos, pelos meios e modos que Soares descreve aqui com obvio conhecimento de causa.

É por aí que o artigo de Soares se relaciona com o ultimo que escrevi sobre a imprensa e com os muitos sobre o problema da corupção, tema magno do Brasil, que estão espalhados pelo Vespeiro.

O texto original, publicado quinta-feira passada, 25, pode ser lido aqui:

http://luizeduardosoares.blogspot.com/

A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO

por Luis Eduardo Soares

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão– quanto os jornalistas.
Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:
(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.
(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido–, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?
(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.
Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:
(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?
Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?
Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.
A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.
A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.
(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?
Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.
Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia– teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.
Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.
Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.
(c) O Exército deveria participar?
Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.
(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?
Claro. Mais uma vez.
(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.
Palavras Finais
Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.
O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias– prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?
As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.
E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

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§ 8 Respostas para O que há por traz do drama do Rio

  • maisvalia disse:

    Infelizmente, desta vez, acho que você tomou o bonde errado. Esse ólogo entende tanto de segurança quanto eu de jornalismo. Ele nunca prendeu nem o dedo na porta, para dizer o menos. Ele faz menos de dois meses declarou que o “tráfico já era” na estreia do idelógico tropa de elite 2.

  • flm disse:

    Discordo, Mais Valia.
    Primeiro de que Tropa 2 seja “ideologico”. Não tinha visto ate hoje nada menos ideologico e tão parecido com a realidade (logica) brasileira. Passei a vida toda vendo nossos cineastas, junto com a esquerda desonesta, dizerem que o crime é função apenas e tão somente da pobreza – uma ofensa aos 99% de moradores de favelas do Rio, para não irmos longe, que são trabalhadores explorados pelo conluio entre policias e bandidos (a “ausencia de polaridade” de que Soares fala no artigo). Ausência de polaridade esta que Leonel Brizola (que a Dilma chama de “guru”, coisa que me dá calafrios) tornou oficial quando entregou os morros ao trafico, com as consequencias que os cariocas pagam ate hoje. (Falo, nesse particular, daquilo que assisti acontecer e não apenas do que acho ou deixo de achar).
    Sobre os defeitos do modo de agir da imprensa, Soares tambem sabe do que esta falando. Eu conheço bem o processo e é assim mesmo que acontece. Discute-se as crises e não suas causas profundas nem as maneiras de preveni-las. Confunde-se o tempo todo efeitos com causas e causas com efeitos. A falta de escolas e, principalmente, a instrumentalização ideologica das escolas brasileiras é um fato que afeta dramaticamente o pais em geral e a imprensa em especial como provou a tematica em torno da qual girou a ultima campanha eleitoral. Paramos lá pelo meio do seculo passado. Vivemos presos na Cortina de Burrice de que Moura Castro falou em seu artigo brilhantemente triste para a Veja da semana passada.
    Não vejo como negar, igualmente, que o crime organizado é o filho dileto da corrupção. Talvez irmão gemeo fosse uma descrição mais acurada. Aí Soares foi raso. Como disse na introdução, acredito que o fim de um depende estritamente do fim do outro. Ou, sendo mais realista, que a fervura de um só vai baixar quando baixar a fervura da outra. Para qualquer lado que forem, enfim, corrupção e crime organizado darão sempre a medida um do outro. O crime chegou ao paroxismo que apresenta no Rio porque a corrupção chegou ao paroxismo que apresenta em Brasilia…
    E a guerra atual é, como tudo, sempre, só pra inglês ver. Não é a desgraça dos favelados do Rio que esta sendo socorrida. O governo e o resto do Brasil continuam se lixando para eles. O que determinou a reocupação das favelas é a Copa e a Olimpiada que vêm aí.
    Só concordo com voce quanto a essa historia do trafico territorial acabar por anti economico. O problema real é que o trafico é, sempre, tão “economico”, que costuma tomar paises inteiros que brincam com ese tipo de fogo. Pessoalmente, sou pessimista. Acredito que o trafico e a carnificina em torno dele só vão ficar sob controle com a legalização do direito de cada um escolher se quer ou não se matar com drogas, como ja se fez com cigarro e alcool. A droga da dinheiro demais (assim como “governar” como se faz no Brasil). E onde ha dinheiro demais consegue-se no maximo conter a corrupção.
    Mas é preciso, antes de mais nada, ter vontade de faze-lo, o que, notoriamente, não é o caso nos governos da “era PT”.
    Alkmin fez a criminalidade em SP baixar 70% apenas estabelecendo rito sumário (maximo de 6 meses) para a conclusão dos “processos administrativos” de policiais corruptos. Limpou a policia de SP. É o que terà de ser feito no Rio ou amanhã as UPPs substituem os traficantes na exploração dos favelados cariocas.
    Enfim, Mais Valia, posso estar errado. Não estou falando da pessoa nem da carreira de L. E. Soares, mas sobre o que ele escreveu nesse artigo. E, sobre isso, o que eu aprendi a achar, ao fim de mais de 30 anos olhando tudo isso com lente de dentro de uma redação, foi isso aí.

  • maisvalia disse:

    E eu estou falando com mais de 25 anos de polícia.

    O que resolve a criminalidade é prender bandido, com fez São Paulo e não UPPs, desarmamento e outras imbecilidades defendidas pelo Soares.Bandido preso não comete crimes, por incrível que isso possa parecer
    E é lógico que a polícia deve ser limpa.
    Mas não se esqueça que o senhor Soares começou no PT, é contra os delegados e sua mulher foi patrocinada na venda de livros, hehehe
    Mas, como já ouvi de vários conhecidos cariocas, no Rio até a maresia é corrupta, hehehe

  • flm disse:

    Sobre esse ponto estamos de pleno acordo, Mais Valia: o que resolve a criminalidade é prender bandido. E eu acrescentaria: em se tratando de crime de morte e outras barbaridades sem remédio, alem de crime organizado, o que resolve é prender bandido e jogar a chave fora.
    Você, se é mesmo da polícia, sabe bem o que é correr atras do mesmo assassino meia duzia de vezes, arriscando a vida, porque a Justiça desfaz o trabalho que a policia faz.
    O cara tem de saber que se quiser ser maluco, o preço é esse: se for pego, não sai nunca mais. E se o preço fosse esse, sobravam só os malucos de verdade no crime. A multidão de covardes que mata e barbariza só porque sabe que não vai pagar nada por isso sairia de cena.
    Desarmamento e outras filustrias do genero, concordo totalmente, só engana os babacas da Rede Globo. O povo, no plebiscito, ja disse bem alto o que pensa sobre isso, embora eles continuem se fazendo de surdos.
    No mais, seguimos discordando. Bandido preso, no Brasil, comete crime sim, como prova o que esta acontecendo no Rio e ja aconteceu antes em SP, tudo ordenado e coordenado de dentro das nossas prisões de “segurança máxima” (imagine as outras).
    E porque isso continua acontecendo?
    Porque como os politicos são intocaveis, podem deixar rolar a barbarie em cima do povo que não acontece nada pra eles. No máximo dos máximos, uma aposentadoria precoce com todas as regalias. E porque é assim com eles, pode ser assim em todas as frentes do funcionalismo, na policia em especial, e com a bandidagem tambem.
    Se, como acontece la fora, pudessemos por os politicos em cana, eles estariam correndo pra tornar as leis duras como elas precisam ser com os criminosos duros; dando ordem unida no Judiciário pra acabar com a zona que emana de la; correndo atras dos advogados corruptos…
    Fazendo, enfim, aquilo que o povo esta careca de saber que é o que precisa ser feito pra parar de ser “esculachado” por bandido.
    É isso que o Soares está dizendo aí e eu concordo totalmente.
    Se ele veio do PT, tem mais força ainda o que ele diz nesse artigo, que é o contrário do que o PT sempre disse e fez.

  • maisvalia disse:

    Eu gosto do teu texto e das suas idéias e penso que só discordamos sobre o Soares, hehehehe.
    Quanto aos políticos,eu sou mais pessimista ou seria realista, ou mais amplo. Infelizmente eu não acredito no tal povo brasileiro, acho ele uma porcaria, hehehe. No cruzado até pipoqueiro cobrava ágio.
    Deve ser aquela piada de Deus. A banânia não tem furacão, terremoto, etc, mas vai ver o povinho que eu colocarei lá.
    Aqui já teve uma pesquisa que mostrava que o brasileiro é tolerante com os corruptos, porque se um dia chegar lá vai ter também o seu quinhão.
    O próprio paladino soares – olha eu de novo – pos a mulher ou ex mulher para vender um serviço ao estado quando era secretário – ora que moral ele tem para falar sobre corrupção. É só pesquisar. Outra coisa que ele adora fazer é como o lula, criar cizanias na polícia, jogando agentes contra delegados.
    Quanto ao bandido cometer crimes na prisão, isso é por falta de inteligência. Basta monitorá-los.
    E por último, a investigação sobre narcotráfico é constitucionalmente exclusiva da PF, mas esta faz convênios com os estados para estes cumprirem isto e no governo lula ela se tornou uma polícia arrecadadora.
    Ela bate em alguns endinheirados e os outros correm para pagar o que devem.
    Com o equipamento que ela possui e se quisesse se dedicar a isso, garanto a você que no prazo de um a dois anos botaria muitos traficantes do morro, ou policiais traficantes na cadeia.
    Mas ela se tornou uma polícia fazendária e também sentada, só fazendo grampos, hehehe.
    Agora tem até ponto eletrônico – os policiais parecem bancários -, está quase ganhando o ISO 9001 de imbecilidade.
    Abs

    • flm disse:

      estava em transito…
      dai a demora.
      discordo de novo, MV. nao acho o povo brasileiro porcaria nao. ao contrario. pelo que conheço do mundo, qualquer outro que sofresse metade da exploracao que o brasileiro aguenta nas costas abria o bico e pedia agua.
      é a humanidade que é corrupta , nao o brasileiro.
      nesse assunto, como em tudo, o que funciona é a lei de darwin: se a “ecologia social” que prevalece favorece os corruptos, voce terá cada vez mais corruptos. é aquela historia da sobrevivencia dos mais bem adaptados.
      como aqui o caminho do “sucesso”, salvo as exceções de praxe, é o da corrupção, acaba acontecendo o que voce descreveu. mas nao porque o povo brasileiro seja intrinsecamente corrupto ou mais corrupto que os outros. é assim porque aqui a corrupcao é totalmente impune; é recompensada sempre.
      ai o moral da tropa vai baixando, a gente comeca a achar que nao tem outro caminho mesmo; que insistir em nao se corromper num ambiente onde a corrupcao sempre paga é ser “trouxa”; que o negocio é entrar no jogo…
      ai voce se corrompe um pouquinho. e ja nao tem mais argumento pra se diferenciar dos outros. e, para se desculpar, comeca a achar que todo mundo é a mesma merda. que o povo da “banânia” foi escolhido por deus pra ser pior que os outros…
      enfim, voce fica do jeitinho que os corruptos te querem; exatamente como eles te fizeram.
      é isso que voce descreve de um jeito torto, MV.
      mas o mundo nao é inteiro assim nao. nem o Brasil tem de ser isso pra sempre. só sera isso enquanto nos deixarmos que seja.
      tem corrupto pra todo lado, no mundo, mas em alguns lugares quando o corrupto é pego, ele paga. vai em cana e fica la meeesmo.
      veja o madof.
      entao comeca a valer a pena nao ser corrupto. quem nao é corrupto é que recebe a recompensa. e onde vale a pena ser honesto; onde o caminho para o sucesso é jogar dentro da boa regra, e não da má, haverá cada vez mais jogadores honestos, vigiando seus concorrentes para que sejam honestos tambem.
      democracia foi inventada pra isso, MV: pra fazer que o corrupto pague e o honesto seja recompensado. pra tirar os corruptos do poder.
      democracia é uma tecnologia como outra qualquer. tem de saber usar. montar o software certo, limpo de bugs e de virus.
      aí funciona.
      nos temos de aprender a fazer isso. e pra aprender, temos de querer aprender. ficar mais humildes, pararmos de nos achar os unicos espertos num mundo de “babacas”. porque afinal de contas, os babacas somos nos que pagamos preço de ouro por merda, somos governados por quem nos rouba e ainda vivemos tomando bronca de quem vive de nos arrancar o couro; de quem, como voce diz, transforma a PF numa força de coerçao do partido, que escolhe pra quem vai exigir o cumprimento da lei; numa policia de gabinete que vive de exigir que voce compre, cada vez mais caro, o direito de trabalhar.
      aonde essa esperteza toda?

      • maisvalia disse:

        Gostei da resposta, acho que pensamos bem próximos.
        O problema é que já nos “enta” começo a achar que os cachorros são melhores, hehehe

        Abs e bom fim de semana.

        PS. Eu também encho o saco do Caio Blinder no blog dele e ele também tem ótimas respostas como as suas, o que além de fazer o cérebro trabalhar faz a gente aprender também.

  • Elói disse:

    Meu caro, uma observação com relação ao título “O que há por traz do drama do Rio”. O correto é “por trás”.

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