Pela mudança do foco da imprensa
25 de novembro de 2010 § 3 Comentários

Ta bom. OK. É um pais de analfabetos…
Mas isso não explica tudo. A maior parte da culpa pelas baixas circulações e audiências de jornais no Brasil é da imprensa e não dos leitores e telespectadores.
Acompanhar a chamada grande imprensa é frustrante especialmente porque ela esqueceu sua função institucional de parteira de reformas dentro do sistema democrático.
Sem a faísca subversiva, sem uma vontade explícita de alterar o rumo dos acontecimentos numa direção declarada, a imprensa não se torna mais isenta nem muito menos, mais honesta ou mais interessante. Apenas deixa de conduzir para passar a ser conduzida. Vira, ou um mero amplificador de vozes sem qualquer propósito mais palpável que o de fazer barulho em torno de assuntos normalmente chatos, ou o instrumento de recados de grupos que ainda têm motivos para se manter abaixo da superfície e agir subliminarmente, o que só acontece quando a intenção é má.
Se conseguir manter sob relativo controle esse tipo de pauta passiva, tenderá na melhor hipótese, até pela obrigatória concentração de uma boa parte da cobertura nas fontes oficiais, a reforçar em seus leitores a impressão de que nada vai mudar, coisa que produzirá dois tipos de efeito: afastar cada vez mais o publico da política, o que é o caminho mais curto para a morte da democracia e, por conseqüência, tornar a imprensa, cuja essência é fazer a mediação entre representantes e representados nas democracias, cada vez mais dispensável.

Percorro os jornais…
Eles são, cada vez mais, uma colagem de dizeres variados sem nada que os articule entre si para qualquer propósito visível.
Dos articulistas de fora às fontes que nos falam pela boca dos repórteres o tema é o mesmo: um infindável blá blá blá sobre o que seria preciso fazer para que as coisas funcionassem melhor neste ou naquele setor em particular, neste pais onde o verdadeiro e único problema é tudo estar tão clamorosa, impune e deliberadamente errado.
Litros de tinta, quilômetros de papel, bilhões de bits são gastos todos os dias para nos dizer aquilo que todos estamos carecas de saber, especialmente os que precisam da imprensa e acompanham mais de perto a vida da Nação.
“É preciso acabar com os cinco mil impostos e as 40 mil regras para pagá-los, alem de reduzir o peso geral da tributação, para que o pais seja competitivo”, diz uma fonte não oficial.
“É a falta de portos, estradas e educação que grava o preço da nossa produção. A burocracia estatal da qual o ato de exportar depende não funciona. O governo prefere se envolver em libidinagens com os párias do mundo a negociar acordos comerciais que nos melhorem a vida”, constata um articulista convidado.
“Não teremos segurança enquanto as policias não falarem umas com as outras, os soldados corruptos permanecerem impunes, houver mais de mil jeitos de evitar que um processo chegue ao fim e a justiça continuar soltando os bandidos que a policia prende”, vocifera um comentarista da televisão.

Mas alguém ainda acredita que é por desconhecimento sobre o que fazer que o Brasil não muda?
Ou o que ha aqui são dois grupos distintos, um criando as regras do jogo e os outros sendo constrangidos a aceitá-las; um explorando e o outro sendo explorado de tal forma que parece perfeitamente certo para os que pagam pouco para obter muito e vivem na mais completa impunidade, aquilo que parece evidentemente errado para os que pagam muito para receber pouco e pagam caro por qualquer vacilo, começando pela perda do emprego?
Não pleiteio uma imprensa sectária, dividindo o mundo entre o bem e o mal. Mas ha certas unanimidades que, ao menos quem não quer a pecha de cúmplice (que já pesa, a boca pequena, contra muitos órgãos da grande imprensa), está obrigado a reconhecer.
Não estaria na hora, em plena era do crime organizado, quando até as ditaduras já se profissionalizaram e aplicam os princípios elementares da governança corporativa, da imprensa começar a parar de chover no molhado e se perguntar porque é que, só dentro do Estado brasileiro não vale a regra sob a qual todos nós e mais o resto do mundo somos implacavelmente obrigados a viver?
Não estaria na hora dela parar de repetir, como se se tratasse da descoberta da roda, o que cada um de nós já sabe que precisa ser feito aqui fora para nos perguntarmos porque eles, “lá dentro”, ainda podem dar-se o luxo de deixar impunemente de fazê-lo e, com isso, impedir-nos de colher o resultado do esforço que despendemos para entregar a parte que nos cabe naquilo que o mundo nos cobra?
O que é que precisaria mudar para que o que precisa mudar possa mudar?
Eis a pergunta que a imprensa tem de perseguir obsessivamente. Eis a questão à qual ela tem de referir todas as outras.
Falar disso é falar da história da democracia. É falar da historia da própria imprensa.
Como obrigar os representantes a agir segundo a vontade e o interesse dos representados tem sido a única discussão que realmente interessa nas democracias, de Roma até hoje.
E o mundo está cheio de respostas melhores que as nossas.

O Brasil precisa voltar às origens. Tratar dos fundamentos básicos da democracia. Um homem, um voto. Igualdade perante a lei. Identificação clara de quem representa quem…
Sem arrumar essa base nem começamos.
Mostrar o quanto estamos longe de conquistá-la; focar absolutamente naquilo que é essencial mudar; dirigir a energia do povo para esse ponto fulcral; tornar os políticos “responsive”, como dizem os americanos, é a função histórica e essencial da imprensa. Foi para isso que ela foi inventada. Foi quando fez isso – e só quando fez isso – que ela cresceu e se fortaleceu. É para fazer isso que ela desfruta das prerrogativas especiais que tem nas democracias.
Se não conseguir produzir esse efeito, especialmente nesses tempos de diversificação das fontes de prestação de serviços, a imprensa não serve para nada.
Será jogada fora ou pendurada numa parede como lembrança, como qualquer arma que não atira mais.

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obrigado.
precisamos mesmo de mais gente com visão critica…
Excelentes e corajosos , o comentário de abertura e o artigo subsequente . Para quem viveu os tempos da velha Imprensa , o sentimento é de saudade e de revolta . Os jornais , hoje , parecem ter perdido o sentimento da coragem e da honra . Houve um dia , quando o Brasil vivia sob os anos de chumbo , em que o Estadão teve censurada a materia de abertura da primeira página . Foto e texto sobre a “renúncia”! do ministro da Agricultura . Na redação e diante de todos os jornalistas , Ruy Mesquita ligou para o ministro da Justiça e gritou o seu protesto como até então nenhum outro homem ousara gritar com um ministro militar . E seus companheiros de redação choraram diante de tanta coragem e altivez . Velhos tempos , que não voltam mais …