A grande volta atrás
4 de julho de 2022 § 3 Comentários

O turning point da nossa luta ancestral contra a opressão é o marco da descriminalização das intenções humanas.
Colocar o pensamento e as palavras que os expressam na mesma categoria das obras (que podiam sempre ser “indultadas” mediante o pagamento de módica quantia) na definição do que era e do que não era “pecado” era o que justificava a tortura e, na sua projeção política, o reinado do terror.
_ Pensou ou não pensou?
_ Juro que não pensei…
_ Pensou sim, confesse! E aquela frase que você disse ou que fulano disse que você disse?
E tome ferros em brasa nas carnes até a “confissão” e a fogueira final no “auto-de-fé” para livrar o mundo dos “puros” desses hereges emissários do demônio.

Como evitar que a impossibilidade da prova transforme esse ”crime” numa indústria de denuncias para eliminar desafetos e trapacear na luta pelo poder e pelo dinheiro?
A obra, sim, é matéria. Pense-se o que quer que se tenha eventualmente pensado, o que se FEZ é o que permanece. Ou o acusado matou ou não matou. Ou roubou ou não roubou. Ou construiu ou não construiu. E isso é o que está ou não esta lá.
Que cada homem seja julgado pela sua obra. Os pensamentos e as palavras são de cada um e assim devem permanecer. Não é mais que isso, essencialmente, a revolução protestante. O que ficou famoso foram as 95 teses marketeiramente afixadas na porta da igreja de Wittemberg em 1517. Mas um ano antes Lutero já tinha publicado os Comentários á Carta dos Romanos onde discutia os três pés de barro da doutrina católica pervertida para servir ao absolutismo monárquico: o conceito de pecado, a questão das obras e a questão do livre arbítrio.

Rios de sangue e de lágrimas foram vertidos. Tudo isso foi sofrido, tudo isso foi foi pensado, resolvido e descartado. Cada passo nessa estrada é um marco da civilização:
- em 1439-40 Guttemberg inventa sua prensa; rompe-se a censura milenar e os livros escritos à mão – a Bíblia antes de todos – começam a vazar das bibliotecas trancafiadas dos conventos beneditinos para as prensas e delas, multiplicados e “baratos”, para qualquer público;
- em 1517 Lutero grita aos quatro ventos as provas de que era mentira o que os padres diziam ser “a palavra de deus”;
- em 1534 a volúpia de Henrique 8º expulsa a igreja do papa, funda a Igreja Anglicana, abre a Inglaterra aos perseguidos do mundo e a humanidade passa a viver a sua primeira experiência de tolerância para com a diferença desde o início dos tempos;

- em 1603 James I inaugura a dinastia dos Stuart e, para conquistar os mesmos poderes dos reis absolutistas do continente, inventa um tribunal controlado pela igreja emitindo sentenças orientadas pela política para concorrer com o de Common Pleas de desde sempre, controlado por juizes emitindo sentenças orientadas pelo que sempre tinha sido considerado justiça;
- em 1605 Edward Coke, juiz supremo, declara o rei under god, significando que ele não tinha mais o poder de substituir os fatos por “narrativas”, e under the law, ainda que acima do resto dos homens;
- em 1690, um século e meio depois da liberação da convivência com a diferença, John Locke escreve o Ensaio sobre o Entendimento Humano que eleva a tolerância a marco inegociável de todas as relações humanas;

- em 1748 Montesquieu, influenciado por Locke, formula a teoria dos três poderes no seu O Espírito das Leis;
- em 1787 a Convenção da Filadélfia aprova a Constituição dos Estados Unidos da América que recria a democracia;
- em 1948, para banir a barbárie do planeta, a ONU proclama a Declaração Universal dos Direitos Humanos que inclui os direitos à vida, à liberdade de pensamento, de crença e de expressão, ao fim da tortura, à presunção da inocência, ao devido processo, à igualdade perante a lei, etc…
Mas, meio milênio depois, está tudo de volta à mesa…

Não ha como restabelecer a criminalização das intenções humanas sem recolocar em cena tudo que obrigatoriamente vem com ela. Ao reabrir essa discussão o Brasil, a criança estuprada pela Contrareforma, que matou Tiradentes e fez-se ”Império” enquanto o mundo entregava-se à democracia, namora perigosamente um retrocesso ao século 16, e mergulha de cabeça de volta à era da Inquisição.
Ha quatro anos andamos atolados no golpe que não houve, na propina que não foi paga, no estupro que não aconteceu, no disse que disse … censurando, “cancelando”, prendendo e arrebentando hereges e até suas famílias em nome de pecados por pensamentos e palavras, enquanto “indultamos” os autores de obras monstruosas mediante o pagamento de módicas quantias.
E tudo isso com os protagonistas dessa grande volta atras ainda na oposição, sem os poderes todos do Estado de que voltarão a se armar se saírem dela…

Jornalixo x Jornalismo: a eterna batalha – 4
8 de fevereiro de 2022 § 3 Comentários

Havia menos de 50 jornais nos EUA em 1776 e mais de 250 em 1800. Eram muitos milhares na virada do século 19 para o 20.
Com a decolagem esfuziante dos Estados Unidos nos primeiros ¾ do século passado, depois de derrotado o nacional socialismo, o conceito de democracia foi universalmente adotado, ao menos como sonho. Até as ditaduras do internacional socialismo precisavam vender-se como “democracias excessivas” e incluir no seu figurino institucional elementos que ao menos se parecessem com instituições democráticas.
O jornalismo e sua ”freguesia” resistiram bravamente apesar do persistente mutirão do jornalixo desde Walter Duranty, progressivamente subsidiado pelo trabalho da “intelligentsia orgânica”, que se foi tornando hegemônica nas universidades e nas artes na medida em que ia desaparecendo a memória viva das duas Guerras Mundiais.
Para “justificar” o massacre de cada década – o da China, o de Cuba, os da Europa do Leste, os do Sudeste Asiático, o da Coréia do Norte e da China de Xi Jinping – usou-se primeiro os termos de Gramsci. Mas admitir que onde está bem plantada ela só pode ser destruída por dentro, a partir de uma deliberação da maioria contra si mesmo, e que só uma trapaça pode produzir esse efeito, o resumo da tese do teórico comunista italiano e a definição da essência do jornalixo, homenageia a superioridade moral da democracia que seus inimigos sempre lhe negaram ao longo do século 20.

Depois da internet a luta contra a democracia “burguesa” se foi paulatinamente transformando, de uma disputa entre verdades concorrentes, na destruição do próprio conceito de verdade, o que inclui o reconhecimento da relação indissolúvel entre democracia e verdade.
Mas essa história, como toda a História da Humanidade, pouco tem a ver com racionalidade.
A legislação que restringia o crescimento sem limites das empresas proprietárias de rádios, TVs e jornais nos Estados Unidos foi reforçada em 1975, a data que marca o apogeu da democracia.3, pela Federal Communications Comission, uma agência criada nos anos 1930 não para se preocupar com conteúdos, mas para regular o uso das concessões de frequências de rádio e, mais tarde, também de TV.
Sempre sob ataque e roídas aqui e ali, as regras da FCC de 75 sofrerão o primeiro golpe fatal sob os eflúvios da “bolha” da internet e da ignorância dos legisladores sobre a nova tecnologia e suas implicações, com o Telecomunications Act de Bill Clinton de 1996.

Sob a pressão dos produtos a preço vil do trabalho quase escravo e do roubo de propriedade intelectual dos sobreviventes do socialismo convertidos ao “capitalismo de estado” inundando seus mercados e matando empregos, os legisladores americanos, na mais absoluta dúvida sobre o que fazer, inverteram o ônus da prova contra a acumulação de poder na mídia. O parágrafo 202 determinava que o FCC revisse suas regras a cada dois anos “modificando as que não conseguisse demonstrar serem de interesse público”.
A “razzia” resultante começou pelo setor de rádios. Entre 1996 e 2002 operações de fusão e incorporação envolveram mais de 10 mil emissoras. Ao fim daquele ano, apenas três grandes cadeias já controlavam 80% dos ouvintes e do mercado publicitário.
Sob o silêncio da mídia diretamente interessada no processo, cada nova fusão aprovada na Justiça criava um precedente em favor de regras “mais realistas” para um mundo onde a opção era “crescer ou morrer” para opor monopólios aos monopólios chineses. “A multiplicação dos sites de informação”, diziam, “compensa de longe a quantidade de rádios, jornais e TVs fechados ou fundidos”. Ficava debaixo do tapete o “pormenor” de que esses sites, como até hoje, não produzem nem apuram informação, apenas reproduzem e debatem as que a imprensa profissional levanta ou qualquer aventureiro inventa.

Na “era Bush” o FCC deixa cair a máscara. Cumprindo um prazo legal convoca, em plena mobilização do país para a Guerra no Iraque, uma votação de seus cinco membros em 2 de junho de 2003 e derruba o embargo à propriedade cruzada de jornais e TVs, extende para 45% o limite de audiência das grandes redes, altera as exigências para a propriedade de múltiplos canais e tipos de TV. E tudo se passa sob exemplar “patrulha do silêncio” conforme medido pelo Project for Excelence in Journalism. As três grandes redes de TV mencionam o assunto pela primeira vez apenas na véspera da votação.
Em 1983 quando escreveu um livro sobre o encolhimento da imprensa independente nos EUA, Ben Bagdikian, reitor da Berkley Graduate School of Journalism, mostrou que os americanos se informavam, naquele momento, com base em notícias produzidas por 50 empresas diferentes. Em 2004, na 7a revisão do livro, sobravam só seis conglomerados gigantes, com faturamento de bilhões, que não eram nem empresas de informação nem empresas de entretenimento. Possuiam TVs, jornais, rádios e editoras; produtoras e distribuidoras de filmes; gravadoras e distribuidoras de musica assim como empresas promotoras de shows; times esportivos e estádios onde se dão os campeonatos que só elas transmitem, e assim por diante…

A crise do modelo de negócio das empresas jornalísticas completou a aniquilação da cultura do jornalismo democrático que se vinha apurando no processo orgânico descrito nesta série entre os praticantes dessa arte e seu público não redutível a manuais de melhores práticas de gestão corporativa. O poder e as prioridades, nessas empresas, passaram das mãos das áreas de jornalismo – de quem se esperava o comportamento de um fiscal do poder público orientado por um sentido fundamentalmente ético – para as áreas administrativas – de quem se exige o comportamento de agentes implacáveis da expansão da riqueza de um grupo de acionistas. E como é impossível, mesmo para jornalistas experimentados, controlar à distância uma redação que lida com uma realidade nova a cada fato e tem de processá-los em questão de horas, para um administrador de empresas, que dessa história toda contada até aqui não sabe nem uma linha e, em geral, tem raiva de quem sabe, isso é absolutamente impossível.
E como é nelas que se decide o jogo do poder nas democracias, mesmo as melhores redações do planeta, com raríssimas exceções, tornaram-se totalmente imunodeficientes ao assédio do jornalixo.

Quem venceu a eleição americana?
28 de janeiro de 2021 § 25 Comentários
O NYTimes noticiou no fim-de-semana que Mark Zuckerberg, o dono do Facebook e do Instagram, “convocou a Suprema Corte das suas redes sociais” para reavaliar sua decisão de banir para sempre o ex-presidente Donald Trump e as redes de mensagens através das quais se comunicavam os seus apoiadores.
É mais uma etapa do processo de “obsolescência planejada” daquela democracia fundada pela Constituição assinada por “We, the people”, em 1788 que, na 1a Emenda do seu segmento conhecido como “Bill of Rights”, proíbe o Estado americano de dizer que tipo de crença é boa ou ruim, e de cassar a palavra a quem quer que seja.
Se os Estados Unidos da América não podem fazê-lo, Mark Zuckerberg e as empresas privadas podem. Quem se importa, portanto, com o processo do congresso dos representantes eleitos do povo para o impeachment futuro do presidente pretérito? Ou com o que possa vir a decidir a respeito a outra Suprema Corte se e quando for acionada? Qualquer que seja a sentença dessas instituições obsoletas será anulada de facto se destoar da já passada pelos cinco donos do FATGA (Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon): existirá, politica e economicamente, quem eles concederem voz e canal para trabalhar; simplesmente deixará de existir quem for “cancelado” das redes…
Este o quadro simples e objetivo do atual estado da democracia moderna no seu berço de nascimento que levou o historiador britânico Niall Ferguson a afirmar em artigo recente que os “novos governantes”, que é como, já em 2018, um artigo da Harvard School of Law chamava os donos do FATGA, “foram os verdadeiros vencedores da eleição de 2020” pois, “com essa demonstração de força incontestada as companhias, que transformaram a rede mundial, de uma plataforma originalmente descentralizada num ambiente hierárquico oligarquicamente organizado cujo acesso eles controlam e que exploram para fazer dinheiro e comprar poder”, estabelecem, agora oficialmente, “uma dominância sobre a esfera publica inédita na História desde a que teve a Igreja Católica de antes da Reforma Protestante”.
Definida a nova fonte primária do poder, a história se repete. Estabelece-se um sistema de cooptação e proteção mutua entre o(s) papa(s) (da internet) e os reizinhos locais (nacionais), cada um com seus respectivos cardeais e barões, para o estabelecimento de mais um “reich de mil anos”…
Ferguson abria seu artigo citando George Orwell que dizia que “Enxergar o que está diante dos nossos narizes requer uma luta constante”. O que está vendo hoje quem ainda quer enxergar é o fim de um processo que começou com a reforma do Telecomunications Act de 1996 que derrubou as barreiras antitruste na industria da informação, primeiro passo para a derrubada das barreiras antitruste de todo o resto da economia americana. Elas proibiam a propriedade cruzada de jornais, rádios e televisões assim como o controle de mais de 35% da audiência em cada praça em nome da proteção da diversidade de informação e de opinião sem as quais a democracia por definição não existe. É na famosa “Seção 230” dessa mesma lei que inscreveram-se, inadvertidamente, as 26 palavras que fizeram da internet o monstro em que se transformou ao isentar os donos de plataformas de rede de responsabilidade legal pelo que se publica nelas sem no entanto impor-lhes qualquer obrigação quanto a garantias de livre acesso do publico a elas.
Não se imaginava então que as redes seriam o que são mas, de lá para cá, a Seção 230 ganhou o efeito prático de uma licença para roubar e, da propriedade cruzada de todos os meios de comunicação velhos e novos evoluiu o FATGA para a deglutição de todas as gravadoras, teatros, livrarias, arquivos públicos ou privados e bibliotecas, primeiro, e para a propriedade das lojas de tudo; das invenções, dos passos e dos segredos de cada um de nós; dos meios de processamento do sistema financeiro planetário e de pagamento das transações da internet (alguns já estão na fila até para emitir moeda virtual) e do próprio esqueleto físico (o backbone) que mantém as redes sociais em pé.
A reformulação do Telecomunications Act coincidiu com a globalização virtual dos mercados e a inundação do Ocidente pelos produtos dos monopólios larápios do capitalismo de estado chinês e seus pupilos e assemelhados (entre estes o próprio FATGA), que não respeitam nenhuma lei nacional, internacional ou humanitária senão a que amanhece na cabeça do dono de plantão do partido único, das forças armadas e de todos os meios de comunicação e de produção da metade do mundo vítima do socialismo que cada um deles distribui como quer aos barões que aceitam comportar-se como barões.
Hoje os Estados Unidos e o mundo inteiro amargamente sabem que as “reduções de custos” dadas pela “escala de produção” são obtidas mediante a redução dos salários em níveis só possíveis mediante o esmagamento da liberdade de escolher patrões e fornecedores garantido pela crescente monopolização da economia, mas é tarde. O Ocidente entregou sem luta os milênios de sangue, suor e lágrimas que lhe custaram a substituição da lei da selva pela arquitetura de proteção legal à dignidade e ao valor do trabalho que definiram o ápice da sua civilização. Em vez de proteger suas conquistas condicionando o acesso aos seus mercados ao respeito a elas, achinezou o seu mercado de trabalho e o seu ambiente empresarial, o que agora requer o achinezamento do seu sistema político que os xi jinpings da internet que se permitiu abrigar em seu seio estão se deixando docemente constranger a providenciar.
Desde o primeiro momento enxerguei no start de 1996 um final parecido com este, como poderão conferir os leitores do Vespeiro na transcrição publicada aqui da conferência “A ameaça da imprensa corporate”, de 2005 (neste link). Mas o processo foi quase absolutamente ignorado pela imprensa do mundo inteiro que, produto de empresas familiares despedaçadas pelo ataque predatório das redes sociais num momento de troca de gerações, entrou em colapso pela combinação da ocupação de suas diretorias por neófitos alheios à função institucional do jornalismo e o consequente aparelhamento ideológico das redações.
A famosa “tempestade perfeita”…
Fazer as coisas voltarem ao trilho da civilização não seria nenhum bicho de sete cabeças. O falso problema da “verdade” contra a “mentira” está superado, em termos filosóficos desde sempre, e em termos práticos desde 1788 e a 1a Emenda à Constituição americana já mencionada acima. Ou cada um tem liberdade para dizer o que quiser e escolher o que quer ouvir ou em que quer acreditar, ou quem for mais forte decidirá por todo mundo com poder de vida e morte sobre os dissidentes. A História não registra outra alternativa. E como as plataformas de rede da internet são, legalmente falando, um espaço privado, mas com funções e atribuições próprias do espaço público, o que tem de prevalecer para elas nessa matéria são as regras que valem para o espaço público no mundo físico e ainda estão inscritas na Constituição e nas leis americanas. Contra o excesso de poder dos xi jinpings do FATGA e assemelhados, o remédio também é conhecido e testado nos Estados Unidos desde a virada antitruste do século 19 para o 20. Embora não seja uma panacéia como nada é, vai pelo mesmo rumo da legislação que, no seu primeiro grande embate, dividiu a Standard Oil em 34 companhias diferentes em 1911.
O problema a ser superado, entretanto, não é apenas o técnico, é, principalmente e como sempre, o da corrupção pelo poder adjacente ao processo de agigantamento das big techs. E este, sem imprensa, toda ela no bolso do FATGA e pedindo censura, nem Joe Biden, nem os dirigentes europeus, nem muito menos a pequena política e a intelligentsia que viveram os últimos 200 anos de tecer loas ao “trabalhador” hoje massacrado pelos monopólios que eles ajudaram a construir e dos quais agora dependem dão qualquer sinal de estarem dispostos a endereçar.
Mas este é o tema dos próximos artigos.
A morte da democracia não dará manchete
14 de janeiro de 2021 § 26 Comentários
As decisões dos últimos dias que, em fulminante sequência, foram em poucas horas do congelamento temporário ao banimento definitivo da conta do presidente eleito dos Estados Unidos da América em todas as plataformas do grupo Facebook, seguido do seu banimento definitivo do Twitter e do Youtube e, finalmente, do desligamento da rede social Parler inteira dos serviços de “cloud computing” da Apple, do Google e da Amazon, assim como à expulsão do aplicativo dessa rede de suas lojas monopolistas, foi sem duvida o maior golpe já assestado contra a democracia em todos os tempos.
Como já tive oportunidade de dizer antes, não vai parar onde já chegou…
O confronto de Donald Trump com a lei democrática referendada pelo povo é supérfluo. A sentença que interessa hoje é a privada, e esta já está passada. As grandes plataformas de internet não estão suficientemente descritas como aquilo que realmente se tornaram na legislação americana ou em qualquer outra de país democrático, mesmo porque tal quantidade de poder acumulado não cabe numa ordem institucional descrita como tal. O regulador, como o marido traído, é sempre o último a saber. O tempo que o Estado leva para entender cada nova configuração do mundo em permanente mudança que ele está mandatado para regular é o espaço que se abre para os “robber baron’s” ocuparem na economia e na política, os dois “nomes artísticos” do Poder, aquele que corrompe sempre e corrompe absolutamente quando é absoluto, que vêm junto com toda grande inovação tecnológica disruptiva. Mas já nem este é mais o caso ha um bom tempo. Essas empresas violam dezenas de leis de todos os países onde estão instaladas sob as vistas grossas da autoridade porque a corrupção que esse hiato entre a realidade e a ação do regulador proporciona, gigante nesta que é a maior de todas as disrupções já vividas pela nossa espécie, trabalha freneticamente no sentido de perpetuá-lo…
A Seção 230 do Telecomunications Act de 1996, contem as famosas “26 palavras que criaram a internet”: “No provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider” (Nenhum provedor ou usuário de serviços de computação interativos deve ser tratado como o editor ou a fonte de qualquer informação levantada por outro provedor de informações). Ou seja, essa lei estabelece que, no que diz respeito à responsabilidade legal, a internet deve ser tratada como uma banca e não como um editor de jornal. Sem ela seria impossível, por exemplo, qualquer site de critica de restaurantes ou de queixas de consumidores contra o que quer que seja. Essa era a boa intenção a justificar tal lei…
Mas de boas intenções o inferno está lotado. Em 1996 não estava claro ainda que a mesma rede a quem aquela lei dava, de passagem, direito de veicular o trabalho de todos os jornalistas do mundo e revende-lo sem pagar-lhes um tostão por isso, e que, empoderando-se politicamente e municiando-se financeiramente com isto, não encontrou mais qualquer obstáculo para transformar-se no canal monopolístico de armazenamento, veiculação e comercialização de todo conhecimento escrito, gravado ou filmado ao longo de toda a história da humanidade, seria a mesma que iria estruturar a totalidade do comércio e da prestação de serviços online, deter o monopólio dos sistemas de pagamento e processamento financeiro de vendas, fornecer as únicas vias existentes de trabalho à distância e o mais que nós já sabemos ou ainda vem por aí.
Aquela peça de legislação não só propiciou a acumulação em velocidade meteórica da fortuna desses quatro senhores, hoje maior, cada uma delas, que o PIB da maioria dos países do mundo, dispensando-os de qualquer responsabilidade, seja pelo que publicam, seja pelos crimes econômicos que cotidiana e sistematicamente cometem (da exploração do trabalho vil nas chinas da vida ao dumping selvagem em todo o resto do mundo; do roubo sistemático de informações privadas à venda forçada de seus produtos pela obsolescência planejada precoce), como condenou à morte por competição desleal todo tipo de imprensa independente. E, como pá de cal, pôs a perder a efetividade da 1a Emenda da Constituição Americana, que não por acaso é a que abre o segmento conhecido como “Bill of Rights” do documento que, pela primeira vez na história da humanidade, pôs o povo em condições de mandar nos reis.
“O congresso (dos representantes eleitos do povo no “governo do povo, pelo povo e para o povo”) não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente…”. Mas os quatro trilionários das redes que animam as imitações do mundo onde realmente se vive hoje em dia podem. Ao manter a definição das “empresas” desses senhores como empresas privadas como outras quaisquer, da-se-lhes o direito, como ao dono da padaria da esquina, de proibir a entrada em seu estabelecimento de gente sem sapato ou qualquer outra forma de discriminação que caiba na lei que lhes der na telha estabelecer como “regra da casa”, aí incluída a sua particular definição de verdade e de mentira.
Se não se origina dentro do Estado, como pela primeira vez é o caso, a força que detém esse poder transforma-se no Estado, isto é, “aquilo que está posto pela força” ou, dito de outro modo, o grupo de homens (porque tudo, sempre, não passa, no fim, de um grupinho de marmanjos) que detém o monopólio do exercício da força e, sendo assim, decide quem continua vivo e quem morre.
Não me venham com a “discussão filosófica” que essa imprensa aliada ao novo Leviatã – e que a qualquer momento será “cancelada” por um peteleco de algum dos quatro triliardários – quer fazer acreditar que ainda cabe. Essa é uma questão resolvida ha mais de 200 anos. Não existe meio termo que se tenha materializado na História. Ou cada um tem o direito de decidir por si mesmo o que quer ouvir ou não, e de decidir o que é verdade e o que não é, ou será dado a alguém o poder de faze-lo por todos. E como, fatalmente, esse poder dado a quem quer que seja evolui para o de decretar quem morre e quem continua vivo, a humanidade aprendeu que é melhor dar ao imbecil o direito de publicar sua imbecilidade que ao filho da puta o de decretar quem deve viver ou morrer.
O resto é o de sempre. O grande espetáculo da covardia, da cumplicidade, da sabujice em relação ao poder que fez vomitar os Diógenes de todos os tempos. Por maior que seja o seu poder, os chefes de todas as tiranias da história precisam de uma corte que os aplauda, que os sustente, que os ajude a vigiar e a reprimir o povo que todos ordenham juntos, e compra essa corte com a distribuição de privilégios, ou seja, dando-lhe o direito de sustentar-se do trabalho alheio.
Não ha nenhum grama de honestidade no discurso dessa imprensa que trabalha para por e manter o Leviatã onde está. Democracia é o fim do privilégio. Anti-democracia é a continuação do privilégio. Ponto. Assim como a China ocupou espaço no mercado internacional até tornar-se imprescindível e então mostrar sem mais disfarces o que nunca deixou de ser com Xi Jimping, seu poderio militar, o genocídio Uigur, o estrangulamento de Hongkong, a anexação de Formosa, a ocupação de ilhas do Japão e o mais que está prometido e virá sob o silêncio cúmplice de todos os vendidos aos “negócios da China”, assim também as grandes plataformas da internet.
A censura vem há anos de ensaio em ensaio. Um “cancelamento” aqui outro ali, “execuções” à Stálin, sempre envergonhadas, mantidas no porão para não repercutir, foram atestando o óbito da liberdade de pensamento de órgão em órgão da imprensa tradicional ao redor do mundo. Nos periféricos primeiro e, na ausência de reação destes, nos próprios órgãos centrais na sequência. Uma vez garantido que a morte da democracia jamais dará manchete, os moleques dos trilhões sentiram-se seguros o bastante para dispensar a máscara pegada à cara.
A ver agora se e como a democracia americana, cuja essência e força estão nos municípios e nos estados, conseguirá vencer a dependência das redes para reagir à altura.












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