Na expectativa da devassa, big techs tentam seduzir Trump
15 de dezembro de 2024 § Deixe um comentário

Depois de Mark Zuckergerg, da Meta/Facebook, e Jeff Bezos, da Amazon, Sam Altman, CEO da OpenAI, é a mais recente figura de destaque no setor de tecnologia a doar US$ 1 milhão ao fundo para a inauguração do governo Trump, que promete uma devassa nas relações carnais havidas entre essas redes, a comunidade de espionagem do governo americano, o Departamento de Estado e a Casa Branca sob Biden, na promoção de censura e nas operações para influenciar eleições em diversos países do mundo, o Brasil entre eles.
O que ha de mais “fake” que as “fake news”
10 de janeiro de 2022 § 14 Comentários

O empreendedorismo é o domínio do instinto. Não é para quem quer é para quem é. A política e seu produto por excelência na democracia — a lei — é a superação da que rege o instinto e manda todo bicho “usar sua força para comer o mais possível sempre que a ocasião se apresentar”, um movimento concertado de defesa das presas contra os predadores que acaba por ser acatado até por esses últimos quando a História os ensina a pensar adiante da próxima refeição.
A informática não mudou rigorosamente nada na essência das relações humanas que já foi bem precisamente sintetizada no adágio de que “o homem é o lobo do homem”. Ela criou uma reprodução matemática do mundo real sujeita não mais às velocidades e multiplicações do universo da História e do mundo físico mas às próprias a essa ciência abstrata, o que subverteu violentamente as noções de espaço e tempo, fundamentos do conhecimento humano, com implicações altamente disruptivas nas aplicações que daí decorrem, especialmente as ligadas à produção e à transação de bens e riquezas e, mais que para todas as outras, para a capacidade de cada nação de impor leis precisas, estáveis e bem delimitadas como têm de ser as das raras democracias de fato existentes.

Como sempre, desde o controle do fogo, do arco e da roda e da domesticação dos animais, das plantas e dos metais, essa disrupção proporcionou aos “predadores alfa” da política e da economia explorar os vazios de regulamentação que se abriram com a violência e o oportunismo que o instinto lhes pede. Sob a bandeira da “reforma da humanidade” de sempre, o Google auto-atribuiu-se o direito de mudar as regras do ciclo de vida da informação espionando, indexando e tornando acessíveis para todo o sempre os pormenores das manifestações de preferência e trocas de informações entre cada um dos seres humanos sem pedir licença a ninguém, ato criminalizado em todas as legislações do mundo para todas as tecnologias não baseadas em bits.
Em paralelo, na melhor técnica do malandro que atrai a vítima sempre com a promessa de benefícios impagáveis, copiou e indexou a informação coletada e sistematizada por profissionais de todos os campos do saber em todos os tempos sem pagar direitos a quem trabalhou para produzi-la, outro crime tipificado para todos os meios anteriores, e entregou o produto desse saque planetário como um “presente grátis” a quem antes tinha de pagar por ele, “apenas” em troca da livre espionagem dos hábitos, preferências, intimidades e roteiros dos consumidores desse “serviço”. E então amealhou uma fortuna indecente vendendo os segredos de cada eleitor e cada consumidor aos tubarões da política e da economia.

Escancarada a porta, por lá passaram as boiadas da Amazon e do Facebook, as “ferrovias” de hoje com seu séquito de robber barons de vida curta, comprados com baratos bilhões para colocarem-se à salvo sem incomodar ou concorrer, e todo o resto das mazelas que conhecemos, com as Apples no fim da fila, explorando nas chinas da vida o trabalho escravo pelo qual seriam presas em casa e arrastando todos os seus concorrentes para o mesmo atalho que matou, numa só cajadada, séculos de conquistas dos trabalhadores nas democracias, tudo sob o silêncio cúmplice da política podre que finge não entender a exata semelhança entre os crimes dos donos das big techs e seus caronas de hoje e os dos robber barons de ontem.
Agora, montados nos trilhões de dólares amealhados com esse tipo de “competência”, já se sentem fortes o bastante para desafiar as maiorias de frente com a censura explícita e a incineração virtual dos “hereges” em autos-de-fé públicos mediante os quais ficam “cancelados” não só das tribunas a partir das quais a política captura os votos necessários para deter essa gigantesca falcatrua como também da vida econômica que migrou totalmente para a reprodução virtual do mundo real.

Em maio de 2014, depois que a Agência de Proteção de Dados da Espanha reassegurou a um professor o direito de ter o seu passado esquecido, a União Européia como um todo, mais “freguesa” que proprietária das mega multiplataformas da internet, restabeleceu o princípio de que o futuro da vida digital deve ser estabelecido pelas pessoas, suas leis e suas instituições democráticas e não por qualquer grupo de moleques montados numa tecnologia nova o bastante para não ser imediatamente compreendida, em seus meandros e processos, nem pelos seus usuários, nem muito menos pelos legisladores, o que recoloca nos seus devidos termos a questão decisiva deste início de 3º Milênio marcado pelo desvio do “capitalismo de espionagem” (surveillance capitalism) que só pode prosperar com a morte da democracia.
O atual impasse prende-se mais à corrupção que às dificuldades técnicas envolvidas. Não é preciso inventar nada de conceitual ou filosoficamente novo, como querem fazer crer os enganadores de sempre, apenas submeter as big techs e suas praças públicas virtuais às mesmas leis que enquadraram os robber barons do passado e garantem o exercício dos direitos fundamentais do homem nas praças públicas físicas (à propriedade, à sua intimidade #ownyourdata, à liberdade de crença e expressão, ao devido processo, etc.), impondo aos tecnólogos, como condição para operar seus aplicativos, plataformas e redes, a busca das soluções necessárias para implementar essas garantias.
Sim, conseguir são outros 500. Mas ser obrigado a tentar é tudo que sempre fez a humanidade andar para a frente…

Quanto ao gigantismo que desenvolveram violando as leis que todos os seus concorrentes eram obrigados a cumprir, vale o mesmo princípio. A democracia se reapresentou ao mundo em 1787 com a missão de evitar a criação de superpoderes no universo da política com a bandeira de que somente cada indivíduo tinha o direito de escolher o seu modo de alcançar a felicidade e definir o que era ou não “fake” para ele em matéria de pensamentos e crenças, o que lhe deu um impulso inicial brilhante mas não suficiente.
Na virada do século 19 para o 20, refém da corrupção gerada pelo seu principal “defeito de fabricação” que foi a blindagem, ainda que temporária, dos mandatos dos representantes eleitos contra seus eleitores, acrescentou à sua lista de objetivos prioritários, mediante o aparato antitruste que só pôde impor depois de armar a mão do eleitor para dar a palavra final sobre cada ato dos seus representantes, a prevenção da criação de superpoderes também na economia privada, o que pôs em cena o único “estado de bem estar social” que jamais se materializou no mundo real: não o que o socialismo prometia autorizando o governante de plantão a distribuir dinheiro alheio entre seus amigos e correligionários mas aquele que Theodore Roosevelt dotou do moto continuo naturalmente invulnerável à politicagem da limitação da competência para açambarcar mercados pela manutenção obrigatória do grau mínimo de competição necessário em cada setor da economia para obrigar os empreendedores a disputar trabalhadores aumentando salários e consumidores reduzindo preços, com o Estado estritamente no papel de árbitro.

Foi esse o truque simples que fez dos Estados Unidos o que são (estes em que o PIB do estado de Nova York equivale ao do Brasil inteiro e o dos outros 49 estados é “lambuja” e não aquele que nossa imprensa mostra) e propiciou que arrastassem a humanidade inteira atras de si para patamares mais altos de liberdade, afluência e progresso da ciência ao longo de escassos ¾ do século 20 que os alcançados na soma de todas as centenas de séculos anteriores.
Agora quer a horda dos reacionários a volta ao padrão anterior a 1787, com sua igreja ditando o que é e o que não é “verdade” e calando quem discorda na marra em nome da “defesa da democracia”.
“FAKE“!
A tergiversação em torno dessa empulhação, do gigantismo das big techs e de todos os seus nefandos corolários explica-se pelos trilhões acumulados pelos modernos robber barons, que engraxam tanto os que correm atras do poder de explorar o próximo pela via da economia quanto os especializados em faze-lo pela da política, muito mais que por qualquer dificuldade técnica para corrigir o rumo e aplicar a elas regulamentos honestos, democráticos e limpos.

Pela volta da boa e velha liberdade
27 de outubro de 2021 § 27 Comentários

O cientista político americano Ian Bremmer publicou na última Foreing Affairs uma análise sobre este mundo controlado pelas big-techs tão interessante pelo que diz quanto pelo que não diz.
Constata ele que neste “momento tecnopolar” de um mundo onde não há mais lideranças globais, as mega empresas de tecnologia estão se tornando mais atuantes, geopoliticamente falando, que os governos, exercendo plena soberania sobre o mundo digital. “São eles que criam a arquitetura que define esse espaço, os algoritmos que determinam o que acontece dentro deles e as leis (os longos, ilegíveis e cambiantes ‘termos e condições’) que estabelecem quem pode participar deles e sob quais condições”. E conquanto o mundo digital – “qualquer coisa que inclua um chip e seja definido por dados” – seja, cada vez mais, tão ou mais importante que o mundo físico, sendo nele que nós gastamos dinheiro, digerimos informações, interagimos socialmente e nos protegemos, não é mais um mundo regido pela lei garantida pela força dos governos eleitos mas sim por companhias privadas que atuam como as única autoridades.

Ele dá dois exemplos bem americanos para ilustrar seu ponto. Nos acontecimentos de 6 de janeiro (tentativa de invasão do Capitólio por partidários de Donald Trump), que podiam afetar o futuro da nação, não foi o governo que reagiu bloqueando redes de comunicação, “desplataformizando” o presidente eleito em exercício e identificando os participantes do ataque, quem fez isso foram as big-techs. Também no maior ataque direto à segurança dos EUA e seus aliados no ano passado – a mega tentativa de hackeamento batizada como a dos “Ventos Solares” – não foram governos que reagiram e responderam mas, de novo, as big-techs. “Hoje, para ter a maior influência sobre a próxima eleição americana, é melhor ser o CEO do Facebook que o presidente dos Estados Unidos”.
Retomando sua tese na news-letter do Eurasia Group, dirigida e muito acatada pelos grande empresários e investidores do mundo e, portanto, requerendo respostas para já, Bremmer vê um mundo onde uns Estados Unidos politicamente divididos e economicamente desiguais estarão menos propensos a agir como polícia do mundo e arquitetos do comércio global, uma Europa mais dividida e coletivamente mais fraca, uma Russia em declínio interessada na divisão geral e uma China mais forte e interessada em construir um modelo para disputar a governança econômica e política do mundo.

Para ele o protagonismo das big-techs terá espaço para crescer ainda mais, especialmente em função da paralisia dos Estados Unidos diante do novo desafio. Entre os totalitários, onde tanto as empresas quanto a tecnologia são, antes de mais nada, instrumentos do Estado, não ha dúvida sobre o que fazer. É ele, o dono de tudo, quem determina quais serão os “campeões nacionais” e a serviço de quem estarão. A Europa, para quem as big-techs são, de modo geral, empresas estrangeiras não tão decisivas como motores da economia quanto são da economia yankee, já vem mostrando mais disposição de aplicar nelas a receita de sempre. Regulamentá-las e taxa-las crescentemente, também com as repercussões econômicas e politicas de sempre: corrupção maior e produtos mais caros, na medida inversa das “tradições religiosas” de cada país.
Onde mais obscura se torna a visão do americano Bremmer é quanto ao que esperar das big-techs nos Estados Unidos. Para um leitor desse nosso vasto mundo antidemocrático sempre parece enigmático deparar-se com os traços característicos da democracia americana, especialmente quando eles se manifestam diluídos em uma cultura que, para eles é natural e para nós, soa naïve.

Quando trata do problema no seu país a relação deixa automaticamente de ser, na cabeça de Bremmer, um embate entre o Estado e o Capital. Seu olhar fixa-se em como cada uma das big-techs vê-se a si mesma e à sua relação com o governo e perde-se em divagações ao mesmo tempo doces e amargas porque são registros do que resta da “excepcionalidade” americana … e do desligamento da atual geração dos fundamentos que lhe deram consistência.
Não subestimo a imensa dificuldade técnica subjacente ao problema do controle desses monstros em meio à competição com os monopólios estatais chineses. Mas, independentemente disso, a questão essencial do agigantamento das big-techs é velho como o mundo. E ninguém o tratou, nem antes, nem melhor que os americanos na batalha antitruste da virada do século 19 para o 20.
O engano principal de hoje é conceitual. Esse “mundo digital” ocupa o espaço antes conhecido como “espaço público”. É ele a cidade, o mundo, as praças e as ruas onde se dão as relações sociais e, muito mais especial e essencialmente hoje, as relações econômicas entre todas as pessoas. É onde acontecem o trabalho e as trocas. É onde se cria e se expressa a cultura. É onde se dá a luta política.
Só que está privatizado.

O novo espaço público virtual tem de ser regido com as mesmas neutralidade e garantias das liberdades fundamentais que a humanidade conquistou a duras penas para o espaço público físico: a de crença, a de pensamento, a de expressão, a de reunião, a de propriedade, a de inviolabilidade do círculo íntimo, a do devido processo legal e assim por diante. E para que assim seja, é imprescindível, como o movimento democrático aprendeu ao longo de milênios de sangue, suor e lágrimas e vem ensinando nos últimos dois ou três séculos, que se impeça nele, tanto ou mais que no mundo físico, a acumulação de poder excessivo, seja de que natureza for, porque qualquer poder excessivo acumulado pela espécie humana, econômico ou político, mais cedo ou mais tarde torna-se incontrolável e passa infalivelmente a ser exercido para oprimi-la.
Dividir o poder – qualquer poder – é do que trata a democracia. E é também a condição para o resgate da “crise de identidade” em que a humanidade está mergulhando. Dividir o poder das big-techs sem aumentar o poder do Estado, que deve faze-lo de fora do sistema, como árbitro e não como agente, para reconstituir a hegemonia do indivíduo como cidadão, trabalhador e consumidor é a questão. Como fazê-lo é a tarefa dos cientistas e dos políticos. Tecnologia domestica-se com tecnologia. Mas sem partir da pauta correta, entregando tudo aos caçadores de fake news, aos donos da verdade e a outros falsários ancestrais do mesmo naipe, estaremos apenas atando de volta os grilhões aos pés.

É a volta à Idade das Trevas?
2 de agosto de 2021 § 17 Comentários

As três gigantes de tecnologia – Apple, Alphabet (Google) e Microsoft – anunciaram quarta-feira passada um lucro trimestral recorde muito acima do que Wall Street esperava. Amazon e Facebook ainda não divulgaram os seus mas navegam nesse mesmo mar. Elas cresceram explosivamente na pandemia e continuam crescendo explosivamente na pós-pandemia. A expansão exponencial do trabalho remoto e das compras online, da venda das máquinas que dão acesso a esse universo (+50% nas de iPhones), da “propaganda digital” que inclui todos os componentes de espionagem que transformaram a privacidade num doce sonho do passado e ameaçam fazer o mesmo com a democracia (+69% no faturamento dos “anúncios” persecutórios do Google) e dos serviços de suporte a tudo isso na “nuvem” (+50% no Microsoft Azure Cloud Platform) explicam os números. Elas lucraram, em média, US$ 5 bi por semana depois dos impostos, uma soma de US$ 56,8 bi no trimestre, aproximadamente o dobro do que fizeram no mesmo período do ano passado.
Seu poder de corrupção galopa junto com esses números…
No mesmo dia a China anunciou interferência maciça em todos os serviços de educação do país, na sequência de um movimento geral de recrudescimento da repressão a dissidências internas que vão das ações em Hongkong e ameaças a Taiwan ao “genocídio” dos Uigur (como Joe Biden oficialmente o classificou) com “campos de reeducação urbanos” (espécie de condomínios prisionais empilhados) onde já ha mais de um milhão de internados, esterilização em massa das mulheres dessa etnia e, até, como recém apurado pelo NYTimes, a prisão e execução de parentes dos que conseguiram fugir do país.

O anuncio da intervenção generalizada na educação derrubou fortemente as ações de companhias chinesas em Wall Street, começando pelas de educação mas seguindo por uma queda geral das ações chinesas em função da crescente insegurança jurídica que acompanha os sinais que Xi Jimping emite reiteradamente de que já não se interessa tanto em ser considerado “uma economia de mercado”, como um Ocidente sempre rasteiramente ganancioso e politicamente hipócrita apressou-se em fazer contra todos os fatos, pois cresceu e criou dependência suficiente, mundo afora, para achar que já pode baixar na mesa as cartas das suas ambições geo-hegemônicas.
Arrastada por esses macro-movimentos, a periferia vai, aos trancos e barrancos e a partir de um patamar abissalmente mais profundo de falta de proteção social, defesas democráticas e censura generalizada do pensamento, num processo vertiginoso de concentração da riqueza e aprofundamento da miséria. Uma semana antes duas manchetes concomitantes nos jornais brasileiros chamavam a atenção: “Brasil perde quase 30 mil indústrias em 6 anos” e “Arrecadação federal sobe 24,5% e bate recorde”. É a tradução tupi do mesmo fenômeno descrito acima, que resulta de quase meio século de recordes sucessivos de fusões e aquisições de empresas em todos os cantos do mundo.

Cada vez menos gente, faturando cada vez mais, é dona dos meios de produção. E consequentemente, só o Estado, sócio compulsório do Poder Econômico, cresce com essa minoria, ficando a massa crescente dos “proletários” cada vez mais impossibilitada de exercer qualquer direito, a começar pelo de ascensão social e acesso à propriedade como resultado do trabalho (ou seja, livre e independentemente de vassalagem política), num ambiente de monopólios onde ela não pode, nem escolher o patrão, que já não precisa disputa-la aumentando salários, nem escolher os fornecedores, que já não precisam disputa-la reduzindo preços, e depende cada vez mais do socorro estatal.
É esse o resultado do erro crasso dos Estados Unidos e do resto das economias líderes do Ocidente de revogar o sentido antitruste de sua democracia diante do desafio da invasão de seus mercados pelos produtos do capitalismo de estado escravocrata socialista e aceitar combatê-lo “achinezando” o seu mercado de trabalho em vez de taxar o roubo de propriedade intelectual e a ausência de direitos básicos do trabalhador nos produtos autorizados a entrar no seu mercado para favorecer a causa civilizatória na(s) China(s).

No socialismo real, versão redesenhada do absolutismo monárquico agora policiado por computador, toda propriedade pertence ao rei (ou ao dono do partido) e aos barões que se prestarem ao papel de atuar para garantir a invulnerabilidade do rei excluindo da vida econômica os dissidentes, “fator de dissuasão” que, no atacado, é muito mais eficiente que a mera violência física para disciplinar multidões. O mundo, enfim, vai-se “socializando” ao plantar diretamente o resultado final do processo socializante que é concentrar todo o Poder Econômico nas mesmas mãos que detêm todo o Poder Politico, em vez de opor um como moderador do outro, garantida a alternância do Político, como é da receita democrática.
A quebra do paradigma tecnológico foi a pá de cal, não só pelo acesso que deu aos mercados sem consideração de fronteiras, o que tornou impotentes as leis nacionais, como pelo despreparo das instituições democráticas para regulamentar a nova realidade do mundo conectado em rede. Essa é a tarefa que se apresenta agora e para a qual os Estados Unidos começam a despertar com atraso potencialmente fatal. É o mesmo “gap” com que eles se depararam na virada do século 19 para o 20 quando a evolução das técnicas de gestão, que levaram aos “ganhos de escala” na produção industrial (igualmente, na época, à custa da monopolização e do massacre dos salários), viram-se potencializadas pela corrupção política em conluio com a do setor privado proporcionada pela “ferroviarização” do território americano que teve, para a época, o mesmo efeito, guardadas as proporções, que as amazons da vida têm hoje para o pequeno empreendedor: ninguém pode viver sem ajoelhar-se para elas.

Desta vez, porem, o fenômeno é agravado pelo componente adicional da política que, menos ainda, pode viver sem as redes sociais. Estas, embora sejam hoje o que o espaço público foi desde sempre, ainda são reguladas pelas leis das empresas privadas do passado pre-informatizado, o que as isenta de cumprir determinações tão básicas do arsenal de legítima defesa do cidadão contra os tubarões de sempre quanto a Primeira Emenda da constituição americana que garante ao menos voz para todo mundo.
É com um desses dois modelos – o totalitarismo informatizado ou a democracia, sempre correndo atrás das evoluções do crime – que o mundo, cada vez mais inescapavelmente “um só” vai ficar.
Os Estados Unidos terão de reeditar, reescalonadas para termos globais, as suas batalhas antitruste e pelos direitos civis, possivelmente extendendo para o nível federal as ferramentas de democracia direta que deu aos eleitores nos níveis estadual e municipal para passar as reformas da virada do século 19 para o 20 para conseguir safar-se da armadilha e arrastar o mundo com eles como da outra vez, ou o planeta mergulhará numa Idade das Trevas de nos fazer ter saudades daquela em que a outra igreja que queimava “hereges” na fogueira reinou inconteste por quase 1800 anos.

Onde Joe Biden erra a mira
1 de julho de 2021 § 9 Comentários

Retomo de onde parei o artigo de ontem.
O discurso de Brian Deese, diretor do Conselho Nacional de Economia de Joe Biden na semana passada chamou a atenção menos pelas medidas que confirmou – os investimentos federais em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento e incentivos à indústria de semi-condutores – que pelo contexto em que colocou essas ações.
Ele fez um chamamento para uma “estratégia industrial americana para o século 21” com reminiscências dos “planos quinquenais” socialistas, focada em reduzir a dependência de outros países, mais especificamente da China.
É aí que mora o perigo.
Os Estados Unidos, junto com o resto do Ocidente, entraram na “fria” em que estão hoje justamente porque aceitaram jogar o jogo do capitalismo de estado chinês nos termos dele, em vez de impor, como condição para franquear seus mercados aos produtos dos egressos do desastre do socialismo real, que a China adotasse progressivamente as conquistas da civilização ocidental, expressas nos direitos à dignidade e à justa remuneração do trabalho e no respeito à propriedade intelectual.

Em vez de cobrar imposto de produtos de roubo de design e da exploração de trabalho vil, passaram eles a reduzir progressivamente os salários e a procurar falsos “ganhos de escala” pela concentração desenfreada da propriedade dos meios de produção, “achinezando” as economias deste lado do mundo.
A consequência foi fazer com que o americano médio andasse de marcha-à-ré pela primeira vez na historia do país ao longo de 40 anos de recordes sucessivos de fusões e aquisições de empresas, monopolização da economia e concentração da riqueza. Hoje nenhum americano partindo do zero acredita que ele ou seu filho terão acesso ao capital e, portanto, perderam todo incentivo para acreditar que o capitalismo sirva para eles como tiveram razões para crer ao longo de todo o século 20 quando estiveram blindados contra a tentação socialista.
“Se o mercado não resolve”, é o que está no ar agora, “o Estado deve entrar em cena”. Daí o apoio de republicanos e democratas para que o governo, e não mais o mercado, passe a dirigir a economia. Repete-se, portanto, o erro original que iniciou o circulo vicioso que agora promete agravar-se.

O que ha de mais brilhantemente inovador na experiência dos Estados Unidos é justamente o tratamento que Theodore Roosevelt e os “progressistas” deram a esse mesmo problema na primeira vez que ele se apresentou para ameaçar a democracia americana na virada do século 19 para o 20: em vez de contrapor ao inchaço do Poder Econômico um inchaço ainda maior do Poder Político à custa do esmagamento do indivíduo, o toque de gênio foi, ao contrário, impor uma “cirurgia bariátrica” ao Poder Econômico, limitando por lei a ocupação de mercados por uma única empresa, sem aumentar um grama o peso do Poder Político. Outros empreendedores deveriam dividir o prato com o glutão sempre que atingido o limite, mantido o Estado rigorosamente fora da ação econômica direta.
A outra pedra angular da excepcionalidade americana é a 1a Emenda à sua genial constituição, síntese perfeita de tudo que a humanidade aprendeu a duríssimas penas, de toda a sua experiência anterior, que é preciso evitar a qualquer custo: “O congresso está proibido de fazer leis impondo a prática de uma religião ou proibindo o livre exercício da fé; ou reduzindo a liberdade de expressão e de imprensa; ou o direito do povo de reunir-se pacificamente e de peticionar o governo para obter a reparação de agravos”.
Como um precursor da noção de ecologia, um homem que tinha a noção exata da força da natureza e da importância determinante da sutileza – por isso mesmo foi o primeiro a preservar ambientes selvagens em vez de tratar arrogantemente de “recria-los” a golpes de machado – Theodore Roosevelt tratou de manter as condições ambientais para a natural e contínua afluência do proletariado num contexto de liberdade cerceando o abuso do poder econômico e garantindo a intensidade da competição que valoriza continuamente o trabalho, sem por à solta o abuso político.

Hoje TR e as reformas da “Progressive Era” não são cultuados como merecem nos Estados Unidos, possivelmente em função da “incorreção” com que é vista a condição de caçador e esportista da natureza que definiam sua personalidade. E no silêncio que sobre sua obra se impõe perde-se a receita da primeira batalha antitruste da democracia americana cujo estrondoso sucesso abriu as portas ao melhor período vivido por nossa espécie neste planeta.
A 1a Emenda é outra conquista intocável dos americanos para a humanidade. A rede social é hoje o espaço público, e como ele deve ser tratado. É a definição dela e não a 1a Emenda que deve ser reescrita.
Joe Biden inscreverá seu nome no panteão dos heróis da democracia se e quando reconhecer nela a superioridade que tem sobre todos os outro regimes inventados e usar seus poderes para liderar o mundo no uso dos remédios dela – e não dos venenos exógenos que hoje namora – para tratar a presente cepa da doença do Ocidente, que só difere das anteriores na extensão que o contágio alcançou.

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