Trocando o ladrão pelo chantagista

7 de março de 2011 § 1 comentário

Sra. e sr. Jaqueline Roriz: safra 2006

Mais um escândalo da prodigiosa safra de 2006 acaba de estourar.

É um manancial inesgotável!

A grande imprensa lambe-se em autoelogios pelo seu “esforço investigativo” e o leitor tende a comemorar ao menos a exposição publica como tal de mais um ladravaz, que é o máximo a que se pode aspirar a título de “punição” para um meliante com cargo público nesta amada pátria dos “direitos adquiridos”.

Mas a mim o papel desempenhado nos ultimos anos pela imprensa nesse nosso drama político não entusiasma. Ao contrário. Pois que o que se comemora interna corporis como indicação da existência de um ultimo reduto da saude moral da Nação é, antes, a prova clara de que muito pouco se salva neste organismo doente.

A imprensa está, simplesmente trocando o ladrão pelo chantagista.

Os Roriz, pai e filha

Mas vamos por partes, como diria o esquartejador de Londres.

O que se expōe desta vez é um filme de Jaqueline, filha do ex-governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, junto com seu marido Manoel Neto, recebendo das mãos do ex-secretario de Relaçōes Institucionais do Distrito Federal, Durval Barbosa, uma pacoteira de R$ 50 mil, segundo calcula o Ministério Publico com base no tamanho do bolaço (isto de medir bolaços no golpe de vista vai se tornando uma “expertise” neste paraiso das câmeras ocultas). Era dinheiro para o financiamento da sua candidatura à Câmara Distrital de Brasília la atraz, em 2006. A subornada, aliás, reclama ao vivo e em cores ao subornando pelas dez partidas de dinheiro combinadas terem sido reduzidas, sem aviso, a apenas “cinco ou seis”.

Durval Barbosa, recorde-se, é o veterano pivô do “Mensalão do DEM“, aquele no qual tombou sob o fogo das lentes indiscretas da Polícia Federal lulista o governador José Roberto Arruda, em manobra arquitetada para mostrar que isto de “mensalōes” não é exclusividade do PT e, assim, animar as “excelências” a aprovar, em unanimidade suprapartidária, uma saída de emergência para “mensaleiros” pegos em flagrante escaparem da cassaçāo.

O flagrante de José Roberto Arruda: safra 2006

Saída esta, diga-se de passagem, que não se preocupou com sutilezas dissimulatórias mas apresentou-se explicitamente como tal a este país sem desconfiômetro. Diz simplesmente o seguinte: o ladrão em cargo publico só pode ser punido por falcatrua flagrada no mandato atualmente em exercício. Ficam impunes as praticadas em mandatos anteriores mas descobertas somente depois que o ladrão já progrediu na carreira.

Quer dizer, “quem corocô, corocô”, como diz o japones da piada, o que esta perfeitamente afinado, conceitualmente falando, com o polivalente moto perpetuo do corporativismo português, mundialmente reconhecido como a obra prima da arte de defender privilégios e legislar em causa própria, que é a noção do “direito adquirido” que o Brasil herdou e aperfeiçoou.

Foi assim que salvaram-se todos abaixo de Roberto Jefferson e José Dirceu, cassados por atraso na fabricação da tecnologia de resgate que salvou todos os outros e deverá salvar tambem a filhota do Roriz, segundo se informa nesta segunda-feira de carnaval do ano da graça de 2011.

A “oração da propina”: Durval Barbosa, Leonardo Valente, …: safra 2006

A jovem Jaqueline, apesar da pouca idade, não é uma estreante em escândalos de suborno. Este é o terceiro que ela estrela, considerada a ordem de divulgação. Na ordem cronológica da prática dos malfeitos, entretanto, este foi, salvo novas revelaçōes, o primeiro dos tres.

O nome de Jaqueline já tinha sido flagrado numa planilha de valores encontrada pela Policia Federal numa batida na casa do ex-presidente da Câmara Distrital de Brasília, Leonardo Valente, aquele que se tornou celebre por ter sido filmado recebendo pacotes de dinheiro que ia enfiando na cueca e nas meias. Essa planilha referia-se à venda, por R$ 420 mil a cabeça, de alteraçōes no Plano Diretor da capital federal a interessados na especulação imobiliária. O plano alterado foi aprovado por 19 dos 24 deputados distritais (o equivalente aos vereadores em Brasília), Jaqueline entre eles.

Este filme revelado agora registra, portanto, de que modo ela comprou a eleição que a colocou na situação de poder vender “serviços especiais” como o de alterar a favor de especuladores a lei que regulamenta as construçōes em Brasília, a cidade tombada como patrimônio arquitetônico da humanidade.

Na cueca, na meia, etc. Um resumo da ópera: safra 2006

De outra planilha encontrada em batidas na casa e no escritório de José Geraldo Maciel, ex-chefe da Casa Civil do governo de Brasília, tambem constava o nome de Jaqueline e outros deputados distritais (vereadores) ao lado de valores que iam de R$ 10 mil a R$ 14 mil mensais (o numero que constava à direita do nome de Jaqueline era R$ 12 mil).

Na ocasião ela disse que a lista tratava “apenas de cargos de confiança a serem divididos entre os parlamentares da Camara Distrital”. “Jogo lícito”, portanto, para os padrōes politicos brasileiros. (É, aliás, um bom indicativo do grau de “balneabilidade” das nossas praias políticas um argumento como este ser apresentado e aceito por uma autoridade judicial para livrar um politico de uma acusação de suborno…)

Enfim, é esta a ficha da filha do Roriz, a provar que quem sai aos seus não degenera.

Mas como agora ela ja é deputada federal (com o que amealhou nos mandatos anteriores elegeu-se com facilidade em 2010) os crimes praticados enquanto deputada distrital ficam, por assim dizer, prescritos…

Va lá. As porcarias praticadas pelas “excelências”, la entre elas, não chocam mais nenhum brasileiro com olhos na cara e ouvidos nos lados da cabeça.

Mas o que salta à vista de qualquer praticante de “esforços investigativos”, mesmo que dos menos perspicazes, é que dona Jaqueline possivelmente não seria eleita em 2010 para o cargo que lhe garante a impunidade de seus crimes anteriores se o filme que a mostra praticando um deles em 2006, desde então dormindo nas gavetas da Policia Federal lulista a espera de um momento conveniente, tivesse sido divulgado antes.

Eis porque essa imperdoavel dessensiblização da imprensa – e estou correndo o risco de parecer insensível ao chamar apenas isso a esse alarmante sintoma da gravidade da nossa doença política – choca-me, esta sim, ao limite do que se pode alguem chocar.

Pois o que poderia ter incentivado mais – para que a exposição de provas dos sucessivos mensalōes acabasse, na instância legislativa, resultando apenas na invenção dessa estapafurdia regra de saída dos flagrantes de suborno – do que a atitude da imprensa de fingir que não havia nada de estranho no fato da Policia Federal estar divulgando com cinco anos de atraso a prova de um crime que ela tinha nas mãos?

Se nem a imprensa se incomodou de dar ao que estava acontecendo o nome certo, porque não dar o segundo passo na operação de chantagem – porque é disso que se trata, qualquer idiota pode ver – e oferecer a todos os iguais – chantagistas e chatageados – uma reconcliadora garantia de impunidade?

Vem, então, a pergunta subsequente: porque a imprensa não deu ao que estava acontecendo o nome certo? Porque não se interessou em apurar quem estava chantageando quem, e por que? A quem interessavam os crimes filmados? Quem estava pagando pela lei encomendada?

E o mais grave: porque não cobrou da autoridade judicial que reagisse à confissão de chantagem implícita no ato criminoso tipificado no Código Penal, praticado pela Polícia Federal, de esconder a prova filmada de um crime durante cinco anos e só apresentá-la quando isso se tornou interessante para provar que todos são igualmente “mensaleiros” e não apenas os “mensaleiros” do PT? Porque não tratou disso como o que é, qual seja, a prova de que a instituição encarregada de combater o crime agora dedica-se a praticá-lo?

A resposta é dolorosa…

A imprensa não fez isso porque tem havido muito pouco “esforço investigativo” nos escândalos que ela tem se prestado a amplificar. Ha muito tempo que as redaçōes se acomodaram a andar a reboque da guerra de dossiês travada entre os chefōes das nossas máfias políticas, publicando, como se fruto de esforço próprio fosse, o que os agentes deles lhes jogam no colo quando querem ferir uns aos outros. E está claro que a condição para ser escolhido como o veículo a ter o direito de reclamar a “exclusividade” da divulgação, em 2011, do próximo filme captado pela Polícia Federal lulista em 2006, é não chamar a atenção do publico para este pormenor cronológico e não se perguntar porque tal prova ficou escondida por cinco anos.

Agora pergunto:

Terá havido progresso para a democracia brasileira no fato da imprensa, ultimo bastião do interresse público, prestar-se ao papel de cumplice de uma chatagem para expor mais um ladrão?

Nós, cidadãos, não temos o direito de saber, já – e eles, policiais, a obrigação legal de nos mostrar assim que as tiverem – todas as provas de falcatruas de políticos como estas capturadas às vésperas da eleição de 2006?

Não é isso o mínimo que a imprensa deveria estar exigindo, incessante e pertinazmente, em nosso nome, além, é claro, de seguir até o fim todas as pistas embutidas no presente recebido e trabalhar para saber o que mais continua escondido nas gavetas da Polícia Federal?

A resposta a esta pergunta é uma questão muito menos que “controvertida” ou “polêmica”, que são os eufemismos que certos jornalistas gostam de usar, hoje em dia, quando trombam com falcatruas evidentes e incontroversas de personagens com os quais simpatizam…

Está na hora da imprensa afastar-se das drogas da auto-complacência e da auto-louvação e enfrentar com coragem as suas próprias mazelas, ou acaba se transformando, como já começa a acontecer nestes tempos de tribunas livres em rede mundial, de apedrejador em vidraça.

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