Desigualdade ameaça democracia americana

8 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Já escrevi diversas vezes aqui no Vespeiro sobre o altíssimo risco que vejo de que a democracia americana não sobreviva ao confronto com o capitalismo de Estado chinês que a obrigou a abrir mão das leis anti-truste, a mais alta conquista do regime desde a submissão do rei ao Parlamento na Inglaterra setecentista, e deixar-se arrastar de volta para a competição econômica sem limites para poder concorrer com os grandes monopólios chineses.

Uma série de reportagens publicadas pela Slate (aqui) mostrando o rápido aprofundamento das desigualdades nos Estados Unidos reforça essa preocupação.

Em 1976, os 1% mais ricos dos EUA detinham 9% da renda nacional. Hoje ficam com 24%, quase ¼ do total.

São números piores que os da Nicarágua segundo o comentarista do New York Times Nicholas Kristof.

Em 1980, os mais bem pagos CEO’s das grandes corporações americanas ganhavam 42 vezes mais que um trabalhador médio. Em 2001 essa diferença já era de 531 vezes.

De 1980 a 2005 mais de quatro quintos do aumento da renda dos americanos foi parar nas mãos dos 1% mais ricos.

 

Como você poderá conferir no artigo A ameaça da imprensa corporate (aqui), lá atrás neste site, os anos 80 marcam o começo do processo de desmontagem das leis anti-truste, tragadas no movimento geral de concentração da riqueza que a competição com a China e a novidade da exportação de empregos precipitou desde então, nos Estados Unidos e no resto do mundo, com velocidade cada vez maior.

Primeiro país do mundo a experimentar as modernas técnicas de gestão corporativa que levaram a ganhos de eficiência crescentes, num primeiro momento, e a movimentos continuados de fusões e aquisições em busca dos ganhos de escala em setores chave da economia,  na sequencia, os americanos descobriram ha mais de 100 anos que a convivência entre grandes monopólios e a democracia era impossível. E travaram uma batalha de várias décadas para, com a força do Estado, submeter o poder econômico a limites de crescimento que, para alem da simples eficiência na busca do lucro, foram definidos artificialmente em função das conveniências do consumidor e do objetivo de preservar a concorrência e a saúde da democracia que, como sabemos, sucumbe a orçamentos privados grandes demais.

Isso colocou o Estado e o poder econômico um contra o outro, reduziu o nível de desigualdade de renda, manteve as empresas a uma distancia saudável da política e garantiu um nível de competição que a maioria esmagadora dos americanos reconhecia como justa.

Foi este o elemento fundamental da coesão do pais em torno do seu projeto político e econômico ao longo de todo o século 20 que o levou à conquista da hegemonia de cujos restos ainda desfruta.

Agora a polarização econômica está levando também à polarização da política, confundindo e dividindo o pais e arrastando o Estado para um tipo de protagonismo, tanto na ponta de cima onde é forçado a dar assistência às empresas que se tornaram “grandes demais para quebrar”, quanto na ponta de baixo, em programas para amparar um numero crescente de excluídos.

Os dois expedientes são insustentáveis e minam as bases do capitalismo democrático.

 

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