Discutindo a eleição americana

14 de fevereiro de 2020 § 6 Comentários

Como foi que eles conseguiram

11 de fevereiro de 2020 § 31 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 11/2/2020

Todo mundo pergunta como foi que, partindo de uma situação em que tudo estava dominado” pela corrupção, os americanos conseguiram virar o jogo.

O Movimento Progressista” foi uma resposta aos problemas que se tornaram agudos depois da Guerra Civil (1861-1865) que em tudo fazem lembrar os do Brasil de hoje: urbanização desordenada com multiplicação de cortiços, favelas e violência urbana; exploração vil do trabalho; usurpação dos governos das cidades por máquinas políticas corruptas altamente profissionalizadas financiadas por empresários de araque; corrida às fusões e consolidações de empresas de setores inteiros da economia concentrando a riqueza e criando grupos gigantes com poder de corrupção ilimitado (os famigerados robber barons)…

Embora todos tivessem as mesmas queixas, até meados da década de 1890 dezenas de grupos reformistas ou de protesto separados por antagonismos em torno de minucias programáticas e vaidades imensas batiam cabeças em cidades e estados diferentes sem força para mudar nada.

Quatro fatores, principalmente, concorreram para que somassem forças a partir da crise que levou ao pânico financeiro de 1893. A ação de todas as igrejas na crítica do estado de coisas e na pregação do social gospel que associava a salvação individual também à “salvação socialpreparou o terreno. Mas foi a fundação da National Municipal League (NML), em 1894, amplamente financiada pelo empresariado que perdia com a corrupção, que profissionalizou a critica do sistema e a busca de alternativas pesquisando sistematicamente ao redor do mundo bons modelos de gestão das cidades, formando pessoal, prestando assessoria jurídica e legislativa e, principalmente, difundindo para o grande público as alternativas encontradas, municiando de argumentos e estruturando em rede” os movimentos reformistas do país inteiro.

Também foi crucial o início de uma revolução no jornalismo americano que evoluiu do sensacionalismo e do panfletarismo partidário para o jornalismo investigativo dos repórteres revolvedores da sujeira” (muckrakers) da revista de Samuel McClure que circulou entre 1893 e 1929 e expôs os intestinos da corrupção dos robber barons dos setores de petróleo, financeiro, do aço e outros, que constituíram monopólios maquiavélicos mancomunados com os donos das ferrovias e com políticos corruptos. Foram esses jornalistas, também, que pesquisaram e difundiram persistentemente nos EUA novos métodos de combate à corrupção, especialmente as ferramentas de democracia direta usadas na Suíça.

………

Os muckrakers e a NML deram a contribuição decisiva para a mobilização da opinião pública numa direção consistente apoiada numa espinha dorsal de sólido conhecimento.

O elemento sorte entrou, então, decisivamente em cena pela mão de Theodore Roosevelt. Vindo de fora dos currais tradicionais da política, ele foi o primeiro político do Ocidente a compreender a força do novo jornalismo nascente. Jogando fechado” com os grandes repórteres daquela geração, começou como chefe de polícia de Nova York, foi eleito na sequência governador do estado, e logo tornou-se herói nacional ao enfrentar a máfia que dominava a política local havia décadas e controlava nacionalmente o Partido Republicano. Traído, foi esterilizado” numa candidatura à vice-presidência num golpe dos velhos caciques corruptos dentro da convenção republicana. Mas com o assassinato do presidente McKinley antes da posse TR”, aos 42 anos, carismático e orador brilhante, tornou-se, em 1901, o 26o e mais moço de todos os presidentes dos Estados Unidos, servindo até 1909.

Sua primeira providência foi reviver o Sherman Antitrust Act de 1890, engavetado pelos antecessores, regulamentar a operação das ferrovias e instituir a preservação de um grau mínimo de concorrência em cada setor em benefício do consumidor como limite legal da disputa por mercados. Ao mesmo tempo atacou forte as bases do caciquismo” que viciava a política implantando eleições primárias diretas, eleição direta de senadores (antes indicados pelos legislativos estaduais) e os direitos de recall, iniciativa e referendo popular dos atos dos Legislativos e Executivos estaduais e municipais. Essas medidas vieram de encontro aos novos modelos de gestão das cidades a partir de eleições municipais despartidarizadas promovidos pela NML, o de City Council (um conselho eleito de 5 a 7 membros executando todas as funções antes prerrogativas de prefeitos e vereadores) e o de City Manager (uma variação do mesmo sistema mas ainda mais profissionalizado) e acabaram com o poder dos velhos caciques.

TR picou” o poder econômico onde estava excessivamente concentrado e, na política, deu poder de polícia aos eleitores contra os representantes eleitos o que matou o varejo da corrupção e garantiu a constante renovação de quadrosDesde então os EUA vivem em reforma permanente mas com o povo e não os políticos dirigindo a pauta, o que explica toda a diferença de desenvolvimento, afluência e liberdade entre eles e o resto do mundo.

A falta que a caça faz

18 de maio de 2015 § 13 Comentários

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Subi para cá correspondência trocada com Luiz Barros nos comentários de artigo anterior em função da importância do tema:

Fernão,

Estou aqui lembrando de uns tios queridos de minha infância, e nisto vejo o Renato, de Taubaté. Ele era exímio caçador.

Acho que foi a falta de amantes da caça e da pesca que dificultou a preservação da fauna e flora, porque os esportistas, como ele era, faziam mais bem para a preservação, com amor verdadeiro aos bichos, do que os vigiólogos de gabinete.

(…) só conheço um pouco de pesca, nada de caça. Você poderia por gentileza me dizer se a descrição que faço de um homem e seus perdigueiros é correta?

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Renato chegava ao sítio bem cedinho (…) com seus dois ou três perdigueiros (…) Vestia aquelas galochas que vinham até o peito e se prendiam por suspensórios ao ombro, qual macacão fossem: para entrar no brejo, se os cães para lá o levassem.

Cão e caçador sincronizavam instinto e ação e, enquanto um levantava a caça o outro fazia mira, acompanhando o voo rápido ascendente ou rasante, em linha reta ou ziguezagueante…

Resposta:

Não ha, felizmente, falta de caçadores e pescadores esportivos no mundo, Luiz, e digo felizmente porque é como v diz: o que sobrou no planeta de natureza conservada sobrou por causa deles.

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Aqui os caçadores (os esportivos, digo, porque quem vive no mato continua como sempre foi) estão quase extintos porque o Brasil é exceção no mundo, aí incluidos ate paises como Cuba, e persegue-os furiosamente desde 1983, ultimo ano em que a caça foi aberta legalmente por aqui (com exceção do Rio Grande do Sul).

Os caçadores são essenciais pelo fato elementar de que fazem perdiz, por exemplo, valer muito mais que soja, o que torna um excelente negócio, nos países onde eles continuam livres para prestar esse serviço às gerações futuras, comprar areas de cerrado (ou savana como chamam la fora) para mantê-las íntegras o bastante para continuar produzindo o que produziram naturalmente nos ultimos bilhões de anos até que, como dizia Nelson Rodrigues, os idiotas descobrissem que são maioria e passassem a nos oprimir: isto é, perdiz.

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Nos EUA a economia da caça e pesca esportivas gira em torno de US$ 400 bi/ano (isso mesmo! ⅓ ou ¼ do PIB brasileiro. Procure o site dos censos americanos; uma edição sim, outra não, faz-se esse censo nacional, detalhadíssimo, por lá). Eles são o pais com mais área selvagem conservada do planeta, ai incluidos os africanos. Todos os seus bichos nativos têm hoje rebanhos maiores que os que se calculava que existiam no Descobrimento, graças ao que rende esse negócio.

Ainda na semana passada vi, também o balanço anual de caça da França: 1 milhão e 200 mil peças foram abatidas em 2014 (considerados só mamíferos como javalis, cervos e caprinos dos Alpes, na caça de alta montanha) gerando bilhões de euros que são investidos na compra e conservação da quantidade de florestas íntegras que é preciso manter para garantir colheitas de quantidades como essa sem abalar o equilíbrio (as cotas são estabelecidas a partir de censos anuais de caça feitos pelos cientistas e pesquisadores de campo). São milhares de empregos, entre guiagem e hotelaria, aí incluídos os de cientistas e gestores de fauna que tratam de aprender com a natureza em vez de cagar regras sobre ela como gostamos de fazer aqui.

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Também nesse tema vamos, como em tudo o mais, pelo avesso do mundo, portanto.

Aqui o cerrado, produtor das perdizes, é o bioma mais ameaçado de todos. Na verdade está praticamente extinto, condição que acredito que já seja irreversível, dada a fragmentação do pouco que sobra, o que terá implicações dramáticas para o armazenamento de água no subsolo do Brasil dos nossos filhos e netos.

O cerrado, minha primeira grande paixão de natureza, é uma floresta de cabeça pra baixo, com uma trama de raízes que penetram a grande profundidade no solo com um volume de matéria vegetal muito maior que o que ela mostra acima do solo, o que proporciona a formação dos aquíferos como o Guarani, um oceano subterrâneo de água doce que cobre mais de um terço do nosso território e gera as nascentes de mais de metade dos nossos rios. Essa trama de raízes do cerrado é que mantém o solo poroso e nas temperaturas necessárias à continuação do processo que resulta nos aquíferos.

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Hoje está tudo compactado e cada vez mais impermeável logo abaixo da superfície totalmente tomada por gramíneas africanas e leguminosas asiáticas, e isso porque nossos “ecologistas” de bermuda colorida e chinelo de dedo acham que esta é uma questão “ética” a ser tratada por critérios emocionais e decretaram “imoral” a prática diuturna de todos os demais seres vivos, animais e vegetais (caçar e ser caçado), a mesma que alimentou seus ancestrais até que dominassem o planeta a ponto da cretinice deixar de ser punida com a morte, como continua sendo na natureza, e dar o resultado que tem dado.

Sorte do Blairo Maggi!

Nos tempos em que este país ainda pensava com a cabeça havia caça regulamentada, sim, e quando abria a temporada via-se gente feliz carregando suas espingardas pelo país afora pelas ruas, nas estações e nos trens que chegavam até o Mato Grosso (a unica via para la então), e o mais que continua acontecendo em todos os países civilizados do mundo, sem que ninguém se assustasse com isso.

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Mas como aqui a Globo mancheta todo dia que “as armas de fogo mataram não sei quantos este ano”, o que me remete sempre à curiosa ideia de revólveres com pernas andando por ai e atirando em gente por conta própria, possuir uma arma de caça, ainda que não possam ser confundidas nem com os revólveres e pistolas do crime desorganizado, nem com os fuzis do organizado, é visto como um crime mais grave, mais comentado, mais noticiado e mais perseguido que os dos autores dos 56 mil assassinatos por ano com que convivemos numa boa. É prático e fácil porque quem tem arma registrada tem endereço certo e sabido, sendo portanto muito mais fácil e seguro de infernizar do que quem não tem e dá tiros na cara de quem lhe enche o saco ou até por menos que isso.

Na Globo o cara por traz da arma não conta, o crime não é crime, que supõe culpados, é “violencia” que significa outra coisa, sem dono, do que resulta que os criminosos passam a ser “infratores” que não devem ser tirados das ruas onde andam os nossos filhos porque a prisão não consegue “recupera-los”. Foda-se quem vier a ser morto por isso…

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Enfim, nós somos brilhantes, Luiz, sabemos mais e melhor que o mundo e por isso colhemos os resultados que colhemos. É justo que seja assim!

Já o seu personagem, conheci inúmeros como ele de quem morro de saudades. Também eu tive tios caçadores a cujas expedições aderi a partir da segunda metade dos anos 60. Era o tempo em que o sertão começava ali por Araçatuba, a Mata Atlântica ainda estava agarrada ao mar no litoral entre Rio e SP, quase virgem, e ia assim até a foz do Rio Doce, um dos nossos paraísos destruídos. Só recuava para Oeste da metade da Bahia para cima. O sertão da Bahia emendava com o do Rio das Mortes e daí, Amazônia acima, ia intacto até o Caribe. Conheci esse Brasil selvagem e seguro e cordial como nunca foi o “civilizado” de ponta a ponta e isso foi crucial na minha formação.

Ser caçador não é uma escolha, é uma condição de quem tem a felicidade de nascer sujeito a ela. Instala-se no imaginário do portador antes da capacidade de raciocinar. É anterior e mais forte que ele.

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A sua descrição remete a um caçador de batuíras, aves do brejo, vôo rápido e errático como o de uma borboleta à jato, tiro muito difícil, cozinha excelente, bom desafio pros perdigueiros. Vê-los caçar; recuperar o instinto ancestral como numa transfiguração instantânea assim que pisam um campo com caça, oferece ao observador a primeira experiência mais íntima com as forças do atavismo. Eram muito comuns — eles e as batuíras — no iterior de SP no tempo em que ainda havia a natureza em pé que nossos ecologistas fizeram questão de entregar para a agricultura, unica maneira legal de fazer terra render dinheiro neste país infeliz. O interior de SP era famoso pelas areas de banhados — brejos de cabeceiras dos seus muitos riozinhos onde pelo mês de outubro ocorriam as eclosões de vagalumes aos milhões que, ao anoitecer, pareciam trazer o céu ao chão. Hoje estão quase todas devidamente drenadas para que a agricultura e a “civilização” se instalassem até sobre o ultimo centímetro disponível, onde as batuíras e batuirões, também ditas narcejas ou corta-vento lá no Rio Grande do Sul (“bécasse” e “bécassine” nos restaurantes do mundo) eram rainhas.

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Agradeça aos nossos herois da natureza a extinção de tudo isso. Eles acreditam piamente, e assim ensinam às nossas crianças, que os alimentos vêm dos fundos dos supermercados, devidamente embalados em plástico e sem sangue, e que o verdadeiro amor à natureza, sem o incomodo dos insetos, do calor e dos demais componentes dos “programas de índio” (aqueles que ainda fazem parte do currículo escolar do resto do mundo, como acampar no mato e entender o que de fato acontece lá dentro), deve ser vivido em manifestações no vão do Masp, com cartazes “criativos” e fantasias de caveira contra a caça e etc..

Historicamente falando ha duas correntes de ambientalismo no mundo. A que nasce nos EUA (o Boone & Crocket Club, frequentado pelo presidente Theodore Roosevelt,  foi a origem de tudo) e na Inglaterra, onde chegou a haver uma filial dele, pela mobilização de caçadores e pescadores, seguidos de pesquisadores e cientistas que, como v diz, amam e entendem como funciona a natureza real (não a que está na cabeça dos nossos urbanóides) e deu origem à linha do WWF (World Wildlife Fund), que usa a caça e a pesca esportivas como ferramentas de conservação, e a corrente ideológica e urbanóide que surgiu de militantes franceses (como os que vieram para a USP, hélas!) que resistiam à explosão de uma bomba atomica em Mururoa no pesqueiro Rainbow Warrior e deu origem ao Greenpeace, anti-caça e bom de discurso, de marketing e de midia. WWF era “dono” das florestas, Greenpeace dos mares, até que este veio se meter na Amazônia com a minha ajuda (sem muitas ilusões, vim a ser diretor do Greenpeace do Brasil, cargo de que me demiti “atirando” em pouco mais de um ano, história que ainda conto aqui num outro dia).

É esse o ar que assume a nossa crassa ignorância sobre tudo nesse campo particular, Luiz…

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Onde política rima com bilhão?

12 de março de 2015 § 13 Comentários

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Com uma fortuna avaliada em meio bilhão de dólares, Darrel Issa (R – Califórnia) é o homem mais rico nas três instâncias do governo dos Estados Unidos.

Mas estivesse ele num encontro do Congresso Nacional do Povo da China ou do Congresso Consultivo do Povo Chinês ele seria apenas o 166º mais rico da sala segundo os dados recentemente apresentados na Lista Global dos Mais Ricos de 2015 do Hurun Report, reproduzida pelo New York Times.

“A ausência de instrumentos institucionalizados de “checks and balances” para vigiar seus passos enseja que dinheiro e poder político andem juntos na China numa escala que seria inimimaginável num país capitalista democrático como os Estados Unidos”, disse o professor de Estudos Chineses, Steve Tsang, da Universidade de Nothingham, Inglaterra, em entrevista por email ao Times.

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Em 2013 Issa tinha uma fortuna declarada de 448,4 milhões de dolares. Ele seria pouco mais que um pobretão comparado aos políticos chineses. Só os dezoito mais ricos entre os deputados chineses somados têm um patrimônio maior que todos os deputados e senadores americanos e mais os nove juízes da Suprema Corte e o gabinete inteiro do presidente Obama somados.

No total, 106 membros do Congresso Nacional do Povo e 97 membros do Congresso Consultivo do Povo Chinês estão na lista dos mais ricos do mundo da Hurun e suas fortunas somadas chegam a 463,8 bilhões de dólares.

Na média individual, as posses dos políticos americanos estava um pouco acima de 1 milhão de dólares em 2013, segundo pesquisa da CNN, o que já representa 18 vezes a renda média do americano comum. Segundo a Hurum, a soma das fortunas dos 50 membros mais ricos do Congresso norte-americano chega a 1.6 bilhão de dólares. Entre os chineses a mesma soma alcança 94,7 bilhões segundo cálculo feito pela Economist.

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No computo geral, isto é, contando quem ganhou dinheiro trabalhando, os Estados Unidos e a China dominam a lista da Hurun com 537 bilionários norte-americanos e 430 chineses. Nova York é a recordista mas a China tem 5 cidades na lista das 10 com mais bilionários: Hong Kong, Beijing, Shenzen, Taipei e Shangai”.

Essa nota, que traduzi do site Business Insider, comprova um ponto em que vivo batendo aqui no Vespeiro: corrupção não é uma questão cultural nem função da “qualidade do povinho que puseram aqui” como gostam de repetir alguns energúmenos incuráveis. Ela é consequência direta de ausência de democracia que, por sua vez, é pouco mais que a presença da polícia.

Nunca me cansarei de repetir o dito definitivo de Theodore Roosevelt: “O problema não é haver corrupção. Corrupção é inerente à espécie humana. O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso. Isso sim, é subversivo”. Nós estamos comprovando o quanto neste preciso e doloroso transe da nossa história nacional, com probabilidade nunca antes tão alta de não haver volta atras.

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Roosevelt foi o homem que “curou” os Estados Unidos plantando naquele país, na virada do século 19 para o 20, os institutos do recall, das leis de iniciativa popular e do referendo (“sem filtro” e apoiados no voto universal, é claro, e não como as falsificações que o PT quer nos empurrar) que tiraram da dos políticos e colocaram na boca dos eleitores a última palavra sobre toda discussão de assuntos públicos de alguma relevância naquele país. Ou, em outras palavras, foi o homem que instituiu a “polícia” e pôs na mão do eleitor americano, bem carregada, a fulminante arma da demissão sumária dos faltosos, sobre os políticos e os funcionários publicos de seu país, duas categorias que não têm rigorosamente direito nenhum a mais que os do cidadão comum, ao contrário, têm diversos direitos a menos que eles, como necessariamente deve ser em qualquer lugar onde a cidadania almeje se dar ao respeito.

Quem tem lido alguma coisa sobre o “petrolão” pode imaginar o número de bilionários da políitica brasileira. Ha os que já o eram antes da descoberta desse novo maná como Renan Calheiros, Michel Temer, Paulo Maluf, Valdemar Costa Neto e tantos outros, e a legião dos que “fizeram-se” mais recentemente quebrando a maior empresa do país, mamando no Tesouro Nacional com o recurso ao aríete do BNDES, roubando escola e saude de criança pobre como aquele nobre senhor do Paraná que gostava de peitar o ministro Joaquim Barbosa, mancomunado com o último candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Saude, ou condenando ã miséria na velhice os seus próprios “cumpanheiros” com o assalto desenfreado que corre solto nos fundos de pensão estatais. Isso sem contar os verdadeiros patrões de todos eles que o Brasil inteiro sabe quem são e está aprendendo agora em que bolivariana “china” querem chegar.

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Nenhum deles, obviamente, jamais fez ou construiu nada fora da política e quase todos eram pobres quando entraram nela. Ficar rico no Brasil – assim como na China e no resto do mundo controlado pelos assaltantes de terno e de toga que prendem e arrebentam “em nome dos menos favorecidos” – não tem nada a ver com produzir qualquer coisa, como ilustra com veemência o fato de Brasília, que não produz nada senão corrupção, se ter tornado a dona da maior renda per capita do Brasil.

Cresceram e apareceram pelas mesmíssimas razões e utilizando os mesmíssimos métodos que fizeram dos “revolucionários” representantes do proletariado chinês, ainda um dos mais miseráveis do mundo, a súcia obscena de criminosos galardoados descrita acima. Os métodos são os mesmos, o palavrório ideológico é o mesmo, a completa ausência de defesas democráticas vai se tornando a mesma.

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Só ha uma cura para isso: a de Theodore Roosevelt, sobre a qual você poderá saber mais colocando esse nome na busca do Vespeiro.

Na altura a que chegaram as coisas ir protestar nas ruas não é mais uma opção, é uma obrigação, assim como recorrer a todos os instrumentos legais para se defender do que vem vindo por aí.

Mas, insisto. Esse ato de desespero de pouco vale para mudar qualquer coisa de substancial, especialmente se, como em todas as vezes anteriores, cada brasileiro for a rua para gritar a sua própria frase, a maioria das quais sem sentido, ou apelando para remédios que no nosso passado recente já se provaram não apenas falsos, mas virulentamente nocivos. A ressurgência dos nossos “maoístas” com mais de meio século de atraso é um dos efeitos colaterais disso.

Se você quer começar algo de novo neste país, comece hoje a montar os cartazes VOTO DISTRITAL COM RECALL JÁ, e trate de distribuí-los entre os manifestantes, para que este não seja só mais outro domingo de cacofonia inútil.

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A Fênix ou o Cisne?

18 de novembro de 2013 § 3 Comentários

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Foi “o Judiciário” ou foi Joaquim Barbosa?

Isso teria acontecido sem ele?

O que vai ser do Supremo Tribunal Federal depois que a presidência sair das suas mãos e passar às de Ricardo Lewandowski? E depois de mais um mandato e novas nomeações de juízes pelo PT?

O que é que estamos vendo, afinal: Fênix ressurgindo das cinzas ou o último canto do cisne?

São as perguntas que suscita a “virada” de quarta-feira passada, obtida absolutamente “na raça” pelo ministro Joaquim Barbosa ao arrancar de seus pares, “na moral”, a titubeante “unanimidade” da Corte para a tese da antecipação do cumprimento das penas dos condenados do Mensalão antes da apreciação dos “embargos infringentes” sem a qual não teria restado nenhuma condição de sobrevivência para o Poder Judiciário e para a democracia brasileira.

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Cambaleante, sangrando da sucessão de punhaladas recebidas, é ela que se reergue, ao menos em potência para, no Dia da República, esfregar a bandeira da República na cara dos seus inimigos declarados.

Sim, vale a pena resistir!

Sim, cada homem faz diferença!

Sim, uma única e solitária vontade determinada pode mais do que um milhão de honras corrompidas!

Sim, ainda ha pelo que lutar!

Esta é a maneira otimista de encarar o que aconteceu na véspera deste feriado em Brasília.

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A realidade, porém, é sempre bem mais complexa que essas simplificações.

Todos os condenados menos quatro – um dos quais está foragido – saltaram pelo menos um degrau para baixo do limite do regime fechado no jogo de chicanas que uma Nação desiludida aprendeu que pode se dar também dentro do Supremo Tribunal Federal. E há, ainda, as reduções de penas até à sexta parte a que todos os condenados, é quase certo, farão jus.

Na dosimetria penal deste país, como no jogo de truco, nenhum número vale o que está escrito.

Mas isto sempre foi assim. Já estava lá antes. E o Brasil que caminha à beira do abismo bolivariano não está para luxos. O que resta daquelas penas é ainda o bastante para fazer com que, pela primeira vez em nossa história, corruptos do mais grosso calibre sejam constrangidos a exibir publicamente o seu fracasso.

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O problema”, costumava dizer Theodore Roosevelt tantas vezes citado aqui, “nao é haver corrupção. Ela é inerente à espécie humana. O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo”.

Nada tem mais força pedagógica e efeito profilático que a regular exibição pública do fracasso do corrupto flagrado como tal.

Mas cessa exatamente aí o que pode nos dar de graça o heroísmo de Joaquim Barbosa, mesmo com toda a carga simbólica que ele carrega, a  confirmar que o Brasil profundo é melhor que suas elites.

Nós estamos dando apenas o primeiro passo nessa direção a partir de uma realidade que, desde sempre, nos treinou a todos na direção contrária, o que nos põe diante de uma nova categoria de risco.

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O Brasil vive dentro de um ambiente institucional que é deliberadamente intransitável. Nossas instituições foram montadas – ou foram sendo amontoadas como são – para engendrar a corrupção e não para evitá-la. Terão de ser reformadas de alto a baixo para que possam se tornar operacionalmente respeitáveis (no sentido de poderem ser respeitadas).

Hoje não são.

Não se pode sobreviver na política dentro da regra estabelecida. Não se pode sobreviver na economia dentro da regra estabelecida. A condição de sobrevivência não é dada dentro do nosso cipoal regulatório. Tem de ser comprada.

Por isso não houve comemoração dessas prisões nem na oposição, nem em qualquer segmento do establishment.

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O próximo capítulo já está ha alguns meses no ar: a guerra de dossiês para anular o handicap do partido no poder até a próxima eleição promete ir ao paroxismo, com o risco de destroçar irremediavelmente toda a classe política como aconteceu em processo extamente semelhante desencadeado pela Operação Mãos Limpas na Itália dos anos 90 que terminou com o poder sendo resgatado do chão por Silvio Berlusconi, a figura patética que domina o panorama político daquele país desde então.

Seja como for, de algum jeito nós tínhamos de iniciar o nosso caminho numa direção mais saudável do que vinhamos vindo.

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Mais uma vez, como vem acontecendo desde os primeiros passos da República e a cada encruzilhada porque ela passou, o Brasil chegou a uma síntese sobre aquilo que não quer mais, mas continua vago como sempre sobre aquilo que quer daqui por diante. Sabemos o que não mais nos representa; chegamos a identificar, até, alguns dos valores que as inovações institucionais produzem nas sociedades que as adotam – meritocracia, igualdade perante a lei, melhor distribuição de riqueza e justiça – mas nunca investimos no trabalho “chato” e meticuloso de reestruturar nossas instituições, detalhe por detalhe, para que produzam tais efeitos.

A História oferece, sim, cortes de caminho. Mas só para os humildes. Nós, latinos, porém, recusamos a solução asiática, que a cada dia se prova mais fulminantemente certeira, de partir para a cópia melhorada também e principalmente de sistemas institucionais mais avançados que os que já experimentamos. Insistimos em inventar a roda outra vez, sempre nos fingindo orgulhosos das dolorosas chagas que nos produz o esfalfante esfoço de arrastar pedra por pedra pelo mesmo velho chão de sempre.

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(PARA CONHECER UM DOS ATALHOS PARA O NOVO VÁ A ESTE LINK)

Para que o STF possa ir das palavras aos atos

3 de outubro de 2012 § 3 Comentários

Do ponto de vista da ética e da moral, os seres humanos poderiam ser divididos em três categorias: os puros de alma, capazes de resistir às pressões do meio, tão raros que quando ocorrem costumam ser saudados quase como santos, os podres de alma, para os quais não ha remédio, e a massa do meio que busca apenas o caminho mais curto e mais seguro para “o sucesso” e que pende para um ou para o outro desses extremos conforme a regra do jogo que se lhe apresente.

O Brasil comemora aliviado a afirmação da independência do Poder Judiciário que, com o julgamento do Mensalão, deteve o processo de liquefação acelerada das nossas instituições que vinha rolando avassaladoramente sob o tsunami da sem-vergonhice assumida do lulopetismo.

Hoje é que a onça começa a beber água (escrevo antes da seção decisiva desta tarde) mas o que rolou até aqui já vale muito.

Dos 10 juízes envolvidos no julgamento só Lewandowski se ajoelhou. Nem o ex-empregado do PT, Dias Toffoli, comprou a tese do Caixa 2 só porque Lula mandou.

Não é por acaso que ser juiz do STF é para toda a vida e ser presidente da Republica é só para quatro anos. As artes de mr. James Madison, referência permanente aqui do Vespeiro, realmente operam milagres.

E é exatamente por ter visto esse tipo de efeito funcionar por tantas vezes numa já longa vida de observador profissional desse tipo de acontecimento, que acredito piamente que os milagres dependem, essencialmente, desses práticos empurrões das instituições humanas.

Os discursos dos ministros feitos nos últimos dias no STF e comentados hoje na página de editoriais do Estado poderiam ser traduzidos livremente como um aviso a quem interessar possa de que “o jogo mudou; nós sabemos bem de onde ele emanava e só não vamos mexer com essas estratosferas agora para não criar uma crise institucional. Mas daqui pra frente – cuidado! – a música vai ser diferente“.

Mas para que isto de fato aconteça será preciso mais do que discursos.

Marco Aurélio Mello, por exemplo, falou em “rotina da desfaçatez e da indignidade” que leva à “apatia dos cidadãos cada vez mais surpreendente“, “como se tudo fosse muito natural (…) e o erro do passado justificasse os erros do presente“.

É uma descrição falseada do que realmente se passa. E falseada porque esse futuro do condicional de que o ministro se serve para descrevê-la não existe de fato na realidade descrita. Pois nela, a impunidade do erro do passado realmente justifica o erro do presente, explica e induz a apatia dos cidadãos e faz da desfaçatez e da indignidade rotinas.

Outro americano notável, Theodore Roosevelt, dizia sempre que “O problema não é haver corrupção, vício inerente à espécie humana; o problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.

Com nosso sistema penal permitindo que os corruptos permanentemente exibam o seu sucesso, o Brasil tem vivido sob a égide do triunfo dos podres de alma a arrastar as massas para (o ministro que me desculpe) uma apatia nada surpreendente e um comportamento geral cada vez mais imoral e antiético em todos os níveis das relações humanas e sociais porque este, os fatos lhes confirmam todos os dias, é o caminho mais curto e seguro para o sucesso.

Nesse Brasil, resta aos puros de alma (tenho Arnaldo Jabor, que ontem estava genial no Estado – aqui  , em mente) uivar desconsoladamente para a lua…

O que precisamos agora é de reformar as penas e sintonizá-las à importância dos crimes. E os crime de corrupção, todos nós sabemos, são os que mais lesam e matam, tanto física quanto moralmente, pois que têm efeitos disseminados por todo o organismo social atingindo especialmente os mais pobres.

Mesmo com este importante sinal emitido pelo STF, que vem para deter o “ladeira abaixo” em que iam as instituições brasileiras, é preciso ser realista. O Judiciário não faz, ele executa as leis existentes. Quem faz estas que peço são exatamente os alvos que ela visa. Esse tipo de reforma não virá, portanto, de dentro do sistema a ser reformado. Propô-la e empurra-la é papel da imprensa que, nas democracias, tem a função de parteira de reformas.

É este, portanto, o passo essencial. A corrupção tem de passar a ser uma escolha de vida de altíssimo risco. É preciso haver a certeza de que uma vez pego, o corrupto está perdido para sempre. Aí sobrarão em cena apenas os irremediavelmente podres de alma, que não são tão numerosos assim. Toda a massa do meio, que responde mais à oportunidade que à coragem, penderá para o caminho mais seguro, o sinalizado pelos puros de alma.

É isso, e apenas isso, que faz a diferença entre os graus suportáveis de corrupção, que permitem a uma sociedade prosperar e enriquecer, e aqueles que a afundam recorrentemente no duplo atoleiro da miséria moral e material como vem acontecendo com o Brasil ha 512 anos.

É matar ou morrer

3 de agosto de 2012 § 3 Comentários

O Brasil não ficou sabendo nada que essencialmente não soubesse ainda sobre a esbórnia que ficou conhecida como o Mensalão quando, por horas a fio, o Procurador Geral da Republica, Roberto Gurgel, expôs hoje, passo a passo, ladrão por ladrão, saque por saque, tramoia por tramoia, com serena precisão, contundência e abundância de provas como se deu aquela roubalheira.

O que o país inteiro compreende melhor agora é porque Roberto Gurgel e o Ministério Público Federal, a única instituição da República que não está sob suspeita neste momento, merecem dividir com a imprensa a glória de estar entre os alvos preferenciais do ódio da bandidagem institucionalizada.

Se haverá ou não haverá penas à altura dos crimes cometidos é uma questão que está presa aos problemas anteriores da fraqueza da nossa legislação sobre corrupção e da docilidade do sistema processual brasileiro ao golpe baixo, que se traduz, na prática, na sua opção preferencial pelo bandido que tanto revolta cada habitante deste país.

Mas uma condenação às penas máximas mesmo dessa legislação mínima é imprescindível pois ha tempo demais, já, que não paira a menor dúvida sobre as culpas dos personagens do enredo do dr. Gurgel mas nada acontece. E este é que é o verdadeiro problema.

O que está em questão no Supremo Tribunal Federal é o próprio Supremo Tribunal Federal. É saber se a ultima instância do Sistema vai ou não vai reagir àquilo que o país inteiro sabe, ha 7 anos, que aconteceu exatamente do jeito que Roberto Gurgel descreveu hoje, do modo como a lei exige que reaja, ou se a impunidade é que vai se sagrar oficial e irrecorrivelmente lei.

O próprio dr. Gurgel abriu sua exposição citando Raymundo Faoro em seu clássico Os Donos do Poder para lembrar o quanto são velhas e profundas as raízes da corrupção no Brasil. Com o PT, essa árvore seca e retorcida deu frutos e espalhou suas sementes malignas por todo o tecido social.

Theodore Roosevelt advertia ha mais de 100 anos que, “o problema não é haver corrupção, doença inerente à espécie humana; o problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.

Já passamos desse ponto e, ou recolocamos as coisas no seu devido lugar, ou não haverá mais volta.

O Estado de Direito foi desafiado para um duelo final. É matar ou morrer.

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