A verdade sobre a relação armas x crime violento
30 de julho de 2012 § 4 Comentários
Ela nos permite buscar consolo e achar jornalismo onde quer que ele ainda seja praticado.
Com o massacre do Colorado, coube ao Guardian, na velha Inglaterra, provar que ele ainda existe e serve para alguma coisa. Em vez de bramir com a manada, os jornalistas do Guardian foram aos fatos e os apresentaram de maneira sintética e inteligente, levantando um quadro factual da momentosa questão posse de armas por cidadãos honestos x criminalidade violenta em todo o mundo com base nos dados da pesquisa anual do UNODC (Departamento de Drogas e Criminalidade das Nações Unidas).
Montaram a tabela que sintetizo abaixo e provaram aos incrédulos leitores que infográficos interativos também podem ser inteligentes e eloquentes.
Vale uma visita a este link para conferir.
Para quem tem dificuldades com a língua, remontei a tabela alinhando os países pela ordem dos mais para os menos armados. Na terceira coluna, consta o numero de armas para cada 100 habitantes. Na quarta, a colocação dos 18 com mais mortes por arma de fogo por 100 mil habitantes. Na ultima coluna, o numero de mortos por arma de fogo por cada 100 mil habitantes. Destaquei com cores diferentes aqueles nas faixas entre 10 e 20 (azul), entre 20 e 30 (verde), com mais de 30 (vermelho) e com mais de 60 (roxo) mortes por arma de fogo por 100 mil habitantes. Traços ( — ) indicam a inexistência de dados confiáveis sobre o ponto em questão.
Confira:
| 01 | EUA |
88.8 |
2.97 |
|
| 02 | Yemen |
54.8 |
2.00 |
|
| 03 | Suiça |
45.7 |
0.77 |
|
| 04 | Finlândia |
45.3 |
0.45 |
|
| 05 | Sérvia |
37.8 |
0.46 |
|
| 06 | Chipre |
36.4 |
0.46 |
|
| 07 | Arábia Saudita |
35.0 |
—- |
|
| 08 | Iraque |
34.2 |
—— |
|
| 09 | Uruguai |
31.8 |
2.80 |
|
| 10 | Suécia |
31.6 |
0.41 |
|
| 11 | Noruega |
31.3 |
0.05 |
|
| 12 | França |
30.3 |
0.06 |
|
| 13 | Canada |
30.8 |
0.51 |
|
| 14 | Áustria |
30.4 |
0.22 |
|
| 15 | Islândia |
30.3 |
0.00 |
|
| 15 | Alemanha |
30.3 |
0.19 |
|
| 17 | Oman |
25.4 |
—— |
|
| 18 | Bahrain |
24.8 |
0.00 |
|
| 18 | Kuwait |
24.8 |
—– |
|
| 20 | Macedônia |
24.1 |
1.21 |
|
| 21 | Montenegro |
23.1 |
—– |
|
| 22 | N. Zelândia |
22.6 |
0.16 |
|
| 23 | Grécia |
22.5 |
0.26 |
|
| 24 | Emirados |
22.1 |
—- |
|
| 25 | Ir. do Norte |
21.9 |
0.28 |
|
| 26 | Panamá |
21.7 |
14º |
16.18 |
| 26 | Croácia |
21.7 |
0.39 |
|
| 28 | Líbano |
21.0 |
0.76 |
|
| 29 | G. Equator. |
19.9 |
—- |
|
| 30 | Kosovo |
19.5 |
—- |
|
| 31 | Qatar |
19.2 |
0.14 |
|
| 32 | Latvia |
19.0 |
0.22 |
|
| 33 | Peru |
18.8 |
2.63 |
|
| 34 | Bósnia |
17.3 |
0.48 |
|
| 34 | Angola |
17.3 |
—- |
|
| 35 | Bélgica |
17.2 |
0.68 |
|
| 37 | Paraguai |
17.0 |
7.35 |
|
| 38 | Checoslov. |
16.3 |
0.19 |
|
| 39 | Tailândia |
15.6 |
—- |
|
| 40 | Líbia |
15.5 |
—- |
|
| 41 | Luxemburgo |
15.3 |
0.62 |
|
| 42 | México |
15.0 |
18º |
9.97 |
| 42 | Austrália |
15.0 |
0.14 |
|
| 44 | Mauritius |
14.7 |
0.1 |
|
| 45 | Guyana |
14.6 |
17º |
11.46 |
| 47 | Eslovênia |
13.5 |
0.1 |
|
| 48 | Suriname |
13.4 |
—- |
|
| 49 | Guatemala |
13.1 |
5º |
34.81 |
| 50 | África do Sul |
12.7 |
12º |
17.03 |
| 51 | Namíbia |
12.6 |
—- |
|
| 52 | Armênia |
12.5 |
0.29 |
|
| 52 | Turquia |
12.5 |
0.77 |
|
| 54 | Dinamarca |
12.0 |
0.27 |
|
| 55 | Malta |
11.9 |
0.00 |
|
| 55 | Itália |
11.9 |
0.71 |
|
| 57 | Paquistão |
11.6 |
—- |
|
| 58 | Jordânia |
11.5 |
0.49 |
|
| 59 | Venezuela |
10.7 |
4º |
38.97 |
| 59 | Chile |
10.7 |
2.16 |
|
| 61 | Espanha |
10.4 |
0.2 |
|
| 62 | Argentina |
10.2 |
3.02 |
|
| 68 | Belize |
10.0 |
9º |
21.82 |
| 74 | Jamaica |
—- |
3º |
39.40 |
| 75 | Brasil |
8.0 |
11º |
18.10 |
| 88 | Honduras |
6.2 |
1º |
68.43 |
| 91 | Colômbia |
5.9 |
8º |
27.09 |
| 92 | El Salvador |
5.8 |
2º |
39.90 |
| 98 | Bahamas |
5.3 |
15º |
15.37 |
| 99 | Rep. Domin. |
5.1 |
13º |
16.30 |
| 129 | Trinidad |
1.6 |
7º |
27.30 |
| 142 | Equador |
1.3 |
16º |
12.73 |
| — | St. Kitts |
—- |
6º |
32.44 |
| — | Porto Rico |
—- |
10º |
18.30 |
- Dos 25 países mais armados do mundo 22 têm de 0 a menos de 1 assassinato por arma de fogo por cada 100 mil habitantes.
- Os outros 3, incluindo os Estados Unidos, campeão disparado em armamentos com 88.8 armas por cada 100 habitantes, quase uma por pessoa, estão abaixo de 2.97 assassinados por arma de fogo por 100 mil habitantes.
- Entre os 62 países mais armados 54 têm menos de 3.02 assassinatos por 100 mil habitantes por arma de fogo.
- 49 tem menos de 2.
- 32 tem menos de 1 assassinato por arma de fogo por 100 mil pessoas.
- Só 6 países entre os 62 mais armados estão fora desse padrão.
- O primeiro é o Panamá, o 26º mais armado e o 14º onde mais se mata com arma de fogo (16.18 crimes por 100 mil habitantes).
- Depois vem o México, o 42º mais armado e o 18º onde mais se mata (9.97 x 100 mil).
- A seguir a Guiana, o 45º mais armado e o 17º em mortes por arma de fogo (11.46 x 100 mil).
- Só dois países entre os 62 mais armados estão entre os campeões em assassinatos: Guatemala, com 34,81 mortes por 100 mil habitantes (o 5º país mais violento do mundo) e Venezuela, com 38,97 mortes por 100 mil (o 4º).
- Todos os outros países onde mais se mata estão entre os menos armados.
- O Brasil é o 75º em armas por cidadão e o 11º em assassinatos por arma de fogo.
- Honduras, com 68.43 assassinados a tiros por 100 mil habitantes é o 88º menos armado do mundo.
- Só cinco países estão acima de 30 assassinados por 100 mil habitantes. Todos estão abaixo dos 49 países mais armados do mundo. El Salvador, dos menos armados do mundo, é um dos que mais matam a tiros.
A grande diferença, não ha duvida nenhuma, esta na educação. Ela é o único remédio que cura diversas doenças ao mesmo tempo, especialmente a enorme quantidade delas que, como esta, se adquire e se agrava como função de se perseverar infinitamente no errado.
Ou seja, o que mais mata mesmo é ignorância e burrice.
Os números acima indicam sem sombra de dúvida que, ao contrário do que nos quer fazer crer a Rede Globo e todo o séquito de cavalgaduras com que as redações insistem em se permitir coabitar nestes tempos em que já deveriam estar mais sensíveis às razões que afastam as pessoas normais dos jornais, existe uma clara relação de causa e efeito entre o sucesso das campanhas de desarmamento e o aumento da criminalidade violenta.
Mas não pela razão que gostariam de apontar alguns dos defensores da posse de armas por cidadãos honestos. Não creio que os países mais armados tenham menos crimes em função da “dissuasão armada” ou de um suposto efeito Billy the Kid (“eu saco mais rápido quando ameaçado“). Pouca gente compra armas para isso e menos ainda tenta usa-las com esse propósito.
Basta olhar a lista dos países para se convencer disso.
O que acontece é que nesses países ninguém perde tempo e energia perseguindo gente honesta e inventando desculpas para deixar os culpados à solta enquanto nos países onde o desarmamento é levado a sério ocorre exatamente o contrário. Os criminosos ficam “na boa” e os honestos, presos atrás dos seus muros, além dos criminosos ainda têm de aturar a cachorrada que a Globo e cia. atiçam pra cima deles.
A imprensa e a segurança pública
18 de julho de 2012 § Deixe um comentário
Dos números propriamente ditos ao modo como a imprensa os apresentou, a conta do verdadeiro massacre de crianças e jovens que vem ocorrendo no Brasil é um retrato detalhado do nosso fracasso como sociedade.
Somos o 4º país do mundo (entre 91 pesquisados) onde mais se trucida crianças e adolescentes (de 0 a 19 anos). El Salvador (1º lugar com 18 por 100 mil), a Venezuela do guru do lulismo, coronel Hugo Chávez (2º com 15,5), e Trinidad Tobago (3º com 14,3) ainda batem o Brasil (4º com 13,8). Mas deixe estar. Nos estamos nos calcanhares deles e havemos de chegar lá!
Em 1980, quando a “Constituição Cidadã” mais palavrosa do mundo ainda estava em projeto e um resto de pudor limitava a livre manifestação da idiotia objetiva (apud Nelson Rodrigues) que hoje nos avassala, somente 3,1 brasileirinhos e brasileirinhas a cada 100 mil morriam nas mãos de assassinos.
Trinta anos de discursos e de legislação “os mais avançados do mundo” não só em garantir a impunidade de seja qual for a ignomínia praticada por menores de idade, mas também de justificá-las moralmente e valorizá-las socialmente, o que transformou os menores de idade nos agentes ideais para assumir os trabalhos mais sujos do crime organizado, o número saltou para 13,8 jovens e crianças a cada 100 mil trucidados nas ruas e becos deste país “sem miséria”.
346,4% a mais.
É pouco. Ainda vai subir muito mais.
E o que o garante, antes de mais nada, é o modo como os três principais jornais do Rio e de São Paulo publicaram esse material.
Embora cada um dos brasileiros que já tenha vivido o bastante para andar uma vez por nossas ruas saiba, de tanto apanhar na cara, que é a impunidade que está por trás deste e de outros dos nossos fenômenos de polichinelo, essa palavra não foi grafada nenhuma vez nas três páginas inteiras de matérias publicadas pelo Globo, pela Folha e pelo Estado de S. Paulo (na televisão então, nem se fala).
A Folha e o Estado, antecipando o risco dessa obviedade vir a ser mais uma vez denunciada em voz alta, já começaram preventivamente a enfileirar desculpas para negá-lo. A Folha foi buscar fora de seus quadros quem fosse capaz de sugerir que o salto responde “à melhora das estatísticas de coleta de criminalidade“. O Estado conseguiu achar em seus próprios quadros quem dissesse coisa ainda pior. Pisoteando todos os cânones do bom jornalismo, o próprio “repórter” que assina a matéria volta-nos, logo abaixo, com o chapéu de “analista” (!!!) para nos garantir que tudo isso vem da própria fisiologia do cérebro humano e que – contenham-se as mães dos massacrados nesse seu desespero tolo! – os números são os que são porque “este país não sabe lidar com a imaturidade da juventude“…
Como as chefias de redação estão hoje pavlovianamente condicionadas a salivar incontidamente ao som da palavra “infográfico” eles aparecem, parecidíssimos uns com os outros, nas matérias dos três jornais. Mas não para destacar qualquer conclusão ou cruzamento de informações que fosse fruto de raciocínios. Apenas para repetir, como sempre, o que as matérias escritas já diziam.
No Globo havia um, até, do qual um leitor com imaginação ainda podia extrair um paralelo interessante. Mostrava em duas linhas, uma agudamente ascendente – a dos crimes – e outra agudamente descendente – a das mortes por “outras causas externas” – que em matéria de segurança e saúde públicas nós nos desempenhamos mais ou menos como na economia sob o lulismo: tomamos carona no progresso alheio, cujos remédios importamos até sem pagar direitos quando a coisa aperta, mas naquilo que é de nossa própria responsabilidade e indústria tudo sempre perseverantemente piora.
Nas entrelinhas do “ranking dos estados mais violentos” que o jornal carioca publica estavam, aliás, as pistas que nossos jornalistas se mostram decididos a não ver. Reconheço-lhes a abnegação e o esforço nesse sentido mas é impossível escondê-las completamente ao se tratar desse assunto.
Uma mostrava que São Paulo passou do 4º lugar em 2000, com 22,3 mortos por 100 mil habitantes, para 26º com 5,4 em 2010. Outra, que o Rio de Janeiro passou de 1º lugar em violência, com 25,9 mortes por 100 mil em 2000, para 10º, com 17,2 em 2012. Mas como a redução à quarta parte em São Paulo, coisa digna do Guiness, responde à decisão política do governador Alkmin de atacar a corrupção impune de suas polícias e redobrar a repressão ao crime, políticas às quais ele deveria voltar com todo empenho agora que as coisas andam piorando, e a melhora no Rio ao início da ocupação dos territórios livres do crime organizado pela polícia, nossos solertes jornalistas houveram por bem “abafar o caso”.
Sempre há o dia de amanhã para conferirmos se relações de causa e efeito tão fulminantes quanto estas ainda virão a ser destacadas, discutidas e cobradas com o respeito e o empenho que merecem a memória das 176.044 crianças e jovens ceifados na flor da idade em nossas ruas de 1981 para cá; para ver se alguém terá, agora que afinal seus autores estão no poder, a coragem de trazer para o primeiro plano a pergunta sobre se o Estatuto do Menor realmente salva nossas crianças ou as atira aos lobos. Ou se, como de costume, ainda teremos de ouvir que a solução está em desarmar “gente perigosa” como esses amigos de esportes violentos como o tiro olímpico, que é o remédio oficial das Organizações Globo para a questão do crime violento no Brasil ou, pior, que não ha solução porque a culpa, numa sociedade injusta, não é de quem mata, é de quem é morto.
Eu sou cético. Não para sempre ou quanto à espécie humana em definitivo. Mas com relação à parcela dela que vive este momento deste país gravemente doente.
Nada emocional. É só uma constatação. Não existe exemplo histórico – mesmo nas democracias mais avançadas – de políticos tomando a iniciativa de fazer reformas. Nas poucas vezes em que elas aconteceram, aconteceram porque o impulso veio de baixo e foi decididamente carregado pela imprensa, a ferramenta que as democracias inventaram para empurrar goela abaixo dos políticos aquilo que eles não querem engolir.
Quando o discurso da imprensa e o dos políticos é igual, como é o caso, entre outros, no que diz respeito ao problema da segurança pública no Brasil, é porque o óvulo da reforma nem sequer foi fecundado ainda.
Estamos tão distantes desta da seguraça pública quanto um dia ainda há de se provar que estivemos.
Vai sem dizer que a imprensa está procurando no lugar errado a raiz da crise que vive. É porque ela se permite com tanta largueza afinar seu discurso com o dos políticos que o público aqui fora a trata cada vez mais com o mesmo respeito que vota a eles.
Entenda porque voce vive sob a lei da selva
23 de abril de 2012 § 1 comentário





















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