Manifesto a favor do escândalo
12 de março de 2014 § 7 Comentários
Ha uma semana que os jornais não falam de outra coisa.
Agora o “blocão” dos “aliados”, chefiado pelo PMDB, “impôs uma derrota ao governo”. A foto do Globo dessa galera em delírio de “júbilo cívico” é impressionante.
E qual o feito épico que comemoravam?
Por se sentirem lesados na divisão daquilo que eles e o PT nos arrancam juntos os “aliados” romperam o pacto de silêncio sobre as falcatruas uns dos outros que eles mantêm contra nós, o povo brasileiro. É isso que eles chamam de “votar todos os projetos com independência”.
Resultado do “voto independente” de ontem?
Vão, finalmente, dar uma olhada na roubalheira que rola dentro da Petrobras, coisa de 140 milhões de dólares de suborno pago por uma empresa que aluga plataformas de petróleo que está sendo investigada ha mais de um ano pelos governos da Holanda, da Inglaterra e dos Estados Unidos, mas não pelo do Brasil, que é o principal interessado.
“Se quiser refazer o acordo”, diz o pessoal do PMDB (isto é, o acordo de sempre pra todos voltarem a jogar unidos CONTRA NÓS), “o governo vai ter que sentar e conversar” (leia-se vai ter de dar aos aliados uma fatia maior do que está enfiando sozinho no bolso).
Agora, o que mais me assusta é que a imprensa noticia tudo isso pelo ângulo tranquilo e plácido do “debate político”. Segundo os “pundits” de Brasília tudo não passa de uma “crise da base de sustentação” normal para essa época de eleição (que, na verdade, é quando as máfias políticas que estão aí combinam quem vai ficar com quanto daquilo que nos tungam).
Essa perda de sensibilidade da imprensa, o fato dela assumir candidamente a linguagem e o padrão de normalidade ditado pela moral dos bandidos é, com certeza, muito mais grave que essa “afanadinha” que deram na Petrobras que não é nem a pontinha do iceberg do que rola lá dentro daquela caixa preta gigante.
A imprensa é o sistema imunológico da democracia; o agente que dá o alarme para que os anticorpos entrem em ação quando o organismo dela é invadido por alguma doença que pode matá-la.
O que nós estamos vendo é que o sistema imunológico da nossa democracia está “deprimido”. Ele também está doente. O vírus entra, deita, rola e arrebenta e ele não dá o alarme; continua agindo como se tudo estivesse normal.
Com isso o organismo social não reage e deixa que a doença vá matando a sua sensibilidade moral que é o que segura a democracia em pé.
É preciso resgatar o valor do escândalo. Tem escândalo falso e tem escândalo autêntico. E o autêntico, mais que necessário, é o sinal vital da saúde moral da Nação. E SÓ A IMPRENSA PODE FAZE-LA REVIVER. Dos políticos é que essa ressurreição não virá.
É preciso parar com essa ideia falsa de que ser profissional em jornalismo é tratar como se fosse normal aquilo que não é normal ou como se fosse saudável aquilo que é doente.
Veja-se o exemplo da cidadezinha de Hampton, na Florida, que o Jornal Nacional mostrou ontem. Montaram lá uma indústria de multas de trânsito; os funcionários da prefeitura gastaram 70 mil com cartões corporativos; a cidade deve 300 mil e não paga.
Normal?
No Brasil é coisa de criança. Não ha quem não faça. Mas lá o prefeito já está na cadeia, com o devido uniforme de presidiário e isso é só o começo. Se não aparecer a grana da indústria de multas que sumiu e a cidade não pagar sua dívida, vão acabar com ela como unidade política autônoma e incorporá-la à cidade vizinha.
É assim que se trata essas estripulias. É assim que se trata essa cambada onde a saúde moral da Nação está viva!
Corrupto tem em todo lugar. Não é privilégio de brasileiro. É privilégio da espécie humana. Mas se deixar o corrupto ganhar a parada depois de desmascarado como corrupto vai tudo pra cucuia. Não dá mais nem pra mãe da favela convencer o filho de que é melhor estudar que entrar para o tráfico, nem pra mãe do Leblon convencer o dela que é melhor trabalhar que puxar saco de político pra arrumar uma beira pra roubar a Petrobras. E o país apodrece de cabo a rabo.
Teve outro momento chocante no Jornal Nacional de ontem, aliás, que ligou alarmes em mim que nunca tinham soado antes. Viram aqueles moleques do morro depredando um carro da polícia e dando porrada nos PMs que corriam pra lá e pra cá sem reagir?
O que é que é aquilo, meu deus do céu?!
Segundo a Globo – e eu vi a cena e a repetição desse diagnóstico umas 10 vezes em todo os jornais de todos os canais de notícias de Jacarepaguá que estão sempre ligados aqui no meu posto de observação – trata-se de “uma nova estratégia usada pelo tráfico para desmoralizar as UPPs”!!!
É nada! Quem desmoraliza a polícia é a imprensa com o modo absurdamente desequilibrado como ela cobre um lado e outro dessa guerra. Não precisa “estratégia” nenhuma pra desmoralizar as UPPs. A PM está tomando cascudo e chute na bunda de pivete no centro nacional do crime organizado na véspera da Copa do Mundo porque a polícia já está desmoralizada. E não foi o tráfico que fez isso. O tráfico não tem poder para tanto, como já mostrei no artigo de ontem.
Enfim, meus caros amigos, a imprensa está precisando ir pro divã correndo. Ela é a única esperança que nos resta mas, se não abrir o olho, se não reativar o seu nervo moral adormecido, se não reassumir a função institucional para a qual está habilitada e legitimada em todo lugar civilizado do mundo, que inclui ser propositiva e não obrigatoriamente passiva diante de fontes viciadas como parece que se exige hoje nas nossas redações, roda já pra onde já rodaram as da Venezuela e da Argentina, e nós todos com ela porque já não sobra mais nada em pé.
Porque não haverá rebelião da “base” nem que a vaca tussa
19 de agosto de 2011 § 1 comentário

Bastou um encontro a portas fechadas com Lula e as algemas da Polícia Federal se tornaram uma ameaça mais preocupante para o futuro da democracia brasileira que os telefonemas grampeados dos algemados que a TV exibia naquele mesmo momento pedindo “capricho na fachada” das arapucas com que assaltam os miseráveis deste país.
“Mil desculpas, excelências! Vamos nos encontrar uma vez por mês, daqui por diante, e todos os partidos aliados estão convidados. Não haverá mais abusos…”
Na sequência uma reunião solene para afagar os 80 deputados e 20 senadores do partido do vice-presidente da Republica, seguida da liberação de R$ 1 bilhão em emendas parlamentares que, de qualquer modo, já estão na coluna de gastos desde 2009, e mais a re-confirmação da promessa de que será ao PMDB que o PT entregará a presidência da Câmara em 2013, se um dia 2013 chegar.
Na despedida, a presidente até aquiesceu que tem sido “sectarista” a cobertura dos escândalos pela imprensa…
E só isso já bastou para alguns jornalistas considerarem que, de uma vez por todas, Dilma “aderiu ao pragmatismo lulista”.
Pode ser…

Mas eu ainda resisto a me entregar a essa ansiedade de ver o país voltar à sua “normalidade” anormal. E invoco como prova da precipitação de tal conclusão o fato de que enquanto Dilma fazia todo esse rapapé o chefão da Agricultura, posto lá por Michel Temer em pessoa, despencava para a lixeira.
Mais um. E bitelão!
Dilma, é claro, esta vendo que o mar não está pra peixe – falo do mundo e não da nossa particular lagoa de piranhas – e sabe que vai precisar de votos para aprovar medidas que ajudem a poupar o país do contagio pelo segundo mergulho da crise financeira mundial.
É bom dar um tempo para tomar fôlego, portanto.
Mas antes de chegar a conclusões definitivas é preciso por na balança também o pragmatismo inflexível dos nossos xiitas do adesismo. Se ha alguma coisa de absolutamente sólido e estavel neste país é a firme aderência desse tipo especial de ser humano que consegue passar pelo rigoroso filtro da nossa política para dentro do “sistema” a todo e qualquer governo que se elege.

Alguém comentava ontem na televisão o “comedimento” de Michel Temer durante todo esse tiroteio, atribuindo tudo isso a uma suposta característica pessoal dele de autocontrole.
De fato. Michel Temer é um profissional que sabe fazer cálculos. Senão não estava bilionário como está.
É claro para ele como é claro para qualquer pessoa razoavelmente lucida que, a menos que o mundo afunde de vez, enquanto a China continuar faminta por commodities o Brasil seguirá se aguentando pra lá de bem, mesmo com toda a roubalheira; mesmo com toda a gastança; mesmo com toda a incompetência gerencial de que se tem dado provas por aí.
E como isso de eleições “It’s the economy, your stupid“, enquanto a economia não estiver descendo pelo ralo o poder continuará nas mãos do PT.

E aí (a História é minha testemunha) enquanto o PT tiver o governo os xiitas do adesismo continuarão aliados ao PT, mesmo porque nunca fizeram e nem sabem fazer outra coisa senão “estar aliados a governos”. Não governando, que isso dá muito trabalho, mas “estando aliados a governos”, que é uma delícia, sobretudo depois do “liberou geral” do Lula.
Se antes a corrupção requeria um empresário privado na outra ponta, dividindo o que fosse roubado, os partidos “da base” de hoje não precisam mais dessa bobagem. Criam eles próprios as empresas com quem os ministérios com que são contemplados vão fazer negócios. Não é preciso dividir com ninguém.
Agora eles mesmos cobram os escanteios e correm pra área pra cabecear pro gol.
E perder uma mina dessas!? Nem pen – sar!
Veja-se o PR. Lá da “lixeira” da Dilma o presidente Alfredo Nascimento anunciou a “decisão do partido de se retirar da coalizão”. Se não tivesse calado a boca daí por diante para livrar a cara, sua próxima frase teria de ser a clássica “Fomos traídos!”, já que não deu zebra: todo mundo se fez de bobo e continuou exatamente onde estava. Alguns balbuciaram que oposição, oposição mesmo, é exagero, mas que doravante passariam a “votar segundo sua consciência”. Mas isso é só uma confissão, para os anais, de que até então vinham votando exclusivamente com o bolso. Folclore…

PMDB et caterva não querem governar. E fazer oposição, ou é para quem quer ser o próximo governo, ou é coisa pra herói que realmente só pensa no interesse publico.
Não tem ninguém assim na “coalizão”.
De modo que a Dilma não precisa violentar a sua natureza porque não haverá rebelião nem que a vaca tussa.
Ta certo: é preciso andar com cuidado, esperar o horizonte desanuviar um pouco, trabalhar pela blindagem da economia contra a crise.
A Dilma esta sozinha nisso. O Lula pressiona porque ele é o mais bandalho entre os bandalhos e está se lambuzando que só ele, pra cima e pra baixo nos jatões da Odebrecht. Mas a Dilma é que é a presidente, e presidente ainda tem muita força no Brasil.
Se a imprensa não recuar, como é do seu dever; se der a ela, de fora, o apoio que lhe é negado de dentro, ela terá a cobertura que precisa para, a tempo e a hora, retomar a “faxina” sem poder ser desafiada de frente porque isso queimaria mais o desafiante do que ela.
Ate no Brasil ainda pega mal “fechar” com os assaltantes contra os assaltados em cima do flagrante. Mesmo pro Lula. E depois, limpar um pouco da miséria moral que assola o país é condição essencial para acabar com a outra.



















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