20 de abril de 2020 § 5 Comentários

A parte que te cabe nesse latifúndio

23 de março de 2015 § 19 Comentários

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O Banco de Compensações Internacionais (o BIS com sede na Suíça), dito “o banco dos bancos” que entra em ação quando alguma coisa ameaça mergulhar o setor numa crise sistêmica (quebradeira em cadeia) colocou o crescente endividamento das grandes companhias de petróleo no radar das suas preocupações depois que uma nova pesquisa mostrou que o endividamento do setor cresceu duas vezes e meia desde 2006 e alcançou US$ 2,5 trilhões em dezembro de 2014.

O estoque de créditos das companhias de petroleo brasileiras aumentou 25% ao ano entre 2006 e 2014, o das chinesas 31% e o das russas 13%. Do total de dívidas de US$ 112 bilhões de curto prazo do Brasil, US$ 54 bilhões são da Petrobras.

O estudo do BIS registra que “o endividamento das petroleiras dos emergentes contrasta com a divida estável das suas congêneres americanas” e que “os empréstimos contraídos por essas companhias coincidem com amplos pagamentos de dividendos aos governos que as controlam”.

Quer dizer, eles ficaram com os dividendos e você com as dívidas.

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Mas Petrobras é o de menos. A preocupação do BIS prende-se ao círculo vicioso que esse endividamento descontrolado tende a criar. “Com dívidas muito pesadas essas companhias tendem a manter sua produção em alta apesar da queda dos preços para gerar o fluxo de caixa necessário para o serviço da dívida. E com esse excesso de oferta os preços tendem a cair cada vez mais. A interação entre essas quedas do preço internacional do petróleo e a apreciação da taxa de câmbio pode ser mortífera para essas petroleiras endividadas dos emergentes”, o que precipitaria a quebradeira dos seus credores.

Essa é a parte que cabe ao mundo desse latifúndio. A cova em que está o Brasil, com palmos medida, é bem mais razinha. Porque para que a Petrobras não morra já, cobrando-nos o dobro do que paga pelos combustíveis que deixou de produzir e agora importa para fazer muito caixa, é preciso que o Brasil dê errado pagando o dobro do que o resto do mundo paga, mais a desvalorização do real para o dolar, para produzir e fazer circular tudo que planta e fabrica e é movido a petróleo. E vice-versa: para por o Brasil pagasse o mesmo que o mundo paga pelo petróleo e não tivesse sua indústria, sua agricultura e sua moeda esmagadas seria preciso deixar a Petrobras quebrar já,  o que implicaria em desclassificações de rating, encarecimento das outras dívidas do país e etc.

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E indústria versus desvalorização do real? É parecido. Pra ela conseguir colocar o nariz um milímetro acima da superfície é preciso desvalorizar muito o real. Mas cada centavo que o dólar sobe as dívidas da Petrobras e do Brasil crescem algumas centenas de milhões.

Se correr o bicho pega; se parar o bicho come. Eis a beleza da obra do PT.

Mas tudo isso ainda é pouco.

Com o barril a US$ 50 dólares ou menos – e não ha nenhuma razão no horizonte para que o preço suba, ao contrário, como mostra o BIS – o petróleo do pré-sal fica, segundo os otimistas, na beira do zero a zero. Mas toda a indústria do álcool, segundo otimistas e pessimistas, vai inevitavelmente a pique porque o custo de plantar e colher cana e transforma-la em álcool simplesmente não cabe nesse preço.

É essa qualidade de encrenca que vem vindo por aí…

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“Shale gas” e pré-sal: o mundo é pequeno para os dois

21 de março de 2013 § 48 Comentários

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Duas tecnologias novas desenvolvidas recentemente nos Estados Unidos estão revertendo todos os prognósticos de rápida alteração no equilíbrio de forças econômico do planeta e podem afetar seriamente o sonho brasileiro de achar um corte de caminho para o clube dos grandes do mundo.

A primeira envolve injetar uma mistura de água, areia e produtos químicos em estruturas rochosas que contêm microporos cheios de gás e petróleo de modo a liberar os hidrocarbonetos aprisionados nelas. A segunda torna muito mais fácil chegar às mais finas camadas dessas rochas enterradas a baixas profundidades, além de permitir a perfuração de diversos poços a partir de um único ponto de partida.

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Essas duas novas técnicas de extração do que por lá se chama de “shale gas” estão provocando uma verdadeira explosão nos números de produção de gás e petróleo dos Estados Unidos e barateando de tal forma os custos de diversas industrias intensivas em energia que todos os prognósticos sobre a “crise sistêmica” da economia americana, que estaria irremediavelmente condenada a ser engolida por economias emergentes, estão sendo refeitos.

Os entornos de Pittsburgh que, nos últimos anos, pareciam um cemitério de velhas siderúrgicas desativadas, assistem hoje a uma corrida frenética de capitais americanos, russos, franceses e até chineses para voltar a fabricar aço com a energia mais barata do mundo.

O Maciço Marcellus, uma formação geológica de rochas arenosas impregnadas de gás e óleo se estende por quase 1.000 quilômetros ao longo das montanhas Apalaches do estado de Nova York até o de West Virgínia. Somente no ano passado o governo da Pennsylvania emitiu 2.484 permissões para a perfuração desse novo tipo de poço de petróleo. Os poços da porção do Maciço Marcellus nesse estado produziram 895 bilhões de pés cúbicos de gás em 2012, partindo de 435 bilhões no ano anterior. Em 2008 essa produção era igual a zero.

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Isso representou uma injeção de US$ 14 bilhões na economia da Pennsylvania no ano passado (dados da Economist).

Arkansas, Louisiana, Oklahoma e Texas viveram explosões semelhantes. A produção de gás e petróleo extraído dessas rochas quadruplicou nos Estados Unidos entre 2007 e 2010 e acrescentou 20% à produção nacional de petróleo nos últimos cinco anos. Técnicos da British Petroleum afirmam que a produção deve continuar crescendo à base de 5,3% ao ano até 2030 e que, já no fim deste ano os Estados Unidos ultrapassarão a Rússia e a Arábia Saudita e se tornarão o maior produtor de petróleo e gás do mundo.

O preço do gás nessa região caiu de US$ 13 o BTU em 2008 para US$ 1 a 2 no ano passado, o segundo preço mais baixo do mundo depois do Canadá. As fabricas americanas consumidoras de gás estão pagando 1/3 do que pagam as alemãs e ¼ do que pagam as coreanas.

Gás barato também se traduz em eletricidade barata. Em 2011 as fábricas americanas nessas regiões já estavam pagando metade do que custa a energia para suas concorrentes no Chile ou no México e ¼ do que se paga na Itália.

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Não é só a indústria de metalurgia que se beneficia com isso. Além de todas as demais, as de uso intensivo de energia, como as de plásticos, fertilizantes e outras também se tornam imbatíveis. E, além disso, os Estados Unidos têm a maior rede do mundo de oleodutos e gasodutos, o que permite espalhar facilmente essa riqueza a preço baixo por todo o país.

A Costa do Golfo, onde existe outro maciço dessas rochas, também vive um forte renascimento industrial. Fabricas instaladas no Chile estão sendo desmontadas e transportadas inteiras para a Louisiana. A Bridgestone, a Continental e a Michelin, revertendo um longo processo de declínio, estão reativando e aumentando suas fábricas de pneus na Carolina do Sul. Tudo gira em torno do início da exploração de novas jazidas de rochas porosas como as da Bacia Permian, na Louisiana, a de Eagle Ford Shale, no Texas, a da Formação Baken em Dakota do Norte e a Mississipi Lime, que atravessa o subsolo de Oklahoma até o Kansas.

O efeito da redução das importações de petróleo no déficit comercial americano foi de US$ 72 bilhões no ano passado, ou 10% do déficit total. Esse “petróleo não convencional” gerou US$ 238 bilhões em atividades econômicas diretas, 1,7 milhão empregos e US$ 62 bilhões em impostos só no ano passado, sem contar os efeitos indiretos decorrentes da redução nos preços da eletricidade, do gás e dos produtos químicos.

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Analistas do Citigroup e do UBS calculam que só essa indústria vai gerar um crescimento de 0,5% do PIB norte-americano por ano nos próximos anos além de ensejar um renascimento das industrias de manufaturas nos Estados Unidos. As decisões recém anunciadas da GE de trazer de volta da China e do México para o Kentucky a produção de sua linha branca, e da Lenovo, o gigante chinês de hardware que comprou a linha de computadores pessoais da IBM, de produzi-los na Carolina do Norte são apontados como os primeiros passos desse processo de reversão.

O efeito dessa inovação nos preços internacionais do petróleo ainda são pequenos. Mas os Estados Unidos, que foram os maiores importadores do mundo e rapidamente se tornarão autosuficientes, não são o único lugar do planeta onde existe esse tipo de formação rochosa que, lá, praticamente aflora do chão.

De modo que o Brasil, que já está gastando por conta de reservas de petróleo enterradas a seis ou sete quilômetros debaixo do fundo do oceano, cuja extração começa a se tornar economicamente palatável com o barril acima de US$ 100 no mercado internacional, deveria por as barbas de molho e pensar melhor antes de jogar dinheiro fora.

Pois, por tudo que já se sabe por enquanto, o mundo ainda é pequeno demais para o “shale gas” e o pré-sal ao mesmo tempo.

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