Voto distrital com “recall” já!
21 de março de 2015 § 54 Comentários
Artigo para O Estado de S. Paulo de 21/3/2015
O vazamento de documento sigiloso analisando a crise e criticando o governo, incidentalmente seguido da conflagração quase física de vendedores de governabilidade de maior e de menor sucesso dentro da sua “base de sustentação”, não traduz qualquer tipo de choque de idéias ou ensaio de mudança de rumo. Como Eugenio Bucci resumiu com perfeição em artigo nesta página quinta-feira, o que se afirma no documento é apenas que “o governo teria errado porque não lançou mão das ferramentas certas nas doses cavalares certas para convencer a cidadania errada de que ele, governo, é que está certo“. Ou seja, sobre o projeto de país do PT ser inteiro uma mentira o PT inteiro está de acordo. O que se discute é só a qualidade da mentira que se deve vender, e com que intensidade, para que não se perca o projeto de PT a serviço do qual o partido pôs o país.
Difícil é imaginar como “melhorar”, nesse sentido, o discurso de Dilma Rousseff. Na sequência das maiores manifestações que o país já viu, com as televisões alternando suas palavras com as provas “estarrecedoras” do Ministério Público de que a roubalheira continuou pela mão do preposto de José Dirceu, o único prisioneiro da “Fase 9” libertado pelo ministro Teori Zavaski, do STF, a presidente pontificava impávida que “a corrupção passou a ser combatida pela primeira vez na história deste país graças ao PT”; que este governo, graças ao qual agora temos a garantia de que José Antônio Dias Toffoli dará aos “petrolões” o que eles merecem, “não interfere no caminho da justiça”; que as “manifestações” da sexta-feira, 13, foram tão autênticas quanto as de domingo, 15 de março; que este ajuste imposto “pelos erros dos outros” está sendo justissimamente distribuído entre todos os brasileiros pelo governo dos 39 ministérios intactos e sua Brasília que nada produz mas é campeã nacional de renda; que o partido do “controle da mídia” cujo chefe máximo, quando sai da moita, é para convocar “os exércitos do Stédile” a “dar porrada” em quem for contra, “respeita acima de tudo o direito de dissentir”; que os soldados da “ditadura do proletariado” do passado, que dão cobertura aos nicolás maduros do presente arriscaram suas vidas “para defender a democracia”…
É esta a essência desta crise. A mentira, que no limite terá de se impor pela força, envenena de tal forma o ambiente que coloca tudo sob suspeição, paraliza a economia e congela até as verdades prementes da urgência de agir e do imperativo de mudar a regra do jogo sem a satisfação das quais não ha saída. Considerando-se que seus efeitos sociais mal começaram a chegar às ruas e que temos quatro anos pela frente, é uma situação perigosíssima.
Sim, é verdade que as redes sociais tornam mais difícil a manipulação da opinião pública e que vastos segmentos da sociedade aos quais vinha sendo imposta ha anos uma sistemática “não existência” por uma mídia enviesada conseguiram, finalmente, furar o cerco, auto-organizar-se e fazer-se ouvir nas ruas.
Mas é só isso que as redes sociais proporcionam. Nada garante que a “primavera brasileira” será diferente das outras.
Finda a embriagues dessa “libertação”, o país mergulha de volta na aridez do seu isolamento, da sua viciosa auto-referência, da sua indigência de know how em matéria de tecnologia institucional.
Ha um pesado passivo a ser removido. Desde a redemocratização nossas escolas e redações, com as exceções que confirmam a regra, têm mantido o país isolado da modernidade e ignorante dos seus remédios e anatematizado tudo que não seja mais do mesmo no debate político nacional. A sanção social contra quem resiste é de tal ordem que poucos entre os que não incorporaram como seu o “index” do “politicamente correto” têm coragem de afirmá-lo publicamente.
Não é mais que esse tipo de covardia o nosso “deserto de lideranças”.
O divórcio entre palavras e fatos e a perda da capacidade de relacionar causa a efeito, essência do pensamento racional, não é uma exclusividade de Dilma Rousseff, é uma doença nacional. O que sobrou da Petrobras rapinada está sendo liquidado aos pedaços, mas “privatização”, no sentido original de antídoto para isso, segue sendo palavrão. Com a conta do ajuste provocando pesadas baixas num “país real” ainda eivado de miséria, o “país oficial” permanece incólume com seus milhões de funcionários ociosos, suas aposentadorias milionárias, suas mordomias indecentes e seus direitos e foros especiais medievais. Mas os economistas da oposição e até a imprensa dão de barato que tudo isso é imutável. “Como as despesas de custeio são incomprimíveis os impostos terão de ser aumentados e os investimentos cortados”. É só um dado “técnico” da equação, ainda que implique uma sentença de morte da Nação.
Corrupção? Ah, sim! Vamos eliminar “a causa” dela do mesmo modo como estamos eliminando “a causa” da criminalidade: proibindo a presença de dinheiro nas campanhas eleitorais alheias assim como temos proibido a posse de armas de fogo pelas vítimas do crime, e agravando penas que nunca serão aplicadas mantidos os direitos e os foros especiais. E nas TVs, jornalistas e “especialistas” meneiam a cabeça, graves, em aprovação. O fato do Brasil continuar matando a tiros cinco vezes mais do que mata o Estado Islâmico por ano não prejudica em nada esse raciocínio e portanto não cabe lembrá-lo aos propositores de tais “soluções”.
Lá fora ganha a corrida quem mais se alivia de pesos mortos e melhor arruma tudo para proibir presidentes et caterva de “fazer” ou “dar” o que quer que seja a quem quer que seja ou impor ao país as suas “boas ideias“. Para garantir que assim seja, arma-se a mão do eleitor com o poder de demitir funcionários e representantes a qualquer momento pelo voto distrital com recall de modo a ser dele a última palavra em qualquer discussão que possa afetar o seu destino. O resto vem por consequência.
Vem aí a “reforma política” que muitos sonham usar até para acabar com a política no Brasil. É hora de deixar de lado as panelas e começar a gritar algo que produza resultados.
TUDO SOBRE O VOTO DISTRITAL COM RECALL
Questão de prateleira
13 de março de 2015 § 19 Comentários
Os documentos vazados do banco HSBC expondo milhares de bandidos pelo mundo afora que lavam seu dinheiro em contas dessa “instituição” na Suiça, incluem 8.667 brasileiros. Não é só o HSBC, aliás. No depoimento de Pedro Barusco, o gerente milionário da Petrobras, também foram mencionados os bancos Safra (que, diga-se de passagem, já vendeu e ensacou tudo que rapinou por aqui e se mandou pra Europa), Royal Bank of Canada, Banque Cramer, Lombard Odier, Pictet, Julius Baer e PKB.
Estão entre os donos dessas 8.667 contas brasileiras, de políticos e figurões do “petrolão” a criminosos comuns como o Capitão Guimarães, dono da máfia de caça níqueis no Brasil e o traficante colombiano de cocaína Gustavo Duran Batista que homiziava-se por estas amenas praias.
É perfeitamente natural.
O crime organizado nas ruas só existe e sobrevive se e quando tem cobertura do crime organizado nos governos pois nenhum tipo de criminoso tem força para resistir à polícia de um Estado Nacional se ele estiver realmente disposto a pegá-lo. E esse tipo de banqueiro, é claro, é que sustenta o esquema de ambos pois sem eles não haveria proveito nos crimes que praticam.
Essa corja toda – os assassinos diretos e os assassinos indiretos; nos esconderijos, nos palácios ou nos prédios majestosos que abrigam bancos e banqueiros – são todos uma e a mesma coisa. Só estão em prateleiras diferentes.
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Questão de esgotamentos
Dilma disse ontem que “o país esgotou todos os recursos” para evitar a crise. Ela nunca foi tão literal e sincera, menos por uma palavra: onde se lê “o país”, leia-se “o governo do PT”.
O país vai “ser esgotado” é a partir de agora, para pagar a farra.
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Questão de manifestações
Melancólicas essas “manifestações” dos movimentos sociais amestrados do PT, “em defesa” da (ex-presidente do Conselho de Administração da) Petrobras e do “direito” do partido político que se apropriou da empresa de esbulhá-la impunemente por toda a eternidade.
Mesmo sendo só esses gatos pingados que a TV está mostrando, é triste constatar que ainda os há e que em pleno desnudamento do escândalo ainda ha dinheiro público pagando esquemas para fantasiá-los, equipá-los de cartazes e balões coloridos, vestí-los, alimentá-los e embarcá-los em ônibus “de luxe” para transportá-los até os pontos demarcados para fazerem esse triste papel.
A tudo isso o país real retrucará no domingo.
A conferir.
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Questão de chapéus
E por falar no “exército do Stédile” que o Lula convocou especialmente para “reagir na porrada” contra brasileiros protestando nas ruas contra continuarem a ser roubados, repare nas fotos. Na primeira está um grupo de “soldados do Stédile” recebendo “aulas” de alguma coisa. Não ha informação sobre se já são as aulas ministradas por Elias Jaua, o chefe daquelas milícias armadas da Venezuela que reagem a tiro contra manifestantes anti-bolivarianos (a “porrada” já ficou na saudade). Mas os chapéus, obviamente, não estão vestidos dentro de casa para defender esses “alunos” do sol e da chuva. Eles são o uniforme, a marca registrada dos comandados deste nobre cavalheiro que o governo brasileiro convida oficialmente a vir ao Brasil ministrar “aulas de revolução socialista” e “dá carteiradas” em nossos aeroportos para manter na cinta os 38’s que os brasileiros estão proibidos de ter com que desembarca no território nacional.
Os chapéus são iguais porque é igual o que está sendo fermentado nas cabeças por baixo deles. Só falta o resto do “equipamento“.
Que fazer?
11 de março de 2015 § 14 Comentários
Artigo para O Estado de S.Paulo de 11/3/20
O que ha de surrealista nesta crise é a ordem dos fatores. Não são os fatos que configuram a crise e pautam o discurso do governo, é o discurso do governo que pauta a crise e torna os fatos cada vez mais adversos.
De par com a roubalheira tanto mais negada quanto mais exposta, esta crise não é muito mais que a insana persistência na negação da crise, agravada pela última tentativa de dona Dilma de provar-nos que os loucos somos nós, que o que sentimos no bolso não passa de uma invenção “da mídia” e que quem vai mal não é o Brasil onde o petróleo custa o dobro, é o mundo onde o petróleo custa a metade. Assim como a Petrobras é “vítima” do assalto a que se vem submetendo languidamente ha 12 anos, o PT é “vítima” da incúria chinesa, americana e alemã para tocar uma economia com eficiência e responsabilidade.
É totalmente relevante assinalar que a par de abrir-nos os olhos para os perigosos enganos a que nos empurram os nossos cinco sentidos, dona Dilma decretou que matar mulheres – e só mulheres – passa a ser “crime hediondo”, apenas porque sua augusta excelência acordou com essa boa idéia na cabeça!
O constante atropelamento da Lei, da aritimética e das instituições pelos “atos de vontade” do governante de plantão num mundo onde o dinheiro é um só e não admite mais esse tipo de desaforo é o que nos está matando.
Seria o momento da oposição provar que é diferente. Mas não será saudando o dono da Transpetro como “estadista da República” por reagir ao cerco da polícia atirando no dr. Levy que vai conseguir isso. Faria melhor se denunciasse a “camarotização” pacificamente assimilada dessa Brasilia que segue com suas obscenas enxúndias e adiposidades incólumes enquanto exige do Brasil da 2a Classe que entregue os músculos e até os ossos. Mas nem pelo exercício didático alguém fez a conta para mostrar quanto do superavit pretendido pelo dr.Levy poderia ser conseguido limpando o país de pelo menos 29 dos 39 “ministérios” que nem a presidente é capaz de enumerar de cór, com seus respectivos “ecossistemas” de parasitas. As provas de que a dos que pagam e a dos que são pagos com impostos são as duas únicas “classes sociais” em conflito insanável no país dos “exércitos do Stédile” poderiam ganhar a exposição que precisam ter, mas ninguém põe o dedo nessa ferida, primeiro porque, em lado nenhum existem “contribuintes” em Brasilia e, segundo – e esta é a verdade que dói – porque quase todos aqui fora têm algum pai, mãe, irmão ou filho na categoria dos “contribuídos”.
Truque velho como a peste bubônica esse de gastar um pouco de quirera pra catar frango pro almoço, mas a gente não aprende.
E no entanto, se tem uma coisa que todo mundo sabe com certeza é que adianta tanto para a salvação da economia nacional o dr. Levy amputar músculos para preservar gordura mórbida ou fazer o ajuste burro via inflação para entregar um país que caiba nas calças por mais 15 minutos quanto o Judiciário prender mais meia dúzia de zés dirceus por meia hora e de marcos valérios por meia vida para evitar os próximos “petrolões”.
O mesmo raciocínio vale para o impeachment, ainda que não fosse no quadro de economia e instituições em frangalhos que tornam essa empreitada temerária hoje. Ele faria tanto pelo exorcismo da corrupção no Brasil quanto fez o do ex-presidente banido que está hoje atolado no “petrolão”.
Sim, democracia não é o poder de eleger, é muito mais o de deseleger. É em torno de quem tem o poder de demitir que estruturam-se as cadeias de lealdades como mostram tanto o dia a dia que todos vivemos no trabalho quanto o receituário internacional da moderna medicina institucional. Mas somente se esse poder for institucionalizado, orgânico e previsível.
Se o desastre petista ainda não atingiu a todos, é certo que, com ou sem Dilma, ninguém escapará. Impedir o PT de presidi-lo inteiro, portanto, só pioraria as coisas. Este país tão cheio de filtros distorsivos da realidade precisa de literalidade e privar o PT de colher todos os direitos autorais a que faz jus seria contribuir para que não “pegue” a vacina que pode por-nos para sempre à salvo da volta ao “califado bolivarizado” modelo século 18 com que sonha o lulopetismo emessetista.
O importante é garantir que disso resulte que, para tudo quanto é decisivo, daqui por diante, a ultima palavra, na brasileira, seja sempre do eleitor como já é em toda a democracia que pode ser grafada sem aspas. Para tanto, dois instrumentos são imprescindíveis: o “voto distrital com recall”, em uso pelo mundo afora desde 1846, e o “voto de retenção de juízes de direito”, em uso na norte-americana e em outras democracias de ponta desde 1934. Com o primeiro, divide-se o eleitorado em distritos delimitados e só se permite que cada candidato se ofereça a um, o que amarra cada representante a um grupo identificavel de representados. Dentro de cada distrito, todo eleitor tem o direito de iniciar uma petição para derrubar seu representante a qualquer momento e por qualquer motivo. Se conseguir um numero suficiente de assinaturas, convoca-se uma votação só naquele distrito e derruba-se o faltoso sem ter de perturbar a paz social ou o resto do país. Com o segundo faz-se coisa parecida no universo do Judiciário. Os juízes seguem sendo “intocáveis”, salvo por suas excelências os eleitores. A cada eleição aparecerá nas cédulas de cada distrito eleitoral também o nome dos juízes daquela jurisdição com a pergunta: “Deve o meritíssimo ter a sua incolumidade confirmada por mais 4 anos”? “Sim” ou “Não”.
Lembrar a toda hora aos participantes do jogo político quem manda em quem num governo “do povo, para o povo e pelo povo“, e demitir sumariamente quem esquecê-lo inverte o sentido das lealdades e faz o mundo dos políticos e do funcionalismo passar a funcionar exatamente como o aqui de fora, pela mesma boa razão: ou trabalha-se a favor “da empresa”, ou rua.
Para conseguí-lo, basta afirmar o que queremos com a mesma firmeza com que ja começamos a afirmar o que não queremos.
COMO FUNCIONA A SELEÇÃO DE JUíZES NOS EUA
TUDO SOBRE O VOTO DISTRITAL COM RECALL




























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