O “bom selvagem” em ação
7 de maio de 2015 § 18 Comments
Reza o decreto “politicamente correto” que o homem originalmente era um santo que vivia em perfeita comunhão com a natureza (embora já naquele tempo comesse…) e que o que deturpou tudo foi a contaminação dele pela ganância imposta pelas culturas européias.
Não é só um truísmo, é fato histórico que uma famosa “entrevista” com um tupinambá feita por Jean de Lery, cronista que esteve no Rio de Janeiro com Villegaignon no final dos 1500, lida pelos intelectuais franceses dos séculos 16 e 17, inspirou toda a lenda rousseauniana que fez do “bom selvagem” um arquétipo e uma “lei da natureza” de onde nasceu o braço esquerdo do pensamento ocidental. Foi, por assim dizer, uma versão “científica” do mito católico onde o agente poluente do “paraíso” seria o conhecimento…
Mas a verdade é bem outra como sabem os antropólogos, os arqueólogos, os historiadores da botânica, as pessoas que frequentam os ambientes selvagens reais e outros homens e mulheres humildes que cuidam mais de fazer “perguntas à” que “afirmações sobre” a natureza, à história e aos fatos. E o que estes nos dizem é que o homem sempre foi o que continua sendo, e isto inclui o seu exacerbado apego a certas mentiras renitentes, principalmente as que dizem respeito à sua própria natureza freqüentemente tão pouco “respeitável” segundo os cânones do que supostamente “é correto” ser ou não ser, sentir ou não sentir. É, ao contrário, a civilização, a lei e o medo da polícia que o impedem de sair por aí dando pauladas em tudo quanto se move.
Não obstante, é em nome dessas mentiras tão caras à metade da humanidade que não consegue se encarar como aquilo que é que nós todos pagamos os barcos, os motores de popa (60 cavalos com tele-comando!) e até os celulares com que estes representantes dos “povos da floresta“, em vez de guarda-la dos predadores aqui do mundo sem salvação, registraram o sublime ato de amor à natureza que se vê neste filme.
O mundo não está para os grandes mamíferos…
11 de novembro de 2011 § Leave a comment
Toda semana, agora, mais uma se entrega.
A cidade foi apertando as onças, avacalhando-as, tirando-lhes a dignidade, como faz com os homens.
Das noites de luar na floresta no ritmo dos grilos, das rãs batedoras, dos urutaus e dos pios dos macucos sonhando em seus poleiros, foram reduzidas, nas ilhotas de mato cercadas pelo asfalto que sobraram por aí, aos clarões azulados das TVs, aos ecos dos latidos, da gritaria, das brecadas, do batidão do funk das periferias…
De rainha dos matos, exímia caçadora, testemunha viva dos milhares de milênios, sobrevivente de cataclismos e extinções em massa, foi rebaixada a caçadora de ratos, a comedora de restos nos lixões.
Mas as onças são mais exigentes do que nós. Não dão pra catadoras.
Melhor se entregar mesmo. O mundo não está para os grandes mamíferos. Só vão sobrar os ratos e as baratas.
Leia mais sobre a história dos felinos no planeta Terra aqui.
De como Juca escapou das garras de uma onça
25 de outubro de 2009 § Leave a comment
Prometi histórias interessantes da Amazônia e voltei com mais uma crise.
Me desculpo. O Brasil é isso…
Mas a historia prometida está aí.
Juca, filho de Zé Boi, é um ribeirinho do Médio Iriri, na altura da confluência com o Igarapé da Bala. Nasceu onde mora até hoje, com a mulher e cinco filhos, que agora dividem o tempo entre o Iriri e Altamira. Ele fica no rio.
O pai nunca saiu de lá. Continua só na castanha e na caça de subsistência. Juca é da terceira geração desses cearenses que foram para a Amazônia. Seu avô foi o primeiro da família a se instalar lá. Tirava borracha, caçava peles de gatos e de porcos…
Ha dois anos, Juca quase se mete numa enrrascada.
Toque no link e ouça:
O ultimo dos moicanos
16 de setembro de 2009 § 1 Comment
Puma yagouaroundi.
Com seu primo do Norte, Puma concolor, é um dos mais versáteis entre os mamíferos. Espalha-se por mais de 100° de latitude do globo terrestre. Se vira bem das escarpas geladas do Estreito de Magalhães até o Yukon canadense, e em variações de altitudes tão amplas quanto o nível do mar e 4 mil metros montanha acima. Dos desertos às florestas úmidas, dos extremos de frio aos extremos de calor, nada conseguiu detê-los.
As fêmeas, que demoram entre 70 e 75 dias em gestação, dão à luz entre um e quatro filhotes por vez. Amamentam por 6 a 7 meses e, nesse período, têm de caçar até três vezes mais do que bastaria só para elas. Passada essa etapa em que vivem estritamente para as crias, começam a levá-las em suas caçadas, para aprender.
Esses gatos americanos são parentes muito próximos das chitas africanas. Estão entre os felinos com maior proporção entre a pata traseira – a de dar impulso – e a dianteira. São feitos para correr, saltar, se esticar, mais que qualquer outro animal. Existem fósseis em tudo parecidos, entre esses dois, de mais de três milhões de anos.
Os mamíferos, nossos primos, evoluem de um grupo especial de répteis há cerca de 285 milhões de anos. Aparecem na Terra antes dos dinossauros. Os dois convivem por 160 milhões de anos, perambulando pelo planeta. Mas os mamíferos desenvolvem a capacidade de regular internamente a temperatura do corpo, que os dinossauros não têm. E isto aumenta a sua versatilidade quanto a habitats. É, provavelmente, o que os faz sobreviver à extinção dos dinosauros, que ocorre 65 milhões de anos atrás.
Começa aí a era de ouro da nossa espécie. Nos ultimos 45 milhões de anos todos os grupos de mamíferos que conhecemos hoje já estavam aí.
Somos 5411 espécies.
Como os felinos, nós estamos entre os mamíferos placentais (que nascemos em úteros). Evoluímos junto com os grandes eventos tectônicos que provocaram a separação dos continentes.
Puma yagouaroundi.
De jaguarundi, o “gato do mato”, como os chamavam os guerreiros tupi-guarani. Sub categoria dos jaguar, “aqueles que brigam”, que gostavam do Jaguaré, o “lugar amigo das onças”.
Este de Louveira, era um deles.
Exausta, cercada, derrotada, era, possivelmente, a ultima onça parda deste particular pedaço da grande área entre o mar e mais de 300 quilometros para o interior, talhada e retalhada pelo desdobramento em metástese desta São Paulo, que um dia foi deles. A ultima de uma raça que viveu nas matas que ali houveram desde os começos do mundo.
Como seus ancestrais, ela reunia todo o equipamento necessário para atravessar dois milhões e oitocentos e cinqüenta mil séculos de cataclismos de proporções planetárias, de choques de gigantescos corpos celestes contra a Terra, de glaciações, de fomes, de predadores, de doenças e o mais. Por todos esses milênios, sustentou seu direito de continuar viva, aqui e agora.
Mas não estava preparada para que lhe tirassem o chão de debaixo das patas; para que lhe suprimissem o mundo de em volta do corpo…
“Mor-reu-na-con-tra-mão-atra-pa-lhan-do-o-trâââânsitô!”







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