O olho de Obama

11 de setembro de 2013 § 1 comentário

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Enquanto o PC do B, o protetor de Cesare Battisti, negocia com Vladimir Putin, o protetor de Bashar al Assad, para ouvir Edward Snowden de modo a deter a espionagem americana que ameaça a segurança do mundo e a lisura do jogo econômico internacional (Democratas, unidos, jamais serão vencidos!), é provável que os especialistas daquele “tradicional grupo de profissionais que blinda Dilma na rede” (veja a matéria “Top, top secret” aí embaixo) estejam examinando com o mais alto interesse o mais novo segmento da corda que vem sendo pacientemente trançada pelos capitalistas para o seu futuro enforcamento.

A imprensa especializada americana destaca hoje os novos sensores instalados no iPhone 5S lançado ontem pela Apple, como a mais decisiva confirmação da tendência, generalizada nessa indústria, de transformar todos os aparelhos de uso pessoal intensivo, especialmente o onipresente “celular inteligente”, em plataformas de múltiplos “sensores permanentemente ligados” (“always-on sensors”).

burro2

O iPhone 5S vem agora com um “co-processador de movimentos” empacotado num novo chip, o M7, cuja função é “monitorar permanentemente todos os sensores de movimentos já embutidos no seu telefone como o acelerômetro, o giroscópio e a bussola”.

Esses sensores, em si mesmos”, esclarecem os especialistas, “não são novidade. Mas dedicar um chip exclusivamente para monitorá-los, sim. O M7 acoplado a algo chamado CoreMotion API, que é um software que transforma os impulsos medidos por esses sensores em informações combinadas legíveis, torna essas informações disponíveis para qualquer aplicação que se baseie no seu uso”.

Um dos aplicativos baseados nessa API, informa a Apple, será o Nike+Move que fará com que o seu celular substitua o Fuelband da própria Nike, que são aquelas pulseiras que medem quanto você andou, por quanto tempo, em que direção, a que velocidade, empurrado por quantos batimentos cardíacos por minuto e queimando quantas calorias, entre outras informações.

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Os Galaxy S3 e S4 da Samsung também embutem “acelerômetros”, por enquanto usados para funções inocentes tais como rejeitar uma ligação virando o aparelho para um lado e para o outro ou “dar zoom” numa foto imitando o gesto de afastar ou aproximar o telefone dos olhos. Os S4 já incluem, também, sensores de umidade e temperatura, por enquanto usados, alegadamente, apenas para “fazer os telefones contribuírem para sistemas mais amplos de previsão do tempo”.

Já os MotoX, da Motorola, estão “sempre ouvindo”. O chip de processamento de áudio que ele incorpora é “especializado na supressão de ruídos e no reconhecimento de voz”. Como reconhece certas palavras e movimentos, outro tipo de processamento dessas informações “allways-on”, segundo o site especializado AllThingsD, permite que esse telefone “antecipe os movimentos do usuário”. Por exemplo, segure o telefone como se fosse tirar uma foto e ele ligará automaticamente a câmera.

burro2a

Todos, entre esses aparelhos, que são motorizados pelo sistema Android, do Google, transmitem, ainda, dados sobre os deslocamentos físicos de seus usuários a partir dos GPS’s “allways-on” dos seus sistemas, mantidos assim “para montar e animar os Google Maps e os sistemas de monitoramento de tráfego”, muito em voga ultimamente.

Todos esses “features” e inocentes comodidades, entretanto, custam dezenas de bilhões de dólares e anos de trabalho para serem desenvolvidos, o que nos põe diante de uma flagrante desproporção entre custo e benefício.

Mas quando saímos do transe do brinquedinho novo e nos damos conta de que a pergunta sobre a real utilidade de todas essas aparentes bobagens poderia ser perfeitamente respondida com a mesma frase que o Lobo Mau devolvia à Chapeuzinho Vermelho quando ela candidamente o interrogava sobre a serventia daquelas orelhas, daquele nariz e daquela boca “tão grandes”, começamos a entender melhor em que terreno estamos pisando.

burro2

Por enquanto a única coisa que impede que todos esses chips fiquem “allways-on” todos juntos, ao mesmo tempo e o tempo todo é a charada tecnológica da duração das baterias que, por enquanto, não suportam esse desaforo todo.

Mas enquanto ela não se resolve os fornecedores dessas plataformas, pelas quais pagamos regiamente e que cuidamos de manter sempre ao alcance de tudo que eles querem saber, vão vendendo a peso de ouro as informações que elas nos arrancam enquanto brincamos com elas. De carona com eles vão também os analistas de “big data”, cada um com seu interesse específico, nadando de braçada nas nossas intimidades.

Em priscas eras, coisa de quatro ou cinco anos atrás nestes tempos de internet, temia-se o desenvolvimento do que se chamava então “uma internet das coisas” onde tudo – de sapatos a automóveis – estaria conectado, o que resultaria no permanente monitoramento de tudo que as pessoas fazem ou deixam de fazer.

burro2a

Era esse o cenário tenebroso à la “1984/Big Brother” dos pessimistas de então.

Agora, compreendendo melhor o real grau de inteligência dos portadores de celulares inteligentes, os fabricantes perceberam que em vez de colocar chips em tudo é mais fácil embutir todos eles nos celulares que eles carregam consigo de livre e espontânea vontade do confessionário ao banheiro, passando por tudo que está no meio, e registrar cada soluço que seus portadores dão – para vender ou manipular tais informações em função de projetos de poder ou simplesmente vigiar concorrentes, desafetos ou opositores para eventuais providências futuras – enquanto os alegres objetos desse monitoramento permanente, nus em pelo, distraem-se a vociferar contra “as óbvias intenções” de Obama e da CIA de despi-los, destruir democracias e atacar gratuitamente gente inocente.

Sai muito mais barato.

burro7

O roto, o rasgado e nós, pobres de nós

8 de agosto de 2011 § 1 comentário

Não é que Obama e o Congresso americano estejam com essa bola toda mas na disputa de credibilidade que abriu com eles a Standard & Poor’s perde longe.

Em artigo para o NY Times de hoje o prêmio Nobel, Paul Krugman, que nessa crise toda também não tem primado por não fazer concessões aos argumentos passionais, lembra as razões pelas quais não se deve levar a sério nem a S& P nem suas congêneres Moody’s e Fitch:

  • elas têm enorme responsabilidade pela crise de 2007/8, mãe desta crise da dívida americana, porque mantiveram a classificação “AAA, que agora negam ao Tesouro dos EUA, para os derivativos lastreados em hipotecas que detonaram com a economia do mundo e, quando a coisa estourou, continuaram dando desculpas esfarrapadas para não admitir o erro que cometeram;
  • na imediata sequência, também mantiveram a avaliação “A” para o Lehman Brothers, o banco que, quando foi à bancarrota (carregando aquele “A” para o fundo), precipitou a débacle financeira mundial e, depois desse vexame, continuaram mantendo o “A” e dando desculpas esfarrapadas para se explicar;
  • antes de anunciar a desclassificação dos Estados Unidos a S&P mandou o texto em que justificava o que ia fazer para o Tesouro conferir e este lhes apontou um erro banal de cálculo que fazia uma diferença de US$ 2 trilhões; embora a atual crise gire em torno de cortar (ou arrecadar) US$ 2 trilhões a mais do que o Congresso já concordou em fazer, a S&P reagiu como sempre: deu desculpas esfarrapadas para o seu erro e manteve a conclusão que inclui esse erro;
  • ainda que tivesse acertado nas contas, o fato dos Estados Unidos serem o único país do mundo que podem emitir a moeda em que sua divida está denominada implica que nunca se chegará ao ponto de ser obrigado a um calote, que é o que as agências de risco consideram quando fazem suas análises técnicas;
  • desta vez a própria S&P afirma que não estava fazendo uma análise técnica mas sim expressando “a sua duvida de que os dois partidos políticos em choque no Congresso possam chegar a uma decisão técnica que garanta a sustentabilidade das finanças dos EUA”.

É o roto falando do rasgado.

É claro que a desclassificação, mesmo vindo da S&P, não ajuda a melhorar a credibilidade da economia americana ou dos políticos que andam instrumentalizando a crise para ganhar votos mais do que para tentar, sinceramente, ajudar a resolvê-la. Talvez a reação dos investidores que essa desclassificação ajudou a exacerbar contribua para que os políticos façam o trabalho que falta com um pouco mais de juízo.

Mas o fato da S&P ter deixado de lado o seu terreiro técnico para aderir à balburdia política justamente na hora em que tudo que mais faz falta ao mundo, como ela própria chega a mencionar antes de abrir mão dessas três coisas é calma, responsabilidade e bom senso é a pá de cal que faltava para enterrar essas agências de classificação de risco que não têm feito outra coisa senão agrava-lo.

Tanto melhor.

Já passou da hora de se pensar em reformular o precaríssimo sistema de alarme da economia mundial.

No mais, se o mundo chegar a recuperar a calma antes que morra de seu próprio nervosismo, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes:

  • as contas dos Estados Unidos vão ter de passar por um ajuste que virá, ou na forma de inflação (para o mundo todo, que aliás, já corre bem solta), se tudo que eles fizerem for emitir mais e mais dólares para pagar as contas; ou na forma de juros mais altos para financiar o endividamento; ou na forma de aumentos de impostos para pagar parte dos gastos;
  • na verdade deverá acontecer uma mistura dessas três coisas e a dose é o que os políticos estão discutindo sem chegar a um acordo porque estão mais interessados em marcar posição junto aos mais prejudicados por cada uma dessas opções do que em resolver o problema;
  • seja qual for a decisão, não haverá calote em momento algum; no máximo cada vez mais inflação;
  • o dólar também não deixara de ser a moeda de referência do mundo porque isso é uma escolha de um mundo sem escolha e não uma imposição dos Estados Unidos;
  • apesar da torcida de uns tantos e dá má fé de muitos outros, os Estados Unidos continuam sendo o único país do mundo onde, para mexer com o dinheiro do povo o presidente da republica tem de passar pelo suadouro que o Obama está passando, enquanto todos os demais fazem gato e sapato do povo e do dinheiro dele sem dar satisfação a ninguém;
  • por mais que a economia americana encolha e a da China cresça, ninguém depositará os seus ovos de ouro na cesta da moeda que representa um sistema em que 100 ou 200 velhotes sentados num falso congresso que obedece cegamente a outra meia dúzia de velhotes que são os que realmente mandam, fazem o que bem entendem em seu país, distribuem lucros e prejuízos segundo critérios que não é possível definir ou prever e, quando a coisa não dá certo, mandam o exército massacrar o seu próprio povo.

A questão real, como já se disse muitas vezes aqui no Vespeiro, é saber até quando a democracia resistirá em seu próprio berço se a irresponsabilidade dos políticos que fazem qualquer papel por um voto a mais for tão longe que acabe por torna-la sinônimo de empobrecimento.

E se alguém pensa que isso só vai acontecer no dia de São Nunca é melhor olhar para as imagens de Londres em chamas ha três dias e pensar mais uma vez.

A crise das democracias

2 de agosto de 2011 § 3 Comentários

Hedonismo é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. (…) designa uma atitude de vida voltada para a busca egoísta de prazeres materiais (Wikipedia).

Olho para a Europa conflagrada, entregando os anéis na undécima hora para não entregar os dedos; olho para os Estados Unidos batendo bôca na beira do abismo para decidir no ultimo minuto dar menos de meio passo atraz e hedonismo é a idéia que me vem à mente.

Estamos falando da geração dos que nunca foram contrariados.

É proibido proibir? ” Já faz muito tempo que deixamos isso para traz. Hoje é proibido discordar; é proibido contrariar; é proibido não aderir.

A expressão síntese da cultura dessa geração é o Google, a fórmula matemática que garante que você terá cada vez mais de você mesmo. O moto-contínuo da autoreferência. A máquina de realimentação instantânea de qualquer vontade manifestada e até das que nem subiram ainda para o nível da consciência.

Pedir é coisa do passado. Trata-se, agora, de antecipar o que você virá a querer; de saciá-lo antes que você venha a sentir vontade de comer.

Para além das suas outras utilidades; para além do seu papel de facilitador do conhecimento – um conhecimento que, de qualquer maneira, requer esforço e que, como sempre, muito poucos realmente querem adquirir – é essa característica de espelho de Narciso; de aliado incondicional do ego que “entrega” sem nunca fazer perguntas o que quer que se lhe encomende que faz do Google o “bezerro de ouro” do Terceiro Milênio (leia este artigo sobre o livro de Eli Pariser, “The Filter Bubble: What the Internet is Hiding From You”).

Os governos das democracias; os governos do mundo rico vêm ha décadas imitando o Google. Realimentando qualquer capricho de vontade manifestada pela maioria que vota; esticando equações clamorosamente insustentáveis; adiando sacrifícios; fugindo das decisões.

Comprando o mandato de hoje com o caos de amanhã.

Estão cavando mais e mais o fosso entre a maioria idosa dos eleitores de hoje, agarrada com unhas e dentes aos “direitos” sem contrapartida de deveres em que foram cevados a vida inteira, e a juventude que ainda não vota, a quem caberá pagar essa conta amanhã.

Não é só a Previdência; o “estado de bem estar social”. A dívida que vão legar para a próxima geração acumula-se em todos os setores. A água de beber, os oceanos, a paisagem, o espaço físico; nem a ameaça à continuação da vida no planeta faz recuar um passo os que têm vivido nessa voragem do “querômeu aqui e agora” cuja representação política vem sendo treinada pavlovianamente, voto a voto, a antecipar suas vontades.

O que há de comum entre as crises americana e européia é que ambas são o resultado de duas ou tres décadas de meias medidas para evitar pequenas recessões à custa de injeções cada vez maiores de anestésicos financeiros. A cada volta nessa ciranda da negação da realidade o efeito desse tipo de estímulo – por mais que se aumente a dose – é menor e o custo de voltar atras fica maior.

Debelar crises implica necessariamente a idéia de “sacrifício”, heresia que se tornou inapelavelmente mortal na equação eleitoral de uma geração para quem a dor é só uma derrota momentânea da tecnologia e que nunca precisou olhar para adiante da proxima curva porque até mesmo a guerra é, na sua experiênca de vida, um fenomeno delimitado, com efeitos absolutamente controláveis e que atinge somente “os outros”.

Para estes cuja biografia sugere que o prazer é o unico sentido da vida, a mera “contrariedade” é uma violação inaceitável, o que transforma a idéia de “liderança” para enfrentar a adversidade, que requer dos políticos que digam aos eleitores não apenas o que eles gostariam mas sobretudo o que eles precisam ouvir, numa perversão da democracia.

Não é de surpreender que após anos a fio sob esse tipo de filtragem, só tenham sobrado em pé esses políticos de hoje, com horror a decisões.

O fenomeno da internacionalização da força de trabalho e da globalização da produção e dos mercados veio, entretanto, agravar com um componente concreto a crescente disfuncionalidade psicológica que as democracias ricas já manifestavam para lidar com crises.

Na Europa, governos nacionais têm de lidar com problemas continentais que não podem ser superados apenas com remendos monetários; requerem reformas praticamente culturais nos países da periferia do euro onde a corrupção e o atraso institucional (como no Brasil) estão na base dos colapsos financeiros.

Nos Estados Unidos a polarização ideologica responde à crescente exasperação dos eleitores com a incapacidade do governo de lidar com uma crise estrutural de cunho planetário, que não terá solução real enquanto houver, num mundo em que tudo se copia impunemente, “chineses” oprimidos por ditaduras ferozes, sejam de que nacionalidade forem, dispostos a produzir em troca de migalhas o mesmo que os trabalhadores nacionais só aceitam fazer por salários dignos.

Mas este é um “pormenor” que os políticos que debatem a crise no Congresso (e mesmo os jornalistas) nem sequer mencionam porque a luta pelo poder gira exclusivamente em torno da atribuição de “culpas”, no âmbito doméstico, pelas penas que os desempregados e os assalariados estão pagando.

Pode-se torcer para que, desta vez, a tecnologia faça ser diferente. Mas, historicamente, processos como estes não chegam ao ponto de reversão antes que a dor da destruição que eles provocam se torne insuportavel.

Donald Trump é a crise americana

27 de abril de 2011 § 3 Comentários

Quem ainda tinha duvidas sobre a profundidade da crise americana as vai deixando para traz a medida que a “candidatura” à presidência da Republica de Donald Trump, com aquela cara de bolo fofo penteadinho, vai deixando de ser piada para se tornar assunto sério.

Esta manhã, depois que Obama, ao fim de meses de insinuações obviamente desonestas de que não tinha nascido nos Estados Unidos, pôs na internet a certidão de nascimento que mandou buscar no Havaí, Trump deu uma declaração à TV (veja aqui) que comprova, palavra por palavra, “ironia” por “ironia”, que aquele jeito acanalhado de insinuar aleivosias dos políticos profissionais é uma doença que pega rápido em quem confessa que passou a se dedicar full-time a correr atrás do poder.

Estou muito honrado por ter contribuído para acabar com essa controvérsia” (que ele próprio criou), dizia o lasanha. “Agora podemos voltar a discutir assuntos sérios como…” (e tome o próprio cara que acabara de definir a sua falta de seriedade enumerando, como quem não quisesse faze-lo, tudo que está pesando contra Obama neste momento).

Enfim, pra Maluf só falta o sotaque.

Não é que o Obama, também, seja a ultima coca-cola gelada do deserto, com aquele discurso todo encenadinho, dirigido ora para o lado direito, ora para o lado esquerdo da plateia, tudo muito silvio santos, mas que nunca afirma nada que não possa ser desdito no parágrafo seguinte.

É pura vaselina.

Bem que o Tocqueville previu que a democracia americana ofereceria tantas oportunidades de realização na vida a quem mostrasse um mínimo de competência que só a raspa do tacho se dedicaria à política…

De qualquer jeito, eu sigo torcendo pela democracia americana porque a humanidade, como se vê pelo caso comentado aqui, é muito parecida em toda a parte mas a democracia americana (que se pratica exclusivamente nos Estados Unidos e nas culturas mãe e filhas da deles), doa a quem doer, é a única que de fato existe (ainda…).

O resto do mundo vive debaixo de porrada ou submerso num mar de lama recoberto por uma grossa nata de mentiras, sem condições institucionais nenhumas de esboçar qualquer reação.

Se fosse só pelo fato do roberto justus deles estar contornando a curva para entrar na reta da corrida presidencial o quadro ainda não seria de desespero. Ao contrário de todas as outras que têm de ser nomeadas entre aspas, a democracia americana foi especificamente desenhada para viver em permanente reforma. Historicamente, nos momentos de crise, surgem por lá “terceiras vias” partidárias e cacarecos eleitorais como esse Trump, bons para dar uma chacoalhada no status quo e desencadear a próxima temporada de aperfeiçoamento do sistema.

La entre eles, enfim, eles sempre conseguiram se arranjar saltando à frente e não andando para traz. Duro vai ser tourear a fera que os ataca a partir do outro lado do planeta e está fora do alcance das instituições americanas.

O capitalismo de Estado chinês, atuando num mercado global onde o xerife ainda não chegou, está forçando o Estado a abraçar o Capital em todo o mundo. E isto sim, pode matar a democracia.

Não compre gato por lebre

30 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

luliobama x

Um fenomeno curioso está ocorrendo na cena política brasileira. É a repetição (como farsa…) do mesmo ciclo que acabamos de ver se encerrar melancolicamente lá fora, apenas com sinal invertido.

Em pleno céu das suas pequenas vitórias emprestadas, os infindáveis discursos de Lula nos dão conta de que ele acredita piamente que chegamos ao “fim da História” com a derrota final da economia de mercado e a hegemonia do estatismo que, na sua versão macunaímica, assume a velha feição do populismo assistencialista de clientela.

Trata-se de algo que, possivelmente, virá a ser conhecido no futuro como o “Consenso de Caracas”, que acrescenta aos elementos tradicionais desse tipo de formulação “sociológica”, uma versão reciclada do racismo institucionalizado de que o mundo pensava ter se livrado com o fim do apartheid na África do Sul.

Mas, que ninguem se engane: é muito cedo, ainda, para se levar essa visão de mundo totalmente na piada.

Se ainda é prematuro afirmar a morte definitiva da economia de mercado, acho que existem sobradas razões para temer que Lula venha a estar certo num futuro não muito distante, visto que o seu fã americano e sua equipe econômica tomada de empréstimo ao Goldman Sachs seguem enchendo a bola das mesmas corporações gigantes que detonaram a economia mundial, enquanto faz discursos ôcos contra elas. Esse comportamento põe em cena uma seríssima ameaça de que os Estados Unidos, desde sempre o unico baluarte do capitalismo genuinamente democrático, estejam começando uma deriva sem retorno em direção ao estágio que antecede a morte de qualquer democracia, que são o corporativismo e o “capitalismo de camaradagem”, aquele velho conhecido nosso no qual as amizades certas, e não o esforço individual, é que são o principal fator de sucesso.

luliobama 1

Não é dificil entender a mutua atração de Lula e Obama. Eles têm muito de parecidos. Descontadas as diferenças na definição do que seja esquerda e direita nos Estados Unidos e no Brasil, e levando-se em conta que o carimbo “De Esquerda”, independentemente de seu significado real, tem, aqui e lá, o efeito mágico de anular a capacidade crítica de uma boa metade da população, aí incluida a quase totalidade da imprensa, esses dois mestres da intuição lançam mão dele e governam como os violinistas, segurando o instrumento com a mão esquerda mas tocando com a direita e negando com interminável palavrório vazio e técnicas de animador de auditório aquilo que fazem na prática.

O recurso preferido dos políticos mal intencionados é a critica destrutiva com viés generalizante, desacompanhada da avaliação prévia da alternativa para a situação que se quer revogar. Trata-se de um habito fortemente arraigado entre os latinos, aliás. Da educada França ao mais iletrado grotão latino-americano, costumamos destruir aquilo que temos antes de sabermos o que vamos por no lugar.

lenin

Basta um discurso cheio de indignação e pronto! Lá vão todos os babacas para a rua apedrejar “isto que está aí” para, ao fim do comício, se verem, atônitos, nas mãos de coisa pior. De revolução em revolução, perdemos, todos, as referências do passado antes que tivessemos parado para pensar no futuro, passando das mãos dos reis para as mãos dos imperadores, das destes para as dos caudilhos,  depois para as dos ditadores, as dos governos autoritários e assim por diante.

Trocamos de exploradores, substituimos a nobreza pelo funcionalismo, mas estamos sempre no ultimo degrau da escala das liberdades efetivamente praticadas em partes mais previdentes do planeta num determinado momento histórico. Tão perdidos, desorientados e acostumados ao abuso que perdemos a capacidade de nos indignar e já não sabemos sequer a que temos direito de aspirar em matéria de direitos e liberdades civis.

É o que estamos começando a fazer mais uma vez.

O capitalismo americano foi à rasca, arrastando o mundo consigo, porque o país abriu mão do seu tradicional aparato regulatório pró-mercado, apoiado na legislação anti-truste que punha limites à concentração da propriedade e garantia a competição mais acirrada possivel dentro de cada setor da economia, e passou a permitir a competição sem limites que leva ao crescimento desmesurado das grandes corporações até que alcancem o estágio do monopólio e ao aumento exponencial do seu poder de lobby e de corrupção.

Disso resultou o abandono progressivo das políticas pró-mercado (anti-truste) e sua substituição por medidas pró-empresas articuladas em função de relações pouco claras entre políticos avidos de recursos para financiar seus planos de poder e empresas dispostas a fornecê-los em troca de vantagens regulatórias e negócios bilionários obtidos no tapetão. Foi assim, e não vencendo competidores em disputas honestas, que certas empresas se tornaram “grandes demais para quebrar”, criando castas de privilegiados que não sofrem nas crises e ainda se aproveitam delas para aumentar seus privilégios.

Eis aí o que cria um elo de identificação entre a elite de Brasília e os poderosos de Wall Street, que vêm seus salários crescer quando os do resto do país diminuem embora sejam eles os grandes fabricantes de crises, respectivamente no Brasil e nos Estados Unidos.

O resumo dos fatos é que os Estados Unidos estão percorrrendo, por cima, o caminho para o “capitalismo de camaradagem” que o resto do mundo, em especial os latino-americanos, percorreu por baixo. E isto tem servido de pretexto para o “revival” mundial do estatismo com que o nosso Lula tanto se regozija.

magica

A maneira de reverter esse processo não é, entretanto, com menos economia de mercado, mais estatização (com todo o poder a empresas gigantes cujos numeros a ninguém é permitido olhar) e mais jogo casado entre empresários de araque e políticos com poder de alterar as regras do jogo como este a que assistimos recentemente na área de telefonia, criando fontes eternas de financiamento de projetos de poder.

É justamente o contrário: o poder de intervenção do Estado tem de ser exercido para criar mais mercado, ou seja, mais concorrência, e para por limites legais para o crescimento das empresas. É isso que divide e reduz a concentração do poder econômico e, em consequência, a sua influência sobre a política, sempre conseguida por caminhos tortos.

O eleitor brasileiro está sendo enganado mais uma vez.

“Nem a esquerda desonesta, nem a direita troglodita!”

“Nem monopólios estatais,  nem monopólios privados!”

“Por uma política pró-mercado e pelo fim das mumunhas e manipulações pró-empresas!”

“Pela proteção da concorrência e pelo fim da tramóia regulatória e do jogo de cooptação!”

“Por uma lei e uma polícia para todos e não só para os inimigos!”

Os “pelas” e “por umas” são só uma provocaçãozinha a que não pude resistir. Mas o que está aí são alguns dos pontos-chave para informar um verdadeiro discurso de oposição no Brasil.

Ja apanhamos o suficiente para saber que a unica coisa pior que a propriedade privada dos meios de produção regulamentada pelo Estado, é a propriedade estatal dos meios de produção sem regulamentação nenhuma criando empresários de fachada para garantir reservas estratégicas de dinheiro para eleições (e o mais…).

CORRUP~1

Temos tido provas diárias, nos ultimos sete anos, de que não existe lado são num sistema podre. Dinheiro demais corrompe. Poder demais corrompe. Os dois juntos corrompem absolutamente. E o que a “era PT” nos prova é que qualquer um que chegar a uma distância suficiente dessas máquinas de corromper, será corrompido.

O capitalismo fora dos Estados Unidos sempre esteve preso nesse circulo vicioso: quanto mais o sucesso economico depender das relações políticas e quanto menos o esforço individual e a competência fizerem diferença, mais corrupto será o sistema e menos apoio publico ele terá. E quanto menos apoio publico ele tiver, mais a elite política ocupará espaço na economia, aumentando o seu poder de distribuir favores e desfavores e, com isso, de se perpetuar no poder.

Agora os Estados Unidos tambem flertam perigosamente com a distorção que está na raiz de todos os micos que pagamos. Mas isso não justifica que afundemos ainda mais no brejo que já conhecemos. Só políticas que apontem na direção de reduzir a capacidade de corromper dessas duas máquinas de corrupção – o dinheiro e o poder político – podem sanear o sistema e melhorar a vida do povo, que é quem paga pelos abusos das duas.

Se não trabalharmos para criar um sistema econômico baseado no mérito, que possa ser apoiado por pessoas honestas, continuaremos eternamente assistindo ao achincalhamento do trabalho sério e ao triunfo do crime sem castigo.

(Na seção De Outros Autores estou arquivando o artigo “O Capitalismo depois da crise”, de Luigi Zingales, que inspirou parte deste acima. É enorme. Mas me parece tão importante e bem fundamentado que tive a pachorra de traduzí-lo para os leitores do Vespeiro).

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