Do pecado à absolvição original

5 de fevereiro de 2014 § 3 Comentários

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Artigo publicado originalmente em O Estado de S. Paulo de 5/2/2014

Esta tribuna publicou diversos artigos de juristas e advogados sobre os 30 anos de vigência da Lei de Execução Penal enquanto rolavam cabeças em Pedrinhas, no Maranhão, e os números da criminalidade explodiam pelo País afora. De modo geral, repetiam os argumentos de sempre: “É preciso soltar mais porque prender não resolve nada” e “as medidas preconizadas na lei não foram aplicadas“.

Começo por este último. Essa não é a exata expressão da verdade. Como acontece com 99% das leis brasileiras, também as medidas preconizadas nesta são impossíveis de ser aplicadas. E o absoluto descaso com a aplicabilidade das leis que se redigem por aqui é a principal causa, longe da segunda, da desmoralização geral de uma Justiça que é tão fanática na sua preferência pelo texto em detrimento de qualquer outra consideração de ordem prática que, também na hora de julgar, coloca-o muito à frente dos fatos.

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Quase 80% dos nossos julgamentos são decididos pelo que se chama eufemisticamente de “vício formal“, e não pelo mérito. Matou ou não matou? Roubou ou não roubou? Não interessa. O que decide o destino do réu é se o ponto de interrogação estava ou não estava no lugar correto e se os depoimentos foram ou não colhidos na hora marcada.

Por que prevalece esse absurdo, mesmo sendo tão velho e manifestamente absurdo? Porque ter o poder de decidir em função da vírgula, e não do fato, vale muuuuito dinheiro para os chamados “operadores da Justiça“. O tanto que um ser humano, em especial os daquele tipo que se deixa cevar no dinheiro fácil do crime impune, está disposto a pagar para seguir impunemente fazendo dinheiro fácil.

São duas indústrias que se alimentam uma à outra, portanto, a do crime envolvendo dinheiro grosso e a do formalismo posto agressiva e dolosamente acima da lógica e do mero bom senso, a serviço da in-Justiça ou da des-Justiça.

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Nossa Lei de Execução Penal, cabe lembrar também, é aquela que transforma a tal “dosimetria da pena” naquele exercício esotérico que se viu no julgamento do mensalão que faz tanto bem para a credibilidade da Justiça brasileira quanto a matemática criativa do dr. Mantega para a credibilidade da economia de dona Dilma. É um verdadeiro jogo de truco em que nenhuma carta vale o valor de face.

Dos crimes praticados, só uma porcentagem ínfima chega aos tribunais e, destes, uma ainda muito menor chega a uma condenação. E mesmo desse restolho só as penas acima de “oito anos“, com os anos adicionais divididos por seis, resultam em prisão de fato…

E, no entanto, todos os agentes desse sistema continuam afirmando que o remédio para o resultado desastroso de soltar tanto e tão mal (porque solta-se mais quem mais merece ficar preso) é soltar mais ainda. O problema não está, aliás, em soltar ou não soltar, mas, sim, em fazê-lo muito mais em função de arbítrio que de critérios relativos à qualidade do crime cometido.

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A premissa que embala essa outra distorção, muito mais venenosa que a primeira, é a de que a principal função da prisão é “reformar” quem vai preso, e não proteger quem continua solto. Ela decorre, por sua vez, da mentira mestra segundo a qual não existe maldade neste mundo. É falso o arquétipo da natureza humana acatado por todos os povos de todos os tempos. Aqui não há Caim nem Abel. No Brasil das nossas escolas “progressistas“, recriado recorrentemente, com indiscutível competência técnica, nas vulgatas de Jacarepaguá, mesmo o criminoso que não hesita em atirar bebês para serem moídos por trituradores de lixo, sequestrar criancinhas com o concurso de assassinas psicopatas e internar a irmã sã em manicômios para tomar o que é dela é apenas e tão somente uma vítima inocente da sociedade que se regenera milagrosamente e se transforma em herói assim que finalmente entende o que “fizeram com ele“.

Esse personagem recorrente, que reencarna de novela em novela, é o retrato fiel da norma eleita como politicamente correta – isto é, a única que pode ser afirmada livre de execração e apedrejamento moral na praça pública da mídia – segundo a qual o brasileiro está prévia e automaticamente dispensado de fazer qualquer coisa por si mesmo; está sempre e antecipadamente isento de responsabilidade por seus atos. Seja o que for que fizer ou abrir mão de fazer, a culpa será sempre “da família“, “da sociedade“, “do Estado” ou “dos ianques“, mas nunca dele próprio.

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A cereja desse bolo de absurdos, que se traduz nos horrores que os jornais que precedem as novelas exibem, ultimamente ao vivo, fica por conta do sindicato desses juristas e advogados que clamam pela “modernidade” de um código de execuções penais que, na hora de prescrever benefícios, não faz grandes distinções entre ladrões de penosas e assassinos e estupradores de crianças, todos vítimas de “iniquidades” prévias. Pois a outrora gloriosa OAB colocou fora da lei a advocacia “pro bono” (gratuita e “para o bem“), que poderia reduzir à metade a população das nossas prisões, que se tornam monstruosas, principalmente e antes de tudo, em função da superlotação, fato que constitui ignomínia única em todo o mundo civilizado.

Graças a isso, entra década, sai década, seguimos convivendo, sob o silêncio cúmplice dos que podiam mudar essa situação, com o dado medieval – e a consequente carga de ódios incuráveis – de ter trancadas nas nossas prisões centenas de milhares de pessoas sem culpa formada ou com a pena já cumprida, mas sem dinheiro para comprar as maravilhas curativas do código de execuções penais.

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Para terminar, cabe mencionar outra ausência notória desse debate. Outra ausência notória, aliás, da realidade brasileira como um todo. Trata-se da boa e velha democracia, aquele regime cujo primeiro fundamento é a igualdade perante a lei.

Quando começarem a prender político ladrão, funcionário público ladrão e ladrão rico; quando eles passarem a ser julgados pelos mesmos tribunais que julgam os outros; quando passarem a ser presos nas mesmas prisões em que os outros são presos, veremos a “questão carcerária” ser consertada como que por encanto.

O resto, data venia, é conversa pra boi dormir.

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Faltam 33 votos para o golpe

13 de julho de 2013 § 16 Comentários

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O golpe do “Plebiscito já” continua andando. E rápido!

PT, PDT e PC do B convocaram, sexta-feira, os chefes das centrais sindicais das passeatas fracassadas para consolá-los dizendo que estão mobilizando suas bancadas no Congresso onde é mais fácil juntar gente para propósitos como esse que nas ruas.

Pelas contas feitas entre Rui Falcão, o mais alto encarregado da articulação do golpe, e Jose Guimarães, o da cueca, irmão de Genoíno o condenado, reunidos sexta no Congresso, o golpe já conta com os 138 votos das bancadas somadas dessas tres “agremiações democráticas” que fecharam questão no “Plebiscito já” que pode salvar o PT do desastre quase certo em 2014 a que Dilma o condenou.

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Para os 171 votos requeridos para um “Decreto Legislativo” impondo o “Plebiscito já” (figura jurídica que é uma contradição em termos, mas vá lá, isto é o Brasil…) faltam só 33, a serem colhidos entre sólidos baluartes da legitimidade democrática como Valdemar da Costa Neto, Paulo Salim Maluf, Fernando Collor de Mello, José Sarney e outros sócios preferenciais deste governo, só pra mencionarmos alguns dos mais interessados em que o poder jamais troque de mãos e a “caixa preta” da verdade inteira sobre a roubalheira na “Era PT”, que poderá leva-los à prisão perpétua, jamais venha a ser aberta.

Na terça-feira que vem os presidentes dos três partidos reúnem-se com a mais recente aquisição do peleguismo nacional, nada menos que a Ordem dos Advogados do Brasil. Este antigo baluarte da democracia hoje está que é “cú e cueca” com Rui Falcão e José Guimarães…

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Não esquecer, finalmente, que a missão da “Jornada de Luta” sem lutadores desta última quinta-feira era explicitamente essa: reviver o “Plebiscito já“. E que quando não conseguiram quórum, partiram para o quebra-quebra que se viu no Rio.

Quanto mais isolados se virem, quanto mais notoriamente sem apoio, quanto mais ameaçados de perder o poder, portanto, mais esse pessoal “fecha” com a idéia de um golpe.

Essa é a turma que “cutumô” com jatinho da FAB e o mais que vem junto. Foram 1664 vôos neste primeiro semestre, 9 por dia, 39% a mais que no ano passado. Um monte deles passou por cima das manifestações de massa com massa onde o povo bradava nas ruas do país inteiro pelo fim do deboche no uso do dinheiro público.

Só o Alexandre Padilha, Ministro da Saude, voou 110 vezes nestes seis meses. Quase todo dia, portanto. Só o jatinho dele e mais esses vôos valem duas, tres vezes mais que o pacote de miseros 12 bi que dona Dilma magnanimamente e com o estardalhaço de sempre concedeu pra todo o sistema nacional de saude publica na semana passada.

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Gente desse nível de cara de pau é capaz de tudo!

“É tudo legal“, reagem em coro os nossos novos “jet-setters“. Legal segundo o decreto real, digo presidencial, nº 4244 que estabeleceu que assim é, e quem não gostar que coma bolos.

Não se engane, prezado leitor: assim como fazer o povão andar pra traz, por pouco que seja, depois de experimentar o melado é razão suficiente para a derrubada da Bastilha, não perder futebol na Tribuna de Honra, Trancoso de graça, carona pra corte em jatinhos particulares, puxação de saco e segurança perpétuas sem ter de trabalhar nem brilhar num mundo cada vez mais instável e competitivo é razão mais que suficiente pra qualquer golpe.

TQ SAO PAULO 27.02.2012 OE NACIONAL POLITICA ELEI‚ÍES 2012 Entrevista coletiva com Rui Falc‹o, Presidente Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) na

Por muito menos que isso centenas de milhões de litros de sangue têm sido derramados e Gulags inteiros têm sido erguidos e mantidos pra calar a boca dos descontentes ao longo da História da Humanidade.

De modo que é hora de voltar pra rua e não sair mais dela até que esse plebiscito esteja definitivamente enterrado.

PS.: A Polícia Federal “concluiu” após “exaustiva investigação” que não houve crime no boato sobre o fim do Bolsa Família. Do que decorre que houve crime no modo como o PT tentou explorá-lo pra confundir a sua proverbial incompetência com uma tentativa de golpe da oposição.

rui12

É preciso que o Brasil passe a ser um só

30 de março de 2013 § 1 comentário

pri1

O Grupo de Detenções Arbitrárias da ONU andou dando uma examinada nas nossas prisões e, claro, saiu escandalizado.

Temos 570 mil detentos dos quais 217 mil, 40%, cumprem “prisão preventiva”, isto é, sem julgamento, condição que neste “país de todos” pode se prolongar indefinidamente.

“Ha uma grave deficiência de defensores públicos”, como já se sabe, mas a Ordem dos Advogados do Brasil, que se arvora em grande defensora da “democracia brasileira”, continua proibindo a advocacia pro bono, isto é, a ajuda legal gratuita para quem precisa e não pode pagar.

pri8

“Antes o bolso”, considera a excelsa entidade de classe dos nossos rábulas. “O Estado que pague pelos pobres”. E como o Estado paga mal…

No final da tarde de quinta-feira, quando acabei de escrever a postagem aí embaixo e comecei a catar as ilustrações para ela, liguei, como de costume, o som da televisão sintonizada na Globo News. E lá estava Leilane Neubarth, com um dos “especialistas” de costume, discutindo essa notícia com os argumentos de costume.

“É um absurdo, uma vergonha … é preciso mais leis, mais prisões, mais fiscalização, mais penas alternativas…” e por aí abaixo.

pri5

“O pior cego…”, você já sabe…

A solução para o problema das nossas prisões, assim como para 99,9% das nossas vergonhosas mazelas sociais, é uma só: democracia. E quando os jornalistas brasileiros entenderem que isto que temos por aqui está longe de ser uma nós pararemos de dar voltas, feito baratas tontas, em torno desse nosso desvio opcional obesessivo e poderemos começar a sonhar com andar para a frente.

Institua-se e faça-se cumprir o primeiro fundamento da democracia, que é o da igualdade perante a lei; acabe-se com os foros e as prisões especiais; ponha-se os politicos e a bandidagem de terno Armani sob o risco real de cumprir as penas que merecem nas únicas prisões existentes e ver-se-á a arrumação do problema prisional brasileiro como que por encanto.

pri6

Ponha-se os políticos e os funcionários públicos sob o risco real de irem para a cadeia por corrupção e far-se-á o milagre deles começarem, de repente, a jogar a nosso favor.

É preciso que o Brasil passe a ser um só.

Enquanto houver dois, a corrida será sempre para saltar para o de primeira classe e dane-se a segunda. E, acredite, a mera existência dessa alternativa é altamente corrosiva.

Mói a moral coletiva.

pri7

A lógica do sistema

16 de janeiro de 2013 § 13 Comentários

bab10

O Globo de hoje noticia que de 114.763 “bacharéis” diplomados pelas escolas de Direito de todo o país que prestaram o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (sem o qual não podem advogar), apenas 19.134 passaram para a segunda fase que ocorre em 24 de fevereiro próximo.

83,4% foram reprovados.

“Alguns mal sabem escrever”, comentou o presidente da OAB, Ophir Cavalcante. Não entendem português suficiente para discutir a sua própria condição, em outras palavras.

A definição de que “escola de qualidade” é prédio com piscina, professor bom é professor (indemissível) com tempo de serviço e aluno que passa é aluno que se declara “negro” vai, portanto, cumprindo a sua função: Babel está batendo na porta!

bab15No campo do Direito ainda ha a barreira adicional do exame da Ordem. Mas em todas as áreas de especialização acontece a mesma coisa.

Solução?

Alunos reprovados em edições anteriores tentam derrubar na Justiça a prerrogativa da OAB de fazer o exame, enquanto projetos diversos tramitam pelo Congresso para acabar com o exame.

É como imprensa livre e tribunal que condena em país sem cadeia: não dá pra aguentar todo dia a prova da roubalheira exposta ao lado da foto do ladrão condenado no resort dos milionários. Uma das duas coisas tem de acabar: ou a imprensa livre e os tribunais que condenam ou a roubalheira e a impunidade.

E, a propósito, pra que advogado num país sem lei?

bab13

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