Não passarão!
4 de dezembro de 2013 § 5 Comentários
Está feito!
José Genoíno está oficialmente declarado “above god and above the law” (acima dos fatos e acima da lei). E com o PT inteiro mobilizado para provar a todos os brasileiros que ser amigo do partido é o único meio de se estar seguro neste país, é provável que ainda venha a ser recompensado pelo Estado por seus crimes com uma aposentadoria de marajá, apesar do papelão a que se tem prestado choramingando por aí por trás das saias da filha.
Já o Hotel St. Peters, de Brasília, que está pagando R$ 20 mil por mês para garantir a Jose Dirceu o direito à prisão semi-aberta (e não só isso), enviou documentação ao mesmo STF que o condenou explicando que o hotel é propriedade de uma certa Truston International, com sede no Panamá, “empresa” que “é presidida” por um sujeito que trabalha ha 30 anos como auxiliar de um “escritório de advocacia” daquele país e aparece como “proprietário” de “mais de mil empresas”.
A legislação panamenha permite que as ações de uma empresa sejam “livremente transmitidas de empresário para empresário sem que haja nenhuma comunicação ao governo”, de modo a garantir segurança absoluta a todo bandido do planeta que se dispuser a lavar lá o seu dinheiro sujo.
Paulo Masci de Abreu que, dois dias depois de “contratar” Dirceu, teve o seu canal de televisão homologado contra parecer técnico da Anatel, é um deles. É ele o verdadeiro dono do Hotel St. Peters mas, segundo os registros panamenhos, Abreu detém “apenas uma” das 500 mil cotas do negócio. Jose Eugênio Silva Ritter, o “dono de mais de mil empresas” que mora num bairro pobre de Ciudad del Panama, “detém as outras 499.999”.
O novo patrão do antigo Chefe da Casa Civil do governo Lula é, portanto, um “laranja” de uma lavanderia internacional de dinheiro sujo.
É perfeitamente adequado!
Pode-se bem imaginar, aliás, com que tipo de “argumento” esse “escritório de advocacia” garante a disciplina e a lealdade desse poderoso “empresário” para que não abuse da sua fabulosa “riqueza pessoal”, argumento este que, certamente é da mesma natureza deste que o PT está apresentando ao país inteiro para tornar absoluto o valor da sua “proteção”.
É digno de registro, ainda, que o outro sócio de Paulo Masci de Abreu no St. Peters é o filho e herdeiro de Sérgio Naya, aquele que construia, no Rio de Janeiro, prédios de areia que desabavam sobre os incautos que gastavam a poupança de toda uma vida para comprar dele o sonho da casa própria.
Eu já contei aqui inúmeras vezes a história de como, ao declarar o rei “under god and under the law” em 1605, o juiz supremo da Inglaterra, Edward Coke, iniciou a terceira tentativa da democracia de caminhar pela Terra e abriu as portas para o surgimento da ciência moderna (a última vez foi nesta matéria).
Passados 409 anos é assim, de braço dado com o crime organizado, que o PT entra no 3ro Milênio empurrando o Brasil de volta para a Idade Média, onde a versão de interesse do rei prevalecia sobre os fatos e sua majestade e seus barões estavam acima da lei.
Para um país que carrega em seu currículo a mácula de, nas mãos de uma elite reacionária, ter sido o último do Ocidente a abolir a escravidão e ingressar na economia moderna, pode parecer sinistro ver esse pesadelo em vias de ser reeditado por outra elite reacionária encantada com os privilégios de que desfruta.
Mas os tempos são outros.

Nenhum povo do mundo arcando com a metade, que seja, da carga que eles nos fazem carregar consegue sequer assomar à superfície da feroz competição que caracteriza o mundo de hoje. Mas o brasileiro do País Real, que vive além dos limites da Ilha da Fantasia de Brasília, não só perfaz essa proeza como segue, apesar de tudo, disputando com os melhores do mundo e, em muitos campos, levando vantagem sobre eles.
Esse Brasil que mostra diariamente sua força construindo-se em meio a tanta adversidade haverá de se livrar desses novos reacionários não só porque faze-lo é um imperativo de sobrevivência mas porque para isto basta seguir nadando a favor da corrente em que navega toda a humanidade.
Pode haver desvios mas não haverá volta atrás. Este Brasil vencedor, que compete pelo mérito, é o que está do lado certo da História.
O que tem de acontecer tem muita força. E acontecerá!
Bye, bye, Paraguai
2 de dezembro de 2013 § 3 Comentários
Outro dia foi a China que anunciou que está saindo de onde o PT quer entrar.
Na semana passada, quem diria, quem passou por nós na contramão e dando adeus às Venezuelas e às Cubas dos sonhos do PT, foi o Paraguai que, na quinta-feira 28, acabou com a imunidade parlamentar dos seus senadores – ou melhor, com aquela parcela dela que é abusiva e antidemocrática – depois de duas semanas de rebelião aberta contra a decisão anterior, do dia 14, quando 23 dos colegas do senador punido votaram a favor da sua permanência impune no Senado.
Victor Bogado, do Partido Colorado, tinha a babá de seus filhos ganhando dois salários – um pela Câmara dos Deputados e outro pela Itaipu Binacional – e foi um dos primeiros a ter seus podres publicados no novo site da internet criado pelo presidente Horácio Cartes, do seu próprio partido, para prestar contas sobre gastos públicos e dar transparência ao que se passa dentro do governo.
Pouco depois da votação espúria, um dos parlamentares que votou pela impunidade do senador alegando a imunidade parlamentar entrou numa pizzaria para jantar.
Foi o estopim. Ele foi expulso sob vaias e palavrões e, por pouco, não foi agredido pelo público.
Daí por diante foi como uma epidemia. Restaurantes, bares, comércios, shoppings centers e até estádios de futebol e hospitais (estes abrindo exceções só para emergências) começaram a por cartazes na porta anunciando que “não atendemos ratos neste estabelecimento”. A única exceção foi uma funerária que pôs anúncios nos jornais dizendo que receberia qualquer um dos traidores “com todo o prazer”.
O povo montou uma vigília na frente do Congresso e um site foi abeto na internet com fotos dos 23 traíras e acompanhamento diário dos seus passos.
Em duas semanas nova votação foi convocada, a imunidade do senador caiu e ele foi cassado.
Nesse meio tempo Genoíno ia para casa e José Dirceu passava a ganhar R$ 20 mil por mês para conspirar contra a democracia brasileira do jeito a que já está acostumado, enquanto todos os partidos de algum peso fechavam as portas para a admissão de Joaquim Barbosa como seu candidato em 2014.
O Paraguai esteve 35 anos sob a ditadura de Alfredo Stroessner, 14 anos a mais que os nossos ditos “de chumbo”. Nunca experimentou nada que lembrasse remotamente uma democracia digna desse nome.
E no entanto, taí respirando novos ares graças às novas condições de circulação da informação e articulação da resistência civil.
E o Brasil?
Algo de muito semelhante ocorreu aqui no mês de junho deste ano. Mesmo com todo o marasmo em que vive a nossa política, bastou que alguém agitasse uma bandeira – no caso o STF com as condenações do Mensalão – e o povo se levantou com força suficiente para por o “Sistema” em pânico.
Mas nenhuma força organizada deu sequência ao movimento o que ensejou que os profissionais do golpe armassem a sequência de quebras-quebras que tirou a gente séria das ruas.
Se tivesse havido uma única voz disposta a puxar a fila, ela seguiria andando. Mas você pode virar e revirar os nossos 32 “partidos de esquerda”, inclusive os “de oposição” e seus milhares de candidatos; ver e rever o horário eleitoral e não encontrará rigorosamente nada que escape daquela tapeação vergonhosa que conhecemos, ofensiva à nossa inteligência de tão rasa e explícita.
Pior, você pode revirar todos os jornais, ouvir todas as rádios, ver todos os programas jornalísticos da TV, e nada que não sejam esses próprios candidatos e o que uns estão dizendo sobre os outros lhe será apresentado. Haverá até quem afirme gostar e quem afirme não gostar deste ou daquele entre eles. Mas sugestão nova, propostas ou reportagens sobre modos diferentes de gerir a coisa pública; informações sobre como os outros que dão certo estão fazendo isso, zero!
Mesmo os acontecimentos do Paraguai tiveram uma cobertura menor que um reles desastre de trem em Nova York.
Não há exemplo histórico de processos como o brasileiro que tenham sido revertidos senão por dois tipos de expedientes: uma iniciativa forte do Poder Judiciário ou a articulação de propostas novas e campanhas para levá-las a efeito protagonizadas pela imprensa. Ou então essas duas coisas junto.
O voto distrital com recall foi um dos instrumentos que foi criado assim e tem currículo mais brilhante no rol das revoluções pacíficas da humanidade. Tem mudado mundos e fundos nos últimos dois séculos e está aí esperando quem a tome para mudar o Brasil.
Mas, até agora, a única figura institucionalmente forte que vi pregar esse remédio no Brasil foi – adivinhe! – o ministro Joaquim Barbosa aquele que, pela primeira vez em nossa história, pôs essa bandidagem da porta da prisão para dentro, ainda que tenha sido impedido de trancá-la.
Aécio Neves, esse alegre candidato “de oposição” em busca de um discurso, é um dos que se adotasse este, correria o sério risco de, pela primeira vez na vida, dizer alguma coisa que valesse a pena ser ouvida.
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A mais sólida instituição nacional
26 de novembro de 2013 § 2 Comentários
Nem o crime, entre nós, irmana!
Mesmo dentro das prisões somos “zés” de um lado e “vosselências” do outro, e o Estado brasileiro, que distribui esses títulos, faz questão de mostrar à Nação que, mesmo lá, é preciso saber perfeitamente com quem se está falando…
A frase que tantos têm pespegado genericamente “ao brasileiro”, como o rótulo que o define como o agente da sua própria não-cidadania, não é dele. O poder público não está aí para anular; ele está aí para garantir as diferenças que patrocina. Uma vez tocado pelo Estado, seja o “zé” que for nunca mais perde a “excelência”.
Os pretos e os pobres da Papuda que pensavam ter chegado ao fundo do poço – as putas, convenhamos, têm tido mais oportunidades com o mercado aquecido como anda – estão descobrindo que ainda ha mais degraus para descer.

Agora há, lá dentro como aqui fora, as celas com duas vezes mais presos que camas disponíveis e as celas com duas vezes mais camas disponíveis do que presos; as filas de mulheres e filhos pretos e pobres que varam a noite no sereno pelo direito de ver seus presos, quatro por vez e em dias marcados, e a boca livre dos parentes e amigos luzidios e bem dormidos dos nossos heróis do socialismo, que furam a fila escoltados pela força armada que garante a nossa democracia, nas salas da diretoria da prisão.
Ha o engolir em seco e o ranger de dentes dos torturados da noite passada abraçados mudos aos seus filhos no parlatório e ha o lacrimoso chororô, com direito a coro, do duro “guerrilheiro torturado” ha 40 anos, implorando piedade diante da perspectiva de alguns meses de prisão especial.
Não ha dúvida. A desigualdade é a mais sólida instituição do Brasil.
PS.: Sobre o argumento de que Genoíno é pobre e isso seria prova de que é honesto, cabe lembrar que ele não está preso por se ter corrompido mas sim por corromper o que, na posição em que estava e para o propósito que tinha a operação, é pior do que se locupletar para quem fez carreira política afirmando-se um “herói da democracia”.
Ética para o juiz
22 de novembro de 2013 § 7 Comentários
Intervenção no 2o seminário “Ética para o juiz. Um olhar externo” ocorrido na manhã de hoje na Escola Paulista da Magistratura
Antes de começar é melhor preveni-los sobre como ouvir o que tenho para dizer.
A minha trajetória pelo jornalismo se deu por aquela vertente que Raymond Aron definia como a de um “espectador engajado”.
Buscar a verdade com todo o empenho e a mais firme disposição de desconfiar de toda resposta fácil demais que subir à minha cabeça?
Ok. Isso é inegociável.
Mas fingir “neutralidade”, como está na moda hoje nas nossas escolas de jornalismo pra mim é só uma forma dissimulada de falta de isenção. Embaça muito mais do que esclarece.
A chave para filtrar o que eu digo, portanto, é a seguinte:
A historia da construção da democracia tem sido o objeto do estudo de toda a minha vida. Desse esforço eu conclui que, entre todas as outras vertentes experimentadas pela humanidade, a democracia é o estágio moral e eticamente mais elevado que é possível alcançar na organização das relações humanas.
Democracia é o que eu quero para o meu país. Democracia é o que eu quero para os meus filhos. Portanto, a angulação do meu olhar para os acontecimentos do presente e toda a minha própria orientação ética está referida à contribuição que eu desejo dar para a construção da democracia no Brasil.
***
Eu sei que há um psicanalista entre os convidados a falar para esta plateia. Vou tomar carona na especialidade dele.
A ética relacionada a uma profissão é, sempre, um corolário da função. E a função se define ao longo da História. É uma cultura. E cultura é o que determina tudo que nós fazemos sem que tenhamos plena consciência disso.
Nesse sentido, uma cultura é quase um destino; uma fatalidade.
Mas o homem é o único animal capaz de mudar o seu próprio destino. E uma das maneiras de conseguir isso é com o recurso à psicanálise.
Eu gosto de dizer sempre que a História é a psicanálise das sociedades. Tanto individual quanto coletivamente nós só conquistamos a condição de alterar o nosso destino depois de entender claramente como foi que nos transformamos naquilo que somos.
A primeira coisa que constatei nesse meu mergulho na história da construção da democracia é que a estruturação de um determinado ordenamento jurídico é sempre o elemento fundador desse processo.
É isto que me amarra a vocês. Jornalistas, juristas e democracias não podem viver uns sem os outros…
A segunda coisa que aprendi nestes 40 anos de observação direta e mais 140 anos de cultura familiar/profissional acumulada é que no campo das criações humanas não existem verdades absolutas nem fundamentos “científicos” imutáveis.
Não ha nada que esteja para as ciências humanas como a matemática, a geometria e as leis da física estão para as ciências exatas.
A gente trabalha para organizar as sociedades assim ou assado para um propósito. E tudo que nós temos para tentar atingir esse propósito são convenções apoiadas no máximo em hipóteses informadas.
A única medida possível da qualidade desses instrumentos, portanto, é o uso. O teste real da sua eficácia para a produção dos efeitos a que se propõem.
É por isso que o estudo das chamadas ciências sociais só traz proveitos concretos se for feito em bases comparativas.
Só se pode andar para a frente, do ponto de vista institucional, medindo os resultados que cada sistema produz – os bons e os ruins – e relacionando esses resultados ao tipo de arranjo que os gerou.
Para esse efeito viver nesta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados é um forte handicap negativo.
É impossível aprender democracia em português. Pelo simples fato de que nenhum povo que fala essa língua jamais experimentou uma.
Mas a língua não é o único obstáculo e nem, talvez, o principal. Os campeões desse tipo de estudo comparativo têm sido os franceses. Mas nem por isso eles são tão evoluídos assim do ponto de vista institucional.
Existem pelo menos mais duas barreiras importantes atrapalhando esse tipo de aprendizado.
A primeira decorre da lei universal do menor esforço que pode ser traduzida mais ou menos assim: o bicho homem vai viver da exploração do próximo sempre que isto lhe for permitido, e vai lutar com unhas e dentes antes de concordar em trocar essa condição pelo esforço pessoal e pelo mérito.
A segunda, não menos formidável que a primeira, é a barreira do orgulho que, em geral, se apoia na ignorância.
O surgimento de um francês intelectualmente humilde é um dos eventos mais raros da natureza. Mas de vez em quando acontece.
Três deles se destacaram nos estudos comparativos das duas grandes linhas de construção de instituições da era moderna: Voltaire, com as suas Cartas de Inglaterra, Tocqueville, com A Democracia na América, e o menos conhecido mas talvez o mais importante deles, especialmente para esta plateia, Henri Levy-Ullman, com o seu Le Systéme Juridique de l’Angleterre.
Depois deles é impossível dizer qualquer coisa de novo a respeito da alternativa entre as duas linhas básicas de arquitetura institucional que, apesar das variações de grau e de estilo, segue até hoje sendo a única à disposição da humanidade.
O que me resta, portanto, é só repassar os pontos principais.
Vamos a eles.
O Poder Judiciário nasce para atender a necessidade das sociedades humanas de dispor de um método pacífico de resolver controvérsias.
Historicamente falando, só existem duas maneiras de fazer isso:
- pedindo proteção a um poder estabelecido capaz de se impor pela força em troca de vassalagem ou
- atrelando o senso inato de justiça do homem, depurado pela prática da sua aplicação ao longo do tempo, à reconstituição da verdade dos fatos segundo regras precisas de aferição do equilíbrio entre as versões em conflito de modo a, no final, atribuir a cada um aquilo que os fatos provarem ser de cada um.
Toda a parcela da humanidade que superou o estado feral e, depois dele, a fase mágica, trilhou esse mesmo caminho pelo menos enquanto pôde.
O turning point que bifurcou o mundo ocidental – e atrás dele o resto da humanidade – nas sendas do autoritarismo ou da democracia é Bolonha: o momento em que a Europa Continental é forçada a se desligar do esforço, até então comum a toda a comunidade europeia, de interrogar a natureza e a História para estruturar, de baixo para cima, um ordenamento jurídico baseado na tradição para atender à necessidade de proteger o mais fraco do mais forte e os súditos dos reis e dos barões.
É a partir de Bolonha que esses europeus são constrangidos a regredir, pela força das armas dos que sabiam que seus privilégios não sobreviveriam à nova ordem que se ia esboçando em função dessa busca, para um ordenamento jurídico estruturado em cima de uma falsificação do Direito Romano especialmente desenhada para restabelecer a situação anterior e perpetuá-los no poder.
Naquela altura, só houve uma exceção.
O meu herói predileto chama-se Edward Coke. Ele era o juiz supremo da Inglaterra quando o primeiro Stuart subiu ao trono. Em 1605, cara a cara com James I que reivindicava os mesmos poderes absolutos dos seus pares do continente, ele declara o rei “under god and under the law”.
O “under the law” significa, literalmente, que sua majestade é “igual a todos nós” em direitos e em deveres. E, portanto, daí para baixo, todo mundo.
O “under god” significa, literalmente, que também o rei está submetido à verdade dos fatos e não tem mais a prerrogativa de troce-los como melhor lhe convier.
As repercussões desse ato de coragem foram muito maiores do que qualquer coisa com que Coke pudesse ter sonhado.
Enviado o sinal para a sociedade de que fazia sentido resistir, o Parlamento tomou a bandeira que o Judiciário lhe passou e o resto é história.
Com o menor preço em sangue jamais pago por qualquer comunidade humana por mudanças tão profundas nas relações de poder o povo da Inglaterra, antes do ultimo quartil daquele século, já tinha, sobre o seu próprio destino, as mesmas condições de controle que continua tendo até hoje.
Mas não foi só isso.
Ao tirar o pressuposto da frente do fato e o dogma da frente da experimentação, Coke não estava apenas cravando no chão a primeira baliza sólida a partir da qual a democracia pôde iniciar a sua terceira tentativa de caminhar sobre a Terra.
Ele estava abrindo o caminho para o surgimento da ciência moderna.
A semente plantada por ele, fertilizada pela visão newtoniana da ordem cósmica, evoluiu para o sistema de pesos e contrapesos que os iluministas americanos costuraram com toda a minúcia para não deixar nas mãos de ninguém poder demais e para fazer o funcionamento do sistema depender de todos e de cada um dos cidadãos.
Foi o momento mais brilhante da humanidade.
Desde então a democracia e a inovação, que é o único antídoto seguro contra a doença política da miséria, andam juntas.
Uma depende da outra.
Mas, e nós?
Nós … não estávamos lá. Nós somos filhos da outra corrente.
O direito português é a última cópia das cópias da falsificação de Bolonha. E o direito brasileiro é o filho temporão do direito português.
Desde então tem havido tentativas de correção de rumo. Mas é sempre remar contra a corrente. Passados quase 800 anos desde Bolonha cá estamos nós, mais uma vez, sob a ameaça real de ficarmos reduzidos a um único poder absoluto que usa a corrupção como uma arma de conquista.
O Legislativo corre o sério risco de se afogar na lama.
No Poder Judiciário o panorama também não é animador.
Nós temos 5 justiças e nenhuma definição clara de competências, embora vivamos todos sob uma única salada de leis.
Os juízes e os funcionários do Judiciário são nomeados pelos donos do poder que eles têm por função cercear.
Eu gastaria mais que a meia hora de que disponho somente para enumerar quem julga quem em quais circunstâncias, dentro dos 4 poderes (estou incluindo a imprensa), tantos são os “foros especiais”.
Daí para baixo, na escala social, sempre segundo o poder de cada corporação de afetar a vida alheia, todos e cada um têm tantos “direitos especiais” que é difícil saber se há mais brasileiros hoje sob regimes de exceção ou submetidos à regra geral.
E isso lembrando que os conceitos de “direito” e de “especial” são mutuamente excludentes num contexto democrático.
Para desfrutar do poder de distribuir e garantir tais benesses; para se apropriar desse “toque de Midas”; pode-se entrar no Judiciário pela porta da frente, pela porta dos fundos ou até semiclandestinamente, pelas janelas do chamado Quinto Constitucional.
Uma vez lá dentro, são dois anos e o sujeito sabe que ninguém mais tira ele de lá.
Removida do horizonte a ameaça da sanção contra a falta de merecimento pelo empenho que é o que move o mundo aqui fora, o resto é consequência.
Daí pra frente o que vale para a progressão na carreira jurídica, como nas demais carreiras públicas, são as relações de cumplicidade. O sangue fresco que entra no sistema fica obrigado a se comprometer com o sangue contaminado para subir hierarquia acima.
O processo judicial deixou de ser um meio para se transformar num fim em si. Mais de 70% dos que correm nestas terras não têm uma solução de mérito.
São tantos os furos na peneira dos recursos que o processo só termina se e quando o próprio condenado se declarar de acordo com a sua condenação.
Ou seja, não termina nunca.
Qualquer querela que bata numa corte – e tudo, neste país, tem de passar obrigatoriamente por elas – levará mais tempo, em geral para não ser resolvida, do que a última Guerra Mundial.
E por aí vai o nosso labirinto.
O resultado é que nós não somos mais um povo. É impossível criar laços de solidariedade até dentro de cada classe social. Nós somos uma multidão de grupinhos que vagam numa penumbra onde é difícil discernir qualquer limite do que quer que seja, cada um aferrado “ao seu”, sendo este “seu” garantido, à custa do próximo, por um padrinho que morde a melhor parte a cada vez que repete o truque de tirar alguma coisa que ele não produziu do bolso de alguém para depositá-la no bolso de outrém.
Vamos falar de ética?
Mas é possível discutir ética dentro de um sistema tão torto? Dá pra transitar dentro dele em linha reta?
Há muitos que tentam. Mas é uma luta perdida…
Portanto, senhores, a charada que, ou nós deciframos já, ou nos devora a todos é:
“Como reconstruir essa máquina em pleno voo, sem que o avião caia”?
O desafio é bravo!
Mas eu afirmo que isso é possível desde que a gente decida de que lado quer ficar.
Apesar de todas as travas e tortuosidades do sistema ele ainda está assentado no consentimento.
Se um número suficiente de nós não consentir mais isso não continua. E então os caminhos começam a se abrir como que por encanto.
Mas para que o processo se inicie é preciso uma sinalização forte. E esta sinalização tem de sair daqui.
Junho, filho das condenações do Mensalão, foi um ensaio dessa verdade que chegou a colocar o Sistema em pânico. Provou que nem ele é, nem ele se sente indestrutível. Ao contrário. É mais frágil do que se poderia pensar até então.
Mas depois foi o que foi…
Para que essa possibilidade volte a existir é preciso, antes de mais nada, que nós paremos de pensar no ritmo do nosso tempo vital e comecemos a pensar no ritmo do tempo histórico.
É só pensarmos menos em nós mesmos e mais nos nossos filhos que as respostas certas começam a se insinuar.
Esse mesmo tipo de exercício projetado numa distância um pouco maior vai lhe dizer que você, afinal de contas, não está preso a essa herança negativa por compromisso nenhum que você mesmo tenha assumido; você é só mais uma vítima dela.
Mas, e daí? Quais são as medidas práticas? Os passos concretos possíveis?
Tem vários jeitos de abordar esse problema.
As culturas asiáticas, por exemplo, vêm agindo darwinianamente. Como é de sobrevivência que se trata, elas seguem sem pestanejar pelo caminho mais curto e mais eficiente.
Seja quem for que o tenha descoberto primeiro eles partem retos para a cópia melhorada; para as instituições híbridas do produto nacional com o produto estrangeiro cuidando de selecionar as características positivas de cada um a serem preservadas.
E têm colhido resultados fulgurantes com isso!
Já nós, latinos, somos mais complicados. Os católicos mais que os outros.
“Nós vivemos confortavelmente demais dentro da mentira”, dizia Octavio Paz.
Um bom expediente, portanto, seria começar por um esforço de limpeza do entulho retórico com que insistimos em soterrar as verdades que já não adianta esconder porque todo mundo conhece, e passar a chamar as coisas pelos nomes certos.
“Justiça garantista”? “Ideologias”? “ismos”?
Façam-me o favor, senhores juristas, senhores jornalistas! Sigam o dinheiro que as palavras certas vão colar por si mesmas nos fatos certos para produzir descrições honestas do que é que realmente nos aflige.
Parece nada mas é um exercício de condicionamento psicológico que tem um efeito muito mais poderoso para desencadear reformas do que parece à primeira vista.
Depois é só ir trabalhando os vetores básicos dos vícios do sistema para que as coisas comecem a se arrumar.
Eu sei que não existem panaceias e nem ha sistemas perfeitos no mundo. Mas o mundo está andando rápido demais e nós ainda estamos tão longe do “ruim” dos melhores que é suicídio deixar como está.
É preciso inverter as cadeias de cumplicidade; mudar os sistemas de nomeação; substituir nomeações por eleições de funcionários públicos; limpar o sangue do sistema do veneno da estabilidade no emprego a qualquer preço; atrelar as carreiras públicas ao mérito…
Aqui fora tudo já funciona assim. Mas como forçar quem manda lá dentro a fazer o mesmo?
Instituir o voto distrital com recall que arma a mão do eleitor e muda a iniciativa da pauta política e legislativa da Nação das mãos de quem não quer para as de quem necessita desesperadamente de reformas seria um excelente começo.
A bola que esse instrumento põe em movimento não para nunca mais de rolar. E sempre na direção que a gente quer. Os exemplos concretos estão aí para serem conferidos.
Enfim, senhores: o que tem faltado não são remédios, é a vontade de toma-los.
O consolo é que, enquanto ela permanecer aberta dependendo do voto, por mais capenga que ela seja a política funciona assim:
SE A GENTE ACREDITAR A GENTE VENCE!
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