Nada mais que a verdade

2 de maio de 2016 § 24 Comentários

A “esquerda honesta” e o “PT que sobrou”

10 de abril de 2014 § 14 Comentários

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Ela anda “por baixo” e com a consciência ultra-pesada pela contribuição que deu para a outra chegar ao poder, mas ela existe e será tão essencial quanto todas as outras forças democráticas do país para a estruturação da resistência contra o que vem vindo por aí.

Falo da “esquerda honesta” – os quadros oriundos da antiga esquerda católica e os segmentos da esquerda universitária e da intelectualidade – que, no passado, deram a chancela de qualidade e o aval moral sem os quais o PT jamais teria chegado onde chegou, e que começou a desertar quando, uma vez no poder, o “PT que sobrou” revelou-se como o que é.

Hoje só divide esse grupo a quantidade de coragem moral de cada um em admitir o seu erro, declará-lo e posicionar-se claramente contra o monstro que ajudou a criar ou omitir-se para não ter de dar o braço a torcer. Ninguém mais tem qualquer dúvida razoável quanto à natureza do “PT que sobrou” e sobre para onde ele está levando o Brasil.

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Já esse “PT que sobrou” é o que mistura a nata que boia por cima do lodo do peleguismo sindical com os restos da “esquerda armada” que atuou contra a ditadura militar – formando o “nucleo duro” de poder do partido – aos quadros do funcionalismo publico e do staff das estatais que “são de esquerda”, digamos assim, por dever de ofício.

O sindicalismo pelêgo é bandalho e antidemocrático na alma; por formação; essencialmente.

Seus quadros carregam a marca do pecado original. Quem está lá, está lá porque “é” . São os Faustos da periferia que venderam consciente e deliberadamente a alma à versão getulista do mesmo veneno que condenou a Itália fascista ao desastre e a Argentina peronista ao mergulho sem fim na decadência em que ela se afunda ininterruptamente ha quase um século:

Crie um sindicato, não importa se algum trabalhador realmente o tem como seu representante, que o Estado passará a te sustentar. Mas não de graça, naturalmente…”

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São eles os mercenários do Sistema de poder que o peleguismo sustenta; os paus-pra-toda-obra que já deram provas do seu valor nas inúmeras “eleições sindicais” disputadas na fraude e na bala porque passaram; os dispostos a tudo para permanecer agarrados à teta abocanhada.

Já a “esquerda armada” nasceu dentro de uma elite da classe média que embarcou no canto de sereia da “moral revolucionária” leninista que fez o mundo mergulhar na onda terrorista dos anos 60, 70 e 80 do ultimo século do milênio passado, quando era “chic” ser radical e “bonito” matar, principalmente inocentes, por uma “causa”.

Misturam-se em suas fileiras os idealistas autênticos que hesitaram sempre em cruzar a linha do crime de sangue e os psicopatas que aproveitaram essa rara “janela de oportunidade” para libertar essa sua segunda natureza e que resistem até hoje em atravessá-la de volta para os aborrecidos campos da paz, gente para quem sempre foi mais importante o inebriante sentimento de onipotência proporcionado pelo ato de matar que o “sentido político” das mortes que infligiram em nome da “causa”. Tão mais importante que nunca hesitaram em assassinar os próprios companheiros que, por razões de “consciência burguesa” hesitaram diante do homicídio ameaçando acabar com a festa dos bebedores de sangue.

Percorra-se a lista dos crimes da “esquerda armada” e saltarão dela, imediatamente, os nomes que se repetem em todas as ações mais bárbaras. Não é mera coincidência…

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Depois do Foro de São Paulo a “esquerda revolucionária” trocou oficialmente o fuzil pelos bilhões como arma de conquista do poder. Mas conservou os mesmos objetivos: “matar” adversarios, matar instituições, matar liberdades.

As nuances nas hostes dos “acima da lei” migraram intactas para a nova realidade. Estão, todas as de sempre, representadas dentro do governo petista onde há um ou outro gato pingado que ainda hesita em assassinar as liberdades democráticas mais fundamentais e os que as desprezam e apedrejam diariamente; ainda há quem mantenha algum limite no expediente de “roubar pela causa” e quem já não enxergue mais nenhuma fronteira entre ele e a volúpia de se locupletar, seja porque se corromperam pelo dinheiro mesmo, seja porque se corromperam pela onipotência que o dinheiro proporciona seja, ainda, porque viciaram-se no ato mesmo de tomar o que não é seu e sorver a agonia da vítima assim “justiçada”.

De qualquer maneira, uma coisa é certa. A remissão não começará senão quando o Brasil aqui de fora redefinir seus critérios e recolocar a fronteira no lugar de onde ela nunca deveria ter saido: na linha que separa esquerda e direita democráticas de esquerda e direita antidemocráticas.

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Brasil veio de golpe em golpe até 64

7 de abril de 2014 § 5 Comentários

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A entrevista de José Serra para o Canal Livre da TV Bandeirantes ontem (assista à integra do programa neste link) tocou numa questão essencial a que se tem prestado muito pouca atenção na análise da história política e do debate ideológico no Brasil, sempre desastrosa e latinissimamente prejudicada pelas paixões a que se entregam os que se dispõem a tenta-la.

Desde a Republica vimos vindo de golpe em golpe repetindo basicamente os mesmos passos a cada volta nesse círculo vicioso. E sempre pela mesma razão fundamental, como procurei demonstrar no artigo Sexo, mentiras e rock & roll publicado ha poucos dias aqui no Vespeiro: a completa inexistência de qualquer know how de engenharia institucional – tecnologia das mais especializadas que não admite transposições fáceis ou intuitivas de outras áreas do conhecimento.

Salvo pelo hiato aberto pelo “governo acidental” de Fernando Henrique Cardoso, essas elites têm mostrado também, desconhecer as balizas mais elementares de gestão macroeconômica indispensáveis para prover um mínimo de estabilidade ao ambiente em que se desenvolvem as economias nacionais.

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Na Parte 3 da entrevista à Rede Bandeirantes Serra descreve em minúcias como esses fatores contribuíram para o desfecho de 31 de março de 1964:

  • o programa das famosas “Reformas de Base” do governo João Goulart “era o que a gente (a esquerda da época) queria mas não acreditávamos que elas pudessem de fato ser instaladas”;
  • de qualquer maneira, essas reformas (reforma agrária, voto do analfabeto, desapropriações e etc.) não teriam qualquer efeito no problema premente que a Nação enfrentava sob uma inflação de 90% ao ano (a herança de Juscelino e sua Brasília) sem qualquer mecanismo de proteção;
  • consciente disso Jango, que também não resistia às pressões vindas da máquina pública e concedia aumentos que agravavam o déficit e alimentavam mais ainda o descontrole da inflação, mantinha esse discurso porque era o único que tinha a oferecer e, sabendo-as inócuas, já se preparava havia tempos para deixar o poder para que a bomba não estourasse nas mãos dele;
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  • Serra não admite que houvesse um golpe em preparação ou, muito menos ainda, condições objetivas para que o país fosse empurrado para uma republica sindicalista ou uma ditadura do proletariado mas admite que a esquerda e o governo “gostavam de pregar sustos, de intimidar” e falavam e agiam como se tudo isso estivesse de fato em preparação enquanto Jango, na falta de qualquer expediente prático que lhe ocorresse por em curso, transformou seu programa de governo “num programa de agitação” para, com o concurso dos sindicatos, forçar o Congresso às suas reformas;
  • a direita levava a esquerda mais à sério do que ela própria, a se acreditar que o pensamento de Serra era representativo do da maioria dos seus correligionários da época: o ambiente internacional dentro do qual tudo isso se dava era o da Guerra Fria onde Estados Unidos e União Soviética “disputavam cada pedaço do mundo” e isso teve dois efeitos: a esquerda, a partir da revolução em Cuba, passou a acreditar, segundo Serra, que “se tinha sido possível fazê-la lá era porque a revolução estava logo ali, na esquina, ao alcance da mão”; a direita pensava exatamente do mesmo jeito e, pelas mesmas razões, acreditava que o país estava prestes a cair na órbita soviética.

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Não importa se foi um trama “de enganos” ou uma conjuntura real o fato é que os dois lados viam a mesma coisa, o que atesta a sinceridade das motivações que apontei nas decisões que moveram os conspiradores de 64 no artigo publicado na imprensa ontem.

Não sei quanto são exatas ou representativas da média do pensamento da esquerda da época essas impressões do José Serra de hoje sobre o que via e sentia o José Serra de então, um “grande agitador” com apenas 21 anos de idade.

O certo é que, então como hoje, cabiam coisas demais debaixo desse chapéu genérico “esquerda”, o que também é exatamente verdadeiro para o seu par e antípoda “direita”, como provaram os fatos subsequentes.

O Brasil ainda ha de amadurecer para colocar o muro divisório no lugar certo que é o que separa esquerda e direita democráticas de esquerda e direita antidemocráticas.

Mas até lá essas generalizações seguirão atrapalhando as análises e alimentando novos confrontos.

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Mas não vamos perder a sequência do raciocínio.

Antes de mais nada registre-se que a entrevista de Serra ajuda a estabelecer que o problema essencial é o que tratei no artigo já referido: o completo desconhecimento da elite brasileira a respeito do que fazer e como fazer para estruturar a base institucional necessária para se construir uma Nação que a empurra sempre para a generalidade e faz de nós todos, digamos assim, especialistas na negação.

Ao fim de cada experiência em torno desse círculo vicioso, estabelecido sempre mais pelo acaso e pelas circunstâncias do que por planejamento e atos de vontade, passamos, em algum momento, a saber o que não queremos mas nunca sabemos exatamente o que queremos ou, melhor dizendo, não sabemos como construir um equipamento institucional suficientemente aberto para podermos viver sem sabermos exatamente o que queremos e ágil e maleável o suficiente para irmos reagindo aos fatos que se apresentarem.

É isso, afinal de contas, que é uma democracia. Só que os brasileiros não sabem disso.

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Junho de 2013 com os incontáveis “nãos” dos cartazes das manifestações e a absoluta ausência de “sins” em torno dos quais se possa construir qualquer consenso e mais esta crescente parcela de eleitores insatisfeitos sem candidato que os represente que as pesquisas registram neste momento, provam que pouco mudou nesse sentido desde os nossos primeiros tropeços republicanos.

A Revolução de 1930, uma vez instalada no poder, pela falta de um receituário institucional que pudesse ser proposto e compreendido por um corte significativo de uma população e uma elite essencialmente deseducadas, começou desde o primeiro minuto a caminhar para a “personificação” do processo, ou seja, para a ditadura.

Como a esquerda, que julgava ter “a História na mão”, é sempre mais voluntarista, 1935, com a “Intentona Comunista”, tão alienada quanto todas as outras tentativas anteriores (1922) e posteriores (“luta armada”), deu o pretexto que faltava para 1937 e a fase “dura” da ditadura getulista.

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A Revolução de 32 foi a versão da época do que foi 1964, com a diferença de que uma foi derrotada e a outra foi vitoriosa, assim como 1935 (a Intentona) foi o equivalente, trinta e poucos anos depois, do que foi a “luta armada” para acender a fogueira que começou a queimar a partir de 1968.

Um delírio voluntarista de uma minoria, coma diferença de que a mais recente pegou em armas e abraçou táticas de guerrilha que proporcionaram, na época, que esse tipo de minoria ficasse maior do que realmente era e desse mais trabalho para ser esmagada.

Democracia”, seja como for, nunca foi, nem um valor, nem um objetivo entre os protagonistas de qualquer desses episódios detonadores das nossas repetidas voltas no círculo das ditaduras. Os pedaços da nossa ordem institucional inspirados nela têm sido, quando muito, um recurso para a faclitação da tomada do poder a ser retirado de cena quando chega o momento de passá-lo ao adversário, a não ser para a minoria de sempre que entra em cena para reagir à ameaça de vê-la banida para sempre.

Mas esta, quando eventualmente chegou “”, não teve tempo, capacidade ou até a persistência necessárias para propor e emplacar uma receita viável de democracia e para consolidá-la para que pudesse seguir adiante por suas próprias pernas.

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Quando esses embates chegam às vias de fato, conflagrando o país, afloram à superfície os bebedores de sangue de ambos os lados — terroristas e torturadores — sobre os quais tenho uma teoria que pode até sugerir uma resposta sobre o porque de ficarmos tão obsessivamente presos à última Ditadura Militar mais que a qualquer outro desses episódios tão semelhantes entre si de que ainda falaremos aqui em outra ocasião.

Por enquanto ficamos nos elementos da equação que estão aquém da barreira do sangue.

Em todos esses processos, como não pode deixar de acontecer em ambientes não democráticos, só nada de braçada a horda dos cínicos que se aproveitam das tortuosidades e das zonas escuras do sistema para se locupletar.

De tão estável que é essa instabilidade do ambiente institucional; de tão previsível que é a sequência do processo, esse é o único segmento em que tem havido “progresso” real: eles são cada vez mais eficientes no trabalho de promoção da desinstitucionalização da nossa vida política que é o que cria o habitat de que necessitam para crescer e se multiplicar.

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Assim, do simples “capitalista de compadrio” a quem o ditador de plantão concede a atribuição de roubar por ele e por seu esquema de poder presente desde o primeiro episódio já evoluímos para um tipo superior de criminoso que é responsável pela “infraestrutura” que trata de perenizar e profissionalizar esse varejo do crime.

São eles os especialistas em “lavar-em-jatos”; os que roubam dos que roubam ou, se quiserem, “os para quem roubam os que roubam” fora do universo mais tradicional da compra de votos pura e simples.

Especializam-se na minucia da regra do jogo e trabalham diuturnamente para torná-la tão cinza e flexível que nenhum processo da vida nacional possa ser previsível e todos fiquem dependentes de uma arbitrariedade que possa ser vendida.

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Do jogo econômico privado essa dubiedade foi migrando para dentro do próprio sistema político de modo que hoje o Poder Executivo, que por enquanto é a única peça móvel do conjunto, também precisa comprar desses ultraespecializados vendedores de “governabilidade”, a cada passo, o direito de seguir se movendo.

É contra essa “infraestrutura” que o PT se articula neste momento, mas não para fazer o processo recuar a um ambiente institucionalizado mas sim para suprimir essa instância de intermediação do arbítrio, objetivo para o qual foi um passo decisivo a proibição das contribuições privadas de campanha que passou recentemente no Supremo Tribunal Federal.

Fico lhes devendo duas, portanto: a minha teoria sobre a psicologia do bebedor de sangue dos processos revolucionários e o ostensivo cerco do PT às ferramentas eleitorais que corre por baixo do tiroteio de dossiês com que ele desvia a atenção da imprensa, num tempo em que as ditaduras são obrigadas a se fantasiar de “democracias”.

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1964: um testemunho

7 de abril de 2014 § 44 Comentários

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Uma versão mais compacta deste relato, publicado em 2 de abril aqui no Vespeiro, está sendo publicada hoje no jornal O Estado de S. Paulo

Pra entender o que aconteceu em 64 é preciso lembrar o que era o mundo naquela época.

Um total de 30 países, parando na metade da Alemanha de hoje, tinham sido engolidos pela Rússia Comunista por força militar. Invasão mesmo, que instalava um ditador que atuava sob ordens diretas de Moscou.

Pelo mundo afora, aliás, todos os líderes dos Partidos Comunistas locais, inclusive o nosso Luís Carlos Prestes, eram obrigados a passar temporadas de aprendizado e doutrinação em Moscou e, admitidamente, agiam sob as ordens da Internacional Comunista que coordenava a ação de todos eles de lá. É famosa, a propósito, a declaração pública do nosso Prestes de que “em caso de guerra entre o Brasil e a Rússia Soviética, lutaria ao lado da Rússia Soviética contra o Brasil“.

Todos os países sob ocupação soviética que tentaram escapar, como a Hungria em 56, a Checoslováquia em 68, a Polônia em 1980 e outros, sofreram novas invasões e massacres.

a1Hungria 56

E tinha mais a China, o Vietnã, o Cambodja, a Coreia do Norte e etc., na Ásia, onde houve verdadeiros genocídios.

Na África era Cuba quem fazia o papel que os russos fizeram na Europa, invadindo países e instalando ditadores no poder.

As ditaduras comunistas eram, todas elas, ditaduras totalitárias que fuzilavam sumariamente quem falasse contra esses ditadores. Não era preciso agir; bastava falar para morrer, ou nem isso.

No Cambodja 1/4 de toda a população, coisa de um milhão e setecentos mil homens, mulheres e crianças, foi executada pelo ditador Pol Pot entre 1975 e 1979, sob os aplausos da esquerda internacional e da brasileira, esta mesma que aplaude até hoje o que está acontecendo na Venezuela ou as violências dos ditadores cubanos que continuam os mesmos daquela época (veja vídeo no fim da matéria).

Os países onde não havia ditaduras como essas viviam sob ataques de grupos terroristas que as apoiavam e assassinavam e mutilavam pessoas a esmo detonando bombas em lugares públicos ou fuzilando gente desarmada nas ruas.

a3Checoslováquia 68

Era no meio do ambiente em que estavam sendo gestados ou praticados todos esses horrores que as correntes mais radicais da esquerda brasileira treinavam guerrilheiros em Cuba desde antes de 1964.

Quando João Goulart subiu ao poder com a renuncia de Jânio Quadros, essa esquerda e o governo passaram a declarar abertamente que era nesse clube que eles queriam nos enfiar.

64 foi um golpe de civis e militares brasileiros que lutaram na 2a Guerra Mundial e derrubaram a ditadura de Getúlio Vargas para impedir que o ex-ministro do Trabalho de Getúlio levasse o país para onde ele estava prometendo leva-lo, apesar de se ter tornado presidente por acaso.

Naquele tempo o presidente e o vice podiam ser de partidos diferentes. E quem tinha sido eleito presidente era o Jânio, cujo partido pregava a linha contrária do de Jango.

Eles tinham tanta certeza de que iam consegui-lo, aliás, que Jango, por cima de inúmeros comícios incitando o povo à ação acabou por desafiar diretamente os militares ao apoiar os sargentos da Marinha de Guerra que tinham se insurgido contra seus superiores dias antes até com uma visita aos rebeldes na companhia de Leonel Brizola, aquele que, anos mais tarde, entregaria os morros cariocas aos traficantes tirando a polícia de lá.

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Foi esse desafio que tirou os militares que ainda hesitavam de cima do muro e precipitou o golpe.

Tratava-se portanto, de evitar que o Brasil entrasse num funil do qual não havia volta, e por isso tanta gente boa entrou nessa luta e a maioria esmagadora do povo brasileiro, na época, a apoiou.

E qual era a proposta do primeiro governo militar do marechal Castelo Branco, um homem muito mais fiel aos princípios da democracia que boa parte dos que se sentavam no Congresso Nacional?

Limpar a área do grupo que misturando corrupção com ideologia, aproveitava-se das liberdades democráticas para armar um golpe de dentro do sistema para extingui-las de uma vez por todas, terminar o mandato de Jânio Quadros que deveria ter ido até 1966, e convocar novas eleições para devolver o poder aos civis.

Foi a isso que o país aderiu em massa.

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Só que, como diz o filósofo, “a revolução é uma praxis que forja as suas ideias ao longo da ação”, o que é só uma maneira pretensiosa de dizer que o poder, uma vez experimentado, seduz e corrompe tudo.

Por isso elas nunca cumprem o que foi planejado pelos seus idealizadores o que, no caso dos idealizadores da de 64 que eu conhecia de perto, era um fato sabido desde sempre, macacos velhos que somos de outras revoluções traídas, perseguições e exílios.

Tratava-se, naquele caso de um risco calculado entre cair numa ditadura da qual não havia perspectiva de volta e arriscar-se a ficar exposto a outra que poderia ser, como foi, muito mais facilmente removida e que certamente seria, como também foi, muito menos violenta e sanguinária que as ditaduras comunistas da época.

Seja como for a sequência dos fatos, desse momento em diante, é rigorosamente a seguinte:

A ditadura militar brasileira começou com os militares despindo a farda e vestindo ternos para governar, num mundo em que ditadores civis, por todo lado, despiam o terno e vestiam fardas para sentar-se na cadeira do poder e não se levantar nunca mais dela.

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Até o Ato Institucional nº 2, de outubro de 65, um ano e meio depois do golpe, os militares, seguindo o combinado, tinham se limitado a cassar o direito de eleger e de ser eleito por 10 anos de 289 pessoas, incluindo 5 governadores, 11 prefeitos e 51 deputados acusados de corrupção mais do que de esquerdismo. Gente como Orestes Quércia e cia. ltda. estava nessa panela.

Ninguém tinha sido preso, ninguém tinha sido fuzilado, ninguém tinha sido torturado. Esses 289 estavam sendo processados por roubalheira nos IPMs (Inquéritos Policiais Militares) instalados para esse fim.

As revoluções que exterminavam fisicamente seus adversários eram as que esses que se dizem vitimas hoje apoiavam pelo mundo afora e, junto com Jango, diziam que queriam implantar no Brasil.

A discussão até esse momento era, portanto, a mesma de hoje: Zé Dirceu foi condenado porque é de esquerda ou porque é ladrão?

A esquerda dirá até a morte que é porque é de esquerda…

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Mas o fato é que até a edição do AI-2 os partidos políticos funcionavam, o Congresso estava aberto, houve eleições diretas para governadores e havia eleições para presidente marcadas.

Isso só começaria a mudar em outubro de 65 com o AI-2 que fechou partidos, interferiu no Judiciário e tornou a eleição para presidente indireta, o que fez com que o jornal O Estado de S. Paulo, que os tinha apoiado um ano e meio antes, rompesse com os militares e passasse a combatê-los.

Tudo isso aconteceu praticamente dentro de minha casa porque meu pai, Ruy Mesquita, era um dos principais conspiradores civis, fato de que tenho o maior orgulho.

Antes mesmo da edição do AI-2, porém, a esquerda armada, com o Congresso e os partidos funcionando, já tinha matado dois: um civil com uma bomba no Cine Bruni, no Rio, que feriu mais um monte de gente e um militar numa emboscada no Paraná.

Assim mesmo a barra só iria pesar mesmo a partir de dezembro de 68, com a edição do AI-5. Aí é que começaria a guerra. Mas os militares só aceitaram essa guerra depois do 19º assassinato cometido pela esquerda armada.

a00012/10/68: C.R.Chadler, o 16º, morto com quase 20 tiros na frente da mulher e do filho pequeno

Foi a esquerda armada, portanto, quem deu o pretexto para a chamada “Linha Dura” militar tomar o poder e a ditadura durar 21 anos, tempo mais que suficiente para os trogloditas de ambos os lados começarem a gostar do que faziam quando puxavam gatilhos, acendiam pavios ou aplicavam choques elétricos.

A guerra é sempre o paraíso dos tarados e dos psicopatas e aqui não foi diferente.

No computo final, a esquerda armada matou 119 pessoas, a maioria das quais desarmada e que não tinha nada a ver com a guerra deles, e os militares mataram 429 “guerrilheiros” segundo a esquerda, 362 “terroristas” segundo os próprios militares. O numero e as qualificações verdadeiras devem estar em algum lugar do meio dessas diferenças.

Uma boa parte das vítimas dos militares morreu atirando, de armas na mão; outra boa parte morreu na tortura, assassinada ou no fogo cruzado.

Está certo: não deveria morrer ninguém depois de rendido e morreu. E assim como morreram culpados de crimes de sangue, morreram inocentes. Eu mesmo tive vários deles escondidos em nossa casa e até no meu quarto de dormir e, já jornalista, contribui para resgatar outros tantos.

Mas isso é o que acontece em toda guerra porque guerra é, exatamente, a suspensão completa da racionalidade e do respeito à dignidade humana.

a1225/10/75. Wladimir Herzog, jornalista, morto na tortura por eletrochoque

O total de mortos pelos militares ao longo de todos aqueles 21 “Anos de Chumbo” corresponde mais ou menos ao que morre assassinado em pouco mais de dois dias e meio neste nosso Brasil “democrático” e “pacificado” de hoje onde se mata 50 mil por ano.

Ha, por enquanto, 40.300 pessoas vivendo de indenizações por conta do que eles ou seus parentes sofreram na ditadura, todas do lado da esquerda. Nenhum dos parentes dos 119 mortos pela esquerda armada, nem das centenas de feridos, recebeu nada desses R$ 3,4 bilhões que o Estado andou distribuindo.

Agora ameaçam suspender a anistia para um dos lados, coisa que não agrada dona Dilma que teria de se sentar no banco dos réus se isso levar à suspensão da anistia também para o outro lado, como é da lógica das revanches que conduzem sempre a outras revanches.

Enfim, esse é o resumo dos fatos nas quantidades e na ordem exatas em que aconteceram, do que dou fé porque estava lá, e que deixo registrados para os leitores que não viveram aqueles tempos compararem com o que andam vendo e ouvindo por aí e tirarem suas próprias conclusões sobre quanto desse barulho todo corresponde, de fato, a sentimentos e intenções honestas.

Este vídeo de uma apresentação feita na edição de 2010 do Oslo Freedom Forum, da Human Rights Foundation, organização da qual sou membro colaborador, é definitivo no que diz respeito ao peso da cumplicidade internacional nos crimes de lesa humanidade envolvendo embates ideológicos que marcaram os anos entre as décadas de 60 e 90 do século passado, e ilustra bem o que estava em jogo nas escolhas que o Brasil tinha de fazer ao longo do processo iniciado em 1964.

Legenda em Português: 1- inicie o vídeo: 2- clique no 2º ícone, (retangulo branco depois do relógio); 3- clique em “inglês” ; 4- clique em “traduzir legendas”; 5- clique na seta ao lado de “afrikaner”; 6- clique no trecho mais claro da barra escura do lado direito; 7- arraste até “Português”; 8- clique em “Português”; 9- clique em “ok”

Mate com prazer! Afirme-o com orgulho!

4 de abril de 2014 § 1 comentário

a1Fernando Llano, da AP, na capa do Estadão de hoje

A Venezuela ainda vai muito bem, obrigado.

Os trogloditas de Nicolas Maduro ainda usam máscaras quando invadem universidades para quebrar ossos de estudantes dissidentes a porretadas e capacetes quando saem às ruas para assassinar a tiros, da garupa de motos, quem pensa diferente deles.

Mas, com o endosso da nossa Unasul, ainda haverá de chegar o dia em que sairão do armário e assumirão o orgulho homicida que hoje ainda reprimem e passarão a fazer isso de cara limpa como os assassinos políticos do nosso passado recente como este que nos fala neste vídeo.

O que autoriza essa previsão auspiciosa é a forma como a imprensa “democrática” das Américas está noticiando hoje essa história do “twitter” que os americanos — esses criminosos! — criaram para intoxicar os corações e mentes da juventude cubana.

Não houve uma voz, abaixo da fronteira do México – e a maioria das que se expressaram acima dela também o fizeram nessa mesma linha – que tenha comemorado essa nova possibilidade que a moderna tecnologia oferece de furar o bloqueio dos que os querem mudos e submissos para sempre e dar voz a todos quantos, pelo mundo afora, estão sendo mantidos calados na porrada.

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A coisa foi vendida em toda a parte na forma de “denúncia” de um plano sinistro “para desestabilizar o governo cubano” que tinha por objetivo “atrair um grande número de jovens para depois conduzi-los a dissidência“, possivelmente mediante o uso inadvertido de alguma droga cibernética ou técnica subliminar urdida pelos terríveis feiticeiros da CIA capaz de hipnotizar a exultante juventude cubana – que perigo é a guerra química! – a ponto de fazê-la enxergar no paraíso da família Castro em que tem vivido um inferno de que faz sentido dissidir.

Joseph Pulitzer, o grande patrono e teórico da imprensa democrática americana, morto em 1911, dizia que “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

Esse tempo, obviamente, já chegou.

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1889, Getulio e a razão do meu otimismo

10 de janeiro de 2014 § 6 Comentários

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Chego das férias digerindo o mergulho em dois momentos da História do Brasil – o segundo volume do Getúlio, de Lira Neto, e o 1889 de Laurentino Gomes que me fizeram companhia nestes dez dias – com a convicção reforçada de que este país ainda não fez a sua revolução fundadora.

É uma ideia sempre reconfortante esta de colocar-me na perspectiva da pré-história da Nação brasileira, porque deixa abertos todos os horizontes possíveis para o futuro, dependendo apenas de quanto tempo queira-se contemplar para adiante.

Um ajuntamento humano só se torna uma sociedade de fato – uma sociedade “de contrato” – quando o povo impõe aos governantes as condições em que aceita algum grau de redução da liberdade de que cada um, até então limitado apenas pelos seus dotes físicos e pelos ditames da sua consciência, desfrutava no “estado de natureza”, para obter os benefícios de uma ordem política.

A brasileira nunca chegou a isso.

O que tem havido aqui nesse campo, desde o Descobrimento, é uma relação dominante/dominado imposta sob variados disfarces mas sempre imposta.

Nossas 8 Constituições, que começaram a pipocar a partir do momento em que o mundo tornou impossível não dispor de uma, têm sido decretadas ou outorgadas de cima para baixo por príncipes, por ditaduras proto-totalitárias ou por ditaduras mitigadas mais ou menos assumidas como tal, sempre tangidos pelas marés políticas planetárias.

Os fugazes interlúdios de concessões à civilização em nossa normalidade institucional sempre bárbara, ou foram acidentes presos à figura de déspotas benevolentes, ou foram hiatos decorrentes do esgotamento dos seus regimes determinados, ou por grandes viradas na conjuntura internacional, ou pela exacerbação até o paroxismo da desordem decorrente da mistura de incompetência com voracidade desses predadores e a consequente auto-falência das ditaduras por eles encarnadas.

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Ao povo, suposta fonte exclusiva de toda legitimidade política, tem cabido assistir a tudo isso de longe e tratar, depois de estabelecidas as novas regras do jogo sempre viciadas na mesma direção, de engendrar os “jeitinhos” para deixar de cumprí-las sem pagar as consequências formalmente estipuladas para isso.

Houve as duas semi-portuguêsas – 1822 e 1824 – feitas por e para portuguêses, mas também “pra inglês ver”.

A Abolição foi, igualmente, “pra ingles ver”. Fomos constrangidos pelos canhões apontados pelos navios britânicos que fecharam nossos portos ao tráfico negreiro, a “escolher” o fim da escravidão.

Com ela, de troco, veio a Republica e a Constituição de 1891. Pura ficção. O país continuou no “cabresto” dos “coronéis”, na fraude eleitoral e no uso e abuso dos muitos pelos poucos até reassumir o namoro com a ditadura a partir de 1930 e casar-se definitivamente com ela em 1937, ano da edição da “Polaca“, que institui a ditadura do “Estado Novo” fascista, documento comparado com o qual o AI-5 parece um manifesto libertário.

A única exceção – pela natureza autenticamente autóctone do movimento que acabou por impô-la, caso único na História do Brasil – foi a Constituição de 1934, a mais democrática que já tivemos e que vigorou por menos de três anos, enfiada goela abaixo de Getúlio Vargas por São Paulo e o Movimento Constitucionalista de 1932.

Mas isto será tema de outro artigo logo adiante.

A “democratização”, em 1946, foi outra farsa imposta de fora: a ditadura de Getulio só caiu formalmente porque o cavalo em que ele apostou perdeu. Chamava-se Adolf Hitler e foi derrotado pelos “ingleses“, pelo que fomos constrangidos a “escolher a democracia” depois de sermos obrigados a morrer por ela antes de conhece-la na guerra da Europa.

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No Brasil mesmo, nada se opunha ao ditador senão a meia dúzia de gatos pingados de sempre. E eu sei bem quais e quantos eram eles, e com quanta disposição de sustentar suas atitudes sob a ameaça de sacrifícios físicos e econômicos se apresentavam, porque boa parte deles era gente da minha própria família que sentiu literalmente na pele essa desértica escassez.

A verdade dolorida e sintética é que o país inteiro – “explorados” e “exploradores” das categorias marxistas em que nossos intelectuais com carteira assinada em Brasília insistem até hoje – estava, todo ele, gostosamente entregue à exploração sem aspas da ditadura getulista.

Quem quer que alimente ilusões sobre o que veio depois – e de lá até hoje – deveria ler o penúltimo capítulo do segundo livro de Lira Neto, onde ele transcreve a receita de “constituição democrática” encomendada pelo ditador a Marcondes Filho, seu ministro da Justiça e do Trabalho, cargos que não por acaso eram cumulativos no “Estado Novo” fascista, para que, seguindo os cânones estabelecidos pelo Secretário da Presidência, Luis Vergara, que faria jus ao título de Machiavel brasileiro, a ditadura “ganhasse o tirão”, expressão gaucha que significa antecipar-se ao inimigo numa peleja, para que tudo continuasse igual embora passando uma impressão de mudança diante do incontornável tsunami democrático que atingia nossas praias a partir da Europa.

O povo se cansa dos mesmos figurantes da encenação governamental, como se cansa e se desinteressa dos comediantes que no palco se apresentam todos os dias, vestindo do mesmo modo, entrando e saindo pelas mesmas portas, usando dos mesmos truques e fazendo as mesmas momices”, dizia o secretário ao grande comediante da pantomima nacional de então. E aconselhava o ditador: “É preciso oferecer coisas novas, prender a atenção do público e evitar-lhe o cansaço…”.

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Como excluir candidaturas adversárias jogando com os prazos; como manipular os sindicatos e outras formas de “representação da sociedade civil” e fazer delas o filtro prévio das eleições legislativas; como “aparelhar” os cargos responsáveis pela fiscalização das eleições; como manter esses “representantes do povo” e as “bancadas” por eles formadas no Congresso Nacional sob a firme tutela do governante de plantão; como comprar os grandes empresários e, através deles, manter sob controle todos os demais que deles dependem, seja como consumidores dos insumos básicos cuja produção o ditador lhes outorgara, seja como únicos compradores de sua produção; como cooptar artistas e intelectuais e torná-los mansos e servis; como estruturar “uma campanha nacional de filmes subordinada ao titulo ‘O que o presidente realiza’ e inundar com ela o país”; a criação da Hora do Brasil, no ar até hoje, precursora do Horário Eleitoral Gratuito; como “preparar um folheto de divulgação da Constituição escrito em linguagem simples, de emoção patriótica, de sensibilidade e até mesmo de certa poesia, de acordo com a índole brasileira”…

Não iventou rigorosamente nada que já não estivesse nesse documento o famigerado Plano Nacional de Direitos Humanos que o PT já tentou nos fazer tragar uma vez e vem nos impondo aos pedacinhos desde então.

Instalado um filtro de seleção negativa no sistema político“, ensinava meu avô, “só o pior aflora“. E isso, graças aos expedientes acima descritos, na sociedade inteira e não apenas na política. A cada nova “bombada” no caldo ele se torna mais toxicamente homogêneo e mais difícil fica reverter o processo. O perigo, portanto, é cair no “vórtice argentino” do qual parece não haver retorno.

Getúlio se inspirou em Domingo Perón. Getúlio caiu, Getúlio voltou, Getúlio morreu mas a vida institucional do país permaneceu torta como ele a fez. O hiato da ditadura militar é um ponto fora da curva, resquício ainda da herança da Força Expedicionária do Exército Brasileiro que foi lutar pela democracia na Itália. Jango, o exumado “El Cid” pelas avessas posto para cavalgar pelos incansáveis “revisores da história oficial” petistas era mole demais; Brizola era irresponsável demais; os agentes da luta armada eram sanguinários demais…

Lula é o herdeiro perfeito que segue o mestre ao pé da letra, especialmente no ultra pragmático cinismo e na arte da manipulação das ambições e das vaidades dos áulicos que Lira Neto descreve tão bem em Getulio e na qual o ex-metalúrgico de São Bernardo também é doutor suma cum lauda.

A transição da “faccetta nera” para o que viria a ser a “estrela vermelha” a que o “Sistema ” chegaria por inércia ainda foi obra de Getulio e o seu clássico bordão “Boa noite, trabalhadores do Brasilll…”.

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A Constituição de 1988 com seus 250 artigos, milhares de parágrafos e 72 emendas (por enquanto) é apenas a “Arca de Noé” na qual tentaram salvar-se do dilúvio que acabou não vindo todos os privilégios e “direitos adquiridos” cavados ao longo de quase seis décadas de corporativismo explícito e mais os 25 anos de desembesto legislativo que se seguiram.

A grande contribuição dos “companheiros de estrada” da Academia ao lulismo é a vitória avassaladora de Gramsci nestes trópicos com que muito provavelmente o grande teórico da conspiração italiano nunca sonhou: a substituição dos banhos de sangue e das armas barulhentas de conquista do poder da “esquerda século 20” por um programa maciço de lavagem cerebral ministrado nas escolas, através da mídia e com o concurso de artistas e celebridades de que até Fidel Castro, industriado por Lula, se tornou um arauto depois do Foro de São Paulo, com o qual a “esquerda século 21”, sem utopia mas armada de dinheiro até os dentes, pretende partir do Brasil para a conquista do mundo.

O próprio Lira Neto é uma vítima desse processo como se verá num próximo artigo.

Essa nova ditadura que se fantasia de democracia apoia-se numa “história do Brasil” cotidianamente reescrita segundo as conveniências do partido e no assassinato ritual da verdade, das novelas da Globo para cima terminando nos palanques e tribunas oficiais, até que não sobre valor algum em pé. Uma vez conquistado o aparelho de Estado ela passa a se impor mediante a operação de um implacável aparato de opressão econômica que, nos bastidores, executa dissidentes, ou pelo “garrote vil” da concorrência com o “campeão nacional” ungido pelo BNDES para controlar quem passa e quem não passa pelas grandes encruzilhadas do jogo econômico, ou pela “guilhotina” de uma Receita Federal que exige, seletivamente, o cumprimento de uma “ordem tributária” especialmente desenhada para ser letal quando cumprida.

O esforço e o merecimento não garantem nada a ninguém, muito pelo contrário. Ameaça ao “Sistema” que é, a meritocracia é mais temida por essa “nova esquerda” que a cruz pelos vampiros. É o grande inimigo a ser combatido pois é imprescindível que não exista um direito à sobrevivência economica institucionalmente balizado e que só Sua Majestade possa concedê-la, caso a caso.

O que antes se fazia com a espada, primeiro, e com o fuzil Kalashnikov, depois, hoje faz-se, portanto, a golpe de bilhões ou brandindo as leis onde, desde sempre, segue havendo mais de uma para cada caso, aplicavel conforme a cara do freguês.

É sobre esse monopólio da concessão de “segurança (econômica)” (a admissão dentro das muralhas do castelo em troca de servidão), a ancestral arma de submissão do homem que, em tais ambientes, não pode ser conquistada de outra forma, que repousa toda força do “Sistema“.

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Para os amigos do rei, dinheiro fácil (pouco ou muito, não importa), mesuras e, quando inevitavel, prisões especiais. Para o povão – que “a tudo isso assiste bestificado” como registra Laurentino Gomes citando uma testemunha do golpe republicano – pouco mudou. A tortura faz parte do cotidiano de todo “” que cruza com a polícia ou cai doente num hospital público. No mais, é a esmola, o “cabresto” do trabalho hiper-regulamentado, o poder de vida e morte do governo sobre os empregadores, a realimentação permanente dos dependentes químicos com as drogas corrosivas da distribuição de pequenos privilégios e da corrupção socializada e, no extremo, as prisões que o próprio Ministro da Justiça teme mais que a morte.

Da senzala para as favelas; dos grotões para as cinzentas periferias “de bloco”, o “País Oficial” só lhes dirige o olhar se e quando tangido pelo mundo exterior.

A rapina do dinheiro público só arrefece quando a corrosão da moeda nacional face à baliza do dinheiro estrangeiro toma o aspecto doméstico de inflação galopante; a segurança pública só é ensaiada onde os “ingleses” da Copa vão passar; os trogloditas das torcidas e das prisões dantescas só são reprimidos se a ONU se coçar; o saneamento básico só chega à antiga capital da República, em pleno Terceiro Milênio, como exigência do Comitê Olímpico Internacional pra “inglês” poder se banhar…

Brasileiro foda-se.

Nesse eterno mar revolto da selvageria institucional onde as “excelências” nadam de braçada vêm naufragando seguidamente as classes médias, sempre eleitoralmente insignificantes mas que, apesar de tudo, conseguem erigir-se pelo merecimento (a outra, do funcionalismo público, não sabe o que é crise), e os democratas autênticos, frequentemente acompanhados pela esquerda honesta que incomoda a outra mais que os primeiros pelas mesmas razões que Abel incomodava Caim.

Mas mesmo assim eu sou otimista!

Laurentino Gomes, no seu 1889, apresenta os números que justificam essa insistência. Descontados os primeiros séculos do Brasil Colônia o dado que menos se alterou é a proporção de analfabetos e ilustrados deste nosso gigante adormecido. Descontado o leve verniz acrescentado desde então às duas pontas dessa equação, seguimos nos mesmos 85% contra 15% dos albores da República. A comparação do nível dos “alfabetizados” daqui com os alfabetizados dos países institucionalmente desenvolvidos completa os dados da charada brasileira.

Da Abertura dos Portos para o Império; do Império para a Primeira República; do fim da “Era Vargas”, ainda nos estertores, até os nossos dias, o país tem vivido ciclos sucessivos de apuração da ordem institucional e econômica instalada pela fatia sempre exígua dos “incluídos” de cada momento seguida da diluição resultante da inclusão de uma nova “tranche” de “excluídos” que, até então, limitavam-se “a tudo assistir bestificados”.

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Só que as retomadas, a cada volta nesse círculo, se dão a partir de um patamar mais baixo que o anterior em função do progressivo enfraquecimento de um Estado cada vez mais esvaziado da sua função de agente equlizador das oportunidades e mais pervertido em vetor de disseminação de privilégios a que só os piores fazem jus.

Ainda assim o Brasil segue inserido no mundo, razão pela qual o esforço nunca é de todo inútil e o contingente dos “incluídos” consegue crescer pouco a pouco, o que prova conclusivamente a superioridade do brasileiro como agente produtivo. Nenhum dos seus concorrentes “civilizados” permaneceria vivo meia hora na arena global com 10% das adversidades que enfrentamos na nossa cotidiana guerrilha econômica. Livres de metade do peso que carregamos, “malhados” como temos de estar os que sobrevivemos, daríamos “um passeio” na disputa mano-a-mano em qualquer um deles.

Como sociedade, entretanto, só a partir do momento em que uma maioria estiver “incluída” no universo dos com alguma educação, memória, poder de consumo e preparo para enfrentar as responsabilidades da democracia haverá condições objetivas de chegarmos à nossa “revolução fundadora” que constrangerá o Estado, provavelmente mediante o uso das mesmas armas que redimiram outros povos oprimidos como a do voto distrital com recall entre outras, a reassumir a condição de agente positivo do processo, focado na busca da igualdade de oportunidades pelo único caminho efetivo para isto que é a educação.

No preâmbulo do seu 1889, Laurentino Gomes dá a sua versão do mantra que venho repetindo aqui sobre o papel do estudo da História como a “psicanálise das sociedades” ao saudar a safra crescente de produção historiográfica de qualidade e a enorme curiosidade do público pelos seus frutos que se tem constatado nos últimos anos no Brasil.

Tomar consciência da ancestralidade dos engodos que continuamos a tragar de geração em geração graças ao meticuloso trabalho de lavagem da memória nacional que os inimigos da democracia empreendem por aqui, tem um efeito fulminante.

Concordo que este renovado interesse pela História do Brasil são as primeiras luzes do alvorecer de uma nova etapa no nosso processo de amadurecimento político que tem o potencial de agir tão rápida e irresistivelmente sobre o mar de mentiras que hoje prevalece quanto o sol sobre os cogumelos que vivem da sombra.

Os que hoje nos parecem invencíveis são a versão tropical dos “tigres de papel” do hemisfério Norte do milênio passado, prestes a ser amarfanhados e atirados à lata de lixo da História com atraso mas com a mesma surpreendente e inesperada presteza e ausência de resistência com que seguiram esse mesmo destino os totalitarismos que os inspiraram e que até hoje eles insistem em mimetizar, agora proverbialmente como farsa.

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O jogo dos contrários

29 de novembro de 2013 § 3 Comentários

novi1

Uma coisa que nunca deixa de me incomodar, por mais banalizada e onipresente que esteja a expressão hoje em dia, é esse negócio de “políticas públicas”.

Que política haveria de não ser pública, especialmente em se tratando de governos?

Enfim, é um desses vícios de linguagem que nascem em tribos bem identificadas e acabam por se transformar numa espécie de distintivo delas. No caso, trata-se da militância do PT. A expressão “políticas públicas”, sobretudo quando dita entre “cicios”, identifica um militante do PT com mais precisão que a estrela vermelha pespegada ao peito.

Mas aí comecei a dar-me conta de que uma grande parte das políticas do PT de fato não são políticas voltadas para o bem público, são políticas de aparelhamento de instrumentos e de próprios do Estado para colocá-los a serviço do projeto de poder do partido, quase sempre em detrimento do interesse público.

novi1

Ocorreu-me, então, que a expressão pode ter tido origem em figuras admiradas por seus imitadores de hoje que enxergavam com toda a clareza a distinção entre essas duas formas de operar que os mais ingênuos não vêm – as políticas “nossas” (para anabolizar o partido) e as “políticas públicas” (pata atrair eleitores e o mais) – e que a tropa simplesmente a repete agora possivelmente sem ter muita consciência do seu sentido original.

A hipótese se encaixa perfeitamente numa tradição de que as atuais gerações estão distantes mas que marcou indelevelmente a minha.

Hoje eles já são pacificamente tidos como “heróis da democracia” neste país que honra Antonio Granmsci. Mas nos anos 60, 70 e 80 quando ainda se afirmavam clara e orgulhosamente como “ditaduras do proletariado” e fuzilavam sumariamente quem discordasse delas esse pessoal já tinha consciência de que o peso desses crimes acabaria por se voltar contra eles.

novi1

Assim é que, embora na ação fossem explícitos e inequívocos na afirmação da sua obsessão pelo controle “total” dos pensamentos, palavras e obras alheias (daí o “totalitário”) assim como da sua absoluta intolerância para com qualquer forma de dissidência, por tênue e pacífica que fosse, eles passaram a se especializar num meticuloso trabalho de subversão conceitual e linguística que George Orwell, no seu clássico “1984”, imortalizou como a “novilíngua”.

Conscientes de que democracia já era, desde pelo menos o fim da 2a Guerra Mundial, um valor universalmente aceito e adotado como o objetivo a ser conquistado pela maior parte da humanidade, mesmo a parcela dela que não sabia então e continua não sabendo até hoje exatamente como defini-la nem, muito menos, como estruturá-la institucionalmente falando, esses inimigos jurados da democracia passaram a trabalhar para se apropriar das expressões que historicamente a definiam.

novi1

Tudo, então, passou a ser designado como o contrário do que era. Enquanto as verdadeiras democracias, que eles qualificavam naquela altura de “burguesas” e tentavam matar a tiros e explosões, chamavam-se, anodinamente, “Estados Unidos da América”, “Japão” ou “Canadá”, as mais sanguinárias ditaduras, às vezes instaladas em países cercados por muralhas, controlados por elites que não apeavam nunca do poder, em que qualquer expressão de dissidência resultava no fuzilamento sumário com um tiro na nuca aplicado em um porão, a perseguição e o confinamento de toda a descendência do condenado e até o apagamento de todos os traços de sua passagem pela Terra inclusive em fotografias, eram todas batizadas de “Republicas Populares Democráticas”.

novi1

Havia a da Alemanha (Oriental), cercada de muros com ninhos de metralhadoras apontadas não para a porta de entrada, que vivia às moscas, mas para a de saída, que era disputada mesmo à custa de sangue, havia a do Campuchea (Cambodja), onde um terço da população foi exterminada, havia as “Repúblicas Socialistas Soviéticas“, “unidas” por implacáveis exércitos de ocupação estrangeiros que enfrentavam passeatas com tanques de guerra, e por aí a coisa ia com milhões de pessoas assassinadas e de prisioneiros submetidos à fome e ao trabalho escravo em intermináveis “arquipélagos” de campos de concentração.

Não eram repúblicas, não eram populares e não eram democráticas. Fuzilavam todo e qualquer homem, mulher ou criança que agisse como se estivesse em uma, sempre sob os aplausos entusiasmados dos “guerrilheiros” que lutavam explicitamente, com armas e com bombas, para por o Brasil sob esse mesmo tipo de regime. Mas faziam questão absoluta de ser chamados assim…

Para os nativos do Terceiro Milênio tudo isso parece distante como a Idade Média. Mas aconteceu, foi “ontem” e eu estava lá, como tanta gente que mora hoje em nossos palácios…

novi1

Esse negócio de “políticas públicas” não passa de um restolho temporão desse culto à subversão semântica e conceitual que tão bem caracterizou aqueles anos.

A distribuição maciça de benesses e pequenas esmolas eleitorais; a oferta de homens vestidos de branco mas sem diploma quando faltam médicos; as desonerações pontuais em setores da produção com repercussão rápida nos sonhos de consumo das classes mais resistentes ao partido; o controle do preço de insumos básicos para melhorar estatísticas ou a distribuição de mão em mão de “remédios” que viciam a título de cura da miséria são, todos eles, expedientes que, segundo o jargão do militante, constituem as tais “políticas públicas” do PT. Mas o que se pretende obter com elas, evidentemente, não é reforçar o regime representativo, nem melhorar a saúde pública, nem aumentar a competitividade da indústria nacional, nem acabar definitivamente com a miséria.

Segue com tudo o velho jogo dos contrários…

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