Tentando acreditar em Joe Biden

23 de abril de 2021 § 30 Comentários

E cá estou eu mais uma vez procurando empenhadamente razões para beber uns goles do otimismo da imprensa ocidental em peso com a “Cúpula do Clima” de Joe Biden.

A primeira sequência de “chefes-de-estado” que vi desfiarem suas promessas ao mundo parecia animadora. Americanos, chineses, calejados europeus, árabes, russos, ilhéus da Oceania, argentinos, tudo parecia uma mesma procissão de santos bem intencionados. 

Mas o estraga prazeres que insiste em soprar fatos nos meus ouvidos não saia de lá. A maioria desses “representantes da comunidade internacional” não são isso, repetia ele, são só chefes do crime organizado. E muitos são governantes absolutistas. Gente que como os monarcas da Idade Media, declara-se governante eterno e pune com a morte quem desafia esses decretos. Não dá nenhuma satisfação de seus atos a quem quer que seja dentro de suas fronteiras. 

Alguns árabes mandam açoitar mulheres e decapitar oposicionistas em praça pública. Os russos assassinam opositores com dardos radioativos. Os chineses, que têm uma economia tocada a carvão e são os maiores poluidores do planeta (28% do total de emissões venenosas), são também os maiores predadores dos 7 mares com suas frotas pesqueiras semi-piratas recheadas de marinheiros escravos. Greta Thumberg não os vê mas eles estão lá e dizimam em escala industrial as últimas populações de animais selvagens do planeta, que são os que, antes das tecnologias que hoje permitem até identificar cada inimigo do partido único no meio de uma multidão numa fração de nano-segundo, ainda conseguiam esconder-se na água. Mantêm um milhão de Uigur’s e ninguém sabe quantos milhões de chineses outros em “campos de reeducação urbanos”, prisões-políticas verticais que se espalham por todas as cidades do país. Entre esses Uigur, quem não morre, mesmo “reeducado”, é “esterilizado”. Quer dizer, a China de Xi Jinping, conforme apuração do insuspeito NY Times, literalmente “pega pra capar” essa parcela da sua própria população porque ela se declara adepta do islamismo que o Ocidente é acusado de perseguir… 

Vai por aí a pletora dos horrores deste mundo patrocinados por esses bons senhores preocupados com o grau e meio de aquecimento no horizonte das gerações futuras, que fazem promessas solenes de cuja seriedade convencem absolutamente a imprensa brasileira e internacional ambientalmente engajada. 

Xi Jinping mesmo, que só concordou em participar do convescote menos de 24 horas antes dele começar, depois de certificar-se de que Joe Biden seria lhano no trato, disse que “A China está ansiosa para trabalhar com os Estados Unidos para melhorar a governança global. Nós lutamos por uma sociedade mais equilibrada e priorizamos o meio ambiente, queremos atingir nossas metas climáticas … em tempo mais curto que outros países desenvolvidos”. Vago nas próprias promessas foi incisivo com quem foi preciso nas suas: “Vamos restringir o comércio com países que não cumprirem suas metas climáticas”.

Não é para menos. Joe Biden, um dos pouquíssimos governantes do planeta totalmente sujeitos às leis que no seu país são feitas pelo povo, “comprometeu-se” em reduzir suas emissões (15% do total mundial) em 50% até 2030. Isso implica coisas como banir, como ele já se comprometeu a fazer, toda a nova tecnologia de fracking de maciços de xisto que transformou os Estados Unidos de maior importador em maior exportador de energia do mundo, barateando o gás industrial a ponto de promover a volta de industrias que tinham migrado para a China num país que precisa desesperadamente de empregos.

Mas mesmo Biden, com toda a influência que possa ter mediante a criação de incentivos federais, não tem poder para garantir tudo isso. Quem decide essas grandes ações de cunho ambiental, como tudo o mais por lá, é o povo, nas instâncias estadual e municipal. O governo de Nova York, por exemplo, acaba de desenhar um pacote de 3 bilhões de dólares com esse propósito a ser decidido no voto (ballot) nas próximas eleições de 2021.

Finalmente, chegamos a Jair Bolsonaro. A mudança de tom conseguida do presidente brasileiro no tratamento da questão ambiental foi, certamente, a conquista mais formidável da “Cúpula do Clima” de Joe Biden, o que não é pouca porcaria posto que o maior problema do Brasil não têm sido as ações, mas o tom com que Bolsonaro vocifera antes, durante e depois de praticá-las. Para desespero dos apedrejadores domésticos do Brasil, o novo tom da política ambiental, para o meu gosto, esteve próximo de perfeito tanto nas cobranças quanto nas promessas que fez em nome do país que, como ele lembrou, é responsável por menos de 1% das emissões historicamente acumuladas e menos de 3% das acrescentadas à atmosfera todos os anos.

Quanto à promessa de redução a zero de emissão de carbono até 2050 e de 40% do desmatamento até 2030, sou pessimista. O desmatamento no Brasil é, já ha um bom tempo, função exclusiva da corrupção. Não tem nada a ver com o agronegócio como gostariam que fosse os apedrejadores domésticos e os fariseus da velha Europa. Só duas pessoas ganham hoje com a depredação de florestas no Brasil: o madeireiro e o político corrupto que o acoberta (além dos que comerciam as últimas madeiras virgens no “mundo civilizado”, luxo que não é pro bico de pais pobre). 

A redução do desmatamento no Brasil depende absolutamente, portanto, da redução da corrupção, o que é totalmente insano esperar com esse STF que solta os ladrões e prende as polícias. Redução da corrupção é, histórica e planetariamente falando, função exclusiva do aumento de democracia. E no Brasil a democracia está em extinção. 

Das iniciativas de Bolsonaro, portanto, a única que com toda a certeza será cumprida, é a de sempre em se tratando do Estado brasileiro: a do “aumento de recursos” e, portanto, de funcionários indemissíveis e incobráveis acrescentados à legião da privilegiatura.

A questão ambiental, seja pelo viés do aquecimento global, seja por todos os outros, é seríssima. Mas só pode ser endereçada pelo tratamento de sua causa fundamental, que é a superpopulação humana. Enquanto a luta pelo poder – nacional ou global – tiver precedência  sobre o controle da natalidade na questão ambiental, continuaremos matando o planeta.

Trump, Biden e a doença do jornalismo

10 de novembro de 2020 § 44 Comentários

Na política, como na vida, toda “solução” é só o início do próximo problema.

Alguém disse na TV que a melhor qualidade de Joe Biden é não ser Donald Trump. Concordo. O fim do cafajestismo no poder reabre a perspectiva da reconstituição da institucionalidade da figura do presidente dos Estados Unidos da América que, como estamos aprendendo a duras penas em todo o mundo nestes tempos de venenos novos como o Twitter, o Facebook e quejandos sendo instilados nas veias das democracias em doses cavalares, é absolutamente essencial. Além disso, Joe Biden tem não apenas a memória viva de outros Estados Unidos de que, mesmo lá, pouca gente ainda se lembra e aos quais seria muito bom a sociedade americana de hoje se reaproximar, como principalmente a humildade dos muito sofridos que falta psicoticamente a Donald Trump.

Mas os Estados Unidos que ele vai tentar governar são os de hoje. 

Biden elegeu quatro prioridades. A primeira é a pandemia por trás da qual está o debate da socialização ou não da medicina ao custo de 2 trilhões de dólares. Para além do fato do controle de pandemias não combinar com democracia e do problema de tudo que ainda não se sabe sobre o Covid-19 e seus sucessores, o verdadeiro terror dessa epidemia nos Estados Unidos é o preço da internação hospitalar num país onde os proventos da classe média espremida entre os monopólios chineses e os monopólios americanos se vão “achinesando” em velocidade alucinante. A pandemia é, portanto, um problema que, para alem dos seus intrincados componentes cientifico e aritmético, envolve a decisão de quebrar, pela primeira vez na história daquele país, a mais sacrossanta das “excepcionalidades” que o define como a democracia das democracias, que é a absoluta independência do povo em relação ao Estado. A 2a é o “tratamento da recessão” que está longe de ser só um produto da pandemia, é um produto desse “achinesamento” que não acaba com a chegada das vacinas. A 3a é “o clima”, que não é coisa que se possa resolver em casa. A 4a “o racismo”, que permanece no fundo das almas depois de acertadas as leis que é o que de fato pode ser “acertado” por meros atos de vontade nesse lado escuro da condição humana.

A hora é de curar o país. Baixar a temperatura. Deixarmos de demonizarmo-nos; de tratar os adversários políticos como inimigos”. 

São excelentes intenções e declará-las, no ponto a que as coisas chegaram, já não é pouca coisa. Mas a vida real não é preta nem branca, ela transcorre dentro dos milhares de tons de cinza. O problema são os “comos”. Afinal, quem demoniza quem?

Kamala Harris é “a 1a mulher, a 1a negra, a 1a indiana na vice-presidência da maior democracia do mundo”, que só por isso deixou de ser apedrejada como irremediavelmente irrecuperável como continuaria sendo se 3 milhões de votos nos mais de 140 milhões computados tivessem vindo com sinal trocado, e voltou automaticamente a ser “a maior democracia do mundo”…

Tem a sra. Harris alguma qualidade?

Joe Biden não se sentiu compelido a mencionar nenhuma. A unanimidade dos jornalistas e comentaristas das TVs e das universidades não se sentiu compelida a mencionar nenhuma. Todos acharam suficiente descrever “o invólucro”, o que não chega a enquadrar a gafe apenas como uma dessas “microagressões” que os bem pensantes vivem procurando com lente porque não chega a ser “sutil”…

E isso nos dá a pista para o problema real.

Não será policiando a linguagem e manipulando o resultado final aparente de processos complexos que se conseguirá alterar a realidade. E impor esse policiamento e essa maquiagem pela força não fará mais que provocar reação igual e contrária. O ruído que a insistência nessa imposição produz já é, hoje, muito maior que o problema que se pretende resolver com ela. Joe Biden teve 74 milhões de votos. Mas Donald Trump teve 71, quase 10 milhões a mais que em 2016, apesar de tudo nele que não o recomenda como pessoa. O Partido Democrata tornou-se um partido urbano, de elite, empurrado pela mídia e pela industria do entretenimento, mas que vive cada vez mais de fomentar o conflito em torno de temas acessórios. Distante da classe media que foi sua base, está pedindo socorro e engordou as fileiras do Partido Republicano no Congresso nesta eleição, a atitude sempre vociferante das correntes “liberal” (“de esquerda”) mais radicais arrasta também os republicanos para um comportamento cada vez mais reativo. 

E enquanto isso os problemas reais crescem. 

Tenho plena consciência da minha própria “deformação profissional”. Mas estou ha tempo bastante fora das redações e mergulhado na história da democracia, o império da palavra, para saber que o jornalismo, o veículo da palavra, CONCRETAMENTE É a baliza mais sólida da saúde da de nosso tempo, e que há muito mais de resposta à doença da imprensa do que propriamente à doença das sociedades no surgimento dos “trumps” do mundo.

Como qualquer poder da republica o 4º também requer “estadistas”, pairando acima das redações, vividos no balanceamento da vaidade pela responsabilidade e que não tenham medo da solidão para não se deixarem levar pela demagogia e cair nas muitas formas que o populismo barato assume em todas as camadas, mais ou menos “cultas”, das vitimas que faz. Um “poder moderador” cujas funções principais podem ser resumidas em definir que o público de cada jornal definitivamente não é o resto da corporação dos jornalistas e em zelar para que o público real não tenha apenas o que “quer” ouvir, como já tem nas redes sociais, mas principalmente o que “precisa” ouvir.

Uma imprensa que rompa o espírito de “direção editorial coletiva” que assola as redações dos jornais e TVs “de herdeiros” de todo o mundo que, abandonadas ao “Não penso, sou pensada”, torna-se corporativa, primeiro, e “soviética” e “cancelativa” depois que se instala hegemonicamente, num crescendo que já não se detém  de censurar discursos do próprio presidente dos Estados Unidos, falsear assumidamente os fatos e abraçar abertamente a campanha internacional em curso para criminalizar o senso comum e negar “lugar de fala” a quem lhe resistir, o que, na prática, significa sinalizar para o político, que vive de voto, que só esse tipo de discurso o livrará do linchamento moral e lhe renderá acesso aos eleitores. As redes sociais, aquele universo por definição sem regras, o que faz dele o território livre das paixões, só agravam essa distorção…

Manter isso como está só pode levar o mundo à guerra.

Também no jornalismo a volta da institucionalidade – definida aqui como a volta do império do fato e do código de ética do jornalismo democrático no seu tratamento – é absolutamente imprescindível.

Dias piores virão

6 de novembro de 2020 § 41 Comentários


Donald Trump, o que confessadamente “não sabe perder”, colocou-se frontalmente contra a democracia americana porque perdeu. Não tenho duvida nenhuma sobre qual dos dois irá para a lata de lixo da História…

“Judicialização”, entretanto, é uma expressão infeliz para designar as ações com que está entrando na justiça, pois vem carregada do sentido que se dá a ela no Brasil, de “tapetão”, de falseamento da regra. Lá, quando não foi diretamente escrita, a regra foi formalmente referendada, no voto, pelos próprios eleitores. Não pode ser mudada nem monocraticamente, vai sem dizer, nem mesmo por “colegiados”, a menos que o povo expressamente concorde com isso no voto, preto no branco. Na democracia o povo é quem faz a lei e o governo é quem, acima de todos os outros, é obrigado a obedece-la sob pena de destituição. Assim, ha que ter todo cuidado ao transpor o vocabulário da nossa selva política e institucional para a realidade americana.


Não é por caso que o voto no país que inventou os computadores e as linguagens de código continua sendo em papel e na língua que o povo inteiro fala. A primeira função de um sistema eleitoral democrático é não permitir que paire qualquer dúvida entre a vontade expressa por cada eleitor e o modo como ela será compreendida pelo sistema. Não ha que haver “traduções” no meio do caminho. Por isso o voto assume a forma de um contrato pessoal e intransferível do eleitor com o sistema, assinado pelo dono como um cheque, contado e arquivado na sequência para permanecer acessível a qualquer momento em que haja uma dúvida.

Esclarecida essa parte da questão, resta o gigantesco problema real. Pela primeira vez em sua história os Estados Unidos estão divididos como o resto mundo porque as suas famosas “excepcionalidades” nunca estiveram tão enfraquecidas. Mais especialmente que todas, está de todo esquecido o viés anti-monopolista e de garantia de um nível alto de competição em benefício do consumidor que a democracia americana adotou a partir do final do século 19 e que os manteve com empregos e salários em alta e isentos da tentação socialista ao longo de todo o século 20. 


O fim do sonho de vencer pelo trabalho sem ter de se vender às máfias politicas e a concentração desenfreada da riqueza de hoje decorrem da desastrosa decisão de enfrentar o desafio  do capitalismo de estado chinês com as mesmas armas dele em vez de impor-lhe as do capitalismo democrático. Deixar de taxar os produtos do desrespeito às leis de propriedade intelectual e da falta de dignidade no trabalho levou ao achinezamento dos salários em todo o Ocidente e à corrida, suicida para as democracias, das fusões e aquisições que concentraram pornograficamente a riqueza e reduziram em níveis dramáticos as condições de defesa de quem vive do trabalho.

Mas nem a imprensa que, no século 19, liderou a reforma que pôs eleitores e consumidores definitivamente no poder, nem qualquer dos dois candidatos atacam o problema pelo ângulo do aggiornamento da gloriosa tradição antitruste que fez da democracia uma realidade que ia muito além das palavras e enriqueceu os Estados Unidos em níveis até então inimagináveis. Biden e os democratas, por razões absolutamente alheias aos fatos, tratam a China como um competidor fair. E Trump reage com rugidos mais para explorar eleitoralmente os ódios e frustrações dos excluídos da globalização do que para atacar qualquer aspecto concreto do problema.


É esta, na minha modesta opinião, a razão pela qual o país permanece tão “dividido”. Nenhum dos dois acena à massa dos encurralados entre os monopólios chineses e os monopólios americanos com uma resposta aos seus problemas reais. Os dois tratam de manipular em direções opostas as paixões que os efeitos dessa competição desleal despertam, com o que o divisor de águas migra do cérebro para o coração e passa a girar em torno, literalmente, do sexo dos anjos.

Para culminar a crise americana, que é de identidade mais que tudo, aparece a crise da sua imprensa. A transmissão do discurso deletério de Donald Trump sobre as supostas fraudes na eleição foi interrompida a meio e substituída por diatribes biliosas de gente que invade os lares dos telespectadores exibindo a credencial de “jornalista” na NBC, na ABC, na CBS e na CNBC, as principais redes de televisão aberta do país. O episódio marca a derrubada da ultima barreira de cerimonia da chamada “grande imprensa” com o seu compromisso com os fatos. Depois das campanhas de “cancelamento” de indivíduos dentro e fora das redações e pedindo censura nas redes sociais, aí está o próximo passo lógico da escalada de violência autoritária que, como já se disse tantas vezes aqui no Vespeiro, não vai parar onde já chegou.


Trata-se de um círculo vicioso. É muito provável que uma maioria suficiente para derrotá-lo fragorosamente tenha considerado seriamente votar contra Trump em vários dos momentos, nos últimos 4 anos, em que ele disse merda bastante para jogar por terra toda a liturgia que fez da democracia americana um exemplo para o mundo. Mas ao ver a esquerda dos fuzilamentos morais sumários rugir o seu ódio não só contra Trump mas também contra quem quer que resista à sua campanha internacional pela criminalização do óbvio viu nisso um perigo maior que o histrionismo do presidente e voltou atras. Não consigo enxergar outra razão para explicar que seu eleitorado tenha crescido dos 62 milhões de 2016 para os quase 70 milhões de votos de 2020, senão como uma reação defensiva contra essa imprensa cega o bastante para não enxergar quem é o “dílmico” Joe Biden só porque existe um Donald Trump, e alinhar-se histericamente com um ou com outro lado dessas mediocridades a ponto de fraudar abertamente todas as leis mais básicas do jornalismo.

A imprensa é importante demais para a democracia para ficar nas mãos do jornalismo de hoje. Mas como está e, neste ambiente de domínio agora explicito da censura e da covardia nas empresas jornalísticas, nada indica que não vá permanecer, prevejo que dias piores virão para os Estados Unidos e consequentemente para o mundo.

Os deformados somos nós

5 de novembro de 2020 § 17 Comentários

Tem sido uma aula de democracia. Ainda bem que desta vez demorou o bastante para nos dar a chance de olhar o processo por dentro, começar a fazer perguntas e obrigar a imprensa nacional a tentar responde-las. É pena que, como sempre, a maior parte dos alunos brasileiros “mate aula” e perca esta preciosa oportunidade de aprender quanto nos distancia do sistema de governo do governo pelo povo cujo santo nome é tão insistentemente levantado em vão neste nosso vale de lágrimas.

“É complicada a eleição americana”? 

Nada! 

Os deformados somos nós, afirmação de que dou como prova o argumento indiscutível do resultado colhido pelas sociedades brasileira e americana. Eles têm quase meia dúzia de empresas que valem, cada uma, o PIB inteiro do favelão nacional, sendo tudo o mais que há, para alem de cada uma delas, a abundância  que nos é surrupiada porque, lá sim, complicada é a vida do político, obrigado a obedecer a lei como a dita o cidadão para favorecer quem vive do trabalho em vez do contrário como ocorre aqui. 

O presidente deles representa a “União” dos estados que são uniões de cidades, por sua vez discutidas e pactuadas uniões de cidadãos independentes. Logo é eleito pelos estados e não pelo número total de cidadãos de uma “União” que previamente nunca existira. 

No Brasil os presidentes são os representantes absolutos de todos os súditos porque são um arremedo de presidente democrático assumido pelo monarca absolutista forçado a ceder um pedacinho da sua soberania “hereditária”, “divina” ou o que seja ao povo, e não o representante de um povo que cedeu o menor pedaço possível da sua sagrada soberania individual “inata” a um arremedo de monarca com os poderes os mais esvaziados possíveis fronteiras nacionais adentro, concedidos em regime precário apenas para que o Novo Mudo pudesse continuar a relacionar-se com o Velho, que seguia escravizado a monarquias absolutistas.

São 50 estados absolutamente autônomos. Como se fossem – e de fato são – 50 países independentes com todos os equipamentos institucionais de um país independente: câmara, senado, suprema corte, tudo. Em cada um corre uma eleição para eleger Biden ou Trump, segundo suas próprias leis eleitorais, respeitada a regra de maioria simples que todos concordaram em acatar na constituição federal negociada e referendada por cada qual. E então, cada estado deposita o resultado da “sua eleição” na “urna” do Presidente da União, que é ponderado pelo peso correspondente à fatia da sua população no total da população da União.

Lá, eleger-se “é complicado” para que viver e trabalhar possa ser simples para o povo que detém a exclusividade de admitir candidaturas e ditar leis, enquanto na ditadura disfarçada brasileira eleger-se “é simples” para que viver e trabalhar possa continuar sendo impunemente infernal como tem sido, menos para a privilegiatura que detém a exclusividade de admitir candidaturas e ditar leis.

Tudo vem de onde cada uma de nossas sociedades deita suas raízes. A deles nos proprietários dos 20 hectares de terra doados a cada colono que ousasse “fazer a América” – e no que cada um conseguiu fazer com o seu suor a partir desse ponto de partida comum a todos. A nossa nos súditos do distante fazendão que o rei de Portugal, seu proprietário único, distribuiu conosco dentro a 12 de seus diletos amigos que, sem jamais nos perguntar o que achávamos, se vêm apropriando e dividindo com quem com eles se acumplicia para não sairem do poder o resultado do suor que investimos nela. 

Eles organizaram-se em sociedade negociando, pedacinho por pedacinho, a cessão da menor parcela possível da sua sacrossanta liberdade individual aos seus representantes eleitos, na cidade primeiro, no estado depois, na União por último e hesitantemente. Nós costuramos a nossa do jeito que deu, tomando os pedacinhos das quase liberdades que temos, cedidas a conta gotas e na undécima hora mais por pressão do mundo que por rebeldia nossa pelo dono hereditário delas todas apenas para manter as aparências e não ser expulso do mundo civilizado.

Nossa servidão tornou-se “normal” por decurso de prazo. O Brasil começa com a soberania absoluta do monarca que, à força, vai cedendo pedacinhos dela ao povo. A deles com a soberania absoluta do povo que, consensualmente, vai cedendo pedacinhos dela aos reizinhos de coleira que são os Presidentes da Republica eleitos, único ponto de semelhança entre o sistema deles e o nosso. A democracia instalada pela Revolução Americana começa mesmo dos estados para baixo onde a soberania do povo segue sendo absoluta e os mandatos dos seus representantes eleitos são essencialmente precários, o voto é o distrital puro expresso num documento pessoal e intransferível escrito na língua que o povo todo fala e assinado manualmente por cada eleitor como um cheque “sustável” a qualquer momento pelo instrumento do recall, e que permanece arquivado e acessível para sempre, caso haja qualquer duvida a ser esclarecida, onde cabe ao cidadão escrever diretamente ou referendar expressamente cada uma das leis que admite acatar. Mas vá você procurar o seu voto depois que aperta aquele botão e ouve aquela campainha marota. Precária, aqui, é a regra do jogo pois tudo é confiado aos donos do Centrão (a 2a instância máxima da privilegiatura) ou, menos ainda, aos 11 monocratas do STF (a 1a) que “resolvem” facinho, facinho, o que quer que seja em cima da perna, sem perguntar a ninguém, como sempre fez el-rei.

A liberdade nos parece complicada simplesmente porque não estamos familiarizados com ela. 

É tudo uma herança injusta pela qual não temos responsabilidade individual? Sem dúvida. Mas só até certo ponto. Pois a liberdade é uma tecnologia que, desde que foi estruturada como tal – e os americanos foram os primeiros a fazê-lo já lá vão 233 anos – nada impede qualquer um de adotar.

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