2015 é o ano do tamanduá
23 de janeiro de 2014 § 2 Comentários
Se a minoria consciente já o sabia, agora ha uma medição concreta. Viramos o espigão da subida dos salários e iniciamos a descida do morro, sempre por aquele tradicional método da inércia brasileira: o que os governos não fazem o mundo acaba fazendo por eles.
Pela primeira vez desde 2008 o peso dos salários em dólar caiu para a indústria brasileira entre janeiro e novembro de 2013. Nada que salve uma indústria que além da monumental carga de impostos e das condições dramáticas da qualidade da mão de obra (educação) e da infraestrutura, teve esse custo aumentado em 54% no acumulado entre 2009 e 2012. A redução do ano passado, de 3,8% no custo do trabalho por unidade produzida, decorre dos primeiros sinais da disparada do dólar que vem vindo por aí e só vai assumir a velocidade real depois da eleição deste ano.
Nominalmente, em reais, os trouxas continuam tendo a impressão de que o salário segue subindo mais que a produtividade. Esse tem sido o truque mediante o qual o PT vem sustentando a sua popularidade a custa da implosão da economia nacional que, agora, vai chegando no osso com as contas “fechando” mediante as mágicas do dr. Mantega enquanto as chinas da vida nos vão comendo pelo pé.
O truque é duplamente venenoso e o que o PT comemora sempre, com o dedo na cara do mundo como ainda agora em Davos, é a tomada progressiva de toda a economia por esse veneno sistêmico.
Funciona assim: aumenta-se o salário acima da produtividade na indústria. Esta, que é a base concreta de todo o sistema de produção de riqueza nova, começa a minguar primeiro. Mas como ha uma inundação de dinheiro novo no sistema, ainda que falso, não representando ganho de produção, e o pessoal começa a gastar mais, o setor de serviços passa a vender muito mais, ou seja, incha e absorve o desemprego da indústria.
O setor de serviços tem, então, de contratar mais gente do que a indústria está demitindo porque ainda não inventaram um jeito de fazer manicures, hot-dogs, restaurantes e cabeleireiros lá da China competir com os brasileiros como os produtos da sua indústria competem. Assim, a festa dos serviços é emprego na veia e os salários sobem mais ainda também para a indústria porque os dois setores disputam os mesmos empregados desqualificados.
É a pá de cal…
É por isso que os empregos na indústria vêm caindo ha 30 meses seguidos, junto com a produção, e as importações e o consumo disparando, assim como as compras diretas do exterior por brasileiros nestes tempos de internet e viagens facilitadas. Lá na base o que sobe, portanto, é o consumo em dólar.
A conta começa a chegar com a disparada do dólar (que começa a faltar) pra restabelecer a verdade daquele jeito que quem é maior de 40 anos já viu 20 vezes.
Acaba tudo como a Venezuela e a Argentina, os paradigmas bolivarianos que o PT tem como melhores amigos e “parceiros comerciais“, que ontem desvalorizou o peso em 12% e anunciou que as compras na internet por seus nacionais estão proibidas. Cada argentino só poderá comprar duas vezes por ano na internet, 25 dólares de cada vez, a partir de agora. Outras imporações como as que fazia do Brasil então,nem pensar.
Ponha-se por cima disso o que vem sendo feito com outros setores essenciais pra comprar voto. Os de energia e combustíveis, por exemplo. Não foram apenas as elétricas e a Petrobras que o PT quebrou com sua genial invenção de baixar o preço da luz por decreto, inundar o país de automóveis baratos endividando o povo para enchê-lo de lata em vez de educação e infraestrutura, e depois segurar na marra o preço da gasolina. Quebrou também a indústria sucro-alcoleira, uma das maiores cadeias de produção do país (máquinas, adubos, usinas, transporte, exportação, etc.).
Ontem foi anunciado que o Brasil está importando etanol dos Estados Unidos, acredite se quiser! O primeiro navio descarregou 100 milhões de litros no porto de Itaqui, no Maranhão. Como o Nordeste ia ficar sem gasolina em ano de eleição porque, quebradas as usinas de álcool, da região a Petrobras não consegue nem processar nem distribuir o petróleo que importa por lá, dona Dilma, depois de manter o álcool nacional abaixo do preço de custo (porque o dele é função do preço da gasolina), desonerou o etanol de milho importado dos EUA do PIS e do Cofins, o que é mais um ralo nas contas públicas.
É o tiro na nuca. Do jeito que vai, não vai sobrar nada.
A produção e as condições brasileiras de produzir álcool eram tão boas ha 10 anos que, em 2003 o Brasil lançou os carros flex. Em cinco anos o consumo de álcool já tinha ultrapassado o de gasolina.
Na média, um hectare de cana produz 7200 litros de álcool enquanto um de milho americano produz 3100 litros. De troco, as emissões de CO2 de um litro de álcool somam 400 gramas enquanto o de gasolina gera 2200 gramas. Mas mesmo assim, hoje os carros flex enchem seus tanques com gasolina. É “mais barato” (até o fim da eleição).
Resultado: de 385 usinas de cana nacionais, 100 estão endividadas até o cabo, praticamente paralisadas ou fecharam as portas. E dezenas de outros projetos que estavam prontos para decolar nem saíram do papel.
Mas a popularidade de dona Dilma se salvou, que é o que interessa.
É possível que dona Dilma consiga marcar seu gol. Mas quem vai correr pro abraço, que em 2015 vai ser dado no povo, vai ser mesmo o tamanduá. Será o abraço sufocante do dólar e da inflação nas alturas que vão nos contar, do pior jeito que ha, de que tamanho é essa mentira chamada PT.

Por uma Agência Internacional de Classificação de Democracia
11 de junho de 2013 § 1 comentário
A notícia de que a Standard & Poor colocou a nota de risco do Brasil em perspectiva negativa no final da semana passada apontando os números falseados da inflação e do déficit nas contas públicas como justificativa lembrou-me a ideia que sempre me passa pela cabeça nessas ocasiões.
Reparem como isso ajudou a mudar o discurso e o comportamento do governo que foi obrigado a, pelo menos formalmente, reforçar o papel do Banco Central e conter o voluntarismo de dona Dilma.
É pena que só quem tem dinheiro no mundo continue se prevenindo dos comportamentos que possam vir a ameaçá-los e que só esse tipo de denuncia (que é do que se trata) renda tanta publicidade tão bem sincronizada por toda a imprensa nacional e internacional.
Faz muito mais falta a este planeta uma Agência Internacional de Classificação de Democracia.
Pense bem.
Até os mais notórios bandidos do mundo de hoje tratam de fingir-se de democráticos ou de disfarçar as violências institucionais que perpetram com algum tipo de verniz democrático. Tudo isso ficou mais fácil com as modernas comunicações e a internet que tende a empurrar incoercivelmente o processo político para expedientes plebiscitários.
O lado bom é que isso é uma prova de que a democracia hoje é um valor universal e uma exigência de todos os povos. O que a maioria desses povos não sabe é definir com mais precisão o que é ou o que não é um comportamento ou uma instituição democráticos.
Tendo partido de diferentes graus de servidão e avançado alguma coisa na direção de aberturas democratizantes, não chega a ficar claro para eles a que foi, exatamente, que chegaram, e o que falta conquistar para que os regimes sob os quais vivem passem a merecer de fato o nome de democracia.
A maior dificuldade dos aspirantes a democracias é, enfim, o desconhecimento do que seja ela. E como há uma tendência natural em quem nunca teve nada de ficar excessivamente agradecido por muito pouco, esses neófitos tornam-se vítimas fáceis para os lobos populistas e para as feras neo-autoritárias.
Sem ter uma ideia clara sobre a que têm direito de aspirar, podem levar séculos se tiverem de descobrir isso sozinhos em ambientes contaminados por sólidas paredes de ignorância e censura à informação, seja ela a diretamente imposta pelo governante autoritário, seja a censura granmscianamente infiltrada nos meios de difusão das ideias e da cultura, a escola em especial, de modo a impor subliminarmente um pensamento unitário essencialmente antidemocrático.
É este, por exemplo, o caso do Brasil.
Se tais avaliações tivessem o mesmo destaque planetário que recebem os alertas sobre expedientes de governantes que ameaçam os investimentos estrangeiros nos países avaliados pelas agências de risco de hoje e rendessem o mesmo tipo de sanção econômica (dinheiro mais caro, investimentos minguantes, etc.), o avanço da democracia no mundo mudaria de velocidade ao concentrar todas as atenções naquilo que realmente interessa.
O Brasil, por exemplo, renderia manchetes como: “Brasil é rebaixado pela ausência do instituto básico do um homem-um voto”, ou “Foros especiais configuram desigualdade perante a lei e desmascaram democracia brasileira”, ou ainda, “Impossibilidade de ligar representante a representados põe Brasil fora do clube das democracias”. A lista seria enorme…
E se isso nos obrigasse a discutir essas questões essenciais em vez das quimeras da governabilidade e das nuances ideológicas dos atores da comédia brasiliense que tanto apaixonam os jornalistas da capital da República, certamente avançaríamos muito.
Todos teriam a ganhar, aliás, mesmo porque, afinal de contas, excluídas as novidades inventadas pelos tubarões da ponta tecnicamente mais avançada do capitalismo como as que, paridas em Wall Street, enganaram as agências de risco e mergulharam o mundo numa crise, o que essas agências medem são exatamente as violências contra a democracia que permitem a governantes de países institucionalmente imaturos por a economia a serviço dos seus delírios de poder em vez de colocá-la a serviço do bem público, ameaçando assim também os investimentos dos estrangeiros que se arriscaram a apostar neles. Caberia portanto, denunciar o que propicia tais abusos, antes de esperar para gritar só depois deles acontecerem.
Dilma em seu labirinto
5 de junho de 2013 § 2 Comentários
Algo parece ter começado a mudar lá no Planalto Central. Esperemos que se confirme. Pois onde presidente pode tudo empreendedor não pode nada e agora, mais que nunca, é dos lá de fora, gente pouco afeita a obedecer ordens, que dependemos.
Até aqui, dona Dilma tem feito e acontecido. E esse, essencialmente, é o problema.
Como tem “a certeza na frente e a História na mão”, dorme todas as noites convencida de que “esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Estando os seus pressupostos por definição corretos, a não ser para quem por mera antipatia ou falta de patriotismo “torce contra”, não ha porque tratar de alterar o conjunto das causas.
Assim sua excelência acorda todos os dias para retomar a sua tourada contra a rebeldia dos fatos que insistem em não se enquadrar às suas teorias, de modo a colocá-los no seu devido lugar.
Vem daí essa sua marcação homem a homem com a coluna de mercúrio do termômetro, a “matemática criativa” que ela impõe à sua corte de “simsenhoras” e esse seu olímpico descaso para com o saneamento das condições insalubres e o reforço do sistema imunológico do organismo que suas certezas puseram com febre.
Ingrata tarefa! É tapar um buraco e mais dois se abrem…
Acrescente-se a isso a pressa imposta pela aproximação da eleição e o resultado não poderia ser outro senão a trajetória cada vez mais errática em que ela nos tem mantido.
E se tem uma coisa de que investidor tem horror é de trajetórias erráticas.
Nos últimos dias alguma coisa parece ter finalmente abalado as certezas de dona Dilma. Uma pesquisa eleitoral mais que só o pibinho de 0,6%, eu arriscaria dizer.
Pois é, dona Dilma é louca mas não rasga dinheiro…
Seja como for, o dr. Tombini, do Banco Central, que andava numa mudês humilhada desde agosto de 2011 quando a patrôa houve por bem decretar que os juros deveriam baixar na velocidade das suas conveniências, não porque fosse essa a rota tecnicamente recomendável mas porque ela nutre um especial desprezo por pilotos brevetados, foi autorizado a retomar o manche.
De cara ele tirou do alarme de estol dois dos três instrumentos que vinham mantendo a economia brasileira em vôo de brigadeiro desde que Fernando Henrique Cardoso a resgatou do mergulho em parafuso para o qual a tinham empurrado os hoje sócios majoritários da “governabilidade” petista.
Os juros voltaram a ser usados com o claro objetivo de reduzir a inflação e o câmbio voltou a flutuar.
Ainda mais importante que o fato, porém, foi a mudança no discurso com que ele foi anunciado.
O dr. Tombini fez questão de afirmar em público exatamente o contrário do que vinha afirmando dona Dilma, e de esclarecer que agia assim “para recuperar a credibilidade da economia brasileira”. Como, mais que nunca antes na história deste país, manda quem pode e obedece quem tem juízo, conclui-se que passou a prevalecer dentro do governo a consciência de que a crise é sobretudo de confiança. E isso faz toda a diferença.
É que agora que o estoque de anabolizante do consumo acabou e é de investimento privado que teremos de viver, dona Dilma terá de aprender a parar de mandar para tentar começar a seduzir e convencer. E esse negócio de dizer que piloto não precisa de brevê e que seguir as leis da aerodinâmica é uma mera questão de preferência não convence ninguém em pleno domínio de suas faculdades mentais a subir no nosso avião.
Melhor devolver a pilotagem ao piloto.
Só que já se sabe. Confiança perde-se em dois palitos. Já para ganhar…
Primeiro será preciso conseguir que dona Dilma resista aos seus hormônios mesmo depois que a inflação der a primeira abaixadinha e siga permitindo que só quem tem brevê pilote o avião.
Depois porque o terceiro elemento, que é voltar a gerar superavits primários nas contas públicas, é coisa que está fora do alcance do Banco Central.
Com a industria sufocada pela festa dos salários sem a contrapartida da produtividade, a educação em petição de miséria e o comércio internacional jogado às traças por um Itamarati que só fez comprar votos do lunpen internacional para tomar de assalto os organismos multinacionais do século 20, não se pode contar muito com exportações para equilibrar as contas. O Brasil está comercialmente confinado ao finado Mercosul.
O investimento estrangeiro é, portanto, imprescindível.
Li por aí esses dias que o governo simplesmente “decidiu fazer do investimento o motor da expansão econômica” e que basta, para conseguí-lo, que ele “vença o seu preconceito contra o lucro e melhore as condições de rentabilidade dos projetos de infraestrutura” que quer vender ao capital estrangeiro.
Não é tão fácil assim.
Ha muito tempo que aversão ao lucro é um preconceito superado por nove entre dez petistas, sendo o corte maior que 100% entre aqueles que detêm cargos públicos.
A verdade é que o governo melhorou sucessivamente as “condições de rentabilidade” desses projetos até muito além do que seria razoável num mundo de juros negativos.
Além de financiamentos pra lá de generosos, ofereceu até garantias contra eventuais prejuízos, o que é absolutamente inédito.
As vantagens oferecidas já são de tal monta que é impossível afirmar com segurança se o objetivo principal é reduzir o deficit competitivo por falta de infraestrutura ou fazer o dinheiro entrar de qualquer jeito para apresentar contas melhores antes da eleição legando ao país outra fatura impagável para o futuro.

Mas nem assim, ou talvez por isso mesmo, algum aventureiro se convenceu a lançar mão dessas concessões porque, como ficou demonstrado acima, a questão é de credibilidade e não de rentabilidade.
Dona Dilma, na sua estranha perversão, tanto mais ama a Argentina quanto mais ela nos chuta o estômago, mas o resto do mundo trata com mais respeito o dinheiro que sua para ganhar.
Mas ainda que venham os portos, as estradas e os aeroportos, o que de saída implica proibir-se de fazer caridade com dinheiro alheio como aconteceu com as elétricas, voltar a ter superavit fiscal vai custar, em ano de eleição, cortar regalias da companheirada, fechar as burras do BNDES aos financiadores cativos de campanhas, parar com as isenções fiscais que não possam ser vistas como democráticas e sistêmicas, manter a vazão das “bolsas” diversas pelo menos na medida em que estão hoje e deixar pra lá as mágicas do gênero dessas sem as quais o termômetro da inflação estaria marcando os 8% ao ano que de fato há.
Ah, e manter o aperto dos juros sobre uma população que foi convencida a se endividar até à raiz dos cabelos e o dolar flutuando numa conjuntura de apreciação internacional da moeda americana até que o mundo volte a acreditar que é o Banco Central quem manda e que é no respeito à realidade que vale para o resto planeta que voltamos a apostar.



















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