O hímen complacente
20 de setembro de 2011 § 6 Comentários
Zero de surpresa na decisão da sexta turma do Superior Tribunal de Justiça de anular todas as provas colhidas durante quatro anos de trabalho pela Policia Federal contra membros da máfia do clã Sarney na Operação Boi Barrica, a mesma cuja impunidade esse mesmo tribunal tentou garantir antes impondo mais de dois anos de censura ao jornal O Estado de S. Paulo.
Zero de surpresa, igualmente, que diante da nova jurisprudência passada, uma sucia de advogados de porta de Congresso (porque jaz num passado esquecido os tempos em que porta de cadeia era onde os mais notórios picaretas da profissão colhiam os seus caraminguás mais fáceis) corram para esse lídimo templo da farsa judicial brasileira pedindo o mesmo benefício para as grandes estrelas do permanente reality show “Como estou roubando o Brasil” que as nossas rádios e televisões exibem em sucessivas “temporadas” de impunidade e sucesso previamente garantidos.
Já entraram na fila, por enquanto, uma coleção de “excelências”, entre as quais figuram o ex-governador Jose Roberto Arruda, do Distrito Federal, que estrelou o brilhante episódio dos maços de dinheiro sendo sofregamente enfiados nas meias e cuecas; o ex-governador Pedro Paulo Dias, do Amapá de Sarney; o ex-secretário do Ministério do Turismo de Sarney, Frederico Silva Castro, aquele “Fred” gravado explicando a um “empresário” como criar uma ONG falsa para nos roubar em que “o importante é a fachada”, e ainda o ex-governador do Maranhão de Sarney, Jose Reinaldo Tavares, flagrado na Operação Navalha.
Alegam os “meritíssimos” juízes do nosso tribunal superior que as autorizações para essas escutas e filmagens, devidamente requeridas pela Polícia Federal e deferidas pelos juízes de primeira instância responsáveis por concedê-las, estão todas “viciadas”, cada uma pela sua razão específica que as ha para todos os gostos já manifestados e ainda por manifestar, dando oficialmente como nem vistos nem ouvidos todos os crimes que o Brasil inteiro viu e ouviu ao vivo e em cores esses meliantes perpetrando.
Alegam esses patriotas que essas suas grosseiras manipulações da realidade não vêm, como vêm, em benefício exclusivo de ladrões pegos em flagrante mas são, antes, atos meritórios de democratas autênticos para proteger a higidez teórica da democracia brasileira e o nosso direito à liberdade e à defesa plenas.
E porque zero de surpresa com toda essa mixórdia?
Porque esta é a regra.
Porque esta tem sido a regra desde sempre. Porque este é o fundamento mole, flexível e inquebrável; o hímen complacente do “corporativismo” que os senhores feudais portugueses inventaram para, transferindo a guarda do poder de distribuir privilégios ao Judiciário, manter para sempre “virgens” os seus feudos desde que a primeira onda democrática que varreu o absolutismo monárquico da Europa chegou, já feita “marolinha”, à ocidental praia lusitana.
De lá até hoje essa empulhação nos tem sido “cordialmente” imposta.
Ao contrário do que parece à primeira vista, ela não vale só para os Sarney. São “democráticos” e “republicanos” os nossos juízes. Eles não negam seus préstimos a ninguém que possa pagar por eles, sem fazer discriminações de qualquer espécie.
Pois quem é que não sabe que mais de 80% de todos os casos levados a julgamento neste país – tratem da ignomínia que for – acabam sendo arquivados por “vício processual”?
Quem é que não sabe, neste país dos três pês, em que só pobres, pretos e putas estão nas cadeias, que o excesso de formalismo que eles invocam como mecanismos de “garantia da democracia” e dos nossos “direitos individuais” não são outra coisa que a gazua com que se garantem o poder de decidir o processo que for segundo o agrado que se lhes faça ao bolso, sejam quais forem os fatos envolvidos e as provas apresentadas?

Quem é que não sabe neste país que as leis dúbias e incontáveis, a ausência de transparência, a palavrosidade desenfreada e o formalismo sem sentido que transformam qualquer processo judicial numa algaravia ilegível que requer tradutor juramentado para ser “interpretada” mas não pode nunca chegar a ser compreendida pelas partes em litigio estão aí desde sempre para que a Justiça não se possa impor com o recurso à verdade e ao bom senso e tenha sempre de ser outorgada segundo o alvitre dos que montaram e zelam pela complexidade desse labirinto, acintosa de tão explícita nas suas intenções e propósitos?
Quem é que não sabe que num país onde há “excelências” de um lado e zés do outro; “meritíssimos” lá em cima e manés lá embaixo não pode haver democracia?
Não. O Brasil não tem cura antes de curar o seu sistema Judiciário. É de lá que tudo isso emana.
Absolvida. Certíssimo! Os brasileiros merecem
30 de agosto de 2011 § 2 Comentários
Por 265 votos contra (166 a favor) a Câmara dos Deputados recusou a prova acima como suficiente para cassar o mandato da deputada Jaqueline Roriz por quebra de decoro parlamentar.
Acompanho, na Globonews, os jornalistas indignados dizendo que a Câmara não se respeita, etc.
Papo furado. A Câmara não respeita os brasileiros. E tem toda a razão. A mesma edição do jornal da TV mostrou mais uma vez a heróica rebelião dos sírios, enfrentando a fuzilaria do exército do seu ditador ha cinco meses sem abaixar a cabeça, enquanto aqui todo mundo só pensa em pular da nau dos explorados para a nau dos exploradores.
O brasileiro merece o Congresso que tem.
Tem de pegar o primeiro da fila
13 de agosto de 2011 § Deixe um comentário
Não sou dos que aprova nem a violência judiciária nem a violência policial caso a caso, conforme quem a sofre. E isso porque aprendi, em quase 40 anos de observação do que rola no mundo nesse departamento, que a coisa mais facil que ha é abrir a porta do inferno e a mais dificil, depois, é cercar a diabada toda, empurra-la de volta la pra baixo e trancar a porta de novo.
Mas que da vontade, dá!
Tanto mais quando se trata dessa matilha que a gente ouve nas gravações da polícia. Porque, afinal, proteger a identidade deles e expor a dos assassinos que só matam um por vez, se essa gente que rouba comida de flagelado, hospital de doente pobre e educação de criança mata a granel, devagarzinho, com requintes de sadismo e indiscutivel dolo?
Porque é melhor que quem merece tenha um pouco de menos para que quem não merece não acabe tendo demais. Paciência que seguro morreu de velho…
Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A Dilma não tem nada que fazer mesuras a essa corja, nem que sêo Lula mandar.
E, alem do mais, não é aí, no momento da ação policial, que está o problema. A polícia brasileira, quando quer é tão eficiente quanto qualquer outra nesses tempos de portas e janelas abertas onde cada passo que se dá no mundo virtual – e é impossivel viver hoje em dia sem da-los o tempo todo – é filmado, fotografado e deixa rastros indeleveis visiveis até la de Jupiter.
Prende-los, como temos visto, é a coisa mais facil do mundo. Tão facil que isso ja virou ate instrumento de marketing eleitoral. Chega a véspera de eleição e o primeiro que grita “Prendam-se os ladrões dos outros” é justamente o bandalho do Lula…
Dificil, neste nosso paizinho, alem de aguentar os cínicos, é manter essa gente na prisão. É garantir que o corrupto pego não possa continuar com a exibição corrosivamente subversiva do seu sucesso, que destrói a moral da Nação e nos condena a um futuro cada vez pior.
E quanto a isso, eu não me canso de repetir: não adianta a gente se perder na análise de legislações que foram deliberadamente feitas para não fazer sentido, ou no estudo de laudos e processos passados vazados numa linguagem especialmente criada para não poder ser compreendida. Tudo isso que está aí e que chamam de sistema juridico brasileiro são criações artificiais que constituem a ecologia da impunidade.
Essa predação sistemática que tem mantido o país entre a prostração moral e os espasmos de raiva mal dirigida é fruto da impunidade que o recondito habitat criado no nosso sistema jurídico abriga. Uma impunidade tão sistematica que ja querem transforma-la em mais um “direito adquirido” a ser reclamado com ares de indignação por quem se sente, de repente, tolhido de seguir sangrando a Nação sem ser incomodado, como de costume.
A impunidade, especialmente num sistema que se baseia em nomeações, é uma cadeia fortemente apoiada na hierarquia. Se o primeiro da fila tiver impunidade garantida, todos os demais a terão também.
E vice-versa: basta acabar com a impunidade do primeiro da fila que acaba a de todos os demais.
Tornando-se o chefão imputavel pelos crimes de todos os seus nomeados “de confiança”, o problema de enquadrar e manter sob vigilância essa tigrada passa a ser dele. E ele conseguirá faze-lo com a mesma competência com que hoje manda fazer o contrário à rede de ladrões para nos roubar nomeados.
Se formos ainda mais longe, como nas democracias mais avançadas, e acabarmos com todas os foros especiais que eles se auto outorgaram, onde só os próprios ladrões podem julgar os ladrões e só os relapsos podem decidir o destino dos relapsos; se plantarmos, afinal, o primeiro tijolo da democracia que é ter uma só lei e uma só Justiça à qual todos estão submetidos; se pudermos demiti-los a qualquer hora e por qualquer motivo – por entrega insuficiente de serviço, como acontece com você e comigo – então muda tudo. Eles passarão a trabalhar a nosso favor pela mesma razão que nós trabalhamos a favor das empresas que nos pagam o salário: porque a alternativa é a rua.
O resto é conversa mole pra enganar trouxa.
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Dilma na encruzilhada: ou eles ou nós
12 de agosto de 2011 § Deixe um comentário
A semana foi complicada para mim e estou devendo uma sequencia sobre os novos desenvolvimentos da “limpeza” da Dilma.
Escrevo em resposta aos comentários de Varlice ao artigo “Você nos abre os seus braços e a gente faz um país“.
Vai sem as costumeiras ilustrações em função das limitações de blogar a distância via iPad.
A paulada no Turismo, tudo indica, ja é fruto de “fogo amigo” (do PT contra a Dilma). Ate aqui ela vinha reagindo a denuncias da imprensa o que dava a ela uma boa “cobertura”, tipo “Não fui eu que comecei, mas não posso deixar de tomar uma atitude diante do que foi revelado“.
Desta vez o tiro veio de um órgão do governo, a PF, que ja nos tempos do Lula agiu por um tempo com autonomia ate que ele a enquadrasse e instrumentalizasse como tudo o mais. A PF passou, então, a ser mais uma das ferramentas para o projeto de poder dele, prendendo exclusivamente “os ladrões dos outros” e só nos momentos que lhe convinha.
Agora mudou de novo. A PF diz que agiu a mando do TCU e do Ministério Publico e, de fato, corria ha tempos uma investigação da máfia do Turismo nesses dois órgãos. Mas tudo indica que a coisa foi feita na hora que foi feita pra jogar a Dilma na fogueira. Essa história de que o José Eduardo Cardozo (ministro da Justiça) não sabia de nada e a polícia caiu de pau em cima da alta ladroagem peemedebista bem na hora em que o partido estava mais ouriçado em função do que vinha se passando nas vizinhanças por mero acaso não me convence.
Nesses casos, acredito na máxima do Salazar, o velho ditador de Portugal, que dizia que “Em política aquilo que parece, é“.
Mesmo assim, como as provas estão gravadas e são as que tem sido mostradas na TV, ela ainda tem como reagir diante de tanto deboche, mesmo com toda a falta de sex appeal e dificuldade de falar ao eleitorado de forma apelativa que caracteriza a presidente. E mesmo que venha a ser encurralada, pode haver a revelacão de qualidades inesperadas em Dilma quanto a esse quesito, como acontece com qualquer fera a quem não se deixa outra saida.
Desde ontem, porem, a coisa tomou um rumo ainda mais explosivo.
Com o foco se fixando cada vez mais nessa deputada do Amapá a briga sobe para o nivel dos chefões: essa mulher e o Sarney são unha e carne; indistinguiveis e indissociaveis. De modo que a coisa tende a ficar mesmo preta.
Compreendo perfeitamente a hesitação da Dilma. Lidar com esse tipo de profissional é pra tirar o sono de qualquer um e é preciso andar com muito, mas muito cuidado mesmo naquele terreno pantanoso de Brasília.
Mesmo assim eu ainda pago pra ver como é que esses caras vão reivindicar o direito de roubar em paz e se ela vai engolir isso.
É o que o Lula esta mandando que ela faça.
Mas tudo vai depender da imprensa. Se ela apoiar firmemente a “limpeza”; se seguir cumprindo o seu papel e revelando os detalhes sórdidos da rapinagem dessa horda; se não recuar de furar todos os novos tumores que estão à vista, pedindo pra ser furados, a Dilma pode retomar o controle da situação e voltar a encurralar os bandidos como estava acontecendo e como seria muito melhor para o Brasil que voltasse a acontecer.
Agora é ou eles ou nós. A economia brasileira ficou pequena para tanto ladrão.
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