Sobre desejar a mulher do próximo

14 de setembro de 2011 § 3 Comentários

Não basta não tomar a mulher do próximo; é preciso não desejar a mulher do próximo…

Dizia Octavio Paz que nós, católicos, vivemos confortavelmente demais dentro da mentira.

É a pura verdade.

Mas este não é um atributo inato. Não são as pessoas naturalmente inclinadas para a mentira que procuram o catolicismo. É esse vezo diabólico do catolicismo de perquirir não apenas as suas palavras e atos, mas também e principalmente os seus pensamentos que empurra cada um dos nascidos nessa fé a se exercitar na mentira como um recurso essencial de sobrevivência.

O resto é puro Darwin…

Se hoje o mau pensamento pode lhe render a ameaça quimérica de uns poucos séculos a mais no purgatório ou no máximo da eternidade no inferno, até ha pouco tempo era ele que – tendo ou não atravessado alguma vez a sua mente, pouco importa – deixava a sua carne viva sempre à mercê dos muito concretos alicates e ferros em brasa do Inquisidor e permanentemente ameaçado, no extremo, de arder até aos ossos numa fogueira em praça publica.

Pois provar o que você concretamente fez ou deixou de fazer e até o que você disse ou deixou de dizer é fácil, mas provar o que você pensou ou deixou de pensar lá dentro da solidão do seu cérebro é absolutamente impossível.

Uma coisa resolve-se com testemunhos e álibis que se sobrepõem e submetem a vontade de quem julga. Isso estabelece a verdade como instrumento privilegiado de acionamento das instituições e a impessoalidade como seu fundamento básico. E, em ultima instância, acaba por traduzir-se na segurança jurídica, na inviolabilidade do indivíduo e na democracia.

A outra só pode ser dirimida pela tortura e pela arbitrariedade de quem julga, o que sanciona moralmente a mentira como recurso de sobrevivência e deságua no casuísmo, no privilégio e na insegurança jurídica que alimentam o conchavo e a dissimulação.

Um ambiente engendra o desenvolvimento da ciência. No outro é a ideologia que prospera.

Fundar uma sociedade num documento básico que tem 250 artigos nesta sua oitava versão em 189 anos (media de 23 anos cada uma), emendados 67 vezes e vazados numa linguagem que o seu destinatário comum não entende, e atirar por cima de tal “constituição” uma dúzia de códigos com milhares de normas cada um diariamente reescritas, emendadas e reinterpretadas por meia dúzia de tribunais diferentes tem exatamente o mesmo propósito que tinha antes o poder que a autoridade se arrogava de por em cheque os seus supostos pensamentos: mantê-lo sempre a mercê dos caprichos de um juiz todo poderoso, vedada a realidade demonstrável como prova ultima da verdade.

Quem entra na Justiça acusando ou se defendendo no Brasil de hoje, tem tanta certeza sobre como poderá sair de la quanto tinha o acusado de ter maus pensamentos ao entrar num tribunal da Inquisição de outrora.

Aqui não ha certo nem errado e ha que se viver consciente de que tudo pode, a qualquer momento, vir a ser decretado o oposto de si mesmo.

O resto é só survival of the fitest. Nós nos sentimos confortáveis demais dentro da mentira porque desde sempre os vencedores são os que têm “se acertado” melhor, seja por que meios forem, com quem tem o poder de decidir independentemente dos fatos. Os que, por amor à verdade, insistem em afastar de si esse cálice, tendem a desaparecer antes de deixar descendência…

Como José Sarney fez do Maranhão o seu Vietnã particular

13 de maio de 2011 § Deixe um comentário

Enviado por Ruy Mesquita Filho

Se o filme tiver sido retirado, veja no Youtube:

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Documentário sobre a posse de José Sarney no governo do Maranhão em 1966, encomendado por ele próprio a Glauber Rocha (sim, Sarney sempre teve muita sensibilidade para identificar a vanguarda da cultura nacional), mas que não chegou a ser usado para as funções de propaganda a que se destinava por razões obvias.

Agora veja nas tabelas de desenvolvimento humano usadas pela Wikipedia, o que foi feito do Maranhão nestes 45 anos sob o domínio da família Sarney.

IDH – 2005

Com 0,683 pontos, só perdendo para as Alagoas dos Collor e dos Calheiros com 0,677, o Maranhão comparava-se, em 2005, com o nivel de desenvolvimento humano do Gabão

Educação

Em Educação, com 0,784, perdendo só para Piauí e Alagoas, o Maranhão se comparava, em 2005, a São Tomé e Príncipe

Renda

Em Renda, com 0,570, os Sarney não têm concorrente: o Maranhão se tornou o Estado mais pobre do Brasil, com renda comparável à do Vietnã

Esperança de Vida

0,696, novamente os Sarney só ganham das Alagoas; seus súditos podem esperar viver tanto quanto os habitantes das estepes do Uzbequistão

Thinking on democracy for 136 years

12 de maio de 2011 § 1 comentário

Estou em divida com os leitores do Vespeiro.

Tendo sido convidado pra participar do Oslo Freedom Forum, na capital da Noruega, que terminou ontem, com apenas 72 horas de antecedência, estive mergulhado na confecção do texto em que minha apresentação acabou apenas se baseando.

O texto começou sendo escrito em português mas logo partiu para uma versão em inglês que, no voo entre São Paulo e Oslo, chegou à forma final que apresento aqui apenas como um meio de saldar minha divida com os leitores do Vespeiro que ficou abandonado em função dessa corrida contra o tempo.

Na volta a São Paulo, no próximo dia 16, prometo trabalhar para apresentar o mais rapidamente possível a verão traduzida para o português. 

I belong to a family that has been breathing journalism for the last 136 years.

That’s quite a perspective.

Journalism is the basic tool for promoting reforms in democracies. That puts you in the eye of the storm.

To be a journalist is really to live intensely the history of your times.

Our newspaper was born back when Brazil was still a monarchy, to advocate an end to slavery and the creation of the Republic. Ever since then we have been involved in a constant struggle with the people in power, often in an environment in which dedicating oneself to such activities is not exactly the best way to prosper and live in safety to a ripe old age.

Having taken an active part in all of the political movements the country has lived throughout these 136 years, O Estado de S. Paulo has been pegged by all of the governments the country has had since as their most bothersome opposition, mostly by those it has helped bring about.

We are collectors of episodes of armed intervention by the forces of the state, bombing attempts and censorship measures enacted by representatives of every different grade of the ideological spectrum that has been or tried to be in the country’s government.

We have broken from prison and taken into our newsrooms fugitives of all regimes.

There has been not a single member of this family that, in the four generations succeeding one another in this struggle, hasn’t been through upheavals that radically altered the course of their lives.

My grandfather was arrested 17 times and was exiled twice between the early 30s and the end of the war in Europe, which put an end to the dictatorship of Getulio Vargas, a Hitler sympathizer.

Brazil could then enjoy a brief period of Democracy.

In 1964, with the Cold War at its hottest, at a time when falling under Soviet influence meant forever saying goodbye to freedom, a military movement supported by our newspaper acted to prevent a coup in open preparation by the Socialists and installed a temporary government with the promise of holding new elections.

Less than a year later, after an editorial piece published in our newspaper denouncing the military plot to stay in power indefinitely, the last editorial page written by my grandfather before his death, opened a war against the new dictators and began a period of over 11 years of widespread censorship of the press, economic retaliation against the newspaper and episodes of torture against journalists and dissidents in general.

Fighting against the new dictatorship, organizing a resistance movement by means of a game of cat-and-mouse with the censors and the permanent effort in hiding, allowing to escape or setting free those persecuted by the regime, alongside the international human rights and freedom of press institutions, in which I, too, took part in the first half of my career in journalism, was the common struggle shared by the members of my generation and those of my father’s.

Nowadays, 26 years after the return of Democracy, our newspaper has once again been under censorship for the last 648 days, this time by virtue of a judicial sentence whose author is a judge close to a political figure that has its origins in the very political school founded by the dictator that my grandfather spent his life fighting against.

This man inaugurated his career as a member of the political party artificially created by the military rulers to lend them some resemblance of legitimacy. He became our first civilian president after the years of dictatorship by sheer accident. He was the vice-president negotiated with the military, by way of giving them an honorable way out. And took the country after the death, days before the tenure, of the would be president, one of the leaders of the movement that actually resisted the military dictatorship.

During his stint in the presidency, he gave out radio and TV stations to all of the country’s most backward politicians, thus enabling them – and himself – to perpetuate their own rule.

Crowning this brilliant trajectory, he has now become the president of the coalition that upholds in Congress the pseudo-Socialist government of Lula da Silva, who was elected by selling himself as a hero of the struggle against the dictators and a bulwark of political ethics.

What they all have in common is the skill and the lack of ethics necessary to manufacture impoverishment and then portray themselves as helpers of the miserable. A poorer version of the Portuguese art of socializing the little privileges so that a few can keep enjoying privately the bigger ones, keeping everyone, from businessmen to blue-collar workers benefitted with minuscule special rights, essentially dependent on their grants.

In other words, spreading and institutionalizing corruption.

Their success has benefited largely from the priceless contribution they receive from the intellectuals and democratic governments that, across the world, support their actions as long as they describe themselves as members of whichever ideological category is currently most fashionable in rich countries.

Fighting for Democracy in Latin America is something akin to a Sisyphean task. We always find ourselves back at the starting point.

In the saga my family has lived in this almost century-and-a-half the only front of progressive struggle that yielded significant fruit was our active involvement in improving the quality of education in Brazil, in which the highlight was the creation of the Universidade de São Paulo in 1936, the first University in the country to live up to such a name. My grandfather was one of its founders.

This was the school that originated all of the people who really helped the fledgling Brazilian Democracy reach new heights.

In the remaining Latin American countries, the outlook is, almost invariably, worse than Brazil’s. And this state of affairs stems from the same fundamental cause.

The financial crisis in the United States has had a nefarious effect on Latin American democracies.

Together with the reaping of generous rewards seen in Chinas state Capitalism, before which the greed of the entire world kneels down, it has deeply shaken the belief in the efficiency of democratic Capitalism as a tool of development, confirming once again that crime does pay and killing the arguments of those that put respecting human rights as a necessary condition of relations between governments.

The new turn in the Latin American vicious cycle brought about by these facts has resulted in a return, now without any ideals or utopias, of vague echoes of the Socialist speech in justifying a dangerous mix of old Populist tactics and organized crime methods.

Colonel Hugo Chavez, a sort of Fidel Castro wannabe with continental aspirations, and his wild bunch of Bolivarian Socialists fight a relentless war against freedom of press in Venezuela, Bolivia and Ecuador.

In Argentina, a country whose internal debt is financed largely with Venezuelan oil money follows suit. The Kirshners are going for a new rendering of the “unionist  republic” of Juan Peron and act against the free press violently and objectively, knowing that their vision of power hinges on their ability to silence it.

In Nicaragua, another Chavez ally, Daniel Ortega, is treating the press with growing contempt.

Colombia, living in full democracy alongside Chile, was able to control, after years of fighting and countless lives lost, the drug-dealing guerrillas that for a long time turned that country into a living hell.

Now the nightmare of narco-terrorism has engulfed Mexico, where the corrupt police and the complacent government leave only the journalists as preferred targets.

The urgent matter of legalizing drugs is a reality that the international community must face up to at once, before it is too late.

Many believe today in a freer world made possible by the new developments brought about by the new information technologies.

In open societies is clear that they shall have that effect. And, indeed, international networks operating beyond the reach of national states have proved their worth as tools of resistance capable of exploiting cracks in monolithic regimes. Political violence must now be carried out in front of everyone, and that helps speeding up the mobilization of international solidarity.

This is, without any doubt, a substantial progress.

But as with every other tool created by man, these can also be used for evil purposes.

Virtual reality, without which no one can fully work or relate oneself in modern societies, is a mathematical reproduction of physical reality. Within this virtual world, instruments of oppression may also acquire a mathematical efficiency.

Those who have followed the hunt for Osama bin Laden may well imagine how that could one day be turned against each and every one of us.

There are no shortcuts.

Freedom is not a consequence of technology. Democracy, the art of organizing human societies for freedom, is a byproduct of education.

History is societies psychoanalyst. Only the peoples that clearly understand how they became what they are today can be in control of their own fates and avoid political exploitation. That is the goal of education.

Meanwhile, all we, on the press, can do is to fight and resist to avoid political setbacks beyond points of no return.

Among the most visible current threats against freedom, the one that most concerns me is the apparently irreversible process actually affecting the world’s economy.

It is mainly through our social capacity as workers and consumers that we exert our freedom. But China’s state Capitalism, with its competition that knows no rules or rights to property, has, year after year, pushed private companies all over the world to the arms of the state, forcing the consolidation of industry after industry in large monopolies, concentrating wealth in the hands of fewer and fewer people and destroying the labor and the consumer markets.

Diverse markets are Democracy’s habitat. And, presently, Democracy faces the same threat that has, since always, led different species to extinction on planet Earth: the suppression of its habitat.


Um Brasil com empreendedores

19 de março de 2010 § 9 Comentários

História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, é um livro demolidor. Veio para fazer justiça à massa anônima dos “sem-história” que, desde sempre, vêm construindo o Brasil à revelia do Estado.

O ponto de partida de Caldeira é Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Junior, obra fundadora do marxismo no País, que consolida, pela esquerda, a tese do “latifúndio escravocrata exportador” como “sentido único” da colonização e fundamento intransponível da desigualdade em que nos debatemos até hoje. Há o senhor e o escravo, a metrópole e a colônia. E nada no meio. Mercado interno, homens livres, pequena propriedade, empreendedores não existem no Brasil de Caio Prado Jr. E depois de Evolução Política do Brasil, não só no dele…

“A exploração colonial é como a Terra no sistema geocêntrico: um ponto estável ao redor do qual girava o universo explicativo de toda a História do Brasil“, diz Caldeira

As estatísticas apresentadas no primeiro capítulo já bastariam para demolir esse mito. Em 1819 a colônia tinha 4,39 milhões de habitantes; 74,8% eram colonos e índios (aculturados) livres; 25,2% eram escravos africanos. Só 220 mil homens livres eram proprietários. Dois milhões duzentos e vinte e seis mil homens livres, 91% do total, não tinham escravos. Perfaziam 62% da população. E como havia muito poucos assalariados, conclui-se que esse contingente, que vivia para e do mercado interno, era dono de seus meios de produção. O mercado interno movimentava, nessa época, 84% do total da economia (86,7% em 2008).

“Havia, portanto, no Brasil colonial, uma sociedade aberta capaz de receber e abrigar pessoas dispostas a enriquecer (…) na qual o casamento era também um meio de ascendência (…) a maioria da população livre era constituída de mestiços.”

Caldeira apresenta personagens fascinantes para apoiar essa afirmação. Mas o que há de mais saboroso no livro é a investigação da origem da ideia que, transformada numa espécie de “cláusula pétrea” de qualquer tentativa de explicação do Brasil, continua entortando o País até hoje.

Partindo da origem da fortuna dos Prados, fruto de privilégios outorgados pelo rei, Caldeira revive as reuniões na casa de Paulo, o tio intelectual que o adolescente Caio frequentava, das quais Oliveira Vianna, cujas teorias viriam, mais adiante, a inspirar o Estado Novo getulista, era o principal animador. Transcrevendo, lado a lado, trechos-chave de Evolução Política do Brasil, publicado em 1933 pelo jovem Caio, então com 26 anos, e de Evolução do Povo Brasileiro, publicado por Oliveira Vianna em 1922, Caldeira demonstra, pela palavra de ambos, que um tomou do outro, quase textualmente, os conceitos fundamentais.

Têm, portanto, raízes idênticas a estatolatria da direita e a da esquerda brasileiras.

Cruzando a data de publicação com cartas do próprio Caio, Caldeira demonstra, ainda, que, quando escreveu o livro fundador da “interpretação marxista” do Brasil, o jovem milionário paulistano nunca tinha lido Marx…

O autor vai buscar, então, a origem mais remota dessas ideias. E encontra-a na reação portuguesa à virada da Europa em direção à liberdade, no século 17. É o momento em que o modelo aristotélico, em que se apoiavam as monarquias desde a Antiguidade, no qual a dicotomia senhor-escravo faz parte da “ordem natural” das coisas, passa a ser desafiado pelo novo modelo iluminista, no qual o poder político só pode ser legitimado por um contrato feito entre homens nascidos livres e iguais.

Sem nunca bater de frente com a revolução democrática que vem do continente, a monarquia portuguesa vai se esgueirando até montar um sistema intermediário mole o bastante para absorver todo tipo de choque sem se partir, segundo o qual Portugal seria “uma exceção” na qual não caberiam as “ideias importadas” do liberalismo nascente (ideia reproduzida ipsis literis em relação ao Brasil no livro de Caio Prado Jr.). A dicotomia senhor-escravo traveste-se no binômio cabeça-corpo, um meio de caminho entre o sistema aristotélico e o modelo iluminista definido pela subordinação do representante ao representado, em que a cabeça não vive sem os membros nem estes podem ordenar seus movimentos sem ela.

Esse sistema “corporativo” concebe o mundo político pela finalidade de manter “distinções funcionais” entre partes da sociedade, e não como espaço para impor relações de subordinação entre quem naturalmente deve mandar e quem naturalmente deve obedecer. Cada órgão tem sua própria função, de modo que a cada parte do “corpo” deve ser conferida a autonomia necessária para que possa desempenhá-la. A relação fundamental deixa de ser a subordinação e passa a ser a complementaridade. “A cabeça” continua acionando o todo. Só que, agora, quem vela pela saúde desse “corpo” não é mais o governante supremo, incontestável, mas antes o juiz.

Na definição de Norberto Bobbio, no Sistema Corporativista “toda a atividade dos poderes superiores, ou mesmo do poder supremo, é tida como orientada para a solução de conflitos entre esferas de interesse, conflitos que O Poder resolve “fazendo justiça”, isto é, atribuindo a cada um o que lhe compete“. “Fazer justiça”, neste caso, tem o sentido exatamente oposto à ideia iluminista de tratar a todos de forma igual, de acordo com a lei. “Atribuir a cada um o que lhe compete” significa que “o rei (constitucional) fica obrigado a observar o Direito como instância geradora de direitos particulares e passa a dever, ele também, respeito a esses “direitos adquiridos””.

Foram-se os anéis. Ficaram os dedos. Mas dedos prontos a se encher de novos anéis, já que “adquirir um direito” (ou distribuí-los) passa a ser sinônimo de ganhar um privilégio (ou ter o poder de concedê-los).

Alguma coisa nisso lhe parece familiar neste 2010 em que o País se prepara para votar, sob o signo do lulismo? Não é por acaso…

Artigo publicado em O Estado de S. Paulo de 19 de março de 2010

 

Os índios no Brasil dos empreendedores

19 de março de 2010 § 2 Comentários

Demolidor no que diz respeito ao mito da “interpretação marxista” do Brasil, o livro de Jorge Caldeira (História do Brasil Com Empreendedores) é revolucionário na análise do papel do índio nos albores do empreendedorismo nestas terras.

A carta de Caminha descreve os nativos do Brasil como um povo sem conhecimento da religião, disposto apenas a imitar os europeus. O estereótipo continuou sendo reproduzido por escritores pelos séculos afora.

“Conhecer os pensamentos dos povos que não escrevem exige um longo contato pessoal, sem a disposição de converter o interlocutor”, observa Caldeira. Mas aos poucos esse conhecimento foi sendo acumulado. O livro se apóia nos estudos de Eduardo Viveiros de Castro para registrar particularidades da religião da etnia tupi-guarani que são outra chave para a compreensão da formação da economia brasileira. E que, alem disso, derrubam outros mitos sobre nossa história que vêm sendo alimentados há mais de 500 anos.

“A religião tupi-guarani fundava-se na idéia de que a separação entre o humano e o divino não era uma barreira ontológica infinita mas algo a ser superado … a humanidade era uma condição, não uma natureza … (daí ser) inconcebível aos Tupi a arrogância dos povos eleitos, ou a compulsão de reduzir o outro à sua própria imagem. Se os europeus desejavam os índios porque viam neles animais úteis ou homens europeus e cristãos em potência, os Tupi desejaram os europeus em sua alteridade plena, que lhes apareceu como uma possibilidade de auto transfiguração, um signo da reunião do que havia sido separado no início da cultura, capazes de alargar sua condição humana ou mesmo de ultrapassá-la. Foram então talvez os ameríndios, não os europeus, que tiveram uma ‘visão do paraíso’ no desencontro americano … não se tratava de impor sua identidade sobre o outro ou recusá-la em nome da própria excelência étnica; mas sim de, atualizando uma relação com ele, transformar a própria identidade …

(…)

É a partir daí que se pode interpretar as diversas observações sobre a ‘grande honra’ almejada pelos índios de entregar suas filhas e irmãs em casamento aos europeus.”

Em outras palavras, receber o de fora de casa era parte do seu modo de crescer na jornada da vida. E havia, alem disso, um cálculo de benefício econômico. Ter genros ou cunhados entre os senhores de tantos bens era certamente uma consideração de peso.

Um quadro muito diferente daquele que se vende normalmente e a televisão se encarrega de sensacionalizar – o do estupro sistemático – para explicar a miscigenação do europeu com o índio.

Essa forma de ver o mundo não era compartilhada por todas as etnias indígenas do continente. Ao contrário. Absorver o outro e, dessa forma, alterar-se, podia se expressar, em outras etnias, pela antropofagia. Ou não fazer parte, simplesmente, da cultura de outras mais. Gês e Guaicurus, aqui perto, e outros grupos que habitavam campos e florestas da borda do Atlântico até os Andes, nunca se misturaram aos europeus, aos quais moveram uma guerra sem tréguas.

Mas os tupi-guarani misturaram-se pelo matrimônio, com todos os europeus com que tiveram contato, o que derruba outro mito, o de que a miscigenação seria uma particularidade dos portugueses, função de sua falta de “orgulho racial”. Não. Os tupi-guarani aliaram-se e casaram suas filhas com os portugueses de São Paulo, os espanhóis de Cananéia, os franceses do Rio de Janeiro, com alemães, ingleses ou holandeses isolados e com todos os estrangeiros que aqui andaram naqueles começos. E já faziam isso muito antes deles chegarem.

É o que explica porque, depois de expulsos os outros europeus pelos portugueses, foi em São Paulo, centro do mundo tupi-guarani, que floresceu a primeira semente do empreendedorismo no Brasil. Esse tipo de aliança permitiu a transformação de contatos fortuitos, limitados às trocas para obter reparos de naus ou matalotagem, em trocas regulares, mesmo antes de ser estabelecida qualquer vila no novo território (João Ramalho, o Bacharéu de Cananéia, Caramuru, etc).

Os embarques de pau-brasil são um exemplo. Cada tora de uma carga precisava ser cortada na mata e transportada nas costas dos índios até o ponto de troca. Se tivessem de esperar que isso fosse feito com machados de pedra os navios teriam de ficar meses parados. O negócio só se tornou viável com e entrega de peças de ferro aos cuidados de um desses intermediários que se encarregava de reunir os nativos para a empreitada. Fazia isso casando-se com várias índias e prometendo artefatos de ferro a seus parentes em troca de madeira cortada e transportada.

Os índios começavam a se transformar em produtores de excedentes para a troca, recebendo ferro do intermediário. O que também explica porque foram as pequenas metalúrgicas de ferro as indústrias que criaram – ao lado do transporte (tropeiros) e da produção e comércio para o mercado interno – as primeiras fortunas de Piratininga.

Para além da redefinição do papel do índio na história do empreendedorismo no Brasil, Caldeira fará desfilar dezenas de personagens fascinantes, parte dessa maioria dos “sem história” que construiu o Brasil que funciona, desde sempre apesar e à revelia da Metrópole ou do estado, que sempre trabalharam contra eles ao mesmo tempo em que ignoravam sua existência nos registros oficiais. Industria, comércio, transportes formaram os primeiros capitais que inúmeros fugidos do feudalismo, já desde o primeiro século da colonização acumularão e farão crescer a proporções insuspeitadas no mais puro espírito capitalista, financiando operações de risco alheias. E mostrará, pelo exame de testamentos, que antes do fim do primeiro século da colonização, o latifúndio e a posse de escravos, privilégio de uma minoria, assim como a caça ao índio, já estavam longe de ser a única atividade e nem muito menos a maior geradora de riquezas da economia colonial. Os próprios escravos africanos, aliás, seriam atores dessa economia interna que floresceu à margem da História oficial e da única “explicação de Brasil” ensinada em nossas escolas.

Sabendo que ia ser patrulhado por entrar de sola nos mitos que sustentam a esquerda brasileira até hoje, Caldeira não abre brechas na qualidade de sua pesquisa. Rigorosamente nada do que ele diz no livro fica, direta ou indiretamente, sem apoio de documentação histórica.

Mas o seu golpe de mestre é usar o ferramental marxista e citações textuais de Marx para sustentar muitas das argumentações mais demolidoras que apresenta contra pontos tidos como basilares da (falsa) “interpretação marxista” da história do Brasil.

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=11031512&sid=2016521431233458179114974&k5=1459EA36&uid=

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