Os índios no Brasil dos empreendedores

19 de março de 2010 § 2 Comentários

Demolidor no que diz respeito ao mito da “interpretação marxista” do Brasil, o livro de Jorge Caldeira (História do Brasil Com Empreendedores) é revolucionário na análise do papel do índio nos albores do empreendedorismo nestas terras.

A carta de Caminha descreve os nativos do Brasil como um povo sem conhecimento da religião, disposto apenas a imitar os europeus. O estereótipo continuou sendo reproduzido por escritores pelos séculos afora.

Conhecer os pensamentos dos povos que não escrevem exige um longo contato pessoal, sem a disposição de converter o interlocutor”, observa Caldeira. Mas aos poucos esse conhecimento foi sendo acumulado. O livro se apóia nos estudos de Eduardo Viveiros de Castro para registrar particularidades da religião da etnia tupi-guarani que são outra chave para a compreensão da formação da economia brasileira. E que, alem disso, derrubam outros mitos sobre nossa história que vêm sendo alimentados há mais de 500 anos.

A religião tupi-guarani fundava-se na idéia de que a separação entre o humano e o divino não era uma barreira ontológica infinita mas algo a ser superado … a humanidade era uma condição, não uma natureza … (daí ser) inconcebível aos Tupi a arrogância dos povos eleitos, ou a compulsão de reduzir o outro à sua própria imagem. Se os europeus desejavam os índios porque viam neles animais úteis ou homens europeus e cristãos em potência, os Tupi desejaram os europeus em sua alteridade plena, que lhes apareceu como uma possibilidade de auto transfiguração, um signo da reunião do que havia sido separado no início da cultura, capazes de alargar sua condição humana ou mesmo de ultrapassá-la. Foram então talvez os ameríndios, não os europeus, que tiveram uma ‘visão do paraíso’ no desencontro americano … não se tratava de impor sua identidade sobre o outro ou recusá-la em nome da própria excelência étnica; mas sim de, atualizando uma relação com ele, transformar a própria identidade …

(…)

É a partir daí que se pode interpretar as diversas observações sobre a ‘grande honra’ almejada pelos índios de entregar suas filhas e irmãs em casamento aos europeus.

Em outras palavras, receber o de fora de casa era parte do seu modo de crescer na jornada da vida. E havia, alem disso, um cálculo de benefício econômico. Ter genros ou cunhados entre os senhores de tantos bens era certamente uma consideração de peso.

Um quadro muito diferente daquele que se vende normalmente e a televisão se encarrega de sensacionalizar – o do estupro sistemático – para explicar a miscigenação do europeu com o índio.

Essa forma de ver o mundo não era compartilhada por todas as etnias indígenas do continente. Ao contrário. Absorver o outro e, dessa forma, alterar-se, podia se expressar, em outras etnias, pela antropofagia. Ou não fazer parte, simplesmente, da cultura de outras mais. Gês e Guaicurus, aqui perto, e outros grupos que habitavam campos e florestas da borda do Atlântico até os Andes, nunca se misturaram aos europeus, aos quais moveram uma guerra sem tréguas.

Mas os tupi-guarani misturaram-se pelo matrimônio, com todos os europeus com que tiveram contato, o que derruba outro mito, o de que a miscigenação seria uma particularidade dos portugueses, função de sua falta de “orgulho racial”. Não. Os tupi-guarani aliaram-se e casaram suas filhas com os portugueses de São Paulo, os espanhóis de Cananéia, os franceses do Rio de Janeiro, com alemães, ingleses ou holandeses isolados e com todos os estrangeiros que aqui andaram naqueles começos. E já faziam isso muito antes deles chegarem.

É o que explica porque, depois de expulsos os outros europeus pelos portugueses, foi em São Paulo, centro do mundo tupi-guarani, que floresceu a primeira semente do empreendedorismo no Brasil. Esse tipo de aliança permitiu a transformação de contatos fortuitos, limitados às trocas para obter reparos de naus ou matalotagem, em trocas regulares, mesmo antes de ser estabelecida qualquer vila no novo território (João Ramalho, o Bacharéu de Cananéia, Caramuru, etc).

Os embarques de pau-brasil são um exemplo. Cada tora de uma carga precisava ser cortada na mata e transportada nas costas dos índios até o ponto de troca. Se tivessem de esperar que isso fosse feito com machados de pedra os navios teriam de ficar meses parados. O negócio só se tornou viável com e entrega de peças de ferro aos cuidados de um desses intermediários que se encarregava de reunir os nativos para a empreitada. Fazia isso casando-se com várias índias e prometendo artefatos de ferro a seus parentes em troca de madeira cortada e transportada.

Os índios começavam a se transformar em produtores de excedentes para a troca, recebendo ferro do intermediário. O que também explica porque foram as pequenas metalúrgicas de ferro as indústrias que criaram – ao lado do transporte (tropeiros) e da produção e comércio para o mercado interno – as primeiras fortunas de Piratininga.

Para além da redefinição do papel do índio na história do empreendedorismo no Brasil, Caldeira fará desfilar dezenas de personagens fascinantes, parte dessa maioria dos “sem história” que construiu o Brasil que funciona, desde sempre apesar e à revelia da Metrópole ou do estado, que sempre trabalharam contra eles ao mesmo tempo em que ignoravam sua existência nos registros oficiais. Industria, comércio, transportes formaram os primeiros capitais que inúmeros fugidos do feudalismo, já desde o primeiro século da colonização acumularão e farão crescer a proporções insuspeitadas no mais puro espírito capitalista, financiando operações de risco alheias. E mostrará, pelo exame de testamentos, que antes do fim do primeiro século da colonização, o latifúndio e a posse de escravos, privilégio de uma minoria, assim como a caça ao índio, já estavam longe de ser a única atividade e nem muito menos a maior geradora de riquezas da economia colonial. Os próprios escravos africanos, aliás, seriam atores dessa economia interna que floresceu à margem da História oficial e da única “explicação de Brasil” ensinada em nossas escolas.

Sabendo que ia ser patrulhado por entrar de sola nos mitos que sustentam a esquerda brasileira até hoje, Caldeira não abre brechas na qualidade de sua pesquisa. Rigorosamente nada do que ele diz no livro fica, direta ou indiretamente, sem apoio de documentação histórica.

Mas o seu golpe de mestre é usar o ferramental marxista e citações textuais de Marx para sustentar muitas das argumentações mais demolidoras que apresenta contra pontos tidos como basilares da (falsa) “interpretação marxista” da história do Brasil.

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=11031512&sid=2016521431233458179114974&k5=1459EA36&uid=

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