O novo e o velho na Primavera do Oriente

10 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário

Existem, sim, razões para que a gente alimente esperanças de um mundo melhor com os aspectos novos que marcam a onda de rebeliões que vem varrendo o Oriente Médio. O que tolhe esse otimismo é ver a desonestidade com que esses acontecimentos, que indiscutivelmente têm na sua origem a marca de uma nova era, vêm sendo manipulados por grupos de interesse e “intérpretes” marcados pelas baldas de um passado que representa a negação de tudo que ha de novo neles para usá-los como combustível para reavivar o incêndio dos seus velhos ódios.

As tiranias se instalam quando o Estado consegue deter pela força o livre fluxo das idéias. As tiranias desmoronam quando a informação volta a circular”.

O que ha de mais lindo na confirmação deste velho axioma nos acontecimentos do Oriente Médio é que eles são a prova de que, na Era da Informação, não é mais possivel deter pela força o livre fluxo das idéias. Primeiro porque a infraestrutura de comunicações agora é global. Está fora do controle dos tiranetes locais. E segundo porque deter as comunicações no âmbito nacional na nova realidade da economia movida a informação implica paralizar a máquina que faz circular o sangue das Nações.

A rebelião que deu o primeiro passo numa página do Facebook animada por Wael Ghonim, executivo da filial do Google no Egito, sobreviveu aos primeiros ataques brutais da ditadura de Mubarak graças aos esforços de tres outros engenheiros do Google, do Twitter e da SayNow que, do outro lado do mundo, disponibilizaram para os egípcios uma solução tecnológica desenvolvida num mutirão de um fim-de-semana, capaz de receber e gravar mensagens de voz em numeros internacionais de telefone acessíveis a partir de qualquer tipo de linha – celular, cabo ou satelite – e transformá-las em “tweets” e mensagens de texto resgataveis por qualquer tipo de gadget de comunicação ainda em funcionamento no Egito.

Junto com a sempre alcançavel praça universal do Youtube, à qual sempre é possível chegar pelos infinitos meandros do éter e do emaranhado de cabos e fibras óticas que interconecta todos os cantos do planeta, foi o que manteve a chama acesa quando Mubarak, à custa de paralisar totalmente a economia nacional e, assim, atirar nas próprias pernas, cortou o serviço de telefonia celular e derrubou, no dia 1ro de fevereiro, o provimento de internet do Noor Group o ultimo que ainda estava funcionando porque é o que processa os pregões da bolsa de valores do Cairo e as transações do Banco de Comércio Internacional e do Banco Nacional do Egito.

Este tem sido o capítulo mais emocionante da Batalha do Egito. A mobilização internacional que tem garantido a continuação das comunicações entre os rebelados da Praça Tahrir, no Cairo e o resto do país; o trabalho de guerrilha electronica que, ao lado do dos jornalistas que arriscam a vida para registrar in loco as imagens e as vozes da rebelião, tem assegurado que o país inteiro, junto com o mundo, assista ao vivo o que está acontecendo. O esforço abnegado de todos quantos, ao redor do mundo, tendo em comum com os rebeldes do Cairo nada mais que a sua condição humana, mantêm a vigília ou trabalham para assegurar que ela possa continuar revive as ultimamente tão abaladas esperanças na viabilidade, como espécie, do mamífero (quase) pensante que, depois que se ergueu sobre as patas traseiras, tomou de assalto o planeta em que vivemos.

Cada vida sacrificada, cada gota de sangue derramado, cada ato de covardia expõe Mubarak à execração somada de toda a humanidade; tolhe os seus pendores sanguinários; encurta o seu espaço vital.

O fato de ter sido gestado dentro do ambiente das redes sociais, comparativamente pouco contaminado pelas divisões e ódios que se expressam mais despudoradamente na mídia tradicional, deu à rebelião egípcia (e às que a precederam nos países vizinhos) as características que têm garantido a sua força moral e a sua longevidade.

É o primeiro movimento de massas da região que não carrega, desde o nascimento, nem carimbos ideológicos, nem a marca dos ódios religiosos. É um movimento indiscutivelmente espontâneo, nascido essencialmente da possibilidade do recurso às novas ferramentas de articulação da sociedade que, pela sua natureza descentralizada, estão livres do controle por interesses ideologicos, religiosos e economicos que costumam viciar as antigas.

Disso resulta, entre outras novidades, que ele não tem lideranças claras, o que exclui a opção de sempre do ditador de plantão de “atirar na cabeça da serpente” e esperar que o resto do corpo morra. Desta vez não ha alvo definido no qual atirar. Seria preciso atirar a esmo até afogar a rebelião em sangue para dobra-la pela força. E esta é a opção que a exposição ao vivo do que está acontecendo a toda a humanidade torna impossivel.

Mas aí cessa o que ha de novo nesta Primavera do Oriente Médio.

A rebelião teve como estopim primário, como todas as dos paises vizinhos, o rabo da inflação mundial das commodities que afeta a alimentação em países de populações miseráveis onde se gasta em média mais de 40% do que se ganha apenas com comida. Na mais tradicional das receitas, são os bolsos e os estômagos vazios que fazem as pessoas se lembrarem da liberdade. A agitação que disso resultou, também como sempre, faz salivar todas as forças envolvidas na eterna luta pelo poder que se preparam para disputar o espólio de Mubarak, uma peça capaz de alterar radicalmente todo o equilíbrio de poder na região mais conflagrada do mundo.

Dado o valor do “prêmio” em disputa, ha quem esteja trabalhando para trazer os acontecimentos de volta ao passado dentro e fora do Oriente Médio.

Ao contráro do que afirmam alguns, não deverá ser fácil, entretanto, espalhar a rebelião para muito mais longe do que já se espalhou.

É de se notar que os países afetados em que as manifestações populares resultaram em mudanças são as republicas locais: Tunísia, Egito, possivelmente Iêmen, Argélia e Síria. Países que já tomaram certa distância do totalitarismo teocrático e do absolutismo monárquico e que, apesar do caráter sempre despótico de seus governos – a opção, na área, tem sido historicamente entre o déspota esclarecido e a volta à idade média teocrática – têm a mudança e a alternância no poder como possibilidades, ainda que remotas, no seu horizonte de expectativas. Paises que puderam experimentar alguma evolução política, diga-se de passagem, por seus antigos governantes não terem podido contar com o poder anestesiante dos petrodólares que sustentam muitas das monarquias absolutas da região e, em função desse handicap, terem sido obrigados a se modernizar o minimo suficiente para buscar um lugar ao sol sem contar com cartas marcadas no jogo da competição mundial.

Ao contrário desses países sujeitos às oscilações da economia global, as monarquias petroleiras continuam mantendo um controle firme, quase sempre absoluto do poder, frequentemente misturando o poder político com o poder religioso. E boa parte deles conta a seu favor com populações cevadas na abundância ao ponto de poderem comprar, por baixo do pano, pequenas doses da liberdade que lhes é negada por cima.

De qualquer maneira, o que é certo é que, na vida real, o novo não substitui o velho de um só golpe. Os dois convivem por muito tempo, empurrando-se mutuamente para fora do centro do palco. Como na Europa desde que rolou a cabeça do primeiro monarca absolutista, ha mais de 200 anos, o que aconteceu até aqui é suficiente para roubar a tranquilidade do sono de todos os déspotas que sobrevivem pelo mundo afora. Algo de essencial mudou para sempre nos instrumentos tradicionais da opressão. Eles estão com os dias contados.

Mas a corrupção e o fascínio do homem pelo poder não morreram e seguirão cobrando seu preço enquanto a espécie perambular pelo planeta. Se as tiranias apoiadas na supressão da circulação da informação entre indivíduos estão condenadas, as que pretendem exercer a sua negando ao indivíduo o controle sobre as informações que até hoje foram só dele já ensaiam os primeiros passos para entrar na grande avenida da História.

Em defesa do latifúndio ecológico

4 de fevereiro de 2011 § 2 Comentários

O vale do Yandegaia, Patagônia chilena

Os jornais andam publicando notinhas dando conta da intenção do ministro Wagner Rossi, da Agricultura, de alterar aquela lei idiota passada no ano passado proibindo estrangeiros de comprar terras no Brasil.

Sempre achei que tinha dente de cachorro grande nessa história, que rolou não mais que de repente quando grupos internacionais se movimentavam para tomar posição na corrida pelos bio-combustíveis e pelas commodities brasileiras, bem na hora em que um gigante privado local dava os últimos pontinhos para fechar o seu esquema hegemônico.

Passar uma rasteira nos concorrentes estrangeiros foi sopa no mel naqueles tempos em que gritar “Fora gringo!” era coisa de repercussão garantida e imediata no Itamaraty “bolivariano” de Celso Amorin/Marco Aurélio Garcia.

É verdade que mesmo neste Brasil mais sério da Dilma não existe nada mais improvável que passar da proibição total para programas de conservação do meio ambiente com a participação de capitais internacionais como eu quero propor que se faça também aqui neste longínquo grotão do mundo isolado da modernidade pela barreira da língua onde os dinosauros do ecoideologismo e as velhas viuvas do mundo com fronteiras que ainda se entrincheiram em órgãos públicos, redaçōes e ONGs cevadas com dinheiro do governo reagem em ordem unida se, e somente se, o objetivo final for apedrejar “O Império”.

Mas como ha muito tempo deliberei ignorar todas as provas em contrário que tenho colhido da experiência concreta e me aferrar com unhas e dentes até o fim ao otimismo e à fé na razão sem a qual a prática do jornalismo não faz sentido, vou insistir:

Não ha nada mais absurdo que agir (e legislar) como se fosse possível a um gringo que investisse em terras por aqui arrancar o seu terreno do nosso mapa ou mesmo as benfeitorias nele plantadas e leva-los pra casa debaixo do braço.

A balela do “roubo de biodiversidade” e de segredos dos nossos matos então é mais ridícula ainda. Primeiro porque sem bilhões de dólares em cima e décadas seguidas de pesquisa, experimentação e aplicação intensiva de altíssima tecnologia, nada no mato deixa de ser o que é no estado natural: apenas e tão somente comida para formiga. Segundo porque achar que proibindo gringo de comprar terra vai se impedir que ele contrate índios ou quem mais seja pra catar folhas por aí e mandar-lhe, até pelo correio, promessas de bons princípios ativos é história da carochinha em que nem debiloide embarca com fé.

Douglas Tompkins

Dinheiro gasto em preservação – isto é, para manter uma área intacta como a Natureza a fez – é, portanto, o dinheiro mais desinteressado e mais facilmente nacionalizável do mundo. Não ha rigorosamente nenhum risco de prejuízo que não se possa recuperar integral e imediatamente com uma simples assinatura da autoridade competente.

Muito bem.

O ministério da Agricultura de Dilma, ao que se informa, não baba nem perde a capacidade de raciocinar à simples menção da palavra “estrangeiro”, como ainda acontece em certos arraiais do petismo. “Restrinjam-se as compras dos grandes fundos por traz dos quais estão até governos como o da China. Restrinjam-se as compras dos grandes traders de commodities que querem verticalizar seus esquemas porque uma e outra restrição fazem, sim, sentido. Mas libere-se o investimento privado que vá virar produção, melhoria tecnológica e emprego, venha de onde vier o dinheiro”, é o que diz o novo ministro.

Já é alguma coisa…

Mas se é justificável que o dinheiro estrangeiro venha fazer nossas terras produzirem, não é muito mais justificável ainda, no país que tem dado mostras de que não consegue garantir sozinho a conservação de suas florestas, os alvéolos do pulmão do mundo, não só permitir como, mais que isso, incentivar por todos os meios e modos as compras por capitais internacionais de áreas ainda integras para preservação ou mesmo de áreas degradadas ou já exploradas pela agricultura para devolvê-las à Natureza? Não seria prudente fazê-lo enquanto é tempo, sobretudo neste momento em que o governo prepara a eletrificação da Amazônia, coisa que vai multiplicar vertiginosamente a velocidade e a extensão da devastação?

Parque Pumalin

Andei por 10 dias neste inicio de ano pelos confins da Patagônia chilena, nas cercanias do Canal de Beagle, que está quase exatamente do mesmo jeito que Darwin o viu em 1832.

Na primeira baia chilena na margem Norte do canal, pouco além da fronteira com a Argentina, onde ancoramos por um dia e uma noite, fizemos um extenso passeio a cavalo pela propriedade de um dos muitos bilionários estrangeiros que se dedicam a gastar o que têm de sobra para preservar ou devolver áreas como aquela ao seu estado natural. Trata-se de Douglas Tompkins, dono das marcas americanas de roupas para a prática de esportes de natureza The North Face e Espirit que comprou os 40 mil hectares da bacia do rio Yandegaia, um dos que nascem nas milenares geleiras da Cordilheira Darwin, uma das pontas dos Andes que mergulham na encruzilhada do Atlântico com o Pacífico lá perto do Polo Sul. É uma área que tinha pertencido a um traficante de drogas que precisou de dinheiro para pagar advogados, foi comprada por um grupo de conservacionistas chilenos e depois por Tompkins, que entregou sua gestão à ex-ministra do meio ambiente do Chile. Hoje está aberta ao publico. O trabalho que corre lá neste momento é o de arrancar todas as cercas e construções deixadas pelos antigos proprietários, deter as queimadas para abertura de pastagens e controlar a população de cavalos selvagens descendentes de ancestrais abandonados por fazendeiros derrotados pela aspereza da natureza local, que tomou de assalto o habitat dos pumas, dos guanacos e de outros espécimes endêmicos .

Mais ao Norte, cortando, literalmente, o estreito território chileno ao meio, Tompkins tem outra propriedade de 300 mil hectares de florestas pluviais temperadas intactas que vai da fronteira argentina até o Pacífico e que ele transformou no Parque Pumalin, recentemente declarado Patrimônio da Humanidade, apesar da gritaria dos nacionalistas chilenos que, como muitos que conhecemos por aqui, preferem ver aquilo depredado por conterrâneos que preservado por um estrangeiro.

Joseph Lewis, dono do Hard Rock Café e do Planet Hollywood, Ted Turner, ex-CNN, apaixonado pela pesca de truta com fly, Ward Lay, da Pepsi. Co, e até Sebastien Piñera, o bilionário que se tornou presidente do Chile, estão entre os muitos ricaços internacionais que compraram grandes áreas na Patagônia chilena ou argentina, uma das regiões mais preservadas do planeta, para mantê-las para sempre livres das pressões que vêm empurrando inexoravelmente santuários semelhantes para o extrativismo criminoso, a agricultura intensiva ou a especulação imobiliária pelo mundo afora.

Dinheiro contra dinheiro. A receita que, para o bem ou para o mal, resolve muito mais que conversa fiada. E o que pode ser mais coerente que investir em conservação ambiental sem consideraçōes retrógradas sobre fronteiras nacionais, dinheiro que hoje se ganha comprando e vendendo globalmente sem consideraçōes retrógradas sob fronteiras nacionais?

Douglas Tompkins, um pioneiro da causa ambiental na Patagônia, tem a seu favor um retrospecto que torna indiscutível o seu espírito altruísta e o aprofundamento da sua visão ecológica. É odiado pelos nacionalistas xiitas do Chile como de qualquer modo nunca deixaria de ser. Mas é respeitado e tido como um amigo do país por todo chileno que raciocina e é permeável ao testemunho dos fatos.

Árvores de 3.500 anos em Pumalin

Agora um numero crescente de bilionários segue os seus passos. Sejam quais forem as intenções que os movem – ainda que se trate só de vaidade ou qualquer outra forma secreta de cobiça – uma coisa é certa: eles nunca poderão mover suas propriedades de onde estão nem impedir os governos nacionais aos quais respondem de dar-lhes outra destinação no futuro, se assim decidirem.

Se a intenção é a de preservar, cabe aos governos nacionais condicionar o direito ao latifúndio ecológico a esse propósito e incentivar ao máximo a disposição dos ricos do mundo de financiar a manutenção dessas reservas.

Já os “ecoideologistas” profissionais que continuam preferindo a depredação “soberana” à conservação a cargo de cidadãos do mundo, mesmo diante da crescente ameaça para a sobrevivência da espécie humana, estão apenas dando mais uma prova de que, na sua escala de prioridades, conservar a natureza e manter florestas em pé está onde sempre esteve: nos últimos lugares.

Para charter no barco da foto em Beagle e Patagônia chilena veja Mar Sem Fim

Torcendo pela Dilma

11 de janeiro de 2011 § 2 Comentários

Alguém disse, dia desses, que “pão ainda ha, mas o circo, pelo menos, acabou”. Menos mal. Nem os mais intransigentes fãs de Lula aguentavam mais aquele chororô. Deu mais shows de despedida que Frank Sinatra.

A Dilma anima. Alivia quem andava crispado pela completa hegemonia da emoção no discurso político brasileiro. Tem coragem e dignidade suficientes para tomar posição até contra deus todo poderoso. Com a obrigatória dose de reverencia mas sem nem um chorinho a mais. Desde antes da eleição disse o que é e o que não admite ser em todos os momentos em que se tornou imprescindível fazê-lo. Sente-se segura o suficiente para conclamar o país à união. Não precisa dividir para governar.

Se estamos condenados ao PT, com todo o risco implícito da doença se tornar crônica, esse tanto já não é pouco.

Se for mentira, será mais uma. Mas por enquanto não parece…

Agora, herança maldita perde!

A sua Via Dolorosa prenuncia tantas “estações” quanto a de Cristo.

Um PMDB nunca antes tão explícito, nunca antes tão despudoradamente ávido, graças ao espaço nunca antes tão amplo que se deu à avidez e à explicitude no governo Lula, não demorou a sentir a diferença entre a criatura e o criador. Dora Kramer pintou o quadro. Com 10 dias de vôo solo, sem que fosse necessário nenhum murro na mesa, apenas com a discreta operação do “amortecedor” Palocci, já entenderam que ha que ter alguma compostura. No mínimo comportar-se bem à mesa. Foi inequívoco o recuo entre os primeiros dias e hoje, ainda que seja só tático.

Do setor elétrico ao Turismo houve um nítido downgrade no território privativo de caça da família Sarney entregue ao velhinho bandalho que a representa no novo ministério. Não pela pouca importância do turismo para o país que vai receber uma Olimpíada e uma Copa do Mundo, mas pela quantidade de dinheiro imediatamente ao alcance da mão e o poder de chantagem comparativamente muito menor. Se não se tratar de uma simples troca de ladrões, é auspicioso. Energia é coisa séria demais num país em crise de crescimento.

Domesticar o PMDB, de qualquer maneira, vai ser uma tourada. Mas uma tourada para a qual o PT está mais bem aparelhado que todos os outros partidos que já passaram por “lá”. Primeiro porque não tem, nem o PT, nem a máquina publica contra si.  Os sabotadores profissionais realmente perigosos jogam todos a favor. Segundo porque a batalha da comunicação está ganha antes de começar. O Brasil inteiro sabe o que é o PMDB. Explorar essa má fama é nadar a favor da corrente. E para os eventuais rebeldes, não ha de faltar munição aos especialistas do PT-POL que tiveram oito anos para juntar dossiês sobre personagens que, cada um deles, rende uma enciclopédia inteira de ignomínias.

O perigo, aí, é ser fácil demais e levarem o Congresso inteiro de roldão. Seria o roto falando do rasgado, sim. Mas quem ha de se levantar para defender o rasgado? Com que argumentos?

É possível que ainda tenha de pedir socorro à corja, o coitado do Brasil!

O espectro fantasmagórico de um PT governando sozinho nos remete à segunda “estação”. Catequizado o PMDB, começará a guerra contra os PTs. As batalhas já estão todas mapeadas: controle da imprensa, contenção das “organizações da sociedade civil”, defesa da democracia representativa, controle de gastos, meritocracia no serviço publico, política externa e, last but not least, o controle da desembestada corrupção “amiga”.

Dilma já tomou posição explícita quanto a todos esses assuntos. E na melhor direção possível.

Essa Dilma filha e neta de professores universitários europeus (ainda que dos Balcãs, elemento que compõe bem com o lado mais “aventuroso” da sua biografia), personifica inequivocamente essa alta classe média do petismo, integrada por quadros tradicionais do alto escalão do serviço publico, enriquecidos (…) e aburguesados, portadores de uma sólida cultura tecnocrática e corporativa, que se sente confortavelmente em casa no poder como ele está organizado hoje. Esse grupo tem o que perder. Mas terá de se haver, ao longo de todo o caminho, com os êmulos do banditismo sindical, cevados no crime, com uma “praxis” e um repertório culturalmente marginais e, ainda, com os restos do PT ideológico com o qual ela própria ainda mantém compromissos de lealdade.

Vai ser complicado!

Pairando sempre por cima de todos, “o cara”, a inesquecível Rebeca da Dilma presidente, com suas previsíveis recaídas e sua incontrolável loquacidade. Será ele a carta de “Revés” do baralho deste governo que, cada vez que “sair”, vai impor a Dilma caminhar diversas “casas” para traz no jogo da afirmação no poder.

Em que momento se dará o confronto? Quando Dilma formará o seu próprio ministério? Com que artes conseguirá neutralizar os restos do passado que lhe foram impostos?

E que outras Dilmas haverá por traz desta dos judiciosos discursos de final de campanha e início de governo?

Quem, afinal, é Dilma Vana Roussef? A da Erenice que, como se viu na posse, também “nunca saiu de lá”? A do passado, com tempero balcânico? A tecnocrata exigente, que não enjeita trabalho e sabe o valor do mérito? A cidadã que, ao não fazer concessões com a liturgia do cargo, dá provas de sua reverência pelas instituições?

Ou que mistura dessas todas?

O que teria levado Lula a tirá-la do anonimato diretamente para o cargo mais alto da Nação: apenas e tão somente um cálculo macunaímico para tornar mais difícil esquecê-lo e mais fácil a sua volta ou uma secreta noção de que, por traz de todo o rancor que não consegue conter em relação aos letrados, sente a falta que eles fazem para este momento da vida brasileira?

E o palco onde tudo isso se dá: que tipo de tentações poderá adicionar a essa receita este mundo pão/pão, queijo/queijo, sem moderação nem utopias, que caminha reto para a associação do pior do estatismo com o pior do capitalismo selvagem, mortos o liberalismo e o socialismo?

Pois é…

Viver é mesmo muito perigoso!

Nós e a crise americana: entre nessa discussão

8 de janeiro de 2011 § 3 Comentários

Os americanos estão perdidos, culpando uns aos outros pelos efeitos da crise. Mas a globalização está aí para provar que Jimmy Carter estava certo: a salvação das conquistas dos trabalhadores só poderá se dar pelo condicionamento do acesso aos mercados nacionais ao respeito pelos direitos humanos.

Reagindo ao artigo de ontem sobre a crise americana (“O buraco é mesmo mais embaixo“) que eu tinha escrito pensando na critica que o leitor Renato Abucham me fizera na primeira vez em que tratei desse tema (em “A exclusão dos ricos“), ele renovou seus argumentos no comentário que publico a seguir em caracteres itálicos.

Comecei a escrever o artigo que publico na sequência da carta dele como uma resposta a essa réplica. Tendo ido mais longe do que pretendia a principio, resolvi trazer essa discussão do bastidor que o WordPress reserva para os comentarios dos leitores para as paginas de frente do Vespeiro. O assunto merece que mais gente entre nesse debate.

Se o emprego subiu, mesmo que pouco, a crise americana está passando. A retomada mais vigorosa vai depender do “mood” dos agentes economicos. Esse artigo divulga pessimismo sem razāo. A frustração com a velocidade da recuperação, não deveria ensejar difusão de pessimismo pois o pessimismo só se justificaria com queda de emprego, o que não acontece ha meses. Se difundirmos otimismo pois o emprego parou de cair, a recuperação se dará mais rapidamente. Afinal de contas, economia é uma ciencia de comportamento, por isso se mede a confiança dos consumidores. A imprensa, como um importante formador de opinião deveria ter muito cuidado em difundir uma situação economica pessimista, principalmente em bases falaciosas“.

Renato Abucham

Nos estamos olhando para o ultimo dado do desemprego nos Estados Unidos a partir de perspectivas diferentes, meu caro Renato.

Você como um brasileiro que (como eu) quer ver o fim desta crise; eu como quem tem em foco o confronto permanente entre democracia e autoritarismo.

Ha muitos anos acompanho a imprensa americana e me preocupa muito a mudança para pior que essa crise esta promovendo na maneira como os americanos se vêm a si mesmos…

Mas, primeiro os fatos.
Este que destaquei no artigo que você critica – o completo desligamento entre o desempenho das empresas americanas e o efeito que isso (não) produz no emprego e no consumo domésticos – é novíssimo e não é, absolutamente, “falacioso”. É real, concreto, medido. E representa a quebra de um paradigma. Antes da globalização, sempre aconteceu o contrário: o emprego, o salário e o consumo interno melhoravam com a melhora do desempenho financeiro das empresas.

É isso que, a meu ver, confirma que o problema americano é muito mais grave do que parece justamente porque a soluçāo não está mais nas māos dos proprios americanos, que sempre souberam resolver suas afliçōes e têm instituiçōes especificamente desenhadas para lidar com a mudança.

A grande dificuldade, agora, é que a causa do problema está fora do pais; fora do alcance do aparato institucional americano. Nada do que os EUA possam fazer internamente – com exceção de reduzir salários, efeito que, à revelia da vontade de todos, já vem acontecendo ha tempo e está na raiz mais remota desta crise financeira – poderá melhorar a sua condição de competir num mercado globalizado onde o trabalho é exportavel e o custo da mão de obra é o fator que decide a parada.

E é ai que mora o perigo nestes tempos que estamos começando a viver.

Os proprios americanos, entretanto, ainda não se deram conta disso.

Esse perigo se multiplica tanto mais quanto mais a imprensa e os comentaristas que pautam o debate nacional através dela esquecem que o problema real é esse e, num tom cada vez mais ideológico e irracional, atribuem “culpas” ao governo ou a setores da sociedade pelo que esta acontecendo como se eles pudessem mas não quisessem, por pura maldade e má intenção, tomar medidas ao seu alcance para mudar as coisas.

As guerras verbais, preludio das guerras materiais, tendem, como elas, a evoluir rapidamente para um círculo vicioso. Cada agressão encomenda a seguinte. É a vingança da vingança da vingança. O compromisso cego com o que se disse no calor do dia anterior. A obrigação “moral” de manter a “coerência” (tambem com o erro). O “quiéquiéisso companheiro”, nosso velho conhecido, usado e abusado para manter as partes polarizadas…

Essa, prezado Renato, é a essencia do veneno que destroi sociedades inteiras. Acaba com a coesão interna. Conflagra uma nação.

Adoraria estar errado no sentido que voce indica. Torço, sinceramente, para estar. Mas quanto mais analiso o quadro, menos me convenço disso. Por mais que me esforce não consigo evitar a conclusão de que, numa economia globalizada que caminha a passos rápidos para os monopólios, com mão de obra e consumo sem fronteiras e onde tudo é copiavel identico ao original, ou todo mundo sobe junto ou todo mundo desce junto.

Se esse raciocinio estiver certo, quanto antes os EUA (e o resto do mundo democrático) entenderem essa realidade, melhor.

A Historia esta provando que Jimmy Carter, sem o saber, teve uma intuição premonitória ao tentar amarrar a politica externa dos Estados Unidos aos direitos humanos. A globalização veio para provar que a salvação das conquistas dos trabalhadores americanos, em particular, e ocidentais em geral, só poderá se dar pelo condicionamento do acesso aos mercados nacionais ao respeito aos direitos humanos; à elevação do nivel de direitos e salarios dos trabalhadores chineses.

Se o criterio puramente aritmético, do preço mais baixo a qualquer custo, continuar prevalecendo, os trabalhadores do resto do mundo é que terão de ter os seus reduzidos.

O cinismo de hoje deixou, portanto, de ser uma mera “opção” à escolha de quem se dispuser a ser “pragmático”. Ele tem um custo concreto devastador nas suas implicaçōes diretas e imediatas.

A opção pragmatica (sem aspas), hoje, é reconhecer esse fato incontornavel. Os Estados Unidos e o resto do mundo onde ainda se preza as frageis conquistas da democracia precisam, primeiro, identificar com precisão a fonte dos seus problemas (fator para o qual o trabalho da imprensa é decisivo) para, então, se unirem em torno dos meios e modos de ataca-los com as armas possiveis (como uma reedição da politica de direitos humanos, por exemplo).

Não é uma perspectiva animadora neste mundo imediatista entregue à adoração do bezerro de ouro. Mas é preciso, em algum momento, começar a apontar para o lado de onde as coisas reealmente vêm porque sozinhas é que elas não vão mudar. E não é isso que está acontecendo, especialmente nos Estados Unidos onde a crise pega mais forte exatamente porque quanto mais alto se estiver na escala dos direitos e salarios conquistados, maior será a queda em direçāo ao novo padrāo chinês.

Hoje cada jornal, cada articulista, cada Premio Nobel americano se manifesta em termos mais irracionais e apaixonados, jogando culpas à direita e à esquerda pelo que está acontecendo, enquanto a causa do problema continua la do outro lado do mundo; esse “outro lado do mundo” que a tecnologia da informação tornou vizinho de muro de cada um de nós.

A questão que me preocupa é o efeito que essa crescente conflagração possa vir a ter para a causa da democracia num mundo em que, cada vez mais, a afluência economica esta sendo associada ao autoritarismo e o capitalismo de Estado é o novo e formidável inimigo da liberdade e da dignidade do indivíduo a ser combatido.

Meu foco são as tendências que se manifestam na nova realidade da integração planetária das antigas economias nacionais e minha preocupação é a miopia da imprensa e dos comentaristas americanos (e não somente deles) para essa realidade, que resultam no enviezamento do sentido das pressões sobre o sistema político para uma direção que só pode ajudar a piorar um quadro que já é bastante ruim.

Não se vai curar a doença que afeta os Estados Unidos ou fazer desaparecer os efeitos que essa doença produz sobre nós e o resto do mundo, nem tomando remedios que não atacam suas causas, nem apenas fingindo ter saude.

FLM

– Posted using BlogPress from my iPad

Da “Era de Aquarius” ao pesadelo “corporate”

11 de agosto de 2009 § Deixe um comentário

ganancia

(para entender bem a sequencia do que vai neste blog hoje, comece duas matérias abaixo, em “Raízes da impunidade – 1”).

Só a ganância pode controlar a ganância com um mínimo de eficiência, como sabiam as gerações passadas de americanos do Norte que tiveram o bom senso de criar as leis anti-truste.

Foram elas que tornaram possivel o melhor momento da democracia vivido até hoje pela humanidade. Ainda que  tenha sido uma realidade vivida por muito poucos (na verdade, só pelos norte-americanos), temo que ainda venhamos a ter muita saudade dela.

Se antes havia um bom parâmetro para se tomar como meta, agora não ha mais. Não vejo, mesmo, até como eles, os americanos do Norte, possam vir a reconquistar algo de parecido com o nível de democracia que alcançaram no século passado.

“Se o poder corrompe”, reza a frase atribuida a lord Acton, “o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Sendo o dinheiro o meio “democrático” de se conquistar poder, mesmo o mundo mais evoluido, que conseguiu controlar um pouco melhor que nós a corrupção política, está diante de um tremendo problema, que a presente crise financeira põe em maior evidência, depois que a desmontagem do aparato anti-truste fez da competição sem limites a regra do jogo econômico global.

Da competição total, por definição, só um sai vencedor. Assim, desde que ela foi liberada, o mundo passou a caminhar inexoravelmente para o reino dos monopólios, com poder de corrupção ainda maior que o dos antigos Estados nacionais. E é ingenuidade pensar que se poderá vir a controlá-los com regulamentos feitos pelo Estado.

Ao abrir essa porta do inferno dentro de sua própria casa, os norte-americanos não se deram conta de que estavam abrindo mão, também, do poder de fechá-la, se viessem  a se arrepender do que fizeram, coisa que, obviamente, já está acontecendo.

Como sempre acontece na História, uma série de circunstâncias excepcionais abriram a brecha para o início do processo, que foi acelerado e potencializado pelos oportunistas do momento. A grande maioria dos norte-americanos, o unico povo servido de ferramentas democráticas fortes o suficiente para deter o processo, só tomou consciência do que estava acontecendo quando já era tarde demais. E a imprensa — historicamente a ultima linha de defesa dos direitos individuais — teve um papel decisivo nesse fracasso. Tornou-se parte interessada no processo que devia mediar e traiu a sua função.

Hoje, está pagando o preço por isso.

Os lances decisivos dessa história estão relatados em detalhe no artigo “A Ameaça da Imprensa Corporate”, armazenado neste Vespeiro.

O efeito foi fulminante. Ao acelerar o  ritmo da vida no centro econômico de um planeta que a tecnologia da informação transformou num sistema de vasos comunicantes, os Estados Unidos aceleraram a economia do mundo inteiro. Quando liberaram o crescimento sem limites das corporações no ambiente doméstico, desencadearam a vertigem monopolística global que, com o processo de consolidação que se seguirá à presente crise, dará mais um salto irreversível.

Agora, mesmo que queiram voltar atras, não têm como obrigar seus concorrentes planetários a fazê-lo. Condenaram-se, e a nós todos, a viver sob o jugo de monstros econômicos para o controle dos quais literalmente não existe tecnologia institucional, nem nos Estados Unidos, onde o cidadão comum ainda tem algum poder de influência sobre seus representantes políticos, nem, muito menos, no resto do mundo, onde, com raríssimas exceções, a regra é o representante explorar o representado, em vez de serví-lo.

Assim, a geração que sonhou com “a Era de Aquarius”, acordou mergulhada até o pescoço no pesadelo do vale tudo “corporate”.

E nada que seja possivel discernir no horizonte se apresenta como um  obstáculo palpável ao mergulho do mundo naquuele que se anuncia como o grande Século da Corrupção, que fará com que tudo que vimos até agora se pareça com uma brincadeira de criança.

Voltarei ao assunto.

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