E pro Berzoini, nada?
9 de janeiro de 2015 § 18 Comentários
Nenhum jornal ou televisão da dita “grande mídia” se lembrou de perguntar ao ministro Berzoini, das Comunicações, formalmente mandatado pelo PT para “executá-la”, isto é, para “instituir o controle da mídia” no Brasil, o que é que ele achou dos acontecimentos dos últimos dias em Paris.
O mundo não fala em outra coisa senão do valor supremo, inegociável, absoluto da liberdade de expressão. As multidões estão nas ruas, ao redor do globo para jurar sobre os cadáveres dos mártires do Charlie Hebdo que nenhum sacrifício será alto demais para preservar esta que todos sabem ser a primeira condição da democracia e da liberdade. Nossas televisões e jornais online estão em plantão permanente enquanto o sítio a Paris se desdobra em novos atentados.
Mas ninguém se lembrou de fazer suar um pouco o carrasco da liberdade de expressão no Brasil expressamente mandatado pelo PT para executá-la, arguindo-o para que esclareça o país sobre quais, para além da radicalidade da “solução kalashnikov” para os incômodos que ela impõe aos loucos por Maomé, são as outras diferenças – quanto a objetivos e justificação, por exemplo – entre aquela e a “solução petista” para os incômodos que insiste em lhe infligir a “grande mídia”.
A “presidenta” Dilma evoluiu da recomendação de “diálogo” com mascarados de faca na mão e vítimas, também jornalistas ainda que americanos, agarradas pelo cangote prontos para a degola da barbárie de semanas atras para uma condenação veemente do “ato intolerável e do ataque inaceitável, com lamentáveis perdas humanas, contra um valor fundamental das sociedades democráticas: a liberdade de imprensa” da barbárie de ontem.
É, sem dúvida, uma evolução.
Mas a “presidenta” Dilma é, como se sabe, quem “assopra” no tema da censura à imprensa dentro dessa realidade mais que especial que é o universo dos “valores” e da “lógica” do PT. Já o ministro Berzoini é quem “morde”, e foi exclusiva e declaradamente por ser quem mais e com mais força “morde” que ele foi guindado por Lula em pessoa ao comando do ministério que, além de cuidar da infraestrutura do mais básico insumo das economias modernas, o que é de somenos importância para os critérios petistas de seleção de ministros, passa a ter agora a atribuição precípua e expressa de livrar o PT do permanente incômodo que lhe causa a renitente indiscrição da “grande mídia” para com os seus “malfeitos”, tendo o “homem da mala” da igreja do bispo Macedo, o transparente pastor George Hilton, como “back-shooter“, tocaiado no Ministério dos Esportes.
Dilma assumir esse compromisso ao qual, justiça seja feita, ela sempre resistiu foi, para ser mais exato, a condição exigida pela “ala moderada” do PT, que seria a “Construindo um Novo Brasil” – veja você! – para não se rebelar abertamente contra a perda de espaço no ministério Dilma 2 para a “ala radical” minoritária, dita “Democracia Socialista”.
E ninguém mais indicado para isso que o sr. Berzoini que, embora de Comunicações afirme não entender nada, como é regra entre os ministros petistas, destaca-se dentro do partido como o mais figadal inimigo da “grande mídia”. Em sua mais recente entrevista a esse respeito, significativamente concedida a “blogueiros” e “ativistas” de organizações não governamentais organizadas pelo governo convocados expressamente para ouví-lo de preferência a meros jornalistas, ele repetiu que “Como cidadão e agente político entende que a grande mídia no Brasil tem lado e é historicamente contra as conquistas dos trabalhadores”, heresia que, no seu entender, pede a imposição de um severo e irreversível remédio.
Eu, como profisional do ramo que passei a vida toda em contato direto com jornalistas e com o jornalismo, diria, pelo que conheço do nosso mercado, que de cada 100 jornalistas empregados no Brasil hoje não haverá mais que cinco ou seis que recebam seus salários da imprensa juridicamente classificada como “privada”.
A maior redação do Brasil, longe da segunda, é a da ciclópica Empresa Brasileira de Notícias que produz A Voz do Brasil imposta diariamente a todos os brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, no “horário nobre”, coisa que, neste Terceiro Milênio, só tem paralelo em lugares como a Coréia do Norte e a Venezuela. É ela, também, que se encarrega de rechear, “grátis“, os jornais, televisões e rádios do país inteiro das notícias do agrado do Poder Executivo federal, dos seus 39 “ministérios”, cada um com a sua redaçãozinha própria, das duas instâncias do Poder Legislativo onde, além dos dois canais dedicados de TV e dos demais órgãos impressos, sites e periódicos da instituição, cada um dos 513 deputados e 81 senadores tem a sua própria mini redação particular, dos nossos 5 diferentes Poderes Judiciários, cada qual com as suas redações e os seus diferentes canais de TV, periódicos e sites na internet. Há ainda reproduções desse mesmo conjunto de aparatos de “informação” e “assessoria de imprensa” em cada autarquia e em cada estatal federal. E, finalmente, tudo isso se reproduz, se desdobra e se multiplica nos pares quase exatos de cada uma dessas estruturas mantidos por cada um dos 26 governos estaduais da federação, mais o do Distrito Federal, e em cada um dos 5.570 municípios deste vasto país, com suas respectivas Câmaras Municipais, repartições e empresas públicas.
Os jornalistas a serviço do Estado são, em resumo, legião, e não ha um profissional desse ramo, em formação ou em ação, no Brasil que, ou não tenha passado alguma temporada servindo esse tipo de patrão, ou não tenha em seu horizonte, especialmente nesses tempos de ruptura de paradigmas e crise do setor, a perspectiva de, mais cedo ou mais tarde, vir a pedir um emprego a esse mesmo patrão.
Tudo isso, naturalmente, cobra um preço em matéria de, digamos, arrefecimento do entusiasmo de muitos desses profissionais em fiscalizar e denunciar os “malfeitos” desses seus possíveis futuros empregadores, mesmo entre aqueles, raros, que não têm nenhum parente próximo — pai, mãe, irmão — em algum outro emprego público a pressiona-los para não atacar o ganha pão da família.
Mesmo assim, não é esta a “grande mídia” que é alvo do imensurável amor do PT pela democracia.
Descontada essa legião, sobram os cinco ou seis em cada 100 jornalistas empregados, se tanto, nas folhas de pagamento da imprensa juridicamente classificada como “privada”. A maior parte dela, no entanto, embora classificada assim, encontra-se hoje em mãos de políticos com mandato no Congresso Nacional onde todo mundo salvo uns gatos pingados faz parte da “base aliada” do PT, especialmente no que diz respeito a rádios e televisões, setores nos quais estes felizes proprietários de “mídia”, que têm a prerrogativa exclusiva de “conceder” esses canais a quem bem lhes aprouver, são maioria esmagadora.
Escoimada a conta de mais estes, sobrarão, talvez, algumas dezenas de órgãos entre rádios, televisões, jornais impressos e redações estruturadas de produtos jornalísticos online pertencentes a proprietários privados sem cargos públicos ou eletivos. Mas não é esta, ainda, a “grande mídia” que fere o senso de equilíbrio e equidade dos democratas petistas. A conta ainda terá de ser subtraída de todos, entre estes, que por servirem a igrejas ou outras grandes estruturas de negócios a serviço do engrandecimento dos quais estão, acima de tudo, os seus “jornalistas“, ou por viverem exclusivamente da publicidade governamental ou diretamente de suborno pago por políticos ou pelos doleiros que a maioria deles tem hoje a seu serviço como o famigerado Alberto Youssef, constituem-se na segunda linha entre os mais irados defensores das “ideias” petistas, principalmente esta do controle da “grande mídia” que, junto com os petistas, odeiam mais que tudo. Ao fim de 12 anos de vigor dos métodos de conquista de “aliados” do PT, esta é uma lista que vai longe como já ficou sinalizado nas delações premiadas do “petrolão” onde esses nomes, ao lado dos seus “salários”, e até redações inteiras ricamente estruturadas na internet aparecem aos borbotões.
Com isto chegamos à primeira linha de fogo da artilharia de mídia petista, que é a que vive nas sombras da internet, abaixo das camadas já arranhadas na contabilidade clandestina dos doleiros, cujo tamanho ninguém consegue medir com precisão mas que tem estruturas oficiais de comando dentro das mais altas instâncias do Partido dos Trabalhadores e hoje é praticamente onipresente na rede.
É, portanto, entre os que já vão longe nas casas centesimais da unidade sobrante daquela centena inicial, que começam a ser contados os jornalistas que trabalham para a dúzia e meia de órgãos realmente independentes que restam na imprensa brasileira – aí incluídos jornais, rádios e televisões – que se esconde a tal “grande mídia” que fere a sensibilidade democrática e a sede de “equilíbrio de opiniões” e “compromisso com a verdade” do PT ainda precisando de remédios definitivos contra a sua “monopolística tendenciosidade“.
Mesmo dentro dessas redações, entretanto, ha uma significativa proporção de agentes infiltrados do petismo zelando para que você não saiba nunca qual é a conta real do jornalismo independente da “grande mídia” versus a legião dos que trabalham pela divulgação da “verdade oficial”, por exemplo, o que explica porque você nunca viu nessa mesma “grande mídia” qualquer matéria mostrando os interessantes pormenores do tema aqui esboçado, tão obviamente interessante para ela, “grande mídia“, assim como para a opinião pública brasileira em geral no momento em que o governo da República declara ser este um dos maiores vícios a minar a vitalidade da nossa democracia. São esses quintas-colunas que zelam diuturnamente, também, para que nada do que possa ferir essa “verdade oficial” venha à luz, para que ganhe o menor destaque possível quando for inevitável que venha, para que, nessas raras eventualidades, nunca deixem de ser publicadas, seja ao lado de outra matéria atribuída a um vago “especialista” afirmando o contrário do que diz a que não pôde ser surrupiada, seja justaposta a um “vazamento” a que o jornal misteriosamente “teve acesso” em que o delator da falcatrua da hora aparecerá “envolvido” em outra falcatrua possivelmente maior ainda.
E agora sim, chegamos ao que interessa: o que sobra de tudo isso é que é a “grande mídia” de que está doravante encarregado de “controlar” segundo os padrões “econômicos” copiados da Argentina kirshnerista e da Venezuela chavista, o paladino Berzoini daquela “democracia excessiva” que faz o gosto de Lula e seus seguidores.
Mesmo assim, nem com o planeta inteiro mobilizado na defesa da liberdade de expressão e a sua própria sobrevivência em jogo, essa nossa pequena “grande mídia” encurralada, com sentença de morte passada, conseguiu enxergar, até o momento, qualquer relação que merecesse ser apontada ao público ou atirada ao rosto do sr. Berzoini entre o que se está passando em Paris e o que acontece dentro do seu próprio galinheiro invadido pela horda das raposas.
Não ha, portanto, nenhuma diferença muito essencial entre o que se passou com os Tres Poderes da República aparelhados até o limite da impotência para garantir a defesa da democracia, e a ínfima fatia independente ou quase do “Quarto Poder“, à frente do qual proprietários mergulhados em torneios de vaidades, sem nenhuma familiaridade com a dimensão institucional daquilo que ficou reduzido a não mais que o “negócio” dos seus “acionistas”, os únicos a merecerem prestações de contas de seus atos, ou ignoram olimpicamente ou titubeiam diante do que acontece dentro das suas redações, seja porque sabem menos de jornalismo e do papel que essa instituição tem numa democracia que o último morador de rua francês e o menos credenciado dos ministros do PT sobre os seus próprios ministérios, seja por uma mistura de omissão e covardia, coisas que nesta altura dos acontecimentos no Brasil são, todas elas, crimes de lesa-pátria, com variações apenas do grau de dolo.
O eleitor brasileiro que está elegendo democraticamente os agentes juramentados da destruição “por dentro” da nossa democracia não é, portanto, o maior culpado pelo seu próprio comportamento. A ordem dos fatores é decisiva e altera radicalmente o resultado nos processos de morte das democracias. Esse comportamento suicida da parcela mais vulnerável do eleitorado é, em grande medida, involuntário. Desde a escola ele vem sendo deliberadamente induzido a erro, em sua ignorância e em sua boa fé, e a imprensa não tem cumprido à altura a sua missão de fazer a verdade aflorar e prevalecer.
Felizmente ainda ha exceções com as quais o pais pode contar. Porque, assim como quando uma democracia morre é porque sua imprensa já tinha morrido antes, enquanto a imprensa estiver viva não ha o que possa matar uma democracia. Daí ser o objetivo Nº 1 de todos os seus inimigos “controlar a mídia“, seja com o tipo de “tiro” que for.
Dilma e o Estado Islâmico
25 de setembro de 2014 § 36 Comentários
Pensei em iniciar este artigo lembrando que ao propor, de cima da única tribuna do planeta voltada para toda a humanidade, entre os costumeiros elogios a si mesma e à obra do PT, “o diálogo, o acordo e a intermediação da ONU” junto aos genocidas decapitadores, estupradores, cruxificadores, chicoteadores e apedrejadores de mulheres do Estado Islâmico que têm horrorizado um Oriente Médio treinado no cotidiano da barbárie, a nossa preclara “presidenta” colocou-se à esquerda da Al-Qaeda que, antes mesmo dos governos dos países atacados pelas bestas-feras que se escondem por tras daquelas máscaras negras, renegou essa seita sanguinária e instou o mundo a varre-la da face da Terra antes que não sobre ninguém até mesmo contra quem praticar-se o bom e velho terrorismo tradicional.
Mas logo lembrei-me de que valores mais altos se alevantam ou no mínimo se sobrepõem a esse posicionamento relativo. Ao proferir impropério desse grau em plena Assembléia Geral da ONU o “poste de Lula” coloca-se abaixo do mais desinformado entre os menos informados dos homens comuns e do mais alienado entre os alienados deste mundo. Coloca-se, portanto, em algum ponto entre a indigência mental e a incapacidade orgânica de processar os dados da realidade, condição que, se fosse finalmente diagnosticada, proporcionar-lhe-ia o bonus de inocentá-la de toda a carga de ignomínia e comprometimento moral embutido na insanidade que ela propôs aos homens que governam o mundo com cara de quem dá aulas a principiantes.
Como uma coisa puxa a outra lembrei-me, então, de que sua excelência não estava ali em mais um dos seus delirantes improvisos sem edição mas sim lendo um documento cuidadosamente elaborado pela elite da sua equipe de governo que traduz a visão oficial de mundo de seu partido e que, para vergonha nacional, estava sendo apresentada ao concerto das nações como a posição oficial de todos os brasileiros a respeito da carnificina que vem horrizando até os terroristas da velha guarda.
Consolei-me, então, com as provas que o mundo tem dado de que já entendeu a diferença entre o PT e o Brasil, de que nos dá testemunho o presente estouro da boiada dos investidores internacionais para fora de nossas fronteiras, esta que assume ritmo frenético cada vez que Dilma Rousseff e seu fiel escudeiro Guido Mântega, na sua incoercível arrogância, concebe uma nova intervenção para conter os efeitos da última intervenção.
Para que essa fuga em massa se tornasse possível hoje foi preciso que tivesse havido o movimento inverso antes, que se deu quando a aposta ainda podia ser feita no Brasil e nos brasileiros por cima dos quais Dilma e o PT parecem decididos a passar a galope, convencidos que estão de que é seu destino manifesto substituir-se a nós todos e às nossas história e tradições não só no concerto das nações como na obra de construção nacional.
O lado positivo deste episódio é que, estando ele fora das injunções da eleição, pode-se dizer que constitui-se numa rara manifestação autêntica e espontânea da verdadeira anima petista que, quanto mais se aproxima o 5 de Outurbo, mais se emburaca no mar de mentiras com que eles nos vêm intrujando.
Vai-se destacando como síntese perfeita do que esse partido se tornou o prefeito da maior e mais carregada de problemas concretos entre as metrópoles brasileiras, Fernando Haddad, que deixou de lado as pranchetas e as obras públicas e adotou um pincel e uma lata de tinta como seus únicos instrumentos de “realizações” com os quais vai esterilizando, rua após rua, as fontes de geração de riqueza e criação de empregos da maior cidade do pais criando barreiras intransponíveis entre comerciantes e consumidores em troca da “demagogia ciclística” que a imprensa resolveu comprar, do esquartejamento de vias públicas sufocadas por automóveis e combustíveis eleitoreiramente subsidiados e da distribuição “socialmente determinada” de privilégios no que resta de mobilidade numa metrópole atravancada à fatia mais gorda do eleitorado.
O PT, enfim, assumiu-se como fraude.
O que apresenta como obra sua e como provas de seu desempenho tem tanto valor quanto as faixas coloridas que o sr. Haddad esparge por aí a título de prestação de contas pelo uso e pelo abuso do maior orçamento da Republica depois do da União.
As contas públicas nacionais são uma mentira, a taxa de inflação é uma mentira, os números do desemperego são mentiras, a “crise internacional” só de Dilma é uma mentira, o programa de “remissão da miséria” do PT com os 85 milhões de cheques distribuidos de mão em mão todo mês é uma mentira, os preços represados da energia, bombas de neutrons contra o nosso amanhã, são mentiras.
O alegado amor de Dilma à democracia é mentira. O compromisso com a liberdade de imprensa de quem censura até o IBGE é mentira. Suas acusações contra os demais candidatos são mentiras. A “luta sem tréguas do PT contra a corrupção”, é a mãe de todas as mentiras.
Até os “eleitores” das campanhas dos ministros candidatos do PT são mentiras.
O próprio PT e sua candidata à reeleição são mentiras, enfim.
Mas a espontânea manifestação de apreço da “diplomacia” peto-marcoaureliana pelos genocidas do Estado Islâmico é genuina e verdadeira. É, no mínimo, aquilo que no jargão do tênis seria chamado de “erro não forçado”.
Mesmo assim, enquanto as carótidas são cortadas a faca pelo Oriente Médio afora e as hordas de mães e crianças em estado de choque se espremem em pânico nas fronteiras do “califado islâmico” para escapar à única forma de “diálogo” praticada pelos amigos de dona Dilma, Aécio Neves segue, inabalável na sua fleugma, dedicando todos os escassos minutos de que dispõe na televisão a prometer vagos “choques de gestão”, programas de “recuperação da malha ferroviária” ou esquemas de “poupança estundantil” e Marina Silva vai em frente especulando vagamente sobre sustentabilidade.
Que mentira é maior que a de coonestar tanta mentira, calando-se quando confrontados com elas?
Raízes históricas da última mentira “islâmica”
10 de setembro de 2014 § 62 Comentários
“Projeto para cinco anos”
Como inglês que é, e profundo conhecedor da história e da realidade presente dos povos árabes (ele foi, por muitos anos, agente do MI6, o serviço secreto inglês, destacado para aquela parte do mundo), Alastair Crooke, com dezenas de artigos disponíveis na internet, reune condições excepcionais para explicar as raízes históricas e o contexto presente do grupo terrorista conhecido como Estado Islâmico que, a partir da guerra civil na Síria, destacou-se da Al Qaeda e, depois de ocupar territórios estratégicos naquele país e no Iraque ricos em petróleo, estruturou-se financeiramente o suficiente para se constituir numa ameaça real de dominar a cena num mundo árabe desestruturado por uma sequência de convulsões.
Os terroristas do Estado islâmico abraçam a corrente do wahabismo, a mesma que, lá no início do século 18, serviu de alavanca para que o clã dos Ibn Saud que até hoje reina inconteste sobre a Arábia Saudita, começando como uma das muitas tribos beduínas que vagavam pelo deserto escaldante e miserável do Nejd guerreando-se umas às outras para roubarem-se mutumente as poucas posses, iniciasse a sua trajetória de conquista de poderes muito mais amplos.
Abd al-Wahab viveu no século 17 quando o Império Otomano, de um lado, e o Egito, do outro, dominavam o Oriente Médio. Ele apontava essas nobrezas dominantes, que incorporavam alguns habitos ocidentais como “falsos muçulmanos” e criticava igualmente as tribos beduinas que “adoravam santos, enterravam e visitavam seus mortos e viviam mergulhados em superstições” de influência católica.
Pregava que todos voltassem aos costumes “do tempo em que o Profeta viveu em Medina” que teria sido a época de ouro do islamismo, e convocou a “guerra santa” contra todas as novidades poluentes tais como o xiismo, o sufismo e as demais variações do islamismo ou qualquer coisa que pudesse ser ligada à filosofia grega, todas elas “proibidas por deus”, em razão do que, “qualquer homem que manifestasse a menor dúvida ou hesitação sobre a correta interpretação do Islã deveria ser implacavelmente morto, ter suas posses confiscadas e suas filhas e mulheres violentadas”.
Para que não pairassem dúvidas sobre essa entrega total à única verdade, ele exigia que todos “os verdadeiros muçulmanos se entregassem à obediência cega a um único líder, o Califa”.
Abd al-Wahab acabou sendo expulso de sua cidade em 1741 e encontrou asilo e proteção na tribo de Ibn Saud, que percebera claramente que todo aquele radicalismo seria o instrumento ideal para que ele submetesse as demais tribos e passasse a reinar absoluto.
Ibn Saud continuou agindo como sempre agira, invadindo e saqueando seus vizinhos, só que agora podia faze-lo “em nome de deus”, o que justificava também o martírio em prol da jihad. Já não lhe bastava pegar o que pudesse e voltar para casa. Agora suas forças permaneciam no território inimigo onde a opção era a conversão para o wahabismo (e a obediência cega ao seu “califa“) ou a morte. De massacre em massacre, onde mulheres e criancas não eram poupados e a tortura e as execuções públicas se transformaram em instrumentos metódicos de submissão pelo terror, por volta de 1790 Ibn Saud já dominava quase toda a Península Arábica e atacava violenta e repetidamente a Síria e o Iraque.
Nada, enfim, que nossos ancestrais católicos não muito distantes (ou os que resistissem a eles) não tenham passado também.
É exatamente essa mesma receita que o grupo Estado Islâmico tem aplicado nos últimos anos.
Em 1815 as forças dos Saud foram esmagadas pelos egípcios e em 1818 os otomanos capturaram a capital do wahabismo, Dariya.
Só a partir dos anos 20 do século passado os Saud, reeditando a sua “guerra santa” contra a laicização e as modernizações promovidas por Kemal Ataturk e, mais tarde, por Gamal Abdel Nasser, conseguiram reconquistar o poder. Adb–al Aziz, o protagonista da época, temendo o radicalismo de suas próprias tropas depois de uma sucessão de revoltas, fuzila todos os seus líderes.
O petróleo começava a transformar-se naquilo que se transformou em nossos dias, os Estados Unidos e a Inglaterra cortejavam os Saud e o rigor wahabista, irrigado por uma torrente crescente de petrodólares, logo se converteu numa versão institucionalizada de estado nacional e num instrumento de garantia do poder absoluto do clã que chega até os nossos dias.
Com a riqueza do petroleo, a missão dos sauditas passa a ser “reduzir a multidão das vozes dentro da religião islâmica para um único credo”, projeto no qual investiram bilhões de dólares num esquema de conquista que passa a incorporar também elementos gramscianos (pela educação e pela cultura) em vez de recorrer exclusivamente às armas e ao terror como antes (embora sem abrir mão deles).
O resto, incluindo a crescente dependência do Ocidente da ordem saudita como barreira para a expansão soviética no Oriente Médio, é história.
Ironicamente são os próprios sauditas que plantam a primeira semente do revival wahabista incorporado pelo grupo do Estado Islâmico, no arrasto da Primavera Árabe. O primeiro impulso se dá com a violentíssima repressão da tentativa de derrubar o governo sunita de Bahrein, sob a alegação dos imperativos do wahabismo, liderada pelos sauditas que manejavam a contra-revolução da Primavera Árabe laicizante iniciada com a derrubada dos governos da Tunísia e do Egito.
O segundo foi o mandato conjunto atribuido pelos sauditas e pelas potências ocidentais para que um dos príncipes sauditas tratasse de controlar a insurreição contra Bashar al-Assad na Síria. Mas como controlar um movimento onde o mote, como lá atras, é a doutrina do “Um único líder, uma única autoridade, uma única mesquita: submeta-se ou morra”?
A história está de volta para pânico dos sauditas que sabem melhor que ninguém com o que é que estão lidando, e agora pedem socorro ao Ocidente para deter a ameaça que eles próprios ajudaram a criar.
Começando como um grupo destacado da Al Qaeda, logo considerada moderada demais para os novos wahabistas, financiado pelos sauditas, essa facção dos insurgentes sírios foi conquistando armas e territórios até se apossar de áreas ricas em petróleo e ganhar autonomia para comprar seu próprio armamento, incorporar quadros dos governos desbaratados de Sadam Hussein e outros derrubados ao longo da “Primavera“, montar a sua própria máquina de propaganda, moderna e anconrada na rede mundial, e se organizar quase como um governo nacional com grupos destacados para cada tarefa do que pretende ser o futuro “califado islâmico“: energia, propaganda, impostos de guerra, sequestros, operações financeiras, controle religioso, relações internacionais e assim por diante.
Para o momento cuidam de exterminar os competidores mais próximos e intimidar os sobreviventes até o ponto da obediência cega usando os métodos brutais consagrados pelos séculos.
Não vai ser fácil detê-los. Só com bombardeios aéreos será impossível. Os próprios árabes ainda estabelecidos no poder terão de fazer-lhes frente porque eles não pretendem deter-se nas fronteiras do Iraque e da Síria.
Toda a “roubada” em que se estavam metendo os sauditas foi prevista por Alastair Crooke desde, pelo menos, 2011. Mas muito antes disso ele já vem alertando os governos ocidentais sobre a visão distorcida que eles guardam do conflito com o islamismo que, segundo ele, “tem raízes muito mais profundas do que os alinhamentos políticos das potências ocidentais com Israel ou com os grupos e países em choque no Oriente Médio”.
Na verdade o que é irreconciliável, para Crooke, são as “questões filosóficas” de fundo que, não sendo consideradas como deveriam ser, levam os líderes ocidentais que tentam se posicionar no Oriente Médio segundo uma lógica de alianças e alinhamentos políticos aos sucessivos erros de avaliação a respeito do que acontece naquela região.
O ódio do Islã radical ao Ocidente traduz a recusa em aceitar o entendimento da essência humana nascido com a democracia inglesa, baseado na incolumidade do indivíduo e dos seus direitos, e no respeito à sua liberdade sustentada por um sistema de justiça racionalista, versus o approach essencialmente “espiritual” e comunitário da vida (os dois elementos que fornecem a “justificativa” para toda e qualquer barbaridade contra quem ousa resistir) que está na base do “pensamento islâmico radical” que, em última instância, é invocado para sustentar todos os poderes estabelecidos por lá.
Esse fosso é certamente mais profundo entre o Ocidente e o Islã, mas é ele que separa também, com profundidades variáveis, o pequeno grupo das democracias originadas no movimento protestante inglês de quase todos os outros povos da Terra.
Toda corrente filosófica que se apoia no coletivo resvala para a violência e, ou namora, ou mergulha no totalitarismo que foi, basicamente, a condição sob a qual viveu toda a humanidade até o surgimento da democracia inglêsa, aí incluída toda a comunidade européia de que nós, brasileiros, somos extensão, que passou os mil anos que antecederam a revolução protestante sob um estado religioso (o papado) ou sob o absolutismo monárquico, primos mais velhos dos regimes totalitários “coletivistas” mais recentes.
Muitos, como nós, continuamos vivendo sob versões mitigadas daquele regime, submetidos, por baixo de um verniz “democrático” que não garante, nem a igualdade perante a lei, nem a meritocracia que a definem, sob os caprichos de um quase rei e seus quase barões que desfrutam “direitos” e privilégios outorgados sustentados por quase súditos.
Não é a moral cristã que liberta. Ela sempre conviveu bem com o totalitarismo e com os regimes amparados na eliminação física da dissidência, de que é um exemplo sinistramente clássico a Inquisição.
O monoteísmo está na raiz dessa doenca crônica da humanidade pois onde só ha uma verdade a intolerância é o coroláio obrigatório, especialmente se essa verdade tiver sido transmitida diretamente “por deus”.
Só a sacralização do indivíduo na sequência da institucionalização da tolerância; a sua incolumidade e o valor absoluto de cada vida humana, conduz ao império dos direitos do homem. Contra a “felicidade coletiva” e contra as variadas formas “únicas” de “salvação”, o indivíduo não é nada e pode e deve ser massacrado.
O grupo Estado Islâmico é essa “crença” pretensamente num estado puro, como a Inquisição já pretendeu ser em relação ao catolicismo. Mas é apenas mais uma mentira como foi em todas as suas edições e reedições anteriores pois que tem, como sempre, de ser instilada pelo terror porque a inteligência humana naturalmente a rejeita.
Não é “crença” nem é o verdadeiro Islã, portanto. É só a ferramenta covarde de intimidação de sempre, a serviço de um projeto de poder, também como sempre. Só que com as condições de hoje, ela pode fazer muito mais estrago do que antes conseguia infligir só até onde alcançava a ponta da espada.














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