Pelos direitos dos animais!

3 de dezembro de 2013 § 6 Comentários

Burning Rainforest in the Amazon

Vão asfaltar a estrada Cunha-Paraty.

Dizem que é pra ter uma saída pro povo de Angra dos Reis e cercanias em caso de acidente com as usinas nucleares construídas naquele lugar que os índios chamavam de “Pedra Podre”.

São aqueles 9,6 km de terra que atravessam o Parque Nacional da Bocaina que os ecologistas vêm impedindo de asfaltarem desde o milênio passado.

Não se vai perder nada que já não tenha sido perdido. Você atravessa esses quase 10 quilômetros e mais os muitos quilômetros que os antecedem e que os sucedem e não vê uma única mancha de mato que não seja uma capoeira mirrada e empobrecida, embora aquilo seja um paliteiro de morros agudos com encostas que já foram cobertas de luxuriante Mata Atlântica.

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Desde que eu as conheço que elas já estão peladas e lavadas. Desmataram tudo tantas vezes que hoje, além dessas capoeiras de “pau-de-flor“, só ha aquelas extensões de samambaias duras como arame que são tudo que nasce em solos super-ácidos, esgotados para todo o sempre.

No mais, são as rachaduras na terra mostrando que aquilo ainda vai desabar um dia.

Esse tipo de proibição, aliás, é dos enganos mais trágicos deste país de tantos enganos. Lá pelos anos 70, quando a economia deu uma embalada e a depredação recrudesceu, os ecologistas, de tanto perder batalhas, adotaram como um axioma essa política de impedir o acesso das pessoas aos lugares onde ainda havia natureza que valesse a pena conservar.

Como este é o país onde não se consegue controlar nem o vão do MASP, não porque não haja polícia mas porque não se admite que a polícia aja, eles passaram a proibir a construção de estradas. Resultado: só entravam os bandidos, os clandestinos que iam lá pra depredar, agradecidos pela retirada de cena de todas as testemunhas “a favor” do mato em pé.

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Desse momento em diante a luta passou a ser, não mais por educar ambientalmente a população, mas por segregá-la dos ambientes íntegros o que implica na total impossibilidade de se educar ambientalmente a população, já que educação ambiental não é outra coisa senão frequentar o meio ambiente íntegro, testemunhar o seu funcionamento e, assim, aprender a amá-lo e respeitá-lo.

Instalou-se, com isso, um círculo vicioso. Mais um!

Ambientalistas cada vez mais radicais de um lado e populações isoladas odiando-os cada vez mais, do outro, uma equação que justificava e continua justificando cada vez mais o incêndio criminoso e a corrupção madeireira à mão armada que continua, já lá vão quase 50 anos, devorando o que resta do Brasil.

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No resto do mundo, a caça e a pesca esportivas e, subsidiariamente, o turismo ambiental “de paisagem” conseguiram a solução mais inteligente de fazer as pessoas ganharem mais dinheiro com a mata em pé do que com ela feita carvão. Então, além dos amantes da natureza, também os amantes do dinheiro, que são em muito maior número e muito mais poderosos, se aliaram aos que se dedicam a conservá-la.

Mas aqui os ecologistas, que junto com o resto das pessoas e graças a eles próprios, não frequentam as matas ha pelo menos três gerações, não sabem como se comportam os bichos e de que forma interagem a fauna e a flora, assuntos que literalmente apaixonam quem é do ramo que é de quem saem as verdadeiras soluções, e perderam, junto com todas as suas outras vítimas, qualquer relação com a natureza real.

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Do discurso ecológico sobraram só as formas mais radicais e cretinas de abstração. Uma discussão exacerbada sobre “o bem” e “o mal” que confunde alhos com bugalhos (e quem sabe o que são essas coisas hoje?) , vaca com animal selvagem e gente com bicho.

Quebrou-se o fluxo das gerações. E o brasileiro, que já não tem mesmo contato com a sua própria história, tem menos noção ainda do quanto seus antepassados viveram uma relação íntima com a natureza.

Não sobrou nenhum elo vivo entre nós e ela, enfim.

E no entanto, teria sido tão simples quanto qualquer outro aprendizado. Quem já foi ao Netflix ou à Apple TV e alugou a maravilhosa série de documentários de Ken Burns chamada Os Parques Nacionais – A Melhor Ideia da América, poderá conferir ao vivo como os americanos, quando aquilo começou a funcionar ha pouco mais de 100 anos, fizeram um monte de burradas, sujaram e quase depredaram aquelas maravilhas todas mas, pela insistência, conseguiram, afinal, segurá-las e ensinar o povo a usá-las de forma civilizada, assegurando um patrimônio insubstituível para as gerações futuras.

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Coisa de gringo!

Brasileiro – mesmo os do povo – tem horror a povo. Não acredita na capacidade dele de aprender coisa nenhuma. Acha que o povo tem de ser mandado; tratado na porrada; barrado no baile porque se entrar estraga tudo. E quanto mais “vanguardista” e “amigo do povo” se diz o ideólogo de plantão, pior ele é nesse culto cego ao autoritarismo “iluminado” do “eu é que sei o que é bom para você”.

De modo que taí. Os famigerados “direitos dos animais” passaram a valer tanto quanto os direitos dos demais brasileiros. Estão lá, em alguma estante, em alfarrábios os “mais avançados do mundo” que os cupins devoram gostosamente enquanto os titulares desses direitos morrem atropelados no asfalto porque não têm mais onde ser e estar. Não vai sobrar nada a menos que um milagre (que pode ser a internet onde tudo pode ser visto, medido e comparado) afinal os ilumine com a luz sem aspas do conhecimento.

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Duas visões sobre conservação ambiental

1 de outubro de 2013 § 3 Comentários

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Proclamação Presidencial

Através da caça e da pesca esportivas, tradições que vêm passando de geração em geração, as famílias têm estreitado os seus laços e as pessoas comuns vêm forjando a sua conexão com a Natureza. É gente que se levanta antes do sol nascer para lançar uma isca através da neblina nas águas de um riacho ou para esperar a caça enquanto a floresta vai aos poucos despertando. Pais têm ajudado seus filhos a tirar o seu primeiro peixe ou a aprender a lingaugem dos pássaros. No Dia Nacional da Caça e da Pesca nós celebramos essas velhas tradições e renovamos o nosso compromisso de preservar os locais que têm sido o palco delas.

Trabalhando em todos os níveis do governo junto com organizações privadas e defensores da conservação ambiental, meu governo lançou a Iniciativa em Favor dos Esportes de Natureza. O objetivo é envolver todos os americanos comuns na luta pela proteção e restauração desses biomas e dessas águas que amamos tanto e restabelecer a relação de cada cidadão deste país, independentemente da sua origem ou da sua idade, com os esportes de natureza. Os pescadores e caçadores esportivos têm feito a sua parte, levando adiante a tradição e atuando como uma das maiores forças da Nação na defesa dos ambientes selvagens.

Para além do aspecto da valorização de antigas tradições, os esportes de natureza sustentam milhões de empregos. A caça e a pesca são responsáveis por um segmento essencial dessa indústria, incentivando o turismo, fortalecendo a economia nacional e financiando programas de conservação com a compra de licenças de pesca ou iniciativas  como o Selo do Pato (uma das mais antigas e eficazes iniciativas de arrecadação de fundos entre caçadores para a compra e preservação de banhados).

Neste dia, enquanto refletimos sobre a valorização que a caça e a pesca trazem para nossas vidas – do reforço dos laços de família à renovação do nosso apreço pela natureza – vamos tratar de garantir que as futuras gerações terão a mesma oportunidade que nós de desfrutar essas experiências.

É por tudo isso que eu, Barak Obama, Presidente dos Estados Unidos da América, pela autoridade que me é investida pela Constituição e pelas leis deste país, proclamo o Dia 28 de Setembro de 2013 como o Dia Nacional da Caça e da Pesca Esportivas. Convoco todos os cidadãos a honrar este dia com programas e atividades apropriadas à data.

E para tanto assino neste 27º dia de setembro do ano do senhor de 2013 e no 238º ano da Independência dos Estados Unidos da América.

BARACK OBAMA

É graças a esse espírito e às políticas que dele decorrem que os Estados Unidos da América, a maior economia do mundo com seu território plenamente integrado ao processo de exploracão econômica, é também o país/continente com a maior área de ambientes selvagens preservados em proporção ao todo, mais que a própria África, e com populações de fauna nativa, especialmente as espécies mais caçadas, frequentemente maiores que as que se calculava que existiam na época do descobrimento.

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Enquanto isso, no Brasil…

(reproduzo o artigo “Enquanto as florestas ardem” que escrevi em março de 1999 para o extinto Jornal da Tarde; avalie você mesmo se algo mudou para melhor desde então)

Segundo a revista Nature, a área devastada na floresta amazônica pode ser o dobro dos 16,8 mil quilômetros quadrados calculados pelo Inpe.  Esta é apenas a última das sucessivas notícias de recordes de destruição da natureza reproduzidas anualmente na imprensa brasileira.  Não obstante, nem o governo nem as ONGs que integram o Conama, sem o beneplácito das quais nada acontece em matéria de política ambiental no Brasil, se rendem ao clamor desses resultados.  Os ambientalistas de gravata voltam às suas pranchetas e, com suas assessorias jurídicas, produzem uma nova catadupa de leis violentas e inúteis e os políticos se apressam em aprová-las.  E todos vão dormir com a consciência tranqüila enquanto as motosserras cantam e a floresta insubstituível arde.

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Tem uma força irresistível, como se vê, o fenômeno que tanto impressionou Warren Dean, autor de A Ferro e Fogo, Uma História da Destruição da Mata Atlântica, que é na verdade uma história da violência do desenvolvimento econômico brasileiro, de nossa renitente aversão à ciência e dos raros quixotes que, ao longo de nossa história, tentaram provar as vantagens dela sobre o preconceito, que, como já dissemos aqui, mais de uma vez, deveria ser adotado como livro obrigatório em todas as escolas do Brasil.

O que vai levando à irremediável perda do último ecossistema ainda em condições de ser conservado no Brasil e no planeta são, muito mais do que a ignorância e a brutalidade dos agentes diretos desse crime, o empedernido apego aos preconceitos e a recusa deliberada da ciência, da técnica e até da prova do ensaio e do erro, cuja descoberta levou o homem a dominar o planeta, por parte daqueles que, em posição de reformar o

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distorcido direcionamento das políticas ambientais brasileiras, insistem na mesma linha que vem fracassando há 499 anos ininterruptos, mesmo estando de posse de amplo conhecimento de tudo que, no resto do mundo, produziu resultados positivos no sentido da conservação ambiental.  A tal ponto que, a esta altura, nos perguntamos se, em boa parte dessas organizações, não estará morto o ideal em nome do qual elas foram criadas, e traídos os heróis da luta pela implantação de uma consciência ambiental no Brasil que as puseram em pé, tendo tomado seu lugar o apego ao poder e às luzes da mídia e, em alguns casos, também o amor ao dinheiro, que flui com disposição tanto maior, de contribuintes bem-intencionados de todo o mundo, quanto mais dramáticos forem os relatórios da destruição.  E isto porque a única ação dessas organizações que produz resultados concretos (novos aportes de fundos) é a elaboração desses relatórios, invariavelmente mais dramáticos do que o último, no que, ao mesmo tempo, correspondem à realidade e denunciam a completa inocuidade da ação dos que os subscrevem para deter a destruição.

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Para conseguir deter essa destruição, sabem as ONGs, sabe o governo brasileiro, sabe o mundo todo, só há um caminho, nesta sociedade humana, cuja característica principal e cada vez mais dominante é a de ser economicamente dirigida em tudo que faz ou deixa de fazer. É a pressão econômica que destrói os ecossistemas.  E só uma pressão econômica mais forte poderá salvá-los, como intuiu Theodore Roosevelt há exatos 100 anos.  Hoje, neste mundo poluído onde o mercado é a força onipresente e incontestável e os espaços abertos e a natureza intacta têm o valor que ele atribui a tudo que é raro, a intuição de Roosevelt se transformou numa realidade pujante que, em toda a parte, com a única exceção do Brasil, emprega, educa e rende, enquanto vai resgatando ecossistemas da sanha de madeireiros e outros predadores, para reformá-los e devolvê-los à natureza.

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Associada à técnica e à ciência, que só ela pode produzir e sustentar, a economia dependente da conservação ambiental tem produzido milagres em todo o planeta.  O tamanho esmagador dos recursos que se levanta, ano a ano, com o turismo, cada vez mais disputado, ligado à caça e à pesca esportivas – o mais diretamente dependente do bom manejo da fauna e da flora, objetivo central de qualquer política ambiental digna desse nome – e a outras formas de turismo ecológico – que, sem a caça e a pesca, não se interessa senão por sítios de menor importância ambiental e maior apelo visual – levou, há muito tempo, à superação da discussão sobre o melhor retorno econômico dos espaços em disputa por outras formas de exploração.  A vantagem dessas formas de exploração ambientalmente positivas é uma realidade esmagadora, e essa indústria avança rapidamente, em todo o planeta, com exceção do Brasil, restituindo à natureza áreas antes ocupadas pela agricultura, pela mineração ou pela exploração madeireira, infinitamente menos rentáveis.

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O governo brasileiro e as organizações de ambientalistas estão cansados de saber disso.  Seria impossível que não soubessem, dada a abundância de informação a respeito em todas as mídias do planeta e à infinita multiplicação dos casos de sucesso.  Mas aquilo que ninguém discute no resto da Terra continua sendo tabu no Brasil, continua sendo proibido por lei apesar do resultado catastrófico de nossa insistência no errado.  Na verdade, o foco da resistência está hoje nas organizações ambientalistas que se deixaram seduzir pelos apelos do poder e pelo jogo de cooptação que se pratica em Brasília, e trocaram as botas e barracas pelos ternos e gravatas.

É um fato notório que, em todas as áreas técnicas de todos os órgãos ambientais federais e estaduais do País, existe a convicção de que não há saída para a tragédia ambiental brasileira fora da que o mundo inteiro encontrou.  Falta, apenas, coragem política para enfrentar a resistência preconceituosa de algumas ONGs com assento no Conama que, indiretamente, ajudam a sustentar a corrupção que grassa nas camadas políticas dos órgãos ambientais, e os batedores de caixa que os sustentam na mídia mais desinformada (especialmente na tevê).

E, enquanto isso, as motosserras cantam e as florestas ardem, à espera de que amadureça o movimento ambiental brasileiro.  Dará tempo?

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A Mata Atlântica e os Ciclos da Vida

26 de março de 2013 § 22 Comentários

O Filme

A Mata Atlântica e os Ciclos da Vida

26 de março de 2013 § 21 Comentários

O Filme

O Texto

cucsFoto FLM

A pedido de telespectadores reproduzo o texto do roteiro do documentário A Mata Atlântica e os Ciclos da Vida que filmei em 2006 e acabei de escrever em 2007

Mata Atlântica. Peça fundamental do sistema de reciclagem da atmosfera terrestre. Avó das florestas do mundo, resistiu a duas eras glaciais. Cobria grande parte do litoral atlântico das Américas Central e do Sul. Hoje está reduzida a oito por cento do que já foi.

Sua beleza misteriosa remete à idéia de paraíso perdido. Parece a Terra antes que o homem começasse a modificá-la. Mas, é preciso resistir ao mito! Viver é muito perigoso! Viver sempre foi muito perigoso!

jequitiba 1Foto João Lara Mesquita

(…)

Neste cenário intrincado, onde se deixar ver quase sempre significa a morte, não se vêm coisas; só se vê movimentos. Mas, aí começa o problema: para crescer e se multiplicar, é preciso se mover…

(…)

Quando chega a primavera, o macuco sente a necessidade de atrair um parceiro para a procriação. Mas o chamado para perpetuar a espécie é o mesmo que atrai o predador que pode acabar com ela.

Do outro lado da floresta ele provoca uma resposta. É o anuncio do inicio de uma marcha que nenhum risco poderá deter. Aqui, segurança é sinônimo de imobilidade e silêncio. Mas o instinto de perpetuação da espécie é mais forte que o de preservação. Assim, o chamado vai ser retomado e respondido num longo diálogo que orientará a travessia da floresta pelos dois macucos e por seus predadores, até o encontro final entre dois deles.

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(…)

Mas nossa história começa muito longe daqui. Os primeiros sinais de vida na Terra registram-se há cerca de 3 bilhões de anos. Onze bilhões já se tinham passado desde a grande explosão que criou o Universo.

Em algum momento desse passado distante, a vida se divide em duas correntes de desenvolvimento. Uma, segue o caminho das proteínas e gera o mundo móvel dos animais, de onde vem o Homo sapiens. Hoje, seis e meio bilhões deles tentam viver do planeta Terra…

Outra toma a forma dos carboidratos e dá origem ao reino menos móvel das plantas. A certa altura, elas ganham os frutos e as flores. E isso sela o casamento entre o mundo animal e o vegetal.

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Entram em cena os “agricultores alados” ocupados em trocar néctares e frutas pelo transporte de sementes e pólen. E então, as florestas cobrem o mundo e aceleram a reformulação da atmosfera terrestre.

Nós mesmos só passamos a existir porque as florestas fabricaram um ar que podemos respirar e que nos protege dos efeitos mortíferos da luz não filtrada do Sol.

A Mata Atlântica não está onde está por acaso. Cresce por baixo deste grande regador de Deus que é permanentemente alimentado pelo ar úmido que vem do mar. Este ar bate na serra, sobe, condensa-se com a temperatura mais baixa e volta em forma de chuva.

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Existem mais tipos diferentes de formas de vida aqui do que em todos os outros ambientes da Terra.

Por que?

A floresta é um organismo vivo. Nada, aqui, é igual ao que foi ontem. Tudo está em evolução…

É a luta pela luz que molda o mundo vegetal. Nesta região de vales e montanhas, com faces apontadas para todos os quadrantes, há um regime de incidência de luz diferente quase para cada metro quadrado de chão.

Isso cria diversos “nichos de mercado” que exigem das plantas diferentes estratégias de captação.

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Foi através de ensaio e erro, adaptação ou morte, que cada tipo de vegetação aprendeu a encontrar a configuração adequada ao seu lugar na floresta. A longo prazo, esse esforço de adaptação foi conduzindo a novas espécies.

Os gigantes da Mata Atlântica precisam da luz direta do sol. Por isso, aprenderam a investir toda sua energia no crescimento. Vão retas para cima, sem se preocupar com o desenvolvimento de galhos e folhas inúteis. Só depois de alcançar o dossel é que vão tratar de engrossar.

Tomando carona nelas estão as epífitas. Milhares de variações. Algumas têm sementes dispersas pelo vento. Outras são levadas de árvore em árvore pelos pássaros. Tudo isso — sua forma, sua localização e sua tática de reprodução — foi “aprendido” num longo processo de evolução.

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Na sombra do segundo andar, palmeiras e samambaias produzem folhas quase transparentes, umas por cima das outras. Assim, a luz que passa por uma é absorvida pela outra.

As trepadeiras buscam apoio em qualquer coisa que as leve para mais perto do Sol. Distribuem suas folhas de modo que uma não faça sombra sobre a outra e consigam captar luz a qualquer hora do dia.

Algumas plantas arbustivas produzem repelentes de insetos. Outras não. Investem na produção de folhas, sem se preocupar com estratégias de defesa. Deixam-se comer e produzem mais e mais folhas para substituir as estragadas.

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Lá no chão, grandes painéis são necessários para a captação da pouca luz que chega. Dispensadas de carregar peso, as rasteiras priorizam o armazenamento de água em caule e folhas com grande densidade de líquido.

As oportunistas, como embaúbas e bambus, têm sementes leves que se espalham por toda a parte. Havendo sol, germinam. Antes, aproveitavam a insolação das margens dos rios ou funcionavam como “cicatrizantes” dos “canyons de luz” abertos pela queda de grandes árvores. Com as derrubadas, estão cada vez mais presentes…

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A forma das árvores conta a história de cada trecho da floresta. O regime mais racionado dos espigões; o excesso de água das baixadas; os anos de seca ou de chuva abundante, ficam registrados nos meandros mais ou menos tortuosos dos seus galhos.

Plantas inclinam-se sobre o “vão livre” dos rios.

A queda de uma grande árvore, abrindo uma nova “janela de luz” no “teto” da mata, desvia o rumo anterior do crescimento de suas vizinhas.

Gigantes da floresta debruçam-se sobre as encostas para alcançar um buraco no dossel. São massas enormes que se deslocam; complicados jogos de peso e contra peso, o que requer amarrações especiais das raízes para que elas se mantenham equilibradas

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Como as pessoas, as plantas também ficam marcadas pela história de suas vidas e pelo ambiente onde ela transcorreu.

(…)

Com os demais seres vivos, também é assim: a necessidade e a floresta vão desenhando os animais que, por sua vez, vão redesenhando a floresta.

Necessidades de defesa; diferentes estratégias de alimentação e acasalamento levaram ao desenvolvimento de capacidades especiais de visão; à adaptação de formas e cores ao ambiente; a formas diversas de vocalização; ao desenvolvimento de aptidões físicas especializadas; ao domínio dos diferentes níveis da floresta por diferentes espécies animais.

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Nos beija-flores, o coração é quase um terço do peso total da ave. É o motor necessário para sustentar as altíssimas rotações em que essas pequenas máquinas funcionam.

Já Zabelês, guaçus, urus e macucos se adaptaram bem à vida no chão, onde encontram comida com mais facilidade. Neste ambiente cheio de obstáculos, o vôo passou a ser um recurso só para emergências. E o corpo dessas aves foi mudando…

O macuco é a ave que tem a menor relação entre tamanho do coração e volume do corpo. Mas, aqui embaixo, há ainda mais predadores que lá em cima. Assim, ele teve de se transformar num mestre da sutileza e do cuidado.

Estudos indicam que até o seu pio pode ter sido alterado, ao longo da evolução, para aumentar seu arsenal de medidas defensivas. Hoje, ele se propaga de tal forma que só outro macuco consegue localizar, com precisão, de onde ele partiu. É mais um poderoso recurso para despistar seus predadores.

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Plantas ou animais, a lei é a mesma: adaptação ou morte. Assim, foi sendo estabelecido quem viveria em que parte da floresta. O chão é dos muito atentos ou dos muito fortes. O nível médio — a vida no labirinto dos troncos e dos galhos — requer agilidade e leveza. Lá em cima, no mundo das extremidades flexíveis das folhas e dos frutos, “braços extras” precisaram ser desenvolvidos. E os predadores de cada grupo, em processo paralelo de evolução, foram adaptando seu porte e suas aptidões para continuar atuando sobre eles.

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Outro recurso que não se despreza, no permanente desafio da luta pela vida na Mata Atlântica, é a escuridão. É à noite que a floresta ferve na busca de sexo e comida pela maior parte dos seus habitantes. Todos desenvolveram visão noturna melhor que a do homem. Mas, como conseguem se orientar quando a escuridão é total?

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O chão da floresta é todo cheio de caminhos. Alguns animais usam sempre os mesmos, de dia e de noite. Eles passam diariamente por eles e vão limpando o trajeto de pequenos obstáculos. Esses “carreiros” passam também a ser “trilhas de cheiro”, através das quais eles podem se orientar no escuro.

Mas o que será que acontece no pânico da fuga? Eles fogem pelos carreiros ou a descarga de adrenalina dispara corridas cegas pela noite, aos trancos e barrancos?

Mistérios da Mata Atlântica…

Mas, nem todos estão suficientemente aparelhados para enfrentar a escuridão. Quando a noite cai, o macuco trata de buscar proteção.

É o momento em que todos se manifestam, para marcar território.

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Como todo mundo, na natureza, o macuco leva uma vida de fugitivo. No poleiro, evita até evacuar para não denunciar sua posição. E precisa mudar de endereço constantemente.

Lá no alto, sua segurança é relativa. Aqui todos os predadores sabem subir em árvores. Assim, pode-se até fazer barulho por baixo do poleiro sem que o macuco reaja. Mas, qualquer toque na árvore desencadeia a fuga…

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Na sombra do chão da floresta a oportunidade de reprodução das plantas pode levar muito tempo… Por isso, muitas evoluíram para armazenar energia em torno de suas sementes, desenvolvendo frutos polpudos. Essa polpa não tem papel direto no processo de multiplicação da planta. Serve só para prolongar a vida das sementes até que encontrem as condições ideais de germinação e também para atrair os animais que vão carregá-las para pontos mais distantes.

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Só as plantas de sementes leves, “aero-transportáveis”, reaparecem nas matas que não têm contato direto com matas mais antigas. As de sementes pesadas não conseguem mais migrar até elas. Por isso correm maior risco de extinção.

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Por baixo do que está à vista, existe um outro mundo de enorme diversidade. Alem dos milhões de bactérias invisíveis, existe mais variedade de fungos aqui, do que todas as plantas da Mata Atlântica e dos outros biomas brasileiros somados. Eles são formas de vida super especializadas. Cada grupo ocorre apenas em um determinado segmento da planta.

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Há também os especialistas em decomposição. Mas, a maioria dos fungos ajuda as plantas a viver e se proteger. Eles são atores coadjuvantes essenciais a todas as funções vitais da planta.

Pode estar neles o segredo da longevidade ou a solução para inúmeras doenças ainda incuráveis.

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A fome impõe disciplina ao mundo animal. Como os que estão sendo caçados só continuam a existir porque sabem fugir dos que os estão caçando, não há almoço grátis… Também na natureza, é preciso trabalhar muito para comer. E quem fracassa por muitos dias nessa tarefa, vai enfraquecendo até se transformar num candidato preferencial a ser caçado. Caçar e ser caçado está no código genético de todos os seres vivos; o homem inclusive…

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A evolução tratou de atrelar a capacidade de multiplicação de cada animal à sua posição na cadeia alimentar. Na base estão os mais caçados. São os que produzem as maiores proles e também os mais “descuidados” com a sua proteção. Já, os animais com baixa taxa de multiplicação tendem a ser os mais esquivos. Como as pacas, que só saem de suas tocas nos períodos de mais completa escuridão.

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Morte e transformação: é esta a essência da receita da vida. Existe uma cadeia alimentar, da qual todos os seres vivos fazem parte. É ela, que mantém as populações em equilíbrio. Os organismos produtores, as plantas, fabricam seu próprio alimento. Os consumidores, herbívoros ou carnívoros se alimentam de plantas ou de outros animais.

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Existem os carnívoros secundários, os terciários e adiante, que se alimentam, até, de outros carnívoros. E acima de todos, junto com os porcos e as aves de rapina, estamos nós, os onívoros, que comemos tanto organismos produtores quanto consumidores.

À espera de todos, estão os decompositores. Insetos, bactérias e fungos que desagregam as moléculas que, um dia, compuseram os corpos destas plantas e animais mortos. Eles as devolvem à terra para que possam ser reabsorvidas por plantas e animais vivos.

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Nada se perde; tudo se transforma.

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Em ação paralela, os componentes inertes do sistema estão passando por processos de reciclagem que vão transformá-los em elementos que poderão ser utilizados na continuação da vida. Cada pequeno córrego que corta a grande muralha da Serra de Paranapiacaba é um ramal do sistema de captação das águas produzidas pelos ciclos de evaporação e chuva que sustentam a exuberância vegetal da Mata Atlântica.

O trabalho persistente da água roçando a terra vai comendo barrancos, solapando raízes, derrubando árvores e, aos poucos, escavando o perfil geológico da floresta. É através deles que vai começar a corrida dessas águas em direção ao mar. Ela mói e carrega, ano a ano, pedras, terra, restos de vegetais e animais, que alimentam outros seres vivos ao longo do caminho. Depois de descer a serra, esses detritos, reduzidos a pó, vão abastecer os oceanos de nutrientes para o fitoplâncton, elo primário da cadeia alimentar. E todo o ciclo recomeça…

São Sebastião Unit, Brazil.

Tudo acaba sendo reduzido às mesmas partículas essenciais, que se articulam e rearticulam de infinitas maneiras. Isso quer dizer que alguns átomos de carbono que compõem a pele desta mão podem, algum dia, ter feito parte de uma folha, da carcaça de um dinossauro ou até mesmo de uma pedra…

Um dia, esta mesma pele vai voltar para a terra, para ser transformada em alguma outra coisa.

Sem estes ciclos de transformação e reciclagem o planeta se transformaria numa grande lata de lixo.

(…)

Não é só a Mata Atlântica. Tudo à nossa volta está em evolução. Os próprios continentes já andaram navegando pelo globo…

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O sertão, de fato, já foi mar, e o mar já foi sertão. O que um dia foi trópico hoje está próximo dos pólos. O Norte já foi Sul e o Leste já foi Oeste…

Mata Atlântica, campos, cerrados, hiléia amazônica, tundra canadense, desertos da Mongólia; tudo é uma coisa só. E a própria Terra está inserida num grande “ecossistema” intergaláctico, onde cada peça é essencial ao equilíbrio do todo.

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A criação dos macucos começa entre os meses de agosto e novembro. É o início da primavera, quando a oferta de comida aumenta muito. As primeiras chuvas rápidas começam a devolver a cor à mata. Com a seca, termina também o silêncio dos meses do outono e do inverno. A floresta vai se encher de cantos diversos, anunciando a temporada de acasalamento.

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Depois daquela travessia tão cheia de perigos, aquele namoro, que começou lá naquela primeira troca de pios, termina num momento sublime.

O canto de trêmula satisfação da fêmea

recém coberta, que ficou para traz…

(…)

A floresta está toda dividida em territórios delimitados. Existe uma espécie de lei econômica que rege a sua ocupação pelos diferentes animais e plantas. Pássaros, répteis e mamíferos de todos os tamanhos convivem numa mesma área, em grupos contados de machos e fêmeas. As quantidades são estabelecidas pela disponibilidade de comida e pelas táticas de reprodução. Qualquer invasor da mesma espécie que entre em território alheio é rechaçado de imediato…

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O direito de procriar é exclusivo dos mais fortes. Para garantir trocas genéticas, as crias de cada espécie se misturam às dos territórios vizinhos para formar novas famílias.

Menos de 30 hectares podem bastar para uma família de macucos. Outros mamíferos e predadores ocupam territórios maiores, sobrepostos aos dos pássaros e animais de menor porte…

Uma irara pode requerer um território de caça de mais de 20 km². Já uma onça pintada, o maior predador das Américas, pode andar mais de 40 km, numa única noite, atrás de presas e parceiros.

(…)

Em ambientes ecologicamente saudáveis, o aumento da população de uma espécie aumenta também o número de seus predadores.

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Esse mecanismo, que condiciona o tamanho das populações à capacidade da área em que elas vivem de repor, num ciclo anual, o que é necessário para sustentá-las, é que define o conceito de sustentabilidade.

(…)

O ato do acasalamento do macuco é apenas o prenúncio dos mais de 40 dias de pesadelo que vão se seguir.

Para aumentar as chances de perpetuação da espécie, é o macho que choca os ovos. Depois de construírem o ninho juntos, a fêmea sai a procura de um novo parceiro para garantir mais uma postura. Ele vai permanecer 19 dias sobre os ovos, saindo apenas uma vez por dia para se alimentar. Nos últimos dias, nem isso vai fazer. E durante esse tempo todo, vai ficar exposto, dia e noite, aos predadores. E, as ameaças serão muitas…

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Qualquer contato visual ou movimento suspeito muito próximo fará com que ele abandone definitivamente o ninho.

Se sobreviverem, entre o 19º e o 20º dia, os ovos serão picados e os filhotes nascerão.

Na ultima noite, o quarto filhote finalmente pica o ovo e sai da casca. Agora a família está completa. Mas o perigo será redobrado.

O esforço da procriação impõe um reforço na alimentação. Por isso, de insetos a carnívoros, a ação predatória chegará ao auge neste período em que pais e filhotes estão mais vulneráveis. Ninguém é poupado…

Agora vão ser mais 20 dias no chão, numa corrida contra o relógio, até que os filhotes cresçam o suficiente para conseguir voar, ainda que seja até um poleiro baixo. Se algum deles falhar nesse primeiro vôo, dificilmente sobreviverá.

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(…)

Até há 60, 70 anos, ainda sobrava Mata Atlântica bastante para que a chegada de bandos de milhares de jacutingas que migravam todos os anos entre o Sul da Bahia e o Norte da Argentina fizesse parte do calendário de festas de diversas populações do litoral brasileiro.

Como vinham fazendo há 50 milhões de anos, elas acompanhavam as temporadas de produção das diversas fruteiras do mato que, com as variações de latitude e temperatura, cobriam o ano inteiro.

Hoje, com a Mata Atlântica confinada a pouco mais que trechos da Serra do Mar de São Paulo e Paraná, as jacutingas estão limitadas a migrações entre o nível do mar e o Planalto, onde as variações de altitude e temperatura distribuem o período de frutificação por alguns meses do ano. Podemos ser a ultima geração a conviver com elas…

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(…)

O resto da criação vive das florestas e trabalha para a sua manutenção. O homem vai na direção contrária. Nunca houve o “bom selvagem”. O que a ciência indica é que há 4 mil gerações, o fogo tem sido o principal instrumento de interação entre o Homo sapiens, ele próprio um produto das savanas, e as florestas.

Há apenas 13 mil anos, nossos ancestrais estavam domesticando as 12 espécies vegetais e 5 animais com as quais, até hoje, atendemos mais de 80% das nossas necessidades. Desde então, vimos empurrando tudo o mais que vive no planeta para abrir espaço apenas para aquilo que elegemos para nos sustentar.

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A penicilina foi o golpe de misericórdia. Libertou-nos de vez da lei de seleção natural. A partir daí, o homem passou a se multiplicar nas proporções de uma praga. E cada nova vitória da medicina piora a situação.

É este o grande paradoxo da condição humana: quanto maior o sucesso do nosso desempenho como espécie, maior será a ameaça que pesará contra a continuação desse sucesso.

Não há respostas fáceis para esse dilema. Com ou sem um discurso “verde”, o problema ambiental é cada um de nós. É o espaço que ocupamos no planeta, usurpado de todos os outros seres que, junto conosco, atravessaram os milênios e venceram as infinitas armadilhas da evolução, para conquistar o direito de continuar vivos, aqui e agora.

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Na crescente solidão da paisagem uniforme de que nos vamos cercando, temos trabalhado como loucos para destruir o sistema que tornou a nossa própria existência possível.

Mas romantismo e ações policiais pouco poderão fazer para reverter esse quadro. Os abatedouros industriais e a comida sem sangue dos supermercados não anulam a nossa condição essencial, de presas e predadores que continuamos fazendo parte da mesma cadeia alimentar que sempre amarrou uns aos outros todos os seres vivos e vem sustentando a renovação dos ciclos da vida.

Mas nós somos, também, o único animal que pode mudar o seu próprio destino…

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Para que possa frutificar, esse nosso propalado amor à natureza tem de ser integralmente consumado. Temos de nos reeducar para voltarmos a ter intimidade com aquilo que resta dessa natureza essencial. Temos de reviver o ritual da nossa relação orgânica com o resto da criação. Temos de reaprender com ela a aplicar mecanismos econômicos para induzir a distribuição de espaço e populações de forma sustentável.

Talvez isso nos de tempo para negociar com ela algum tipo de reconciliação, antes que ela nos imponha a sua própria solução, com a força e a indiferença daquilo que é eterno.

(…)

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No pouco que resta do mundo como Deus o fez, as coisas seguem sendo como nunca deixaram de ser. Na disputa por um lugar num espaço que sempre foi limitado, cada vitória tem de ser arrancada dos braços da morte, e requer o uso de aptidões conquistadas durante milênios de evolução.

Mais uma vez testadas, essas aptidões filtraram a nossa família de macucos, até que sobrassem apenas os mais preparados.

Agora, tudo recomeçará, cada um por si, como foi desde sempre, e como continuará sendo, se sua majestade o homem assim o permitir.

fff

Em busca da vaca anaerofágica, ou, Eu não disse que eles não eram sérios?

5 de junho de 2012 § 4 Comentários

De uma olhada na postagem anterior.

Foi só eu falar e a prova veio a cavalo.

Não, não é uma alusão ao cavalinho do símbolo de O Estado de S. Paulo que publicou esta pérola. Com pouquíssimas exceções condenadas aos guetos, a imprensa inteira se põe de quatro e passa a ruminar assim que alguém pronuncia as palavras mágicas “aquecimento global”. E não é só no Brasil.

Eu sei de fonte segura que aqui e ali, dentro das redações que hoje só contratam corredores de revezamento, ainda há um ou outro sujeito que raciocina. Mas, em geral, estão disfarçados. Não têm fome de capim mas se atiram ao assoalho sobre os dianteiros e imitam os demais por medo de perder o emprego porque, com esse negócio de religião, sempre foi um perigo mexer.

O fato é que ha uma má consciência geral e a humanidade em peso acha secretamente que está merecendo o fogo do inferno. E havendo demanda…

Os cientistas e os funcionários desse tipo de banco dispensado de fazer dinheiro, como este senhor Walter Vergara, chefe da Divisão de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade do Banco Mundial (BID) que falou ao Estado, pelo menos são pagos para apresentar o seu numero.

Os jornalistas nem isso. Stulticia gratia stulticia. Menos mal…

A brincadeira que proponho é assim: em azul, sublinho frases do jornal e de seu entrevistado; (em vermelho) faço os meus comentários ao trecho. E você decide se eu tenho ou não tenho razão.

Segue então a integra das perguntas e respostas publicadas pelo Estado, escoimadas do “nariz de cera” que esse jornal ainda insiste em querer nos fazer engolir, repetindo nos primeiros quatro ou cinco parágrafos de qualquer entrevista que publica tudo que o entrevistado em pessoa vai dizer nos quatro ou cinco parágrafos seguintes. (Eles ainda hão de conseguir se curar dessa gagueira…)

Cabe registrar, antes de começar, que a Comissão Econômica da América Latina e do CaribeCepal, e o World Wildlife FundWWF, também endossaram o relatório aqui comentado que será apresentado nesta terça-feira, 5, em Washington e no dia 20 na Rio+20, no Rio de Janeiro.

Mas, mesmo assim, o pulso (do meu cérebro) ainda pulsa.

Vamos lá?

Custo do aquecimento global na

América Latina é de US$ 100 bi ao ano, diz BID

Fernanda Bassette – O Estado de S. Paulo

1 – O relatório aponta as perdas de US$ 100 bilhões por ano. De que forma chegaram a essa conclusão?

O relatório fez uma avaliação da literatura científica que identificou os diferentes impactos físicos. E conseguimos também na literatura fazer uma relação entre os impactos físicos e custos associados.. Para alguns impactos conseguimos as informações na literatura, para outros nós fizemos os cálculos. A novidade do estudo consiste em que pela primeira vez temos feito um cálculo de muitos impactos físicos, utilizando uma metodologia similar e colocando os custos financeiros em uma moeda que possa ser comparativo. Os custos foram calculados para dólares. Em resumo, fizemos uma avaliação de todo impacto físico com base na literatura e colocamos tudo em uma forma que fosse compatível para toda região.

2 – Quanto tempo demorou o levantamento?

Não demorou muito. O relatório começou a ser feito em dezembro de 2011 e conseguimos finalizá-lo agora, no início de junho.

(Repararam no detalhe? O tal “estudo” do banco consistiu em compilar a lista de ameaças constante “na literatura existente” sobre aquilo que continua sendo apenas uma hiper controvertida hipótese a ser confirmada daqui a 100 anos, e calcular todos os valores aventados nessa “literatura” em dólares pra que todo mundo possa fazer a sua própria conversão.

Agora, pense um minuto: que banco, senão um que não tenha de se preocupar em sobreviver num mercado competitivo, poderia se dar o luxo de manter, desde já, uma divisão inteira “de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade” que talvez, e apenas talvez, venham a ocorrer daqui a 100 anos? E como justificar tal emprego e mais os dos autores da tal “literatura” senão, como este chefe de divisão que O Estado entrevista, fazendo acreditar a qualquer custo que tal hipótese de fato se realizará?)



3 – Os dados serão apresentados na Rio+20?

Sim, será apresentado no dia 20 de junho na Rio+20, num evento especial no Hotel Barra Windsor, às 9h.

4 – O relatório aponta que os investimentos em adaptação significariam 10% dos prejuízos de US$ 100 bilhões ao ano. Que tipo de ações seriam necessárias para reduzir os impactos ambientais?

Depende dos impactos. Por exemplo: o derretimento dos glaciares, nos Andes, trazem um prejuízo financeiro muito alto para as populações locais. Mas o derretimento pode ser compensado com algumas ações de adaptação para conservar a retenção da água no solo, nas montanhas, e também a construção de reservatórios de altura para aumentar a capacidade de armazenamento dessa água. No Brasil, temos um problema muito grave que é a perda de capacidade dos reservatórios hidroelétricos.

(Mas apesar da pertinente ressalva, o sr. Vergara já sabe que, sejam quais forem os impactos de daqui a 100 anos, as “adaptações” para preveni-los desde já importarão em apenas 10% do total dos prejuízos que haveria se a hipótese se confirmasse um dia…)


5 – O estudo inclui uma avaliação dessa perda, e haverá uma perda da capacidade de geração de eletricidade. O que pode ser feito?

Se você não faz adaptação, os impactos físicos vão repercutir num prejuízo de disponibilidade de energia elétrica no Brasil. Nesse caso, uma medida de adaptação muito simples é trabalhar em bacias altas, acima dos reservatórios, fazer reflorestamento, conservar os bosques nessas áreas para que eles consigam reter a água e diminuir o impacto físico da perda de energia firme. Se você consegue conservar os bosques e reflorestar nas partes altas, você consegue diminuir a velocidade de escoamento das águas. Quando chove muito forte a água vai transbordar, não vai ter capacidade de armazenamento adequada, e com a conservação dos bosques você consegue diminuir o escoamento e armazenar no solo. Isso aumenta a capacidade dos reservatórios de manter a água para geração de eletricidade. Com a mudança climática, tem chuvas muito intensas. Essa água escorre e chega no mar rapidamente.

(Não vamos nos deter nos pormenores porque apenas os absurdos e contradições contidas nesta resposta dariam para encher toda a memória que me resta no WordPress. Fiquemos só com essa “adaptação muito simples” que requer, além, é claro, do principal de que nunca se fala que é prescindir de alguns pares de bilhões de seres humanos que disputam esse espaço para plantar sua ração, substituir-se à natureza e “plantar e manter bosques” nas áreas onde eles mais fazem falta como, por exemplo, o semi-árido nordestino, que já levava esse nome, não por acaso, alguns séculos antes do BID ou da primeira industria no Brasil existirem…)

6 – Esse tipo de ação é suficiente para diminuir o impacto do aquecimento?

O aquecimento vai acontecer. O que você precisa é se adaptar com medidas de ação para diminuir o impacto físico. Tem outras medidas de adaptação que talvez sejam mais fáceis de discutir. O aumento do nível do mar, por exemplo, vai ter um impacto em toda a costa do Brasil e da América Latina porque vai atingir cidades costeiras e estradas que ficam ao lado do mar. Muitas áreas poderão ser inundadas. O que fazer? São duas opções: você pode planejar a longo prazo e fazer novas obras de infraestrutura terra adentro, mais longe do mar. É uma medida de adaptação que vai prevenir prejuízos futuros.

Mas você pode dizer que não pode mudar uma cidade, nem mudar o local de uma rodovia. Outra medida seria construir uma defesa física para que essas cidades ou essas rodovias não sejam afetadas pelo aumento do nível do mar.

(“O aquecimento vai acontecer” ou o departamento que chefio no banco teria de desaparecer, deveria ter completado o sr. Vergara. E faltou lembrar  também que, na feliz hipótese disso tudo vir a acontecer, “vai acontecer” num montante de 2 graus a mais na média da temperatura do planeta e daqui a 100 anos. As providências “simples” que ele recomenda, contudo, devem começar a ser tomadas já…)

7 – Que tipo de defesa física, por exemplo?

Bom, a rodovia poderia ser levantada. Ficar mais alta. A cidade é muito mais complexo e vai precisar de defesas físicas como está acontecendo na Holanda, por exemplo, onde temos barreiras de contenção para impedir a entrada do mar na cidade. Isso possivelmente vai ser necessário por aqui.

(A Holanda, não custa lembrar, passou a existir com o tamanho que tem hoje porque roubou certas baias ao mar que sempre esteve onde está hoje, muito antes de haver qualquer “emissão de carbono” a custa de queima de petróleo ou qualquer outro “culpado” pelo aquecimento futuro definido “na literatura” em cuja infalibilidade o sr. Vergara acredita tão literalmente quanto um carismático acredita na Bíblia ou um fundamentalista islâmico acredita no Corão.)

8 – Se a América Latina e o Caribe contribuem só com 11% das emissões, por que são regiões tão vulneráveis?

Porque o aquecimento é um fenômeno global. Se um país produz muitas emissões, essas emissões vão afetar todo o planeta, não importa se estamos no Brasil ou no Vietnã.

9 – Quais são os principais prejuízos para esses países?

Um bom exemplo é a produção agrícola na América Tropical, Brasil, Bolívia, norte da Argentina. Todos eles vão sofrer com o aquecimento porque por um lado as condições climáticas mudam e a lavoura agrícola terá de se adaptar. Naquela área onde era possível plantar soja, por exemplo, terá de mudar e encontrar sementes que consigam se acomodar às mudanças de temperatura e umidade que vão ser resultado das novas condições climáticas.

(Nas respostas às perguntas 8 e 9 subjaz o ponto enfatizado na postagem anterior: a culpa não é nossa, é dos ricos que “emitem” muito mais. Nós somos só as vítimas que vamos pagar com a fome pela ganância deles. Um “eles” dentro do qual, diga-se de passagem, incluem-se também e principalmente os plantadores de soja e quejandos do pérfido “agronegócio”…)  

Os prejuízos são muitos e o relatório aponta essa queda de produção agrícola, queda da produção de energia elétrica, inundação das áreas costeiras, branqueamento dos corais, o derretimento dos glaciais. Muitos impactos físicos.

(E embora o desastre ainda esteja por acontecer, na melhor hipótese ao fim de 100 anos como diz a primeira frase da resposta à pergunta 6, os prejuízos já estão todos presentíssimos…

Felizmente para todos nós e especialmente para o sr. Vergara, o BID está aí vigilante, com todo o seu departamento gastando preventivamente no presente para garantir que pareça sempre iminente o possível desastre futuro.)

10 – Em quanto tempo acredita-se que haverá esse aumento do nível do mar?

A literatura científica conclui que nesse século o nível do mar pode aumentar mais de um metro, quase dois metros. Essa é a literatura mais recente. Então, quando vai acontecer ninguém sabe, mas nós esperamos o aumento de um metro ainda neste século.

(Assim como a Terra já esteve no centro do Universo e O Profeta reencarnará, e morte a quem discordar…)

11 – Em quanto tempo o senhor acha que esse investimento deveria ser feito para reduzir os danos?

A minha sugestão é que esses investimentos em adaptação tem de ser feitos o mais cedo possível porque o processo de adaptação toma muito tempo. Imagine um país como a Guiana, em que a capital está um pouco abaixo do nível do mar. Imagine que o nível do mar vai aumentar e se as pessoas que moram na área costeira desse país não se prepararem com antecipação, vão sofrer muito com as consequências. Os países têm de iniciar os processos de adaptação agora mesmo. Já. Ontem. Precisam planejar com muito tempo e identificar quais são as ações mais efetivas para reduzir os danos da mudança climática.

(É nada menos que comovente a pressa do sr. Vergara em salvar as nossas almas…)

12 – Mas esses países são mais pobres, estão em desenvolvimento. Como adequar esse tipo de investimento à realidade de cada país?

Os países da América do Sul e da América Latina em geral são países que têm muitas prioridades de investimento em saúde, educação, habitação, todas as coisas essenciais para o desenvolvimento. Esses países tem muitas necessidades nessas áreas. Os prejuízos da mudança climática serão uma demanda adicional para os poucos recursos financeiros que esses países têm hoje. Por isso esse é um desafio muito importante para o desenvolvimento futuro. Como colocar o dinheiro que tem muitos usos básicos nessas ações, o que podemos fazer? Eu não sei a resposta para essa questão, mas o que eu posso dizer é que sem o processo de adaptação os prejuízos serão ainda maiores.

Uma coisa muito importante para evitar prejuízos ainda maiores ao planeta como um todo é reduzir as emissões rapidamente. O relatório faz um cálculo dos custos financeiros associados à diminuição rápida de emissões na América Latina. E a gente calcula que será necessário investir outros US$ 110 bilhões por ano para reduzir as emissões da América Latina do estágio de hoje para 2 toneladas per capita para o ano 2050. O cálculo que a gente fez é a única forma para ter uma chance de manter a temperatura para não mais de 2º para cima da temperatura normal. Para que o planeta não se esquente (sic) mais do que 2º neste século. Para fazer esse esforço, para reduzir as emissões, a gente fez o cálculo e os países da América Latina teriam de investir US$ 110 bilhões ao ano – coincidentemente a mesma figura do prejuízo estimado, de ao redor de US$ 100 bilhões ao ano.

(Sentiram firmeza na precisão? Pois é…

É caro mas, fazêuquê?

E, claro, nem uma palavra sobre a causa de tudo, que é a superpopulação e sua consequência mais direta, mais triste e mais ameaçadora que é a redução da diversidade biológica. Muito menos criar no BID um Departamento de Educação para o Planejamento Familiar ou coisa parecida. Isso desconcentra o investimento e dificulta as mordidas nesse bolo. De modo que façam filhos que depois a gente vê…

Pra ficarmos só no folclore, enfim, o resumo é o seguinte: vamos continuar enchendo o mundo de vacas pra essa gente toda poder comer, mas vamos tratar de impedi-las de peidar.)

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