Agora eu entendi a Hillary

4 de maio de 2012 § 1 comentário

Chen Guangcheng, 40 anos, cego desde 1 ano de idade, cujo nome de batismo significa “Luz da Honestidade”, é um desses milagres da natureza que fazem a gente acreditar que a humanidade é viável, apesar de tudo.

Ele nunca pregou a derrubada do Partido Comunista nem pediu reformas políticas profundas. Limitava-se a entrar nos tribunais da China representando pessoas miseráveis, doentes, deformadas; o lumpen do lumpen do interior do país, sem esperar grande coisa em pagamento, para pedir que o regime cumprisse suas próprias leis.

Guangcheng pôs os pés numa escola pela primeira vez aos 13 anos. Foi o primeiro de cinco irmãos muito pobres a ter educação universitária. Formou-se massagista e acupuntrista numa importante escola de medicina da China porque esta era uma das poucas profissões autorizadas para cegos.

Mas, escondido, frequentava aulas de advocacia e estudava leis, a sua verdadeira paixão. Pessoas de sua família liam os textos para ele. Formou-se e foi à luta.

Desde então é tido quase como um santo pelos miseráveis da China.

Sua desgraça começou em 2005 quando organizou uma ação coletiva contra o governo de sua província para deter as operações de aborto e as esterilizações forçadas que estavam sendo impostas às mulheres da região como parte da “política do filho único”  do partido.

A corte recusou sua ação. E quando ele apelou para a imprensa internacional, foi posto em prisão domiciliar e condenado a 3 anos e quatro meses na cadeia.

O advogado que se prestou a defende-lo no julgamento, em 2006, passou a ser espancado na rua. Sua família também foi posta em prisão domiciliar e submetida a espancamentos e humilhações públicas constantes. Sua filha, hoje com seis anos, então pouco mais que um bebê, teve todos os seus brinquedos apreendidos e, todos os dias, quando saia e quando voltava da escola para casa, tinha a sua mochila ostensiva e violentamente revistada.

Qualquer cidadão que tentasse visitá-lo também era espancado e ameaçado. Até Christian Bale, o ator hollywoodiano que tentou entrevistá-lo com uma equipe da CNN no ano passado foi escorraçado violentamente diante das câmeras.

Depois de 19 meses preso em casa nessas condições, ele fugiu espetacularmente na noite de 22 de abril enganando quase 100 guardas. No dia 26 diplomatas americanos em Pequim, onde chegou ao fim de uma imaginável epopeia, conseguiram abrigá-lo na embaixada.

Na quarta-feira passada, dois dias depois de sua chegada a esse pedacinho do “mundo livre”, porém, ele foi devolvido às autoridades chinesas pela Secretária de Estado Hillary Clinton em pessoa. Como é ano de eleição, deram um jeito, depois, de varrer para debaixo do tapete a porcaria feita tirando ele da China mas tomando todos os cuidados para não ofender essa boa gente que trata seu próprio povo como tem tratado Chen Guangcheng.

Agora eu entendo porque essa senhora disse que Dilma Roussef está estabelecendo “um novo padrão mundial de combate à corrupção“.

O dinheiro“, dizia o nosso Nelson Rodrigues, “compra até o amor verdadeiro“.

Na verdade compra bem mais do que isso.

A educação de Dilma (e a do Brasil)

26 de abril de 2012 § 3 Comentários

1

É uma conversa imaginária. Faça “aquela” voz e ponha o devido sotaque:

É o seguinte, minha santa: o PT já “é”; ninguém mais precisa sê convencido disso.

O que nóis precisamo mostrá, vejahn, é que os outros também “são”, principalmente aqueles poucos que ainda pareciam não sê.

Essa é a única novidade que esta CPI vai trazê. É isso que vai ficá na memória dos eleitor.

Vai sobrá pros nosso?

Vai. Mas e daí?

Cê demite os que aparecê nas gravação; dá ferias pra eles aproveitá um pouco a vida; vai trocando quem saí por gente das mesma panela. O povo já se acostumô com isso. Não mexe nem cos arranjo da base e você ainda fatura a fama de faxinêra.

Acaba pulando pra faixa dos 90% de aprovação! Nunca antes na história desse país, menina!

Aí nóis tiramo deles a única arma que eles podia usá nos debate. O resto já tá no saco. O resto é só o horário eleitoral onde a gente fala o que qué.

Quando essa CPI acabá, o jogo tá zerado. Não tem mais ninguém que “não é”. Aí quero vê quem vai vim falá de robalhêra”.

No início, antes de ouvir o mestre, o estômago de Dilma, ainda “viciado” na memória de velhos tempos, esboçou uma reação.

Mas depois, pensando bem…

2

O Veríssimo, hoje, terminou seu artigo assim:

Até surgir a possibilidade de ser tecnicamente denunciado, o político corrupto podia contar com a condescendência do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto à sua corrupção, havia sempre a suspeita de que não era bem assim. Sua culpa – até se ouvir sua voz gravada combinando a divisão dos milhões, ou ver sua imagem forrando os sapatos com dinheiro – era sempre uma conjetura. Imaginávamos o que acontecia nos bastidores do poder corrupto mas era um pouco como imaginar uma orgia romana, ou visualizar uma orgia romana através da imaginação de um artista. Agora não. Com a banalização do grampo telefônico e da minicâmera escondida, temos o que faltava no quadro. Temos todos os sórdidos detalhes e a orgia às claras. Temos o que enoja“. (Íntegra aqui)

Enoja quem, cara-pálida?

O “poder corrupto”, depois de todos os filmes e de todas as gravações, esquece vosselência de considerar, conta com 87% de aprovação popular.

De modo que o que parece mais é que a única coisa que esse povo realmente lamenta é ter de ficar vendo de fora essa orgia romana…

Dilma Roussef é “café com leite”

2 de dezembro de 2011 § 2 Comentários

Senta que o leão é manso“.

A frase de Dora Kramer, hoje no Estado, diz tudo.

Tem sido penoso assistir ao processo de domesticação de Dilma Roussef, que chegou ao governo tentando mostrar que a elite ilustrada da tecnocracia estatal, que ela representa, ainda abraça valores diferentes do roube com prazer, exiba o seu escracho com orgulho instituído pela escória do peleguismo primitivo que, há quase 9 anos, tomou o país literalmente de assalto.

Mas com a reação da presidente à decisão unânime da Comissão de Ética Pública da Presidência de recomendar a demissão de Carlos Lupi , “cujo currículo revelado em capítulos conta a história de uma vida dedicada à transgressão no qual, da mentira à improbidade, há de tudo um pouco“, esse processo se completou.

Dilma Roussef está domada e “boa de boca”, como se diz no jargão de rodeio: quando a polícia age, ameaça prende-la; quando alguém grita “assalto”, ela chama o ladrão…

Dona Dilma só “governa” se não está acontecendo nada. Quando é necessário decidir qualquer coisa, seja da cozinha interna do governo, seja da política internacional, passando por tudo que está no meio, “papai” decide por ela..

Dilma Roussef é “café com leite”.

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