Porque hoje é sexta…
19 de março de 2010 § Deixe um comentário
De Cuba, Bebo e Chucho Valdés, pai e filho.
(Achado de Jose Neumanne Pinto)
Esta a Globo fica devendo
18 de março de 2010 § 2 Comentários
O Jornal Nacional mostrou quarta-feira as cenas dos leões de chácara dos Castro agredindo mães, esposas, avós e filhas desesperadas de prisioneiros da quadrilha que, ha 54 anos, mantem a população da Ilha em suas mãos na base do tiro e da paulada. E encerrou a materia com uma cena em destaque e um comentário sobre as “pessoas que apoiam o regime” aplaudindo a blitz dos esbirros dos Castro sobre as Damas de Branco, a versão cubana das Locas da Plaza de Mayo que cobravam a libertacão de seus filhos pelos militares na Argentina dos “anos de chumbo”. Ha seis anos elas marcham por Havana todo domingo, pedindo a libertação de prisioneiros políticos.
É inacreditavel que jornalistas do gabarito dos que a Globo tem condições de pagar se permitam apresentar como verdadeiro esse tipo de falsificação especialmente revoltante, sem denunciá-la, sobretudo neste momento em que, pela primeira vez na história deste país, o Brasil está do lado errado da torcida, alinhado àqueles que, nos filmes que nossos filhos assistirão no futuro, aparecerão como apareciam nos filmes que a nossa geração viu aqueles que se aliavam aos nazistas contra os aliados, aos bandidos contra os mocinhos, aos assassinos contra os assassinados.
Pois esses “apoiadores do regime”, como está careca de saber qualquer profissional da informação que leia jornais, vá ao cinema, frequente a internet ou já tenha folheado ao menos um relatório internacional sobre violações de direitos humanos, são o testemunho vivo do aspecto mais tenebroso dos estados policiais; a imagem em carne viva da mais irremediavel das mutilações que sofre uma sociedade que se torna vitima desses processos.

A lei de seleção das espécies se aplica às sociedades humanas de forma tão implacável quanto a qualquer outra população viva. Criminosos que se mantem no poder pela força modificam o ambiente criando novos “fatores decisivos de sucesso” que estabelecem um padrão negativo de seleção. Quando a solidariedade e a dignidade são punidas com a prisão ou a morte e a delação, o linchamento moral, a covardia, a traição e a subserviência passam a ser imperativos de sobrevivencia; quando a segurança dos parentes, a permanencia no emprego e até o acesso à medicina dependem estritamente da disposição do individuo de delatar, de trair e de aplaudir os carrascos, os delatores, os traidores e os pústulas em geral, tendem a se multiplicar mais que a gente honrada e se transformar na “espécie dominante”.
O mínimo que se tolera mais ou menos impunemente nesses regimes é a omissão. Assim, todo cubano livre, hoje, está livre porque tem sido, pelo menos, um pouco covarde. E isso corroi a fibra moral da Nação, mata a altivez de gerações inteiras e cria aleijões incuráveis. (Yoani Sanchez escreveu um texto memoravel sobre essa síndrome).
Por isso é tão comum que povos vitimados pelo comunismo, quando finalmente conseguem se livrar dele, acabem caindo nas mãos do crime organizado: não conhecem outra coisa e nem têm anticorpos contra esse tipo de parasita letal.
Fidel e seu irmão sanguinário e o resto do bando de velhinhos encarquilhados que mantêm Cuba acorrentada ao passado vestem uma surrada fantasia para dar ares de dignidade a metodos identicos aos da mafia. Dão aos que se submetem em silêncio à exploração da quadrilha o privilégio de continuarem vivos e matam, fisica ou moralmente, de forma brutal, covarde e ostensiva os que lhes resistem para infundir terror e desencorajar futuros desafiantes.
Não enganam mais ninguem. Só os canalhas.

O texto original de Yoani, aqui http://www.desdecuba.com/generaciony/?p=141 . Na tradução publicada no Vespeiro sob o entretitulo “Sobre Afonso“, aqui: http://vespeiro.com/wp-admin/post.php?action=edit&post=983
E aqui: http-//www.hrw.org/en/ne#44AFFC , o ultimo relatório do Human Rights Watch sobre Cuba, onde se mostra, entre outras coisas, como os Castro fabricam e usam as “pessoas que apoiam o regime”.
É esta a carta que Lula diz que não recebeu
3 de março de 2010 § Deixe um comentário
Com o crescimento do movimento de oposição, o governo de Cuba, julgando que o inicio da Guerra do Iraque abafaria o fato na imprensa internacional, lançou, na madrugada do dia 18 de março de 2003, a onda repressiva que ficou conhecida como A Primavera Negra de Cuba.
Centenas de agentes do Departamento de Segurança do Estado – a policia política cubana – agiram sincronizadamente em todo o país invadindo lares, interrogando seus moradores, confiscando seus computadores, maquinas de escrever e aparelhos de fax e detiveram centenas de pessoas entre opositores políticos, jornalistas, defensores dos direitos humanos, bibliotecários e sindicalistas.
Entre os dias 3 e 7 de abril do mesmo ano (16 dias depois das prisões), em uma série de julgamentos sumários, 75 deles foram condenados a penas draconianas que variaram de 6 a 30 anos de prisão.
As mães e parentes desses prisioneiros criaram o movimento As Damas de Branco (http://www.damasdeblanco.com/primavera/primavera2003.htm) para não deixar que sejam esquecidos. Foi esse grupo que articulou a carta que o presidente Lula diz que nunca recebeu nem leu, pedindo que intercedesse por eles durante sua visita a Cuba.
Um dos prisioneiros, em greve de fome, Miguel Zapata Tamayo, morreu na véspera da chegada de Lula.
É esta a carta que Lula diz que não recebeu. Você pode mostrar sua solidariedade com os prisioneiros cubanos remetendo-a ao presidente no endereço protocolo@planalto.gov.br
LEMBRE-SE: VOCÊ NÃO ESTÁ LIVRE DE VIR A SER UM PRISIONEIRO POLÍTICO.

La Habana, 21 de fevereiro de 2010
Sr. Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente
República Federativa de Brasil
Estimado Sr. Presidente:
Ao tomar conhecimento de sua próxima visita a Cuba, nós, os abaixo assinados membros do grupo de 75 prisioneiros de consciência injustamente condenados durante a Primavera Negra de 2003, nos dirigimos ao senhor para solicitar-lhe que, nas conversações que manterá com os máximos representantes do governo cubano, contemple nossa situação e a dos demais prisioneiros políticos pacíficos de Cuba e advogue por nossa libertação. Pedimos, também, que se interesse pelo prisioneiro de consciência Miguel Zapata Tamayo (foto) que, desde dezembro, mantém uma greve de fome para reclamar seus direitos e hoje se encontra em condições de saúde perigosas para sua vida no Hospital Nacional de Prisioneiros na prisão Combinado del Este.
O Brasil, pelo caminho da democracia e da paz, alcançou altos níveis de desenvolvimento, reduziu consideravelmente a pobreza e, por tal motivo, constitui um exemplo de que mediante o respeito à liberdade de expressão, a justiça social e o alento à criação, pode-se alcançar elevados níveis de prosperidade para os povos. Por esse meio o Brasil conseguiu, ademais, prestigio e autoridade moral e ética internacionalmente. Seu desempenho, Presidente, foi elogiável nesse sentido.
O senhor poderia ser um magnífico interlocutor para conseguir que o governo cubano se decida a fazer as reformas econômicas, políticas e sociais urgentemente requeridas, avançar no respeito aos direitos humanos, obter a tão ansiada reconciliação nacional e tirar a nação da profunda crise em que se encontra. O senhor poderia contribuir significativamente para a felicidade e o progresso do povo cubano. Por isso rogamos que, na sequencia de sua visita, os representantes diplomáticos brasileiros, alem de manter as relações com as autoridades cubanas, passem a ouvir também a sociedade civil, aí incluídos os familiares dos prisioneiros políticos e de consciência, assim como a oposição pacifica.
Receba o testemunho de nossa consideração e respeito.
Os prisioneiros, entre os 75, que puderam ser contatados por telefone nas prisões ou que estão sob suspensão de pena para tratamento de saúde.

1-Luis Enrique Ferrer García, condenado a 28 años, Prisión Mar Verde, Santiago de Cuba
2-Omar Rodríguez Saludes, condenado a 27 años, prisión Toledo, Provincia Ciudad Habana
3-Alfredo Felipe Fuente, condenado a 26 años, Prisión Guanajay, Provincia Habana
4- Miguel Galván Gutiérrez, condenado a 26 años, Prisión Guanajay, Provincia Habana
5- Iván Hernández Carrillo, condenado a 25 años, Prisión “El Pre”, Guamajal, Villa Clara
6- Blas Giraldo Reyes Rodríguez, condenado a 25 años, Prisión Nieves Morejón, Sancti Spiritus
7- Félix Navarro Rodríguez, condenado a 25 años, Prisión Canaleta, Ciego de Ávila
8- Normando Hernández, condenado a 25 años, Prisión Kilo 7, Camagüey
9-José Daniel Ferrer, condenado a 25 años, Prisión Holguín
10-Ariel Sigler Amaya, condenado a 25 años, Hospital Julio Trigo, muy enfermo
11- Jesús Mustafá Felipe, condenado a 25 años, Prisión Provincial de Guantánamo
12- José Luís García Paneque, condenado a 24 años, Prisión “Las Mangas”, Granma
13- Eduardo Díaz Fleitas, condenado a 21 años, Prisión Kilo 5 ½, Pinar del Río
14- Ricardo González Alfonso, condenado a 20 años, Prisión Combinado del Este, Ciudad de La Habana
15- Diosdado González Marrero, condenado a 20 años, Prisión Kilo 5 ½, Pinar del Río
16- Pedro Argüelles Morán, condenado a 20 años, Prisión Canaleta, Ciego de Ávila
17- Pablo Pacheco Ávila, condenado a 20 años, Prisión Canaleta, Ciego de Ávila
18- Librado Linares, condenado a 20 años, Prisión La Pendiente, Villa Clara Kilo
19- Arturo Pérez de Alejo, condenado a 20 años, Prisión “El Pre”, Guamajal, Villa Clara
20- Julio César Gálvez Rodríguez, condenado a 20 años, Prisión Combinado del Este, Ciudad de La Habana
21- Nelson Molinet Espino, condenado a 20 años, Prisión Kilo 5 ½, Pinar del Río
22-Fabio Prieto Llorente, condenado a 20 años, Prisión El Guayabo, Isla de la Juventud
23-Lester González Pentón, condenado a 20 años, Prisión La Pendiente, Villa Clara
24-Fidel Suárez Cruz, condenado a 20 años, Prisión Kilo 8, Pinar del Río
25-Manuel Ubals, condenado a 20 años, Prisión Boniato, Santiago de Cuba
26- Leonel Grave de Peralta, condenado a 20 años, Prisión Boniato, Santiago de Cuba
27- Antonio Díaz Sánchez, condenado a 20 años, Prisión Canaleta, Ciego de Ávila
28- Horacio Piña Borrego, condenado a 20 años, Prisión Kilo 5 ½ Pinar del Río
29-Marcelo Cano Rodríguez, condenado a 18 años, Prisión Ariza, Cienfuegos
30-Omar Ruíz Hernández, condenado a 18 años, Prisión Nieves Morejón, Sancti Spiritus
31- Arnaldo Ramos Lauzerique, condenado a 18 años, Prisión Nieves Morejón, Sancti Spiritus
32- José Ubaldo Izquierdo, condenado a 16 años, Prisión Guanajay, Provincia Habana
33- Antonio Villarreal Acosta, condenado a 15 años, Prisión La Pendiente, Villa Clara
34- Adolfo Fernández Sainz, condenado a 15 años, Prisión Canaleta, Ciego de Ávila
35- Alexis Rodríguez Fernández, condenado a 15 años, Prisión Aguadores, Santiago de Cuba
36-Claro Sánchez Altarrivas, condenado a 15 años, Prisión Provincial de Guantánamo
37-Alfredo Pulido López, condenado a 14 años, Prisión Cerámica Roja, provincia Camagüey
38- Alfredo Domínguez Batista, condenado a 14 años, Prisión Típico Viejo, Las Tunas
39- José Miguel Martínez Hernández, 14 años, Prisión Quivicán, Provincia Habana
40- Efrén Fernández, condenado a 12 años, Prisión de Guanajay, Provincia Habana
41- Héctor Raúl Valle Fernández, condenado a 12 años, Prisión Guanajay, Provincia Habana
42- Ricardo Silva Gual, condenado a 10 años, Prisión Aguadores, Santiago de Cuba
SOB SUSPENSÃO DE PENA PARA TRATAMENTO DE SAUDE:
43- Margarito Broche Espinosa, condenado a 25 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
44- Héctor Palacios Ruiz, condenado a 25 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
45-Marta Beatriz Roque Cabello, condenada a 20 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
46-Roberto de Miranda, condenado a 20 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
47- Oscar Espinosa Chepe, condenado a 20 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
48- Jorge Olivera Castillo, condenado a 18 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
49- Marcelo López Bañobre, condenado a 15 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
50- Carmelo Díaz Fernández, condenado a 15 años, con licencia extrapenal por serias enfermedades
UMA BELA ANALISE
Como funciona o regime que o PT mais admira
13 de dezembro de 2009 § Deixe um comentário

“DIETA BRANDA”
“No meio de historias como esta vive Adolfo Fernandez Saínz que ontem fez 61 anos, seis dos quais passou trancado na prisão de Canaleta onde está desde a primavera de 2003”.
“Naquela tarde iria extrair o ultimo canino que lhe restava. Ha dias vinha nessa empreitada, ajudado por outro preso que era prático em arrancar dentes. A coleção dos dentes já arrancados estava guardada debaixo do travesseiro e ficaria ali ate que lhe desse vontade de atirá-los – com seu esmalte amarelado – pela pequena janela que havia na cela.
Se tudo saísse conforme o esperado, na semana seguinte estaria mostrando sua boca com as gengivas nuas para o médico. Diria que tinham caído sozinhos como fez o protagonista do filme Papillon, que assistiu quando era criança. Naquela história o prisioneiro tinha sido vítima do escorbuto. Mas ele não. Tinha renunciado à sua dentadura para ter acesso à dieta especial que era servida aos prisioneiros que não podiam mastigar. A papinha de banana com batata era muito superior, em sabor, à rançosa comida que serviam aos prisioneiros com dentes, de maneira que era uma questão de sobrevivência prescindir dessas coisas inuteis que vinha carregando ao redor da língua.
Antes de passar para o catre de Cojo, que já tinha preparado os “instrumentos” como se ostentasse um diploma de protético, olhou o canino pela ultima vez na lata polida que lhe servia de espelho. Não havia nada a lamentar, estava roído pelas cáries, torcido para a direita e manchado de nicotina. Esse pequeno obstáculo que emergia de sua boca não iria mais se interpor entre as carnes e as necessidades do seu corpo. Feita a consideração, começou a bater no dente para afrouxá-lo um pouco e seguiu para o lugar onde vários presos aguardavam uma extração. Por cima do colchão, o cabo partido de uma colher e uma pequena barra de metal faziam as vezes do martelo e do cinzel que seriam usados para abalar o dente, e uma pinça improvisada, feita com dois pedaços de arame, que seria usada para extrair a raiz. O pagamento pela cirurgia improvisada seria feito em cigarros, uns 20 que ele tinha conseguido poupar durante vários dias sem fumar.
Depois iria dormir com o buraco do dente latejando mas alegre por poder entrar na confraria dos desdentados, o seleto clube dos privilegiados que comiam um pouco melhor. Outros prisioneiros, em seus catres, tambem estariam controlando a dor e sonhando, durante toda a noite, com uma quentinha de alumínio transbordante de uma suave papinha”.
O que você acabou de ler é a tradução do post de 1º de dezembro passado do site Generacion Y, de Yoani Sanchez, que descreve, de Havana, como é a vida em Cuba, ha 53 anos sob o mesmo regime que nas décadas de 60 e 70 treinou os agentes da luta armada que tentaram derrubar o governo militar instalado no Brasil.
Adolfo Fernandez Saínz é tio dela.

O Human Rights Watch, ONG insuspeita de antipatias especiais para com regimes de esquerda, publicou em novembro passado o seu ultimo relatório sobre Cuba, sob o título “Novo Castro; a Cuba de sempre” (http://www.hrw.org/en/news/2009/11/18/cuba-ra-l-castro-imprisons-critics-crushes-dissent). Afirma-se ali que ha 53 prisioneiros politicos cumprindo penas em Cuba que variam de 13 a 28 anos. Mas a lista publicada não inclui o nome do tio de Yoani, de onde se conclui que a lista se refere apenas aos formalmente condenados, que são uma minoria.
Espancamentos sucessivos, meses em celas solitárias, ameaças de estupro, comida insuficiente e de péssima qualidade são alguns dos castigos corriqueiros que esses prisoneiros sofrem. Mas o pior deles talvez seja o da “condenação” à tuberculose. Com celas superlotadas, sem nenhuma higiene, a tuberculose é endêmica nas prisões cubanas. O Human Rights Watch registra pelo menos tres casos recentes de prisioneiros sadios arrancados de surpresa de suas celas e atirados em celas de quarentena, com até 70 prisioneiros doentes, para serem contaminados pela tuberculose.
O relatorio é muito longo e detalhado. Baseia-se em entrevistas contrabandeadas, feitas por telefone ou em testemunhos diretos coletados em delicadas operações de voluntários da ONG que visitam a ilha e fazem contato com familiares de presos e outras testemunhas tomando cuidados redobrados para que isso não lhes renda novas brutalidades por parte do regime.
Desde que Raul Castro substituiu seu irmão Fidel, em 2006, o numero de prisões arbitrarias aumentou muito. Organizações de direitos humanos que atuam em Cuba documentaram, para Human Rights Watch, 325 prisões arbitrárias em 2007. Só nos primeiros seis meses de 2009, o numero subiu para 532.
As leis cubanas não apenas incentivam como, em alguns casos, obrigam os agentes do governo a fazerem prisões arbitrárias não apenas de quem infringiu alguma das drásticas leis de proteção do regime. O artigo 243 da Lei de Procedimentos Criminais ordena a prisão – por “periculosidade” – tambem de quem as autoridades suspeitem que possa vir a faze-lo no futuro. As definições são suficientemente vagas para permitir que qualquer um seja preso sob qualquer pretexto.
O Poder Judiciário praticamente não existe. É inteiramente subordinado ao Conselho de Estado, orgão máximo do regime com 31 membros presididos por Raul Castro, que nomeia e demite todos os juizes e manda e desmanda nos membros da Assembleia Nacional que se finge de Poder Legislativo. As “eleições” para essa assembleia só admitem um candidato por vaga e o “eleitor” pode votar nele ou votar em branco…
As penas, nos primeiros estágios da perseguição, são indefinidas. A autoridade policial pode prender sem julgamento ou pode haver um julgamento sumário com sentença passada em menos de 24 horas após a prisão. Tambem pode não haver julgamento nunca e a pessoa ficará presa “para reeducação política” até que a autoridade ache que a reeducação foi completada.
O relatório do Human Rights Watch registra, para cada fórmula mencionada neste artigo, inumeros casos reais como ilustração.

A ação policial que se apresenta como tal, entretanto, só virá depois de uma sucessão de atos de terrorismo contra o alvo e seus familiares e amigos que poderão ser perpetrados por policiais ou por civis dos “Comites para a Defesa da Revolução” instalados em cada bairro de cada cidade ou, ainda, pelas “Brigadas de Resposta Rápida” tambem constituídas por “voluntários civis”.
O uso generalizado de espionagem por agentes infiltrados e de vigilância eltrônica (grampos telefônicos, vigilância das mensagens por computador, filmagens, etc.) faz com que todo cubano se sinta devassado. O governo pressiona diretamente a família e os amigos dos suspeitos de dissidência a se afastarem dele sob pena de também sofrerem sansões (perda do emprego, etc.). O isolamento é uma arma poderosa…
O medo leva muita gente a se aproximar dos agentes do aparelho repressor para melhorar sua pontuação junto ao partido. Pertencer ao “Comite de Defesa da Revolução” local ou a algum dos sindicatos ligados ao governo são formas de ganhar simpatias dos poderosos. A simples participação nos eventos comemorativos do partido já conta uns pontinhos (positivos para quem vai e “se entusiasma”, negativos para quem não vai ou para quem não mostra entusiasmo com os “discursos revolucionários” dos que estão ha 53 anos no poder). Mas as maiores recompensas vão mesmo para quem delatar seus vizinhos e parentes.
Todo mundo suspeita de todo mundo.
Quando parte para a ação direta o governo recorre a prisões que mais se assemelham a sequestros, espancamentos (Yoani foi sequestrada e espancada por quatro ou cinco brutamontes ha cerca de duas semanas) e intimidações verbais feitas por gente fardada, às vezes, ou a paisana e sem identificação, quando convem. Tambem são muito usados os “atos de repudio” em frente à casa dos famíliares do dissidente em que “manifestações” de grupos ligados ao governo os fazem passar por seções de humilhação e achincalhamento que, frequentemente, chegam até às vizinhanças do linchamento. As famílias dos dissidentes presos também são multadas em valores suficientes para deixa-las passando necessidades (os salários, em media, são de US$ 15 dolares por mes) e o acesso aos serviços sociais básicos como medicina, por exemplo, pode ser fechado.
O relatório segue por 120 páginas de variações sobre o tema que incluem todo tipo imaginável de covardia, de ignomínia e de sordidez. Só no final desse tunel é que estão as prisões e a tuberculose…
É este o regime que a maior parte dos petistas que não aceitam fazer concessões ao “governo ilegítimo” eleito em Honduras tem como modelo.

Uma (linda) voz vinda de Cuba
25 de setembro de 2009 § 3 Comentários
Tento de todas as maneiras transpor para cá os videos em que ela mostra o show do roqueiro colombiano Juanes em Havana e o “Bazar Revolucionário” mencionados abaixo, e não consigo. Quem ainda não se aventurou a produzir um blog não imagina o grau de hermetismo e de falta de lógica que marcam as páginas onde os hospedeiros de blogs “explicam” como fazer essas operações. Poucas coisas na vida real são tão irritantes quanto tentar matar essas charadas virtuais sem nenhuma inteligência ou sabor…
Ainda assim, prometo continuar tentando. Mas não hoje porque já está tarde e meu compromisso maior é com o recheio. Recorro a este semeador de preguiças que é o Google. E aí estão as fotos que foi possivel obter…
Yoani Sanchez, 34, que está na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time, eescreve, de Havana, o blog “Generacion Y” onde fala (lindamente, por sinal) da Cuba que Lula e Jose Dirceu gostariam de esconder.
É com ela que abro a nova seção de links do Vespeiro, onde prometo ser muito restritivo. Dou abaixo, alguns trechos de postagens recentes de Yoani, para provocar a sua curiosidade. Vale a pena ir lá. Clique na minha seção de links aí ao lado que, sabe-se lá porque, este WordPress quer que se chame “blogroll”…
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“Amanhã será uma segunda-feira como outra qualquer. O peso conversível continuará com o preço nas nuvens, Adolfo** e seus colegas terão outro dia atrás das grades na prisão de Canaleta; meu filho ouvirá, na escola, que o socialismo é a única opção para o país e, nos aeroportos, continuarão nos exigindo uma licença para sair da Ilha. O concerto de Juanes não terá mudado nossas vidas, mas, afinal, eu não fui àquela praça com essa ilusão. Seria injusto exigir de um jovem cantor colombiano que impulsione as mudanças que nós mesmos não conseguimos fazer, embora as desejemos tanto.
“Estive naquela explanada (a praça Jose Marti) para comprovar quão diferente pode ser um mesmo espaço quando abriga concentrações organizadas a partir de cima e quando abriga um grupo de pessoas necessitadas de dançar, cantar e interagir sem política no meio. Foi uma experiência rara estar ali sem gritar nenhum slogan e sem ter de aplaudir mecanicamente quando o tom do discurso sinaliza que está na hora de ovacionar…”
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**Sobre Adolfo:
“Hoje vou celebrar o Natal com minha família e amigos. Armaremos uma mesa improvisada com a velha porta do elevador; uma velha cortina fará as vezes de toalha de mesa …
Na cabeceira manteremos uma cadeira que está vazia desde o Natal de 2003. É o lugar de Adolfo Fernandes Saínz, condenado durante a Primavera Negra a 15 anos de prisão…
Me lembro do dia em que contamos ao meu filho que ele tinha sido preso. Meu marido lhe disse: “Téo, o teu tio Adolfo está na prisão porque é um homem muito valente”, ao que o meu filho respondeu com a sua lógica infantil: “Quer dizer que vocês continuam soltos porque são um pouco covardes”. Que maneira mais direta de dizer a verdade têm as crianças ! Sim, Téo, você tem razão (…) Nos nos conformamos com o mito da fatalidade nacional porque nos demos por vencidos na tentativa de mudar as coisas.
A cadeira vazia de Adolfo será o território mais livre da nossa improvisada mesa de Natal.”
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“Umas breves imagens de um “Bazar Revolucionário” numa rua central do centro histórico de Havana (que aparecem num video caseiro no blob de Yoani) confirma a minha hipótese sobre os elementos decorativos associados a ideologias. Para comprar ali qualquer desses atributos identificadores de um processo, é preciso pagar com uma moeda diferente daquela com que remuneram o nosso trabalho. Curiosamente os “ícones” da entrega desinteressada do indivíduo a um projeto social são vendidos a partir de uma evidente relação de oferta e procura. O dinheiro se transforma, assim, num pulôver, num gorro ou numa mochila que, depois, será exibida como uma relíquia, como uma lasca da madeira da utopia”.
“Os rostos que se vê neste pequeno comércio são, para muitas pessoas fora de Cuba, parte da contracultura, sinais de desafio ao status quo. São os emblemas a que algumas pessoas recorrem com a intenção de mudar o que lhes desagrada em suas sociedades. Mas nesta ilha ocorre justamente o contrário. Estes que nos olham dos pôsteres ou das camisetas são, para nos, aqueles que criaram a atual ordem de coisas, os gestores do sistema dentro do qual vivemos há 50 anos. Como portar algum desses símbolos sem ter a sensação de estar assumindo a cultura do poder, os emblemas dos que mandam?”
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“Não há conceito mais subversivo que o de um cubano turista”.
“…o simples movimentar-se é algo que se converteu num ato de contestação. Disso decorre que facilitar a entrada e saída de pessoas, o deslocamento ou a mudança de endereço pode desencadear transformações imprevisíveis no âmbito nacional. Imaginem se todos começássemos a querer viajar, usar as estradas e visitar os parentes que não vemos há 20 anos. Se uma febre de movimento tomasse o país de repente o estremecimento poderia contagiar os burocratas e esses dirigentes carentes do conceito de dinamismo. Quem sabe essa sacudida servisse para remover, também, estes que hoje são um freio para que comecemos a deslizar, finalmente, pelo caminho das transformações”.


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