Comparando masoquismos
5 de janeiro de 2012 § 1 comentário
Acho o masoquismo dos argentinos muito mais intrigante que o dos norte-coreanos.
Afinal, na Coreia do Norte ha três gerações já que a intensidade do choro que o cidadão exibe diante do desaparecimento de algum dos membros da dinastia Kim pode significar a diferença entre vir a ser um candidato a ministrar ou se tornar um candidato ser paciente de tiros na nuca enquanto na Argentina o mesmo tipo de demonstração é inteiramente espontâneo.
O puxa-saco brasileiro leva vantagem sobre ambos: não precisa prender-se a qualquer tipo de formalismo. O máximo a que pode almejar o peronista exemplar é o emprego sem trabalho, coisa que o brasileiro também consegue sem precisar, necessariamente, filiar-se a este ou àquele partido. Basta aderir a quem quer que esteja no poder. Tudo que ele conseguir agarrar a partir daí o Judiciário garante que será seu e dos seus, mesmo que haja revoluções que mudem não só os ocupantes temporários do poder mas até a natureza do regime.
É muito mais democrático e republicano.
Mas não é apenas isso que aproxima norte-coreanos de argentinos e nos distancia de ambos.
Eles valorizam muito a questão da hereditariedade. Os coreanos são literais quanto a esse ponto. Assim como os caribenhos, exigem laços de sangue no momento da sucessão enquanto os argentinos se permitam alguma flexibilidade.
Respeitados os limites da ideologia – todos têm de ser peronistas acima de tudo – nossos românticos vizinhos do Sul colocam o amor acima de todas as outras coisas.
Dessa dificuldade adicional resulta que os Kim apenas iniciam a terceira rodada e os Castro a segunda, enquanto os argentinos já vão na quinta, considerados os dois presidentes da dinastia peronista e suas três esposas e amásias.
No Brasil, ha uma única exigência: o mais testado e comprovado desprezo pela ética. Tudo o mais, arruma-se. Fica, desse modo, plenamente assegurada a mobilidade social: qualquer um, independentemente de raça, gênero ou posses, pode acanalhar-se o suficiente para ser aceito nos círculos do poder desde que se empenhe.
A mumificação de presidentes mortos é outro traço comum a coreanos e argentinos além de comunistas em geral e egípcios do passado remoto. A particularidade que distingue nossos vizinhos é que egípcios, comunistas e coreanos respeitam a integridade física das suas múmias enquanto os argentinos são dados a arroubos com as deles que chegam, por vezes, aos extremos da perversão sexual e da mutilação.
Já no Brasil, morreu, morreu. Fica só a herança maldita.
Agora, em matéria de títulos honoríficos, nós que nos consideramos tão criativos perdemos longe. É da nossa natureza preferir o drible à marcação homem a homem. Continuamos até hoje com os herdados de Portugal – “excelência“, “meritíssimo“, “ilustríssimo senhor“… – que têm a vantagem de ser intercambiáveis, enquanto os coreanos vão de exclusivíssimos “Estrela Brilhante“, “Ilustre Comandante Nascido no Céu“, “Eterno Presidente“, “Pai“, “Grande Sucessor” e outras variações igualmente hiperbólicas que a perspectiva do tiro na nuca justifica plenamente.
Os argentinos estão divididos quanto a esse particular o que, bem em consonância com a crise mundial da identidade de gênero, pode ser um prenúncio do fim do arquétipo do amante latino. Dos diminutivos de outrora, que traduziam tão fielmente o seu inimitável mix de política com alcova, ensaiam agora um tom mais épico e imperialista, com este “Sol de America del Sur” que começam a aplicar à Cristinita.
É bom a gente ficar de olho porque cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
“Passou o tempo das revoluções armadas”
22 de julho de 2010 § 1 comentário
O guia do nosso guia faz uma excelente ideia de si mesmo…
Que o PT sempre manteve relações libidinosas com as Farc e que essas relações tinham o sentido que a ela atribuem os seus críticos e adversários políticos é coisa tão indiscutivelmente certa e sabida que tudo que restou ao partido, posto diante da afirmação do fato em véspera de eleição, foi dar a ele o mesmo tratamento que o seu mais recente aliado, Paulo Salim Maluf, invariavelmente dá a todos quantos o põem diante dos fatos que fizeram dele um dos homens mais procurados pela Interpol: confiar na celeridade e na imparcialidade da justiça brasileira e abrir um processo por calunia e difamação daqueles que, um dia, pode ser que acabe.
Para que você tire suas duvidas, estou publicando, na postagem que se segue a esta, a integra (traduzida) da matéria da revista colombiana Cambio que, na sua edição da ultima semana de julho de 2008, fez uma seleção dos 85 e-mails a que teve acesso da longa série dos que foram trocados entre o líder das Farc, Raul Reyes, morto em um bombardeio da força aérea colombiana em território equatoriano poucas semanas antes, e o “padre Camilo”, representante das Farc no Brasil, e outros membros de destaque da organização narcoterrorista, dando conta das suas intimas relações com altos representantes do PT, inclusive e principalmente depois que eles se tornaram ministros do governo Lula ou figuras de destaque nos setores mais “aparelhados” do Judiciário brasileiro.
É coisa que vale a pena ser lida para que se possa avaliar o grau do cinismo que se tornou marca registrada de quem hoje manda no Brasil e o nível de profundidade a que chegou a instrumentalização do Estado brasileiro a serviço do projeto de poder do lulismo que, por sua vez, é parte de uma ação internacional ampla e meticulosamente coordenada.
Muito desse saboroso caldo se perdeu nos resumos que a imprensa brasileira publicou na época…
“Tirofijo”
A pesquisa do tema, a que me entreguei nos últimos dias, sugeriu-me, aliás, uma possível explicação para o fato do sacrossanto Fidel, chefe de todos os lulas do Cone Sul, que ate então só tinha escrito sobre si mesmo, ter se dado o trabalho de escrever um livro inteiro em defesa da paz na Colômbia, fato ao qual imediatamente se seguiu a disciplinada mudança da atitude publica até então mantida com relação às Farc por parte de todos os seus chefiados. E o primeiro a entrar em ordem unida foi o coronel Chávez, da Venezuela, este que, ontem de novo, voltou a negar sua cumplicidade com as Farc mostrando ainda mais “indignação” que o PT.
Enquanto Fidel pensava e escrevia “La Paz en Colômbia” (que o guia do nosso guia terminou precisamente “às 3:15 da tarde de 16 de setembro de 2008”, segundo curioso registro em que insistiu um de seus propagandistas internacionais), foram mortos, um depois do outro, todos os representantes da “linha dura” das Farc e aceleraram-se as deserções de guerrilheiros, que passaram a incluir até alguns dos ícones da organização. Mas, curiosamente, essa sucessão de vitórias do exército colombiano não impediu que se abrisse o coração dos remanescentes da antes duríssima organização para a série de “libertações humanitárias” de prisioneiro seqüestrados que viviam ha décadas acorrentados a troncos de árvores em volta dos acampamentos do grupo. Ao contrário, foram essas mortes que, indiretamente, precipitaram esse processo.
Ao fim de 44 anos de assassinatos, seqüestros e operações de trafico de cocaína em grande escala entusiasticamente apoiados por ele, Fidel, tido pelos narcoguerrilheiros como seu grande inspirador, revela ao mundo que “sempre esteve em desacordo com as Farc”, especialmente em dois aspectos, digamos assim, técnicos: “o seqüestro e humilhação de combatentes” (que ele e seu grupo também praticaram antes de tomar o poder em Cuba) e a insistência em levar adiante uma estratégia de “guerra prolongada” excessivamente desgastante (a cocaína não foi mencionada). E disse mais o homem que dedicou a vida a fomentar guerrilhas pelo mundo afora: “Passou o tempo das revoluções armadas. Hoje a solução é política”.
O acampamento de “Negro Acácio”
Só esta frase provocou indignação e escândalo maiores nos meios da nunca suficientemente desiludida esquerda honesta do que os termos duríssimos empregados na principal “revelação”, feita na pagina 105 do livro onde são reproduzidos diálogos de Fidel com Manuel Marulanda, dito “Tirofijo”, o líder histórico das Farc que acabara de morrer na selva aos 78 anos de idade. Ali Fidel afirmava que o dono daquele corpo, ainda morno quando o livro foi publicado, não passava de “um homem ignorante e pouco estudado” que nunca tinha conhecido nada maior que as pequenas aldeias do interior da Colômbia e que, por isso, tinha uma visão delirante do mundo inteiramente alheia à realidade. As ações de seu grupo, enfim, só serviam (nas palavras do prestimoso coronel Chavez) “para dar argumentos aos nosso inimigos e aos aliados do Império”.
Para as Farc, que já vinham cambaleando diante da morte (natural, supostamente) de “Tirofijo”, o veredicto de Fidel soou como um tiro de misericórdia.
Os revezes tinham começado em setembro de 2007 quando “Negro Acácio”, o primeiro dos membros do “Secretariado” das Farc a cair, foi morto num bombardeio. Depois dele morreram “Martim Caballero” e “Martin Sombra”, este muito próximo a “Tirofijo”. Em seguida foi a vez dele próprio, em maio de 2008. Meses depois, cai Raul Reyes, que substituiu “Tirofijo” no comando das Farc, também bombardeado em seu esconderijo no Equador. Foi nos computadores em poder de seu grupo que foram encontrados os e-mails envolvendo Lula e sua entourage. Seis dias depois, Ivan Rios, o ultimo dos “linha dura” é morto por seu próprio guarda-costas na selva. Ele arranca-lhe a mão direita e entrega-a aos militares colombianos como prova de seu feito. Ainda em 2008, entrega-se, com seu amante, Nelly Ávila Moreno, a “Karina”, até então conhecida pelos seus pendores sanguinários, que confessa que temia ter o mesmo fim de Rios. Havia 24 anos que ela combatia na selva…
Iván Rios
Essa sucessão de derrotas das Farc, com a virtual eliminação de toda a linha de sucessão de “Tirofijo”, se dá, segundo o governo colombiano, graças ao amadurecimento de diversas ações de inteligência e infiltração do grupo por agentes do inimigo ou em função da decisão espontânea de guerrilheiros próximos das vitimas que tomam a iniciativa de se oferecer ao exercito colombiano para vender a localização de seus chefes. Mas o fato é que, de “Negro Acácio” em diante, todas as mortes, com exceção, ate segunda ordem, da de “Tirofijo”, começam por um ato de traição. E, no final, a eliminação da “linha dura” da organização desagua na ascensão de Alfonso Cano, o “moderado” que inicia as negociações para a libertação de reféns.
Coincidência ou não, tudo isso se passa enquanto o bom Fidel se preparava para anunciar ao mundo, ao fim de 44 anos de irrestrito apoio às Farc, que mudara de ideia.
Em janeiro de 2008, a Fundación Pais Libre, da Colômbia, contava 3.254 vitimas de seqüestro pelas Farc. Perdeu-se a conta do numero de assassinados e mortos em combate nestas mais de quatro décadas. Quanto mais dispersas as “frentes” ocupadas pelas Farc, quanto mais interrompidas as comunicações entre elas pela ação do exército colombiano, mais subia o numero de deserções e mais a organização se misturava aos cartéis do tráfico da Colômbia e da Bolívia.
E maior se tornava o horror da opinião publica em relação a ela e aos seus crimes.
Nada elege mais na Colômbia que declarar guerra sem trégua às Farc
Ha muitos anos, já, que nada elege mais na Colômbia que declarar a disposição de combater as Farc sem tréguas. E, de Chávez para cá, o pais desponta como a mais sólida exceção à onda esquerdizante que varre o Cone Sul. De prova de independência em relação ao “Império” e insubordinação à “mentira da Justiça burguesa”, declarar amor às Farc, justificar seus assassinatos e seqüestros e exibir relações libidinosas com esse híbrido de grupo terrorista e quadrilha de traficantes, dentro ou fora da Colômbia, passa a “sujar a barra”; a afastar eleitores. Transforma-se na bandeira de tudo o que não se quer num continente onde boa parte da população civil vive no meio do fogo cruzado de uma guerra crônica contra o narcotráfico.
E então, Fidel abraça “a paz”. E então, Hugo Chávez passa a clamar pela libertação dos seqüestrados. E então, lá vai o nosso Lula, que chama “bandidos” aos prisioneiros de Fidel, intermediar libertações na selva colombiana…
O que foi que mudou realmente? O que foi que fez com que o maior ícone de “la revolución“, que ha 50 anos “prende e arrebenta” quem ousar falar contra ela (não é preciso agir), o campeão do pragmatismo e da razão de Estado, avesso ao “sentimentalismo burguês”; o que fez que tal homem amolecesse o coração, de repente, diante da tragédia pessoal dos “agentes do Império” (os verdadeiros, da CIA, libertados com Ingrid Betancourt inclusive) seqüestrados na selva colombiana?
O “Foro de São Paulo” em ação
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O que mudou foi a conjuntura internacional.
A crise financeira do Ocidente tornou claras as ilimitadas possibilidades do novo paradigma chinês. Entrou em cena a tirania próspera, capaz de derrotar o capitalismo em seu próprio terreno com a infalível ferramenta dos ganhos de produtividade “at gun point”.
E é em torno disso que se articula hoje a esquerda latino-americana, com todos os recursos das “melhores práticas de governança corporativa”, no Foro de São Paulo, esse templo de reverência a Gramsci onde brilha o “case” brasileiro, “benchmark” da nova revolução que deve começar pelas urnas e prosseguir pelos plebiscitos bolivarianos, empurrada por um irresistível tsunami de dinheiro fácil.
Esqueçam o que eu escrevi! Calem-se os argumentos em contrário! Reescreva-se a História!
“Passou o tempo das revoluções armadas. Hoje a solução é política”.

Farc: “O dossiê brasileiro”
22 de julho de 2010 § 2 Comentários
Revista Cambio – Colômbia – 31 de julho de 2008
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“O computador de Raul Reyes revela que os vínculos das Farc com altos funcionários do governo brasileiro, entre eles cinco ministros, chegaram a níveis escandalosos”
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No entardecer do sábado, 19 de julho, na fazenda Hatogrande, a casa presidencial ao norte de Bogotá, o presidente Álvaro Uribe, sorridente e impertinente como poucas vezes antes, não teve duvidas em oferecer ao seu homologo brasileiro Luis Ignácio Lula da Silva um copo da aguardente de Antióquia para espantar um frio que penetrava até os ossos. Esse brinde selou a jornada que tinha começado na sexta-feira, 18, e que terminaria domingo, em Letícia, com a celebração do Dia da Independência da Colômbia. Uma festa que, como nunca antes, incluiu artistas do calibre de Shakira e da qual o presidente peruano Alan Garcia também participou.
A agenda Lula /Uribe em torno de acordos bilaterais foi temperada de elogios públicos. O presidente Uribe agradeceu a Lula e a seu governo por seis anos de relações dinâmicas e de confiança mutua. Mas em uma reunião privada que mantiveram diante de poucas testemunhas, Uribe fez a Lula um breve resumo sobre o conteúdo de uma série de arquivos que as autoridades colombianas encontraram nos computadores de Raul Reyes que comprometia cidadãos brasileiros e funcionários do seu governo com as Farc.
Ao contrario do que aconteceu com as informações relativas a servidores do governo Rafael Correa e a cidadãos equatorianos, que o governo tornou publicas, no caso do Brasil as instruções de Uribe foram para que se mantivesse a discrição e se lidasse diplomaticamente com o caso para não deteriorar as relações comerciais e de cooperação com o governo Lula.
O governo colombiano usou de forma seletiva os arquivos do PC de Raul Reyes. Enquanto os que diziam respeito ao Equador e à Venezuela foram divulgados para causar constrangimentos para Chávez e para Correa, ambos hostis a Uribe, os que diziam respeito ao Brasil foram passados por baixo do pano para não constranger Lula da Silva, que vinha se mostrando mais hábil e menos agressivo que seus colegas com relação à Colômbia.
Ainda assim, alguns veículos da imprensa brasileira conseguiram algumas informações parciais sobre os arquivo, razão pela qual, em 27 de julho, consultaram o ministro Juan Manuel Santos que, numa entrevista a O Estado de S. Paulo, confirmou que o governo colombiano tinha informado Lula sobre o tema. “Ha uma serie de informações sobre conexões das Farc no Brasil que entregamos ao governo brasileiro para que possa agir da forma que achar mais apropriada”, disse Santos. Mas ele se absteve de comentar sobre se havia ou não políticos e funcionários públicos na lista dos que mantinham contatos com o grupo hoje encabeçado por Alfonso Cano.
Coube a Marco Aurélio Garcia, assessor de política internacional do governo brasileiro responder às declarações do ministro. E ele disse que eram “irrelevantes” as informações passadas pelo governo colombiano.
Note-se o “uniforme“
O “padre Camilo”
Não se sabe o quanto eram detalhadas as informações que Uribe passou para o governo brasileiro, mas é certo que aquilo que se poderia chamar “o dossiê brasileiro” tinha implicações bem mais serias que as relacionadas com a Venezuela e o Equador.
Cambio teve acesso a 85 correios eletrônicos que, entre fevereiro de 1999 e fevereiro de 2008, circularam entre “Tirofixo” (a mais alta patente das Farc), Raul Reyes, Mono Jojoy, Oliverio Medina – delegado das Farc no Brasil – e dois homens identificados como “Hermes” e “Jose Luis”.
A julgar pelo conteúdo das mensagens as relações das Farc no Brasil chegaram até às mais altas esferas do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores, PT – o partido do presidente – à alta direção política e à esfera da administração da Justiça. Nesses correios são mencionados cinco ministros, um procurador geral, um assessor especial da Presidência, um vice-ministro, cinco deputados, um conselheiro e um juiz superior.
O personagem central dos correios é Oliverio Medina, também conhecido como o “padre Camilo”, um sacerdote que ingressou nas Farc em 1983 e que, numa rápida ascensão, chegou a ser secretario de “Tirofixo”. Ele chegou ao Brasil como delegado especial das Farc em 1997 e esteve na Colômbia durante o Processo de Caguán, no qual teve o cargo de chefe de imprensa do grupo. (San Vicente del Caguán é uma cidade no limite da área do território colombiano que chegou a ser ocupado pelas Farc onde, de 1998 a 2002, o presidente Andrés Pastrana tentou, em vão, chegar a um acordo político com as Farc).
Com o rompimento das negociações em fevereiro de 2002, regressou ao Brasil onde retomou sua missão, e sua influencia chegou ate o nível mais alto da administração Lula, que assumiu a presidência em janeiro de 2003. Graças às pressões das autoridades colombianas, o “padre Camilo” foi capturado no Brasil em agosto de 2005. A Colômbia pediu sua extradição mas o Tribunal Superior de Justiça brasileiro não apenas negou essa extradição em 22 de março de 2007 como deu a Medina a condição de “refugiado político”.
Raul Reyes
Até o topo
A prisão não foi obstáculo para que o “padre Camilo”encerrasse seu trabalho de proselitismo e propaganda. Prova disso são os numerosos correios que enviou a Reyes e que mostram como ele conseguiu ter acesso à cúpula do governo brasileiro.
Quatro dos correios a que Cambio teve acesso se referem diretamente ao presidente Lula. Em um deles, com data de 17 de julho de 2004, Raul Reyes diz a “Tirofixo”que o governo Lula ajudaria com o acordo humanitário: “Os padres me enviaram carta pedindo entrevista com eles no Brasil”, escreve reyes. “Dizem que falaram com Lula e este assumiu o compromisso de ajudar no acordo humanitário intercedendo junto a Uribe para fazer a reunião em seu pais”.
No segundo, datado de 25 de setembro de 2006, Olivério Medina conta a Reyes: “Não lhe disse que ha alguns dias Lula chamou o ministro Paulo Vanucchi (ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos), indicando-lhe que telefonasse ao advogado Ulisses Riedel e o felicitasse pelo êxito jurídico da sua brilhante defesa a favor do meu refugio”.
No terceiro, com data de 23 de dezembro de 2006, Medina informa a Reyes que “mandei a Lula e aos dois assessores que nos ajudaram o certificado de bônus (afiche de aguinaldo)”. Os funcionários são Silvino Heck, assessor especial do presidente, e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete, que aparecem mencionados em outro correio de 23 de fevereiro de 2007, também dirigido a Reyes: “É possível que me visite um assessor especial de Lula chamado Silvino Heck, que junto com Gilberto Carvalho foi outro que nos ajudou bastante”.
Entre os 85 correios a que Cambio teve acesso ha um, sem data, também enviado por Medina a Reyes, que diz: “Estive falando com a deputada federal Maria Jose Maninha. Ela ficou de me abrir o caminho para Marco Aurélio Garcia”. Garcia é secretario de Assuntos Internacionais.



Gilberto Carvalho, Paulo Vanucchi, Marco Aurélio Garcia
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Não menos comprometedores são aqueles em que aparecem mencionados alguns ministros. Em um deles, dirigido a Reyes em 4 de junho de 2005 por um tal “Jose Luis”, figura o nome do ministro da Presidência Jose Dirceu. “Chegou um jovem de uns 30 anos e se apresentou como Breno Altman (dirigente do PT); me disse que vinha da parte do ministro da Presidência Jose Dirceu, que por medida de segurança eles tinham decidido que as relações não passarão pela secretaria de Relações Internacionais, mas que fossem feitas através do ministro com a intermediação de Breno”. No fim da mensagem, “Jose Luis” diz que o governo brasileiro e o PT darão proteção a Medina enquanto prosseguem os tramites da extradição: “Perguntei se podíamos estar tranqüilos; se não iam seqüestrá-lo e levá-lo para a Colômbia e ele respondeu: Podem ficar tranqüilos”.
Em um correio de 24 de junho de 2004, Reyes comenta com Medina a possível saída de Dirceu do Gabinete, e lhe diz: “Se acontecer, essa vitoria dos detratores de Lula poderá afetar a incipiente abertura das relações conosco”.
As Farc também tentaram chegar ao gabinete do ministro de Relações Exteriores, Celso Amorin. Em um correio de 22 de fevereiro de 2004, “Jose Luis” escreve a Reyes: “Por intermédio do legendário líder do PT, Plínio de Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorin, atual ministro de Relações Exteriores. Plínio nos mandou dizer por Albertão (conselheiro de Guarulhos) que o ministro esta disposto a nos receber. Que assim que tiver um espaço na agenda nos recebe em Brasília”.
Celso Amorin, José Dirceu, Roberto Amaral
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O procurador e o Juiz
O embaixador das Farc desempenhou tão bem a sua missão que conseguiu chegar até o procurador Luis Francisco de Souza, mencionado em um correio de 22 de agosto de 2004 que Medina e “Jose Luis” enviaram a Reyes e a Rodrigo Granda: “Ele deu o seguinte conselho: andar com uma maquina fotográfica e, na medida do possível, com um gravador para, no caso de voltar a aparecer um agente de informação, fotografá-lo e gravá-lo, tendo o cuidado de não permitir que nos tome a câmera ou o gravador. Que em relação ao que aconteceu, façamos uma denuncia dirigida a ele, como Procurador, para que ele a faça chegar ao chefe da Policia Federal e à Agencia Brasileira de Informação”. (Mais detalhes de como Luis Francisco afrontou o Judiciário para proteger o “padre Camilo”, aqui http://www.ternuma.com.br/revjuridica080.htm
e aqui http://www.conjur.com.br/2006-mai-09/supremo_determina_porta-voz_farc_volte_presidio)
Alguns correios foram escritos durante o processo de Caguán e envolveram um prestigiado juiz e um alto oficial das Forças Armadas brasileiras. Em um deles, datado de 19 de abril de 2001, por exemplo, Mauricio Malverde informa Reyes: “O juiz Rui Portanova, amigo nosso, nos pediu para visitar os acampamentos, receber instrução e conhecer a vida das Farc. Ele paga sua própria viagem”. Portanova era, àquela altura, juiz superior da corte estadual do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Três dias antes, em 16 de abril, Medina relata a Reyes um encontro de Raimundo, Pedro Henrique e Celso Brand – ao que parece agentes das Farc no Brasil – com o brigadeiro Ivan Frota, ex-chefe da Força Aérea Brasileira. “O homem se interessou e disse que gostaria de ter um encontro pessoal conosco, disse que estão começando a amadurecer a tomada da base de Alcântara pelas forcas nacionalistas para impedir que os Estados Unidos fiquem com os 600 km quadrados que estão sob seu domínio”.
Essa pequena amostra dos 85 correios a que Cambio teve acesso revela a importância do Brasil na agenda exterior das Farc, manejada por Raul Reyes, e não deixa duvida de que o “padre Camilo”, para implementar a estratégia continental da guerrilha aproveitou a conjuntura criada pela chegada ao poder de Lula e seu poderoso Partido dos Trabalhadores para se aproximar das mais altas esferas do governo.
E se bem que os correios são apenas indícios de um possível compromisso do governo de Lula com as Farc, pois nenhum dos funcionários citados enviou mensagens pessoais aos membros do grupo guerrilheiro, eles despertam muitas interrogações que exigem respostas do governo brasileiro.
Rui Portanova, Luis Francisco, deputada Maninha
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Os contatos das Farc
A expansão das Farc na America Latina não incluiu apenas funcionários dos governos da Venezuela e do Equador mas também dirigentes, políticos e membros da cúpula do Partido dos Trabalhadores ao qual pertence o presidente Lula da Silva. O grupo também manteve contatos com juízes e procuradores do Brasil.
- Jose Dirceu, ministro da Presidência
- Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência
- Erika Kokay, deputada
- Gilberto Carvalho, chefe de gabinete
- Celso Amorin, chanceler
- Marco A. Garcia, assessor de Assuntos Internacionais
- Perly Cipriano, subsecretario de Promoção dos Direitos Humanos
- Paulo Vanucci, ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos
- Silvino Heck, assessor presidencial
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Sequestro da Novartis
20 de setembro de 2001
De: Jorge Briceño “Mono Jojoy”
Para: Secretariado
“Edwin, velho conhecido comandante da Policarpo, junto com Julian, roubaram meio milhão de dólares e mais 700 milhões de pesos do seqüestro da Novartis. O negocio estava planejado para 10 milhões de verdes. Para completar, armou-se uma ligação com o México, a Suíça e o Brasil porque nos não entregávamos os caras. Falei com representantes desses países e concordamos que se nos dessem mais meio milhão de dólares libertávamos os dois senhores. Ordenei que fossem soltos e até agora não pagaram. Se continuarem enrolando, penso em dar-lhes um susto”.
Convite para o acampamento
12 de junho de 2005
De: Raul Reyes
Para: Jose Luis
“É preciso convidar o porta-voz do Brasil a nos visitar aqui e explicar-lhe que, para chegar às definições é imprescindível a sua conversa com o secretariado. Dizer-lhe que temos formas seguras de recebê-lo em nosso acampamento sem que isso seja registrado pelas autoridades colombianas”.
Apoio financeiro
6 de julho de 2005
De: “padre Camilo”
Para: Raul Reyes
“Solidariedade recebida durante o primeiro semestre de 2005: deputado Paulo Tadeu US$ 833,33. Sindicato da Empresa de Energia de Brasília U$ 666,66. Corrente Comunista Luis Carlos Prestes US$ 766,66. Senhora Solene Bontempo US$ 250,00. Conselheiro Leopoldo Paulino US$ 433,33. Sindicato da Empresa Aqueduto de Brasília US$ 33,33”.
Extradição de Camilo
17 de setembro de 2005
De: Raul Reyes
Para: Roque
“Bastante significativa a solidariedade dos partidos comunistas do Brasil e de outros países com a luta das Farc e no empenho para impedir a extradição do “padre”. Existe no Brasil um importante grupo de amigos solidários conosco em que ha sindicalistas, professores, congressistas, ministros, advogados e personalidades encarregados de pressionar pela imediata libertação de Camilo”.
Emprego de “la Mona”
17 de janeiro de 2007
De: “padre Camilo”
Para: Raul Reyes
“Segunda-feira, 15, “la Mona” começou em seu emprego novo e para garanti-la ou fechar a porta para a direita se em algum momento ela tentar molestá-la, colocaram-na na Secretaria de Pesca naquilo que aqui chamam um cargo de confiança ligado à Presidência da Republica”. (“La Mona” é Angela Maria Slongo, mulher do “padre Camilo”).
Giro pelo Brasil
15 de fevereiro de 2007
De: “padre Camilo”
Para Raul Reyes
“Os responsáveis pela organização da viagem do camarada Carlos Lozano são: Albertão e Pietro Lora em Guarulhos, São Paulo e Rio. Em Brasília: Paulo Tadeu, Érica Kokay. Para as atividades no Rio, se apoiarão no ex-deputado federal Milton Temer, do Partido Socialismo e Liberdade. E em Florianópolis um deputado estadual que eles ajudaram e que esta disposto a ajudar”.
Encontros com ministros
23 de fevereiro de 2007
De: “padre Cmilo”
Para: Raul Reyes
“A defensora publica está organizando para “la Mona” um encontro com o ministro, o vice-ministro e o principal assessor da Secretaria de Direitos Humanos, pela ordem, Paulo Vanucchi, Perly Cipriano e Dalmo de Abreu Dalari, um prestigioso jurista de quem o ministro relator tem pavor. O vice-ministro Perly vai falar com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Serão visitadas entidades importantes que nos apoiarão, começando pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz”.
Atuar com cautela
14 de abril de 2007
De: “padre Camilo”
Para: Raul Reyes
“Devo agir com cautela para não dar ao inimigo argumentos que levem ao questionamento do refugio. Nesse sentido, ter conseguido a transferência de “la Mona” e “la Timbica” para a capital do pais foi importante. Manterei esse perfil baixo ate a neutralização. Uma vez obtida, terei um passaporte brasileiro e a primeira coisa que quero fazer é ir vê-los”.

A chance que Lula perdeu
12 de julho de 2010 § Deixe um comentário

Nesta terça-feira chegam a Madri os primeiros presos políticos libertados pelo regime cubano depois do escândalo internacional causado pela morte de Orlando Zapata Tamayo durante a ultima visita de Lula a Cuba. 52 serão soltos nos próximos quatro meses, segundo promessa de Raul Castro, o segundo governante da dinastia que impera na ilha ha 54 anos.
O extraordinário evento pode ser o marco do começo do fim da mais longeva ditadura da história das Américas, com os irmãos Castro dobrando os joelhos diante da força moral de Tamayo e de Guillermo Farinas, ha 134 dias em greve de fome pela libertação de seus companheiros de prisão.
A força moral que o nosso insigne candidato a pacificador do planeta, Lula da Silva, não conseguiu enchergar em quem usa o próprio corpo como a ultima arma de resistência pacífica contra a violência dos covardes.
Não foi preciso muito para encerrar o martírio das vitimas da Primavera Negra. Bastou um epurrão da Igreja Católica e um gesto – nada mais que um gesto – do governo espanhol, que mostrou o senso de decência que o governo brasileiro não conseguiu exibir.
Lula e os anões morais que o aconselham em materia de politica internacional conseguiram colocar-se para traz dos irmãos Castro em materia de sensibilidade humanitária quando viraram as costas para os torturados do seu próprio terreiro para acudir os torturadores (atômicos) da longínqua Ásia.
Não é pouca porcaria!
Começou muito mal a carreira de agente internacional da paz que sua excelência diz que cobiça abraçar.
O que reproduzo abaixo são as fotos feitas por Yoani Sanchez, para o blog Generacion Y, na primeira noite depois da vitoria de Guillermo Farinas, e o artigo especial que escreveu para O Estado de S. Paulo.

O primeiro gole de água
O ar-condicionado ronronava às minhas costas, enquanto o cheiro de sala de cirurgia grudava na roupa verde que recebi ao entrar. Sobre a cama, o corpo enfraquecido de Guillermo Fariñas expunha as consequências de 134 dias sem ingerir alimentos sólidos e líquidos.
Permaneci um bom tempo olhando para os tubos que levam ao interior de suas veias o soro que o mantém vivo e os antibióticos para combater múltiplas infecções. Faz apenas dois dias que Coco ? apelido recebido por Fariñas dos amigos ? anunciou a interrupção de sua greve de fome para proporcionar o tempo necessário para que se cumpra a libertação dos presos políticos. O primeiro gole de água que deu depois de tanto tempo provocou em seu ressecado esôfago a sensação de uma língua de fogo que o queimava por dentro.
Com as sequelas produzidas por um período tão longo de inanição, voltar a beber e a comer não é garantia de sobrevivência para este psicólogo e jornalista independente. Sua saúde se encontra num estado limítrofe de deterioração, como consequência de outras 22 greves de fome anteriores. Ninguém pode saber ao certo se Fariñas chegará, num futuro próximo, a apertar a mão dos prisioneiros que, com sua determinação, ajudou a libertar. Um coágulo instalou-se perto de sua jugular, as bactérias e os germes infectam seu sangue e um intestino atrofiado, pela falta de uso, mal consegue conter a flora que é derramada em seu abdômen. O herói da batalha pela libertação de 52 dissidentes e opositores terá dificuldade para vencer a luta contra a morte. O homem que desafiou um governo que nunca foi caracterizado pela clemência terá pela frente um caminho difícil para vencer suas debilidades físicas.
Justo na primeira madrugada depois de anunciar a suspensão da greve de fome, a família de Fariñas permitiu que eu cuidasse dele na sala de terapia intensiva do hospital de Santa Clara. Voltei para casa triste e cansada, rodeada de anúncios otimistas sobre os presos que deixavam o cárcere, mas imbuída da convicção pessoal de que, para Fariñas, a cruzada pela vida acaba de começar. Ainda assim, me pergunto como foi possível que nos tenham cortado todos os caminhos da ação cívica, até nos deixarem apenas com nossos corpos para ser usados como estandarte, cartaz, escudo. Quando um país se torna palco de tais greves de fome, é hora de se perguntar que outras vias restam aos inconformados e quem teriam sido os responsáveis por inibir os mecanismos de expressão dos cidadãos, e por quê.
Ainda que as grandes manchetes divaguem agora sobre o trabalho de mediação do chanceler Miguel Ángel Moratinos e a negociação entre a Igreja Católica e o governo cubano, todos sabemos quem são os verdadeiros protagonistas destas lutas. Cidadãos como as Damas de Branco, pessoas simples como Fariñas e gente sofrida como o próprio Orlando Zapata Tamayo, conseguiram que Raúl Castro começasse a destrancar as celas. Sem o empurrão proporcionado por eles, os sete anos de detenção suportados por aqueles que foram detidos durante a Primavera Negra de 2003 poderiam ter se convertido numa década ou até em meio século de condenação. No entanto, um homem decidiu fechar o estômago à bênção da comida para conseguir que eles voltassem a caminhar pelas ruas de seu país e a abraçar suas famílias. Quem o vê de perto comprova que se trata de um cidadão magro e comum, que um dia vestiu um uniforme militar como soldado de Cuba combatendo em Angola.
A mesma força de vontade que o levou a caminhar 13 km ? em terras africanas ? com uma bala cravada nas costas permitiu a ele manter até poucos dias atrás sua recusa em se alimentar. O terreno onde se deu o persistente protesto foi seu próprio corpo que é, afinal, o único espaço que lhe restou para protestar.




Uma campanha genial
30 de abril de 2010 § Deixe um comentário
Campanha da Ogilvy & Mather de Frankfurt para a International Society for Human Rights














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